Sangue Divino

29 Cap.29 - Ás águas.


Notas iniciais
Desculpem a demora para postar amores :( sorry mesmo, n tive tempo antes, agr que eu voltei de viajem e já vim escrever. :*

Quando começo a pensar que vou ficar surda, graças a Sophie, ele finalmente aparece na lateral do barco e desaba no deque, fazendo a filha de Afrodite se calar. Sophie deixou o olhar de pavor ser substituído por pura confusão.

– Uau. – Diz Nathan ao observar o corpo no chão. O braço dele está machucado, deuses... – Você me matou. Isso não é muito amigável. – Seus olhos encaram os meus com o mesmo brilho translúcido que vi pouco tempo atrás. Ele pisca para mim depois examina o corpo. – Obrigada. Foi bem rápida na descoberta. Bom golpe, aliás.

O corpo no chão do deque começa a expandir e criar pelos alvos até se assemelhar a um enorme cão branco de dentes muito afiados. Estremeço e me afasto.

– Mas... o quê... como...? – Sophie gagueja.

Nathan pega o cotovelo dela de leve e a conduz para as escadas, ele diz:

– Acho melhor sentarmos e Marie explica tudo enquanto comemos. – Marie. Soa como música em meus ouvidos. Pode ter começado como algo para me irritar, porém, agora, com certeza não é isso que sinto. Tudo. Ele acha que eu sei tudo, que exagero, mas é legal, não posso negar.

Assinto para ela e forço um sorriso.

Depois que estamos na “cozinha” tomando café da manhã, exceto Sophie que ainda parece confusa demais para dizer algo ou tocar na comida, eu começo:

– Quando eu subi para falar com o Nathan eu já estranhei o comportamento, mas nem liguei, afinal, passou o quê? Quinze minutos? Não achei que algo tivesse acontecido. Mas depois vi algo na água. Achei que estava alucinando, não seria surpreendente depois da noite passada. – Nathan assente, ele me encara com atenção, vidrado. Sophie ainda tem a expressão vazia. – E então ele flertou comigo.

– O quê? – Nathan engasga. Dou um riso contido.

– Calma. Eu sei que você nunca me chamaria de deusa – ele levanta as sobrancelhas. – Não daquele jeito. Nunca. – Nathan desvia o olhar, engole em seco e murmura algo para si mesmo, parece preocupado... – Eu também perguntei as horas e ele não soube dizer, você tem o poder de conseguir saber as horas durante o dia, e isso foi muito útil para que eu percebesse. Em seguida, — continuo — ouvi um rangido no barco e ele disse meu nome. Meu primeiro nome. Falou Courtney, não Marie.

Nathan dá um sorriso torto:

– Lembre-me de nunca esquecer de te chamar pelo segundo nome. Não quero levar uma facada. – Debocha.

– Engraçadinho. Posso continuar ou prefere falar você mesmo?

– Como quiser, mas eu gostaria de ouvir sua dedução.

– Está bem. – Me dirijo a Sophie. – Eu juntei tudo e percebi que o rangido devia ser Nathan tentando subir o barco. O Nathan de verdade. Eu não alucinei quando vi o braço na água, era ele nadando de volta para o barco e... o comportamento estranho é justificável pelo fato de que aquele, não era o Nathan. Pelo menos, não totalmente – Completo. – Era um monstro que assumiu a forma de Nathan, algum metamorfo. Por um momento, fiquei apavorada, mas quando ouvi o rangido, percebi que o monstro não havia o matado, mas se o Nathan aparecesse, com certeza o monstro mataria todos nós, porque se minhas suspeitas estivessem corretas, o único matamorfo que costuma viver nessa região gelada e não mata a vitima, pelo menos não a primária, é canibal, e bem bruto. – Ela levanta as sobrancelhas. – Lembrando de algumas aulas do Nathan – ele sorri orgulhoso diante da observação — eu apunhalei com sucesso o coração da coisa e ela caiu morta e foi ai que você apareceu e ficou gritando enquanto eu esperava Nathan terminar de subir pelo casco do barco. É claro que eu tinha certeza de que aquele não era meu amigo, certeza absoluta.

– Fantástico. – Ele sussurra.

– O quê? – Indago.

– Sua dedução. Basicamente perfeita.

– Hãm... Obrigada. – Desvio o olhar evitando corar. Mordo o lábio.

– Quer falar sobre o monstro?

– Ah. Claro. Bom, quando o corpo se transformou naquele cachorro enorme eu tive minhas suspeitas confirmadas. Aquilo no nosso deque é um wendigo.

– E...? – Sophie questiona.

– Wendigos são criaturas metamorfas, ambiciosas e canibais, mas pacientes, costumam sumir com alguém e assumem a forma dessa pessoa para alcançar mais vítimas. – A filha de Afrodite arregala os olhos. – Eles não matam a pessoa cuja tomaram o lugar, porque enquanto a pessoa continuar viva algumas de suas memórias são compartilhadas com o wendigo, e se a pessoa morrer, o monstro não tem a mínima pista de como agir e é facilmente descoberto.

– Como assim, algumas memórias? – Ela pergunta.

– O wendigo consegue acessar superficialmente a memória da vitima, digamos, primária enquanto ela estiver viva, ou seja, ele consegue saber de coisas básicas, as que passam com frequência pela mente da pessoa, as que são forçadas e automáticas, e claro, as ligadas aos sentimentos, já que essas são fortes. – Arregalo os olhos percebendo o que acabei de falar. O monstro soube como me agradar... flertou comigo... Engulo em seco. Sophie me encara curiosa. Nathan parece muito entretido com a colher.

– E como um wendigo chegou até aqui? – Ela questiona.

– Eu não tenho certeza. – Explico. — Só Nathan pode dizer, mas acredito que ele estava na forma de um animal marinho e atacou Nathan quando ele subiu para o deque. Sem ninguém mais a vista, ele pegou Nathan despreparado e o jogou longe no mar, assim, ele continuaria vivo tempo o suficiente para que o monstro nos enganasse e nos comesse. – Sophie larga a colher que estava levando a boca. Era a primeira vez que ela fazia uma tentativa de comer. Eu falo demais. – O wendigo provavelmente não contava com o fato de que a vitima seria um filho de Apolo com bom preparo físico e que ela nadaria de volta tão rápido.

– Correto. – Murmura Nathan. – Incrível!

– Sangue de Atena. – Digo com a maior naturalidade possível, não gosto muito da palavra com “S”. Ele sorri e balança a cabeça.

– Nem dá para acreditar que é filha do Percy. – Levanto as sobrancelhas.

– Conte-nos sua visão dos acontecimentos. – Peço.

– Não é tão interessante, mas está bem. – Ele concorda. – Eu subi ao deque e fui para a borda esquerda do barco observar o mar. Um golfinho pulou em direção ao barco e eu me afastei. O golfinho se transformou em cão em pleno ar e pousou no deque. Me atacou com a mandíbula e me jogou na água com força. – Ele aponta para o ferimento em forma de meio lua no braço que parece inflamado, mas não sangra. Ele nadou muito com esse braço machucado, pela água salgada. Meu coração aperta. — Fui parar a uma distância sobrenatural. Nem parei para pensar e já estava nadando de volta.

Sophie se levanta e encara Nathan. O abraça forte e depois suaviza.

– Graças aos deuses você está bem! – Ela afirma colocando a mão na boca.

– É. – O filho de Apolo responde se afastando delicadamente. Consigo perceber que ele está com dor no braço machucado.

– Sophie? – Digo.

– Sim?

– Pode ir lá em cima e jogar aquela coisa na água?

– Sim... tá. – Ela responde. Sorrio.

– Eu posso fazer isso. – Diz Nathan se levantando.

– Não. Nada disso. – Me coloco na frente dele. – Você fica aqui para que eu possa limpar isso no seu braço.

– Eu não preciso disso, estou bem. – Ele replica.

– Sem discussão. Vou buscar o kit de primeiros socorros e um pouco de néctar. Fica aqui!

Sophie e eu saímos da “cozinha”. Nathan se senta, emburrado. Busco as coisas e volto o mais rápido que posso. Puxo a cadeira e sento ao lado do braço machucado de Nathan, que tira a camisa me fazendo desviar o olhar por alguns estantes. Não é aconselhável que você distraia com seus músculos definidos a pessoa que vai mexer nas suas feridas, só acho que o mundo deveria saber. O ferimento é no braço dele, não no tórax, achei meio desnecessário tirar a blusa.

– Então, — ele diz apertando os olhos quando aperto o algodão contra o machucado, profundo por sinal – como foi sua conversa comigo no deque? Gostaria de saber.

– Você, quer dizer, ele – evito encontrar os olhos dele – me contou umas coisas sobre flautas. Isso deve ser muito automático para você.

– Ah, sim. Estudei demais armas e instrumentos musicais, nem preciso pensar muito para saber tudo sobre um instrumento.

– Pensamentos automáticos. – Murmuro. – E... você, digo, ele flertou comigo e se aproximou demais.

– Pena que tenha o matado tão rápido. – Ele comenta com o olhar longe.

– Por quê?

– Queria ter a chance de torturá-lo. – Aperto o algodão de mais, acho que devido ao susto e ele sussurra: — Ai!

– Desculpa! Desculpa. – Murmuro as pressas.

– Tudo bem. – Tranquiliza.

– Ele é um monstro. – Digo depois de trocar a gaze que estava usando por algodão. — Quem sabe do quanto ele tem consciência? Eu posso ter sido obrigada a matar para não morrer, mas eu não acho correto torturar nada nem ninguém.

– Ele iria comer você. Literalmente. – Nathan argumenta.

– Eu sei. Mas é bobagem querer torturar ele. – Sem conseguir me conter, não resisto e digo: — Aliás, estranho ele ter flertado comigo, não?

– É. Minhas maiores preocupações são você e Sophie, são irmãs para mim. Sabe... eu morreria por vocês. Ele deve ter confundido esses sentimentos. – Nathan afirma com naturalidade em voz neutra, dando de ombros.

Isso foi ao mesmo tempo a coisa mais fofa que já ouvi e o maior balde de água fria que já levei, e nem sei por que me sinto assim.

– Também morreria por você. – Murmuro. – E pela Sophie, claro – acrescento.

Ele força um sorriso e seu olhar cola no meu. Aqueles olhos claros parecem esconder uma infinidade, pela qual eu gostaria de viajar... Pisco.

– Bem... acho... que já terminei de limpar – desvio o olhar e coloco o algodão que estava usando na sacola que trouxe para usar como lixo. – E acho que você precisa de pontos e eu não vou me arriscar a esse ponto então...

– Só cobre isso com uma atadura – Nathan me interrompe — se fica mais confortável para você. Já disse que tô bem, não precisa de mais nada, mas se vai deixar você feliz, pode enrolar meu braço com alguma coisa.

Reviro os olhos, mas pego um tecido leve — não é gaze, mas vai ser suficiente – e enfaixo a mordida com cuidado.

Foram experiências estranhas suficientes para um dia só. Depois de ajudar Nathan a vestir outra camisa, limpa e seca, fui tomar banho. Almoçamos. Todos voltaram aos quartos. Já não estava a fim de interação com o mar. Jantamos. Voltamos para os quartos.

Sentada em minha cama, encostei a cabeça na parede enquanto ouvia o som do chuveiro. Sophie ou Nathan tomando banho. Mordo o lábio ao pensar que provavelmente vou ter que trocar aquela atadura.

Depois de certo tempo, quando o barulho do chuveiro cessou a tempos, ouço uma batida na porta.

– Entra. – Falo.

Nathan entra no meu quarto devagar. Está com o cabelo molhado, as pontas levemente cacheadas, era ele que estava no banho. Observo minha mobília de madeira por uns segundos e então digo:

– Precisa que eu troque a atadura?

Ele ri de leve.

– Não. Não se preocupe, eu mesmo troquei.

– Você trocou sozinho? – Indago alarmada. — Nathan...

– Sou filho de Apolo lembra? Deus da cura? Sei me virar com meus machucados, Marie.

– Mesmo assim, se precisar de qualquer coisa, pode pedir.

Nathan sorri docilmente, de uma maneira que vi poucas vezes.

– Obrigada. Mas não é para debater sobre mim que estou aqui. Como você está?

– Como?

– Em relação à noite passada. Não tivemos a chance de conversar sobre isso, não é?

– Ah. – Digo. – Eu... vou sobreviver. Prometo que não estou pensando mais em me matar.

– Bom mesmo, não queria ter que acorrentar você para sua própria segurança.

Franzo o cenho.

– Então, vamos ver se eu acerto em algum ponto em que eu posso te ajudar. – Ele diz. Reprimo uma risada.

– Vai dar uma de médico?

– É isso ai. E só se eu cutucar onde dói eu vou descobrir que lugar devo tratar. Por isso eu sou obrigado a me arriscar, não fique com raiva de mim.

Sorrio. Nathan senta ao meu lado na cama.

– Não vou ficar. – Afirmo.

– Está bem. Por que você tem tanta certeza de que será imortal?

– Não tenho.

– Tem sim. O que você viu?

Desvio os olhos para o teto.

– Nada.

– O que você viu?

– Acho que as possibilidades de eu ficar com raiva são maiores do que imaginei. – Comento.

– O que viu, Marie?

– Meu sangue. – Digo abruptamente, ele é realmente insistente.

– Seu... onde se cortou?

Mostro minha mão.

– Saiu dourado, não é?

– É. – Respondo hesitante. Confesso minha agonia: — E eu me controlei, eu não usei meus poderes, mesmo assim...

– Você pode ter usado inconscientemente porque esta cercada de água. – Ele diz cautelosamente.

– Esse é o planeta azul. Sempre estou cercada de água. Eu decidi admitir que não tenho o controle sobre meus poderes!

– Não seja boba. – Nathan me acalma. – Você sabe do que é capaz, se não sabe, eu sei, e posso te dizer que você tem o controle, sim. Confia em mim?

– Eu...

– Não é só isso, né?

Molho os lábios com a língua.

– O que mais aconteceu? Marie?

– Eu tive um sonho. – Sinto-me amolecer.

– Sonhos... o que viu nele?

– Eu... eu não quero falar sobre...

– O que você viu? – Ele indaga com o olhar firme.

– Estava no velório do meu neto.

Ele se afasta um pouco e passa a mão pela boca com uma expressão cansada.

– Sinto muito. – Diz finalmente. Estava prestes a assentir quando ele disse: — Fale tudo o que viu.

– Muitas flores brancas. Um caixão. Eu me olhei na fonte... e era jovem, bela e imortal. No velório do meu neto. – Sinto uma lágrima descer pela minha bochecha e a expressão dura e repreensiva de Nathan suaviza até se tornar carinhosa. – Eu não quero isso. Não quero beleza. Não quero imortalidade. – Soluço. – Não quero sofrer. Eu não...

Desabo em Nathan e enterro meu rosto em sua camisa, molhando-a com minhas lágrimas. Ele pareceu surpreso com meu ataque súbito apenas por um momento, depois passou a acariciar meus cabelos enquanto eu chorava rios de lágrimas reprimidas entre soluços. Ficamos assim por um tempo, mesmo que eu vá sentir vergonha disso mais tarde, do quão frágil me mostrei, agora não me importo, a agonia trasbordou e não consigo sela-la mais. Ouço-o cantar algumas notas baixinho, para me acalmar. É lindo. Meus olhos começam a pesar. Com uma delicadeza única, Nathan me posiciona na cama, amacia meu travesseiro, se ajoelha na minha frente e ainda me observa chorar por um tempo.

Quando paro de chorar, me sinto seca, sinto que o Rio Nilo trasbordou inteiro para fora de mim. O filho de Apolo passa os polegares por minhas bochechas, limpando as lágrimas com tanta calma que poderia estar acariciando meu rosto. Forço um sorriso e em resposta ele sorri daquela maneira sedutora que agora não me parece tão irritante. Seu sorriso é a ultima coisa que vejo antes de adormecer com a cabeça afundada em meu travesseiro, novamente molhado, provavelmente por isso tive uma noite livre de pesadelos.

Notas finais
Espero q tenham gostado :3 Até mais.