Sangue Fresco
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“Já está cansando?” O lince me perguntou quando fui derrubado no chão mais uma vez. Parece que todo o grupo que estava no esconderijo tinha ido ver o novato, ou seja, eu...
“Não...” Disse enquanto levantava mais uma vez. Já era a quarta vez que ele me derrubava desde o começo da luta. Ele parece estar brincando comigo, como se eu fosse um brinquedo que ele acabou de ganhar.
Avancei enquanto fazia um arco com a espada. Lance apenas deu um passo para o trás para escapar. Ele não estava usando a espada em suas mãos, ele apenas desviava de tudo.
“Como que esse pirralho conseguiu derrotar 10 homens?” Ele perguntou para alguém no fundo da sala. E começou a rir. “Ele derrotou os homens com sorte! Eles não esperavam que ele fosse um filhote de dragão!” E a gargalhada rolou pela sala.
Meu rosto ficou da cor das minhas escamas. Meus olhos pareciam que iam queimar de tanta raiva que saia deles. Abri a boca para falar algo, mas de dentro dela saíram pequenas chamas.
O lince parecia ter percebido a mudança. E sua postura mudou rapidamente, a espada ficou pronta para desviar de um ataque ou o que quer que fosse.
O salão ficou mudo de uma hora para outra. Eu não conseguia ouvir nem ver mais nada além daquele ser a minha frente, mas ao mesmo tempo estava ciente de tudo que estava ao meu redor.
Ele fez o primeiro ataque dele. Uma estocada veio na minha direção, minha espada se moveu e desviou a arma dele. Ele me lançou um olhar de surpresa, ele parecia não estar esperando por isso.
Tentei lhe contra-atacar com a minha cauda, mas ele pulou e desviou saindo do alcance da luta corporal.
As chamas subiram pela minha garganta e saíram como uma torrente. Lance rolou quando as chamas passaram por ele. E saiu sem nenhum ferimento.
“Agora entendo como derrotou os homens. Não foi você foram apenas seus instintos.” Corri para atacar o felino que estava na minha frente.
Mas algo inesperado aconteceu.
Ele mudou de forma e quando cheguei onde ele estava senti uma adaga em minha garganta. Olhou para cima sem mover a cabeça e vi um Lance vitorioso me segurando. Eu não podia me mover, qualquer movimento e eu estaria morto...
“Se acalme garoto. Você provou que é capaz. Isso, relaxe, relaxe.” A voz dele estava serena e seu tom parecia aqueles que se usa em animas bravos para eles se acalmarem.
Soltei a minha espada e fiquei prestando atenção na minha respiração.
“Pirralho, está mais calmo agora?” Perguntou o lince enquanto tirava a lâmina da minha garganta e saia da área da luta, mas seu olhar não saiu nenhuma vez de mim.
Fiquei mais alguns minutos parado. Parecia que mesmo calmo eu poderia perder o controle se não continuasse ali.
Quando me senti pronto, peguei a arma e a embainhei quando estava em pé. Nesse momento todos os meus sentidos pareciam ter voltado. E havia uma algazarra pela sala. Não podia entender nada do que eles falavam.
Fiquei onde estava e uma mulher, Kora se aproximou ela parecia entender o meu desconforto.
“Você estava focado demais, seus instintos superaram tudo. Raciocine enquanto os usa.” E saiu andando, como se isso fosse o suficiente. Mas quem disse que eu entendi algo?
“Todos vocês! Calem as bocas!” Lance tinha subido em alguma coisa para poder parecer maior. “Como vimos. Esse pivete ai parece ter algo de bom, mas quem sabe o que lhe falta?” Ele dirigiu para toda a multidão. Todos levantaram as mãos, nenhum se acanhou. “Ei, você ai.” Ele apontou para mim. “Você sabe o motivo de ter perdido pra mim mesmo podendo usar a cauda para me afastar?”
“... Não sei, apenas senti que não teria como fazer...” Falei enquanto olhava para o chão, pois a atenção de todos estava em mim.
Levantei o olhar e vi que ele concordava com a minha afirmação.
“Sim, eu estava 'quase pronto' para te matar. Tive que usar uns 15% da minha força quando você entrou no modo furioso. Agora que está calmo, consegue descobrir uma maneira de sair daquela posição?” O olho dourado estava fixado em mim, como se ele já soubesse a resposta da sua pergunta.
“Acho que sei sim...” Disse simplesmente enquanto olhava para baixo. Comecei a sussurrar e como o local estava mortalmente silencioso todos puderam ouvir o que disse. “Vento, desarme e empurre aquele que quer me ferir.” Um vento simplesmente soprou e afastou as pessoas que estavam ao meu redor.
“...”
Levantei os olhos e percebi que o silencio já era palpável. Todos sabiam o que tinha acabado de acontecer. Magia. Mesmo que dragões pudessem usá-la, eles não tinham total controle do que aconteceria.
“Isso, esplendido! Era essa a resposta que eu queria!” E a sua gargalhada saiu. Lance não tentava esconder o sorriso em seu rosto. “Eu suspeitava que podia fazer isso, mas não tinha total certeza! Agora eu sei que pode!” Ele veio andando em minha direção. Mas foi obrigado a parar. A magia ainda estava em efeito.
Ele retirou a adaga que tinha colocado em meu pescoço e tentou me atacar. A arma voou para cima e se prendeu no teto. O lince não teve sorte e foi arremessado de encontro a um dos seus ajudantes e todos que estavam ali do lado caíram.
“Vento, obrigado pela ajuda. Os sonhos e palavras da deusa Agnes estará te guiando.” O vento parou. Lance e seus companheiros se levantaram. E em seu rosto um sorriso estava estampado.
“E é isso que acontece quando se tentar atacar um mago poderoso!” Ele tinha... se usado de exemplo?
Todas as pessoas no salão começaram a gargalhar quando perceberam que o Líder tinha sido a piada da noite.
A festa continuou até o amanhecer. Mas ninguém se aproximou muito de mim. Já que um meio-dragão é raro... agora imagine um desses como filho de uma bruxa?
Dragões já possuem alta compatibilidade com magia, e uma bruxa consegue controlar um pouco disso. Agora é só juntar isso e você terá a mim...
Acordei em um quarto que nunca tinha visto... tentei lembrar algumas coisas que aconteceram na noite anterior.
“Lembro que comecei a tomar uma bebida que lembrava suco de uva, mas tinha um gosto diferente... hum... o que foi que aconteceu depois de alguns copos? Não consigo me lembrar... e minha cabeça está doendo...” Tudo a minha volta parecia girar. Como se nada pudesse se manter em um único lugar. “Ah... como será que a festa terminou?” Minha voz saía como um sussurro.
“Ei! Pirralho! Já levantou?” Uma pessoa batia na porta. Eu não quero me mover... minha cabeça parecia que ia explodir.
“...Estou acordado mas parece que fui esmagado...” Respondi sem me levantar, o lugar estava bom, havia uma cama, estou deitado nela, a porta onde está a pessoa, um guarda-roupa e uma mesa, minha espada estava nela...
“Que bom!” A pessoa abriu a porta como se não fosse e nada e entrou no quarto. Lance olhou para minha cara e começou a rir. “Não esperava que estivesse tão mal assim! Você quase destruiu metade do salão antes de alguém lhe parar!” Ele fazia gestou como se soltasse fogo, cortasse algo e algumas vezes ele apontou para si mesmo. “Que bom que eu estava lá!” Ele parecia estar feliz com isso... “Para ser jogado para longe algumas vezes e para que todos pudessem ver como o líder deles é confiável!” O lince... parecia, de certa forma, cansado e fraco. E havia alguns machucados em seu rosto que ele não tinha até então.
“... Isso significa que eu te 'derrubei' algumas vezes e que você conseguiu me parar?” Perguntei enquanto sentava na cama com a coberta ainda sobre o corpo.
“Que nada! Eu apenas estava ali para me divertir enquanto você tentava arrancar a cabeça de algumas pessoas... a minha estava no caminho... acho que foi isso que você disse.” Ele parecia alegre... “Ah, não posso esquecer de te agradecer, fazia tempo que eu não via a enfermaria tão cheia de gente...” Seu humor... estava começando a me dar arrepios. Seu sorriso parecia verdadeiro, mas o seu olhar tinha um brilho estranho. “Sorte que você estava bêbado, e mal conseguia se controlar... ei, ei. Que cara é essa? Você não sabia que aquilo era vinho?”
“... Não... achei que fosse suco de uva... Será que eu passei dos limites ontem?” Encolhi quando minha cabeça voltou a girar.
“Passar do limites? Você acabou por ferir 25% da minha equipe! E não foi bem... algo sério. Exceto algumas pessoas...” Lance parecia estar... feliz? “Posso ver que está completamente curado e que poderei te ensinar o que quero de você!” Seu olho me vigiando, seu humor parecia cada vez mais... estranho.
“Não quero mais saber de vinho. Parece que fui moído todo!” Joguei as cobertas para o chão, apenas para me descobrir completamente nu... bem, isso é normal, eu sempre dormir assim.
“Vamos se vista. Ou já está pronto para aprender?” Seu tom de voz estava... diferente...
“Vou me vestir, apenas tenho que lembrar onde foi que coloquei a minha mala, e Lance, você poderia fechar a porta? Está entrando um vento aqui.” Andei até o guarda-roupa para descobrir apenas que todas as minhas não estavam ali. A porta parecia ter sido fechada, e o felino tinha se sentado na mesa.
“Acho que sua mala está no banheiro, é só entrar naquela porta ali. E te recomendaria a tomar um banho. Sua cara deve melhorar um pouco.”
Entrei na porta indicada e encontrei a mochila de roupas e fui tomar um banho.
Andamos por um tempo e Lance me falou o que tinha acontecido após eu tomar alguns copos do 'suco'. Parecia que uma parte do grupo tinha sofrido pequenos cortes, alguns hematomas e outros estavam com partes um pouco queimadas...
“Bom pelo menos ninguém quebrou algum osso.” Falei.
“Não quebrar? Garoto, uma parte fraturou alguns ossos, mas ainda assim não podem mover por um tempo. Bem, isso é o que acontece quando se dá bebida alcoólica para menores de idade e ainda mais para um mago draconiano.” Olhei para ele com uma dúvida em minha mente. Por que eles estão me chamando disso?
“Quer saber o motivo do 'título' que recebeu em seu primeiro dia? É simples. Todos estavam cansando de falar que você era um meio-dragão filho de bruxa, e alguém...” Ele apontou para si mesmo. “ Surgiu com esse título. E parece que acabou pegando.”
Andamos um tempo sem falar nada. Alguns seres do grupo passavam ao meu lado. Todos lançavam olhares para mim, alguns olhavam normalmente, outros olhavam rapidamente. Ignorei grande parte deles, mas alguns estavam fazendo comentários que eu não aprovava.
Em mais de uma ocasião tive que ser parado por Lance, ele parecia saber o motivo dos comentários, mas ele não podia fazer com que eles parassem... pelo menos não tão rapidamente.
“Pirralho, entre. Chegamos ao nosso destino.” O lince apontou para uma porta. “Entre e espere, eu tenho que entrar por outro lugar, mas... ah, que se dane. Apenas entre e espere, o seu futuro depende disso.” E me empurrou para dentro da sala escura... Formas dançavam no escuro. E uma voz antiga e rouca, como se a própria terra estivesse falando comigo soou ao meu redor.
“Então é você... o jovem meio-dragão que surgiu ontem. Garoto, de alguns passos para frente.”
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