A luz do sol me acordou na manhã seguinte. Meu corpo estava todo dolorido da luta da noite, as minhas asas tinham sumido. Eu estava me sentindo fraco e com fome.

Retirei um pouco dos suprimentos que ainda estavam em minha mochila e comi ali no galho. Um sentimento de ser observado estava presente enquanto devorava minha 'farta' refeição.

Olhei ao redor algumas vezes, mas nada chamou minha atenção. Nem um pequeno movimento podia ser visto. Os pássaros das árvores deviam estar cantando... algo deve ter assustado eles... Ou será que fui eu que os assustei quando levantei?

O vento passava entre as folhas e nenhum som chegava aos meus ouvidos.

Pulei para o chão e rapidamente comecei a correr, em certo ponto pulei e ouvi um conjunto de patas baterem levemente no solo. Algo estava me seguindo. E ele sabia como me ver, principalmente com o céu dessa manhã.

Parei e me vi rei esperando o animal... o som parou quando viu meu movimento. Ele estava me seguindo de perto. Olhei para todos os lugares esperando algum sinal. Nada...

Ameacei dar um passo mas me virei e foi ai que vi. A raposa prateada da noite passada estava me seguindo.

Um sorriso apareceu em meu rosto. “Está desejando ser morta? Ou é apenas doida mesmo?” Falei para ela enquanto me sentava no chão olhando nos olhos da minha seguidora.

“Estava apenas seguindo uma 'pessoa', se é que posso te chamar disso, suspeita. Meu líder não gostaria de ver alguém bisbilhotando por ai. Ele perde facilmente a cabeça quando se trata disso...” Ela falou enquanto mudava de forma para uma garota e sentava no chão a minha frente.

“...” Apenas fiquei quieto. Nada que eu falasse me ajudaria nesse momento. “Qual é o seu nome? Assim talvez eu saiba te diferenciar quando for caçar. Meu nome é Y'allaer.” Eu disse com um sorriso enquanto estendia minha mão para ela.

“Hump!” Ela virou o rosto. Ela parecia brava com o que eu tinha feito na noite anterior. “Me chamo Yoko!” Ela se levantou mudou de forma mais uma vez e voltou correndo para a floresta.

Me levantei e voltei a andar no caminho que seguia antes. Andei normalmente enquanto vigiava o caminho a minha frente.

Algumas horas se passaram e nada acontecia. Quando o sol já estava em seu ponto mais alto acabei por comer o que havia em minha mochila. Decidi tirar um pequeno cochilo ali mesmo.

Acho que foi uma péssima ideia. Pois quando acordei havia 5 armas apontadas para mim. Um arpão, uma espada, um arco, um bastão e um livro... Acho que tem algo de errado com esse último, mas quem sou eu para discutir? Eles tem a vantagem de números e pelo que parece o costume de como usar as armas.

“Ye, huoldo haus!” O homem do arpão gritou para os outros que concordaram com um movimento de cabeça. “Hulph, huyji daur gramed!” Ele gritou para o homem... não era uma mulher, ela segurava o livro.

“Yiuo, dequebe huibener!” Ela recitou enquan to lia o livro. “Yiuo, dequeber humi darego!”

Olhei para o grupo, eles pareciam estar tentando fazer algo, mas até o momento eu não tinha identificado o que eles tentavam fazer.

“É... pessoal?” Quando falei todos eles olharam para mim e se espantaram. “O que vocês acham que eu estava fazendo?” Perguntei tentando ser o mais sincero possível.

Todos eles me olharam novamente e acenaram com a cabeça. O homem que tinha dado ordens para os outros falou primeiro.

“Desculpe o modo rude, mas quem é você, de onde você veio e o que você deseja nesse lado da floresta?”

“...” Nada saiu de minha boca. Eles pareciam tentar serem cautelosos, pois acredito que seja raro ver um ser como eu. “Meu nome é Y'allaer. Bem eu vivia com minha mãe a um dia e meio de viagem daqui. É só seguir essa reta e você chega lá.” Apontei para minhas costas, que estavam viradas para uma árvore. “E o que desejo... quem sabe? Apenas fugi. Minha casa... minha mãe...” Minha voz apenas diminui e nada mais podia ser ouvido. Enxuguei as lágrimas que vieram aos meus olhos e olhei para as pessoas que me rodeavam. Agora que via melhor, percebia que cada um era diferente, cada um lembrava um animal diferente.

O homem que tinha falado primeiro lembrava um tigre, ele carregava um tridente. A mulher me lembrava uma loba, suas orelhas estavam sempre alertas. O homem da espada não parecia nada, ele devia ser um humano comum. O outro integrante me lembrou um macaco, ele usava o bastão. E o arqueiro, bem eu não identifiquei qual animal ele seria, mas pelas escamas ele me lembrava uma cobra.

“O que vocês acham que devemos fazer com ele? Levar até o nosso Líder ou devemos apenas deixar ele aqui?” O tigre falou enquanto andava inquieto de um lado para o outro, mas sem tirar os olhos de mim.

“Sim. Levamos ele.” Disse a loba enquanto remexia o que havia em minha mochila. Não sei quando eles a tinha retirado de perto de mim, mas ali estavam quase todos os meus pertences...

“Ei!” Gritou o humano... não... um falcão? “Gostaria de ver essa arma que está ao seu lado, posso ver?” Ele perguntou de maneira natural, mas de uma maneira que me deixou com receio.

“Só se for ver em minhas mãos. Fui o último presente de meu pai. E entregar ela para alguém... bem, está fora de cogitação.” Disse sem tentar me levantar, o tigre parecia pronto para usar o tridente se eu fizesse algum movimento. Então apenas falei o que ela era.

Contei o que sabia sobre ela. A lâmina ainda não tinha nome, mas logo ela receberia um nome digno.

“Hum... parece que é verdade, mas ainda assim eu gostaria de sentir o peso dela em minha mãos...” Ele olhou para todos e deu um sorriso de ideia, todos deviam saber o que significava, pois soltaram suspiros. “Façamos um acordo então, nós deixamos nossas armas com você e você me deixa olhar sua espada. E só poderemos pegar nossas armas quando eu te devolver a espada. Assim você ainda terá a vantagem das armas e nossa força cairá. Ai? O que acha?” Os olhos dourados dele estavam brilhando, um brilho perigoso, ele faria de tudo para ver a espada.

“...Ok, eu aceito, mas tenho uma condição a por. Primeiro vocês deixam as armas aqui e entrego a espada para você. Ela vai estar na bainha assim não haverá risco.” Falei tentando ver o que os outros fariam. Eles apenas abaixaram as armas e foram me entregando um de cada vez. O falcão ficou por último.

Assim que ele deixou a sua espada e pegou a minha... ele não chegou a pegar, ela meio que forçou ele para baixo.

Um barulho foi feito quando ele caiu com o peso da arma. Os olhos dele brilhavam cada vez mais. Uma arma na qual ele não conseguia levantar estava em sua frente, ele retirou a bainha da lâmina e quando ele viu a cor... seus olhos soltaram lágrimas. Vermelho. Toda a espada era dessa cor. Ele examinou cada parte rapidamente.

“O último teste, o corte...” Ele tirou uma pedra de amolar de um dos bolsos e encostou na lateral da espada. Ele soltou um grito quando a pedra escorregou pela lâmina e quando ele olhou havia um belo de um corte na pedra, quase toda separada.

Ele encaixou a bainha e tentou me entregar, eu apenas acenei e disse que podiam pegar as armas, me estiquei e puxei a espada para mim, sem nenhum esforço.

“Ei! Tem certeza que consegue segurar isso?” Perguntou o tigre, agora com o grafo gigante na mão.

“Sim.” Respondi secamente. “Ontem derrotei 10 humanos idiotas com ela e bem... com algumas outras coisas.” Disse enquanto coçava a cabeça.

“Me mostre. Desembainhe a espada e tente cortar aquele galho ali.” Ele apontou para o galho que estava a cima da minha cabeça.

Me levantei e peguei a espada do chão. A desembainhei e fiz a lâmina subir sem esforço. Nada aconteceu. O tigre abriu a boca e o galho caiu... com mais três cortes.

“Foi o suficiente, gatinho?” Minha boca disparou antes que eu pudesse a conter.

“Você está morto. Pivete!” Ele avançou um passo. Porém foi interrompido por uma animal prateado que correu a toda em nossa direção.

“Ei, o que vocês fazem aqui? Nosso Líder mandou vocês virem ver o idiota aqui atrás?” Yoko falou e todos ficaram quietos quando ela chegou.

“Não, nós estávamos fazendo a ronda quando vimos o Pivete dormindo aqui. Ele estava armado e parecia perigoso, então estávamos fazendo alguns teste...”

“Idiota. O levem para Lance. Falei com ele e parece que ele gostou do que contei... Isso não é um bom sinal... ah, vem aqui Kora.” Ela acenou para a loba. “... ali... pista... olhos... Tudo bem?”

“Sim, vamos levar ele.” Kora respondeu. “Kir, amarre os olhos dele. Gilh os braços. E Vrio você pega as bolsas.” Kir, o falcão, Gilh o tigre e Vrio a cobra fizeram o mandado.

Depois de me amarrarem Kora verificou o trabalho. “Agora podemos ir.”

Andamos em círculos algumas vezes... até eles decidirem voltar e andar por um longo caminho. Só para chegar em uma caverna logo ali perto.

Continuamos andando por algo que eles chamaram de labirinto, mas que para mim era entrar e sair por vários quartos um ao lado do outro. Até chegarmos na sala do líder. A espada estava comigo, pois eu era o único que parecia poder carregar.

“Recomendamos a deixar a sua arma aqui fora. Ninguém vai tocar nela, eu prometo. Eu mesmo vou vigiar.” Kir falou enquanto me desamarrava. Fiz o pedido e bati na porta.

“Entre.” A voz calma chegou ao mim pelo outro lado da porta. “E todos vocês também.”

Nesse momento todos ficaram brancos. Eles pareciam ter feito algo errado.

O grupo entrou na sala. Um olho dourado estava olhando diretamente para nós, seu corpo estava envolto nas sobras.

“Pelo visto... acho que a distração que usamos não funcionou mesmo. Mesmo tapando seus olhos, não é pequenino dragão?” O olho apenas demonstrou... nada... ele parecia ler tudo. “E vocês perderam tempo por não perceber isso. É tão simples ver isso nele. Dragões não se orientam pela visão, nem audição nem mesmo olfato. Eles se locomovem pelo sol. Eles sabem instintivamente onde o sol nasce. Então... Kir, Kora, Gilh, Vrio e Quera... Acho que está na hora da punição. Se aproximem.”

O grupo fez o pedido, assim que se aproximaram da mesa que havia no centro uma pata saiu das sombras e fez os cinco voarem até ao lado da porta.

“Agora podem sair. E Yoko... você fica.”

O grupo saiu. E ficamos apenas os três na sala. Eu estava nervoso, não sabia o que falar ou o que fazer. Podia sentir o olho do Líder Lance, esse parecia ser o nome dele, me observando.

“Interessante... acredito que você deve ser um dos poucos híbridos que já vi... normalmente sua espécie fica isolada. Mas parece que houve alguém que fez diferente... hum interessante, muito interessante.” Duas pernas apareceram em cima da mesa. O outro olho se abriu na escuridão e quando me olhou parecia que ele conseguia ver através de mim.

Quase não conseguia respirar com o peso daquele olhar... Meu corpo tinha sido paralisado.

“Tudo bem.” Ele disse e fechou um dos olhos. O efeito paralisante passou em um instante, como se nem tivesse existido. “Maravilhoso! Um dragão, ou melhor, um filhote de dragão. Yoko, é verdade que ele tentou te devorar?” Ele nem parecia se importar que eu estivesse na frente dele.

“Sim! Ele foi completamente rude! E ainda me fez perder uma presa!” Ela olhou furiosa para mim. E eu tive culpa? Eu também estava com fome! “Mas pelo menos capturei outro coelho, esse ai me fez perder o primeiro, acabei demorando mais para me saciar... e saiba que eu ainda quero fazer você sofrer por isso!” Ela se virou para mim e apontou para mim.

“Sim, sim, Yoko, depois você acerta contas com ele.”A mão de Lance apareceu na luz e fez um sinal para que ela deixasse a questão de lado. “Agora, Pirralho, me fale como conseguiu dar conta de dez soldados bem treinados, pois mando alguns grupos todos os dias para a floresta e um deles viu os corpos. E pelo que me contaram a destruição foi linda. Até mesmo o chão havia sido queimado. Pernas, braços, cabeças. E alguns estavam com belos ferimentos, um corte no coração e alguns deles tinham ossos do lado de fora do corpo. Uma bela e destrutiva obra de arte.” As pernas de Lance saíram de cima da mesa e deram lugar aos seus braços, seu rosto estava atrás de suas mãos, mas era impossível ver, pois havia uma espécie de escuridão mágica, que dividia a sala diretamente no meio.

Expliquei o melhor que pude, já que minha memória parecia estar desgastada. Apenas uma coisa nunca saía de minha memória, uma cor. Vermelho escarlate. Todo o mundo parecia estar pintado com essa cor. Até mesmo as árvores, a lua estava completamente vermelha durante a luta.

“E essa espada, onde ela está? Eu quero vê-la, pois ela me parece completamente única.” Seu olho estava brilhando na escuridão.

“Ela está na sala antes dessa, mas creio que ninguém além de mim consegue segurar a arma.” Falei antes que ele mandasse alguém buscá-la. “Eu mesmo deveria ir e pegar a arma.”

“...” Ele parecia pensativo com tudo que acontecia ali. Suas mãos se separaram e ele bateu palmas. “Tudo bem, eu irei com você.” Ele se levantou de onde quer que estivesse antes e saiu para luz... Um gato... não, um lince. Ele era um lince. Olho dourado, uma cicatriz em seu olho direito, o que estava fechado, sua altura... ele tinha uns 1,80 metros de altura. Seu cabelo era castanho, suas roupas... ele usava apenas uma calça preta com as pernas rasgadas, um sobretudo, também negro, sobre os ombros. Ele andava descalço, mas o modo como andava mostrava todo seu poder. Correntes saiam em alguns lugares de sua calça. Como se estivessem ali para assustar... e pela forma como os elos estavam, elas também poderiam ser usadas para bater.

Ele abriu a porta e saiu sem nem esperar, o segui até a sala. Ele já estava olhando para a arma que eu tinha deixado sobre uma mesa. Ele parecia impressionado com a aura da arma. Ele olhava quietamente para seu punho. Ele se aproximou e retirou a arma da bainha, ou pelo menos tentou. Ele ficou frustado e com o rosto em fúria puxou a arma com toda a força. Seu rosto demonstrou quando ele desistiu de puxar a espada. O confronto demorou uns 4 minutos, e quem ganhou foi uma arma...

“Duvido que você consiga segurar isso.” Ele falou com a voz irritada, enquanto retirava o suor que estava em sua testa. “Nem com minha força total ela se moveu.”

Me aproximei da mesa e puxei a arma da bainha. A levantei como sempre. Sua cor brilhou por toda a sala. As tochas que foram colocadas ali no local acabaram por deixa-la exatamente do modo que eu a vira quando estava soltando fogo.

Lance parecia petrificadamente encantado com a beleza da arma. Ele a olhava de cima a baixo, ambos os olhos estavam abertos, todas as formas da arma. Sua curvatura, brilho, cor.

“Agora, só falta você me dizer uma coisa, Pirralho. Quais foram os materiais usados nessa sua arma e quem a forjou?” Sua atenção tinha virado para mim.

“Meu pai a forjou com seus dentes, escamas e garras. Ele usou seu próprio fogo para fazer essa bela arma para mim.” Não aguentava mais... eu tinha que fazer algo com ela. A arma parecia pulsar em minha mão. Ela estava querendo provar mais daquele fervor da batalha. Minha mão tremia.

“Interessante, nunca vi nenhuma arma ser forjada por um dragão, mas isso não quer dizer que eles não façam isso.” O Lince parecia interessado na arma. Algo que ele nunca tinha visto o parecia divertir. “Eu me decidi. Garoto, você fará parte do meu grupo. E não aceito não como resposta. Faça o que eu lhe pedir e você poderá fazer o que quiser.” Sua altura e forma de se apoiar liberavam todo o poder que ele tinha. “Mas antes de tudo, ainda quero sentir essa espada em combate. Você já decidiu o nome dela?”

Ao ouvir isso, a própria arma parecia sussurrar. Mas como ele disse, ela ainda não possuía um nome.

“Não decidi o nome dela. E por que deseja que eu entre pare o seu grupo?” Isso estava muito duvidoso, quem é que decidi assim que a pessoa vai entrar em algo sem nem mesmo pedir opinião?

“Pois assim terei mais “homens”, mesmo você sendo um garoto. E pelo que fez com dez soldados... bem, você está sem treino, com o treinamento que posso oferecer e tudo mais. Será um ganho para os dois, fora que você ainda pode ter minha ajuda, enquanto eu ganho a sua.” O sorriso que ele deu quando terminou a frase explicava que não haveria negociação, eu entraria no bando dele, querendo ou não. “Bem, agora me siga e traga a espada. Vamos ver como se sai com ela.”

Notas finais
Não deixem de comentar o que acharam, o que esperam do livro e se estão gostando da história.