Sangue e fogo, foi assim que tudo acabou. Acordei no dia seguinte com uma sensação estranha, o dia podia ser como todos os outros, mas algo estava muito errado.

Barulho estavam vindos do lado de fora da casa. Vozes gritavam para a casa. Como se alguma coisa estivesse acontecendo.

“Saia de perto nós Bruxa!” A cacofonia e altura das vozes acabam por gerar sons que refletiam por toda a casa, como se algum ser gigantesco estivesse falando. “Saia da casa e receba o punição que todas as bruxas merecem!”

A porta começou a ser forçada, mas pelo que sabia ela não cederia facilmente. Magia estava por todo o lado de nossa casa, ela nos protegia de muitas coisas e uma delas estava sendo as pessoas ao redor da casa. Me vesti e nesse momento minha mãe bate na porta, ela parecia preocupada, pois algo muito ruim devia estar próximo de acontecer.

“Y’allaer, nunca te disse isso, mas hoje deve ser o último dia que me verá. As pessoas da vila achavam que eu tinha morrido a muito tempo, mas ontem elas me viram e algumas delas estão aqui. Já prepararam tudo para um execução de bruxas.” Ela estava agitada, corria de um lado para outro pegando peças de roupas e estava as colocando numa saca de couro que estava no seu ombro. “Filho, nunca te contei, mas seu nome tem um significado para seu pai e ele disse que o título seria perfeito para você. Sempre treinamos o controle da magia desde que você aprendeu a falar, portanto hoje libertarei os limites que coloquei em seu corpo.” Colocou as peças que tinha separado na bolsa e me aproximei dela. “Hoje, após 10 anos, liberarei todo seu poder.”

Eleanor pegou meu pulso direto, com sua mão esquerda e a direita colocou em minha testa. E começou a recitar o encanto, sua foz acalmou a multidão e com isso pude me concentrar em meu interior. Senti o que ela disse quando disse que liberaria meu poder, a cada palavra a magia crescia e era solta, parecia que a cada dia estive prendendo essa parte e hoje, pela primeira vez, o muro tivesse sido rompido.

“Filho.” A voz voltou e o feitiço tinha acabado. “Te darei dois presentes, esse seria o primeiro, mas não no dia de hoje. O verdadeiro é uma espada.” E descemos a escada. Abaixo da escada havia uma porta selada. Hoje entrei na sala pela primeira vez. “Aqui está ela.” Um pedaço de pano estava envolta de todo seu comprimento, mas ela era uma espada bastarda.

“Ela te protegerá.” E me entregou a lâmina, os panos ao seu redor estavam bem amarrados e hoje, pela pressa, eu não poderia admirar toda sua beleza. “Ela foi feita pelo seu pai. Escamas, dentes, garras e magia estão nessa lâmina. Seu material só poderia ser derretido por um dragão. E ele a forjou para você.” Seu olhar estava triste e uma vez ela voltou a falar. “O próximo é o seu nome. Destruição Carmesim, o significado de seu nome é tudo que você pode ser, seu pai sabia que você seria algo que mudaria o reino, mas isso, nem ele sabe para o que seria.”

“Mãe, os presentes eu aceito, mas faço um pedido, fuja comigo.” Acabei por fazer a oferta, mas quando comecei a falar ela já estava negando.

“Não posso fugir.” Seu olhos já estavam muito úmidos. “Eles vão entrar na casa em pouco tempo, e creio que está na hora de subir e pegar sua bolsa, há alguns livros que devem ser importantes, poções estão nelas e tudo está organizado, a magia de sempre fui usada para separar algumas partes dela. Ela está mais leve, mas você deverá se preparar para fugir. Mesmo um castelo pode cair.”

“Mãe... Venha comigo, posso protege-la, sei que posso.” Meus olhos ardiam, lágrimas escorriam. E mais uma vez ela negou. “Mãe! Eles vão matá-la! Eu vi pela janela, tudo está pronto!”

“Não, eles vão fazer algo antes e nesse tempo quero que fuja, vá para o mais longe possível e não volte. Estou sendo rude, mas devo ser. Vá e viva por nós.” Ela disse isso com lágrimas escorrendo pelo rosto.

Sua mão pegou meu braço me levou até meu quarto e lá me deu a bolsa. Continuou a me puxar, eu tentava lutar, mas parecia que sua força maior que a minha. Tentei argumentar com ela durante o caminho, mas nada parecia funcionar. Ela apenas foi me levando até o parte de trás da casa. E lá ela entoou o feitiço para que eu não voltasse para a casa e só poderia sair por aquela porta. Ela se despediu mais uma vez e andou na direção da porta da frente. O barulho da porta e a gritaria da multidão ia aumentando, nada pude fazer. O feitiço me impedia de voltar para casa e mesmo que saísse dela e tentasse dar a volta eu seria pego.

Apenas a gritaria chegava aos meus ouvidos. Ouvi minha mãe chegando a porta, nesse momento novos gritos e pancadas puderam ser ouvidas. E o mais assustador de todos, foi o grito de dor da minha mãe.

Apenas nesse grito percebi que ela gritava para me alertar, eles poderiam ter invadido a casa a procura de mais alguém. E nesse momento decidi o que fazer. Me virei e sai pela porta dos fundos, as lágrimas queimavam meus olhos. E os gritos agudos de uma mulher em prantos podia ser ouvido por todo lugar. Corri para a floresta com tudo o que tinha, minha mãe não mais voltaria para mim, disso eu tinha certeza, sua despedida apenas tinha confirmado isso. Corri e me escondi na caverna de meu pai. Seu esqueleto estava lá e ali seria um bom lugar para ficar por um tempo.

‘Ele saiu.’ Foi o pensamento que cruzou minha mente. Continuei a gritar, pois eles entraram na casa e começaram a olhar por todos os lados, eu estava sendo mantida presa e mesmo que pudesse usar a magia para sair, não o fiz. Não daria motivo para ser morta.

“Havia alguém morando com ela.” A voz de um homem veio do andar de cima.

“Deviam ser dois, mas pelo que parece um já não está vivo. E a muito tempo.” Veio outra voz. Eles haviam entrado no meu lugar sagrado. A 12 anos matado o homem que amei e hoje eles quase encontraram meu bem mais precioso, meu filho.

“Faça ela confessar quem foram os dois homens que moravam com ela. Pelo que pude ver um deles estava aqui até chegarmos, pois a cama está uma bagunça, algumas roupas sumiram e todas possuem um buraco na altura da cintura. E as roupas do quarto dela já são mais antigas.” Falou um dos homens que tinha ido investigar os andares superiores.

“Bruxa! Nos diga, onde eles foram!” Uma mulher, parecia ter a minha idade, queria respostas, mas não falaria nada, eu o protegeria com tudo que tinha.

“...” Fiquei em silêncio, minha voz não revelaria nada. Mas começaram a me ascender uma tocha, mesmo ainda sendo de manhã.

“Achei um álbum de fotos! Aqui deve ter a identidade das pessoas que moravam com ela!” A voz de um mulher veio de dentro da casa.

“Não! Não olhem... eu devo protege-lo! Essa foi minha última promessa que fiz a ele!” As lágrimas escorriam de mus olhos, agora mais intensas do que antes. “Queime álbum, queime e não revele o que possui!” Acabei gritando uma magia. Uma chama apareceu no álbum de fotos assim que a mulher chegou no lado de fora. Ela soltou um grito e o jogou no chão. O fogo rapidamente queimou tudo que ali tinha e somente cinzas sobraram... ‘Fotos podem ser reconstruídas, meu filho não.’

“Sua bruxa! Você não tem direitos! Não pode usar sua magia como bem entender! Agora temos certeza de que sua pena deve ser a morte!” A voz de um homem rugiu sobre o barulho da multidão. “Prepare a fogueira, e queime toda a moradia. Ela está impregnada com magia e outra bruxa pode vir a utilizar de seus conhecimentos!” Tudo começou a ser preparado logo assim que o homem terminou de falar.

Fui posta numa jaula que eles tinham trago e nela meus poderes pareciam ter perdido o efeito, somente tinha uma coisa para fazer, chorar. Enquanto chorava senti olhos me observando. Olhos cheios de tristeza e lágrimas, Y’allaer voltou para me ver, mas ele não deve continuar aqui. Se ele ficar mais alguns segundos por perto, ele irá explodir e sua raiva não poderá ser controlada. Gritei para irem embora, pois esse era o único método para fazê-lo fugir sem que todos desconfiassem que havia alguém por perto.

“Saiam da minha casa, devo protege-la e ela foi sagrada para mim. Foi aqui onde morei e é aqui que quero continuar a morar!” Gritei. Não olhei diretamente para os olhos, mas pude ver dois rubis brilhantes sumindo meio a escuridão das árvores. ‘Corra, meu filho, não deixem que eles te peguem, sobreviva neste mundo. E se puder, seja feliz.’ Mais lágrimas caíram de meus olhos. Eles gritavam comigo e jogavam galhos e pequenas pedras que passavam por cima da grade.

Estavam enfurecidos e cada vez mais sentia que minha hora estava próxima. A calma foi chegando, e minha vida veio toda novamente, minhas escolhas, felicidades, tristezas. Um rosto se destaca da multidão, uma voz profunda, e aquele dia, aquele encontro, passa mais uma vez. Nossa vida juntos, o dia do nascimento de nosso filho, a felicidade que estava estampada no nossos rostos. O corpo pequenino do meu filho. Seu sorriso, sua vida, sua força, suas escamas, tudo estava passando novamente. E ontem, se tivesse feito como todos os anos, poderíamos estar juntos.

“Zenon... me desculpe, não consegui manter a promessa por mais do que alguns anos.” Sussurrei para o vento. ‘Não se preocupe. Eu também estive o protegendo das sombras.’ O vento parecia trazer essas palavras, e novas lágrimas escorreram sobre meu rosto. Toda natureza parecia quieta e triste essa manhã. Talvez seja por que perdi as duas cores mais vibrantes da minha vida. Meu amado marido e meu filho, que tive que deixar ir para que sobrevivesse.

De repente, a jaula foi aberta e fui retirada de meus pensamentos. O homem que me puxou havia amarrado meus pulsos e minha boca, havia um tronco no centro de uma enorme fogueira apagada. E ali, encontraria a minha despedida. Em meio as chamas que tanto amei ver.

Um discurso foi feito pelo homem que tinha proclamado minha morte. Ele parecia ser o regente da cidade. Ele falou e falou, a noite caia e ele continuava. Mas sem uma única palavra de minha pessoa fui amarrada no tronco, e nele me fizeram a última coisa que queria ouvir.

“Você pode ter queimado as fotos, mas as roupas nos deram uma dica de duas coisas. Você era casada e teve um filho. Porém o seu marido morreu faz um tempo.” Essas palavras foram sussurradas ao meu ouvido, mas elas pareciam grande trovões. E mais uma vez, chorei, não poderia aguentar mais nada. “Agora, ascendam a fogueira e a sua casa. Ela deve ser morta juntamente com esse lugar amaldiçoado!”

Colocaram fogo em tudo, nada mais era importante naquela casa. Ele estava vivo e isso me permitiu sorrir no dia da minha morte. Um barulho veio da floresta, o choro de um animal. Seu grito apenas deixou todos mais assustados e eles se viraram para mim. Pequeno filho meu, hoje não estarei mais só. O fogo que corre em suas veias será sua vitória nobre. Ontem você o conseguiu. Você já está na maioridade dos dragões, siga seu caminho. Essa noite libero meu espírito desse corpo. Estarei sempre com você, portanto, não chore mais, Destruição Carmesim. Com esse último recurso da magia, mandei toda minha força mágica para um único ponto, meu filho. Senti quando este o tocou e seu grito foi desaparecendo da noite. Com isso, a morte veio e me abraçou, e do outro lado ele estava me esperando, com um sorriso e ele parecia feliz com o que eu tinha feito.

“Você o criou como eu o criaria. Esteja orgulhosa disso, e acho que está na hora de cuidarmos dele de longe. Ele já pode produzir fogo, no dia do 13º aniversário o vi soltar fumaça pelas narinas e isso afirma o que sabia. Eleanor eu te amo, e sempre te amarei. Obrigado por ter me dado um filho.” Zenon sorriu daquele seu jeito que sempre acabava comigo e me beijou como sempre tinha feito antes de sua morte.

Ouvi seus últimos gritos enquanto voltava para a caverna e no caminho gritei o mais alto que pude, pois não tive forças para salvá-la.

Meu grito morreu rapidamente, pois seu cheiro e calor tinham me abraçado e nesse momento, apenas me ajoelhei e chorei mais uma vez. Palavras vieram com o vento, e de repente uma torre de chamas ergueu-se da nossa casa. Tudo foi destruído em pouco tempo.

Me levantei e caminhei para meu esconderijo. Um local que não visitaria com frequência, mas ali, onde ele está, foi esquecido e deve ser um dos melhores pontos para se esconder.

A caverna estava fria, mas isso não importava, meu corpo já não aguentava mais nada. Peguei a espada e a coberta, me recostei no fim da rocha e adormeci. Um sono leve e cortado, cheio de cenas do dia de hoje e memórias passadas. Em um dos sonhos vi duas pessoas, ambas já estavam mortas, uma eu nunca tinha visto, mas ali, naquele lugar eu sorri. O homem me olhou e sorriu, a mulher afagou meus cabelos. Ambos me abraçaram.

“Filho, já passou, nós estaremos sempre com você. Não importa se tiver medo, apenas siga seu coração.” O homem parecia estar feliz e triste ao mesmo tempo.

“Não chores, pequenino. Seu futuro será repleto de cores.” Lágrimas escorriam do rosto de minha mãe.

“Volte para seu sono. Pois agora, sabe que não está só, e que se precisar apenas lembre-se dos seus pais. Eles estarão com você para todo o sempre.” Meu pai falou e mudou para a forma de dragão. Seus olhos brilhavam de orgulho e com um rugido tudo ao meu redor desapareceu. E após isso, tive o resto da noite para dormir tranquilamente.