Sangue Maldito
16 Parcialmente Mudada
Notas iniciais

Tora
Acordei, mas estava tão sonolenta que permaneci com os olhos fechados. Dessa vez eu não voltaria a dormir, não queria mais reviver aquele sonho assustador no qual eu morria continuamente, não sabia o significado dele e nem o porquê daqueles nomes desconhecidos sussurrados para mim, na verdade eu prefereria ter esquecido esse sonho, porém toda vez que ele acabava eu acordava e minha consciência registrava o pesadelo, ainda assim não me lembrava de muitos detalhes.
Varri esses pensamentos da minha cabeça e, então, percebi as vozes ao meu redor, pelo jeito todos os irmãos estavam no aposento onde eu me encontrava. Talvez eles ficaram preocupados comigo? Bom, eu duvidava que isso pudesse acontecer algum dia.
Prestei mais atenção na conversa e notei que o Shuu e o Reiji estavam discutindo, era algo sobre algum remédio do mais novo, resolvi interferir nessa criancice dos dois.
Entreabri um pouco os olhos agradecendo imensamente por não estar tão claro no quarto e abri um sorriso debochado.
— Oe, vampirinhos, por que vocês não param de brigar e pegam algo para eu comer, hum? – perguntei tentando me sentar sem muito sucesso, eu ainda estava um pouco fraca e queria voltar a dormir, mas resistiria a essa vontade.
Por um momento todos me olharam surpresos, então a Yui correu até mim e me deu um abraço, por sorte ela foi cuidadosa para não me machucar, embora algumas feridas houvessem latejado.
— Tora-chan, que bom que você acordou! Eu estava tão preocupada! – exclamou aliviada, os olhos cheios de lágrimas. Levantei meu braço, percebendo que estava coberto de ataduras, para afagar seus cabelos carinhosamente, pelo menos alguém se importava comigo.
— Finalmente você acordou, Muchi-chan! Pensei que não ia poder resolver certos assuntos com você. – Laito foi o primeiro dos irmãos a se manifestar, porém poderia ter ficado calado já que tudo que o preocupava era o fato de não poder me assediar se eu estivesse dormindo.
— Você ainda me deve um agradecimento! – cobrou Subaru, apesar de não estar me olhando, então lembrei que foi ele quem me deu algum tipo de remédio com... um beijo. Fiquei rubra de vergonha e encarei o cabelo da Komori para me desviar do assunto.
— Tora-chan, você também tem que me agradecer já que fui eu que ajudei a te dar banho. – Kanato anunciou se aproveitando da situação, meu rosto esquentou mais do que achei ser possível e imaginei que seria melhor ser uma lagosta se fosse pra ficar tão vermelha.
— C-c-como é? – perguntei incrédula e muito constrangida, na mesma hora a loira se levantou e me fitou envergonhada.
— Desculpa, Tora-chan. – pediu antes de explicar o que aconteceu. – É que eu precisava limpar o sangue de você e não ia conseguir fazer sozinha, então pedi a ajuda do Kanato-kun.
Encarei-a por um instante e percebi que ela estava arrependida, provavelmente escolher a pessoa que a ajudaria a me dar banho deve ter sido muito difícil, afinal todos os vampiros dessa casa possuem algum nível de perversão e ainda bem que ela escolheu um dos menos piores, mesmo que eu ainda preferisse o Reiji.
— Tudo bem, Yui-san, pelo menos não foi o Laito ou o Shuu. – falei para reconfortá-la e, é claro, não perdi a chance de provocar um pouco os vampirinhos.
— Que cruel, Muchi-chan! – Laito reclamou e eu apenas dei um risinho maligno.
— Não fique tão convencida, fui eu quem tirou suas roupas. – retrucou Shuu dando um sorriso de canto pervertido sem abrir os olhos.
— Chega de brincadeiras, agora que você acordou... – Reiji começou uma bronca qualquer antes de eu interrompê-lo.
— Vou comer. – concluí a sua frase audaciosamente. Deus! Eu realmente tive coragem de cortar o Reiji no meio de uma fala.
— Não me interrompa quando eu falo, insolente! Quer ser punida? – advertiu irritado. Não consegui segurar a gargalhada de escárnio que subiu pela minha garganta, afinal aquilo era mesmo muito engraçado, todos no recinto me encararam aturdidos.
— Reiji-san, você realmente acha que alguma punição pode ser capaz de superar a dor que eu senti quando dezenas de cravos de ferro perfuraram o meu corpo? – desafiei com a voz carregada de sarcasmo. Depois de sentir uma dor como aquela não havia mais motivos para ter medo, qualquer sofrimento pelo qual eu fosse submetida de agora em diante apenas multiplicaria minha vontade de viver.
— Tora-chan... – Yui chamou tristemente. Levantei-me com alguma dificuldade e precisei me apoiar no criado-mudo devido a uma forte tontura que se abateu sobre mim, com certeza já devia fazer um bom tempo que eu estava dormindo. Fechei os olhos e respirei fundo para me recompor, em seguida coloquei as mãos nos ombros da loira e a fitei.
— Não se preocupe, Yui-san. – assegurei em um tom sereno. – Eu continuo sendo a mesma, a única diferença é que agora eu não tenho mais medo de sentir dor e por consequência não preciso mais sentir medo de vampiros. – acrescentei explicativa com um sorriso tranquilo.
— Você tem certeza disso, Jujuba? – Ayato indagou pronunciando-se pela primeira vez desde que eu acordei. Eu o encarei por cima do ombro da Yui e respondi com um sorriso confiante e um olhar indecifrável.
— É claro que tenho. Eu vou até te agradecer, Ayato—kun, afinal se não fosse por você eu passaria o resto da minha vida com medo e chorando pelos cantos, mas agora eu posso ser feliz aqui. – revelei com satisfação. Todos os irmãos me olharam impassíveis e Yui estava chocada, mas era tudo muito simples, afinal sem a sombra do medo eu poderia enfrentar isso e encontrar alguma coisa boa.
— O que a faz pensar que você pode ser feliz agora? – Subaru interrogou arqueando uma sobrancelha, virei-me para ele.
— É bem simples, Subaru-kun. – redargui com desdém. – Agora que eu sou masoquista, a única coisa que eu vou sentir quando vocês me morderem é prazer. Isso não é ótimo? – esclareci dando de ombros, todos permaneceram calados, pareciam processar a informação. Pigarreei e me endireitei. – Bom, eu vou atrás do Edgar-san, quem sabe ele não me dá alguma coisa para comer. – informei e comecei a mancar em direção a porta, Reiji estava recostado no batente e decidi me desculpar antes de sair. – Me desculpe, Reiji-san, eu não vou mais te interromper.
— Tsc. – desdenhou ajeitando os óculos com o dedo. Abaixei a cabeça e fui em direção a cozinha, onde encontrei Edgar preparando a comida seja lá de qual refeição.
— Olá, Edgar-san. – cumprimentei-o com um sorriso e ele me olhou surpreso.
— Que bom que a senhorita acordou, Tora-san. – disse polidamente, porém notava-se um tom de felicidade em sua voz. Corri e o abracei, não sei o que acontecia, no entanto eu realmente gostava muito do Edgar, ele era como um pilar firme naquela casa íngreme, era a única "normalidade" naquele lugar. Ele retribuiu meu abraço com alguma hesitação e afagou meus cabelos. – Tora-san, é melhor a senhorita me soltar antes que alguém veja. – pediu apreensivo, era óbvio que ele tinha medo dos chefes, soltei-me dele, não queria que acabasse sendo punido por minha culpa.
— Edgar-san, será que você poderia me dar algo para comer? – requeri expressando minha fome, ele confirmou com uma reverência, foi até a geladeira, pegou um prato com um pedaço de torta de chocolate com morangos e me ofereceu. – É disso que eu estou falando, Edgar-san! Muito obrigada! – agradeci com a boca cheia d’água, peguei o prato e fui alegremente até a sala de jantar, sentei-me em uma das cadeiras e comecei a comer.
Estava uma delícia, a combinação do chocolate com o morango era a coisa mais perfeita que alguém poderia ter inventado. Com certeza aquele pedaço de torta não me satisfaria completamente, mas por hora iria servir para tapar o buraco no meu estômago, sabe-se lá quanto tempo eu passei desacordada.
— Quem deixou você comer minha torta?
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