Sangue Divino

28 Cap. 28 - Rótulos.


Notas iniciais
A meta não foi cumprida. Eu estou mega triste. Mas não vou judiar de ninguém, então resolvi postar o cap :( ;)

Ainda consigo ouvir a voz na minha cabeça. Cortante. Ameaçando-nos. Ela ecoa como em um túnel pelos meus pensamentos enquanto penteio o cabelo.

Ontem à noite, pegamos novamente o taxi cinza e voltamos ao barco. Desabei na cama do meu compartimento sem falar mais palavra alguma, parecia haver um tambor na minha cabeça. Ainda parece. Só que acostumei.

Os acontecimentos da noite passada só não rodam na minha cabeça porque, na verdade, não vi nada, pelo menos, nada daquilo que me atormentou. Minha língua está muito dolorida, consequência das vezes que tive que mordê-la para não gritar, principalmente quando o louco do Nathan começou a conversar com Nyx, quase gritei o nome dele um bilhão de vezes, mordi tanto a língua que ela só parou de sangrar quando me deitei. Consegui manter minha voz firme na caverna, o que já foi um mérito e tanto, mas se não fosse a incrível descoberta de Nathan aos próprios poderes – e a velocidade que usou para sair de lá nos arrastando – estaríamos todos mortos. O que eu estava pensando? Sinto-me tão envergonhada que por mais que esteja acordada faz duas horas, não sai do quarto.

Acordei muito cedo para quem foi dormir de madrugada. Mas quem poderia dormir depois de acordar de um sonho como aquele?

Quando fui me deitar, me joguei tão fortemente na cama que acabei esbarrando as costas da minha mão num prego. Não era afiado, mas com a força em que me joguei, acabei por cortar minha mão. Um filete de sangue deveria ter saído daquela linha horizontal. Deveria. Mas o que saiu não foi sangue. Não sangue humano. Minha mão começou a ser manchada por um fluido dourado brilhante e antes que eu pudesse piscar cicatrizou. Chorei até cair no sono.

Sonhei que estava num velório. Não era o meu velório. Nem de algum amigo meu. A pessoa que morreu eu nem conheço, pelo menos ainda não. Mesmo assim, foi horrível. Ainda consigo sentir o cheiro das rosas brancas e margaridas. Ainda consigo ver as pessoas chorando. Eu demorei, mas constatei que a pessoa que havia morrido era um neto meu. Estava no velório do meu neto. Ele havia morrido de causas naturais. Nada na situação parecia correto. Eu fui até uma fonte e me olhei. O eu encarei foi uma mulher linda de vinte anos que exibia um brilho anormal. Uma deusa. Imortal.

E então acordei. Enterrei minha cabeça no travesseiro e voltei a chorar. Chorei porque não sabia mais o que fazer. Ainda não sei. Eu me controlei e mesmo assim, o que vi escorrei da minha mão foi icor. Vou ser imortal. Vou ver todos que amo morrerem, mas continuarei aqui. Sozinha. Sofrendo. Sem saída.

Isso não é justo. Não há mais o que possamos fazer. Eu vou ter que tentar com todas as forças ter uma vida comum ou vou ser eternizada. Ou talvez por mais que eu tente, minhas tentativas serão em vão e vou me tornar imortal de qualquer jeito. Perece uma benção, mas é um castigo. Não quero obrigações eternas. Não quero ser eterna. Não quero nada disso. Eu quero morrer. Por mais estranho que isso pareça.

Sou desperta dos meus devaneios por uma batida na porta.

– Eu não quero conversar, Sophie. Também não estou com fome. – Digo.

Mesmo assim ouço a porta ranger. Continuo com a cabeça enterrada no travesseiro. Não quero ver ninguém, nem mesmo minha melhor amiga.

– Tem certeza de que não quer conversar? – Essa não é a voz de Sophie. – Eu acho que te faria bem falar com alguém.

– Não quero falar sobre isso, Nathan. – Afirmo.

– Se continuar dialogando só com si mesma vai se afogar nos próprios pensamentos.

– E daí? Se eu me afogasse seria ótimo, tudo isso iria acabar. Eu quero morrer. – Choramingo.

– Não diga algo assim. – Seu tom espantado me surpreende. Retiro a cabeça do travesseiro para encarar os olhos de Nathan, o céu da manhã e o mar refletem em seus olhos, fazendo-os ficar levemente translúcidos. A expressão dele é de decepção. Desvio o olhar. Sei que todos devem estar decepcionados comigo, mas mesmo assim... eu não queria ver isso. Lágrimas voltam a escorrer pelo meu rosto. – Você deve dar valor a sua vida, sabe o quanto seus pais sacrificaram pela sua segurança.

– Eu sei. Só... fico pensando, será que não seria melhor se eu simplesmente morresse? Meus pais iriam sofrer, mas ia acabar logo.

– Nunca mais diga isso. – Ele diz abruptamente, mas continua em um tom reconfortante: — Que bobagem, Marie. O sofrimento deles nunca iria acabar, se você morresse, eles sofreriam ainda mais, e sem esperança alguma de que aquilo fosse passar. Não seja tola.

Nathan se agacha à minha frente. Sua cabeça fica um pouco acima da minha, que ainda está encostada no travesseiro molhado. Ele encosta uma mão no colchão e, com a outra, limpa delicadamente uma lágrima em minha bochecha. Ele tem um toque tão firme e delicado ao mesmo tempo, um toque de artista. Mesmo que não queira, ele deve reconhecer que tem realmente algumas evidencias visíveis da descendência de Apolo. Apolo é um deus muito lin... que pensamento estúpido foi esse?

De repente tomo consciência de mim mesma. Eu devo estar horrível, despenteada, olhos vermelhos, parecendo em decomposição... Por que eu me importo com isso? Já me sinto morta por dentro mesmo. A questão é que não consigo controlar, eu me importo, não quero que ele me veja assim, fraca, desolada, desgrenhada... essa última parte não devia ter tanta importância, mas essa palavra se repete como um sussurro para mim.

Levanto-me repentinamente o fazendo ir para trás com espanto.

– Desculpa. – Murmuro. – Acho que você tem razão. Preciso conversar. – Ele levanta as sobrancelhas. – Te encontro lá em cima? A vista do mar costuma me acalmar.

– Claro. – Ele responde baixinho, se levanta ainda um pouco confuso e sai, fechando a porta atrás de si.

Pego uma calça preta leve e uma blusa roxa e vou ao banheiro. Lavo o rosto, penteio o cabelo, me troco, e amarro os fios cor de areia precariamente alisados com um elástico verde. No corredor, encontrei Sophie.

– Bom dia, luz do dia! – A filha de Afrodite exclama.

– Bom dia. – Digo sem um pingo de entusiasmo. Sophie devia estar morrendo de susto devido a noite passada, mas lá está ela, sorrindo. A encaro com os olhos semicerrados: — Foi você que mandou ele me tirar do quarto hoje, né?

– Quê? Ele quem?

– Nathan.

– Oh. – Ela franze o cenho. – Nem vi ele essa manhã. Se ele falou com você foi por vontade própria. Eu teria ido falar com você, mas achei que precisasse de um tempo.

Estou confusa agora. Ele foi me tirar do quarto porque ficou preocupado comigo? Que bonitinho... O.K. Eu tenho que controlar melhor meus pensamentos.

– Obrigada, Sophie. Por ter entendido que eu precisava de um tempo. Só que acho que já pensei demais sozinha.

Ela assente e eu sigo em direção ao deque só parando para observar pelo canto do olho Sophie, entrando no quarto dela, atrás de mim.

Nathan está na proa do barco observando a água, quando me vê, acena e dá um sorriso contido. Não é o comportamento comum dele mas... depois de ontem, ele só deve estar tentando ser simpático, não sou só eu que tenho problemas. Posiciono-me ao lado dele e antes que ele possa falar algo, digo:

– Consegui entender seus novos poderes?

– Eu... – ele hesita – nem tentei.

– Compreensível. – Volto meu olhar para o mar. Penso ter visto um braço e assusto, mas quando pisco já não está mais lá, devo estar alucinando de tão cansada que está minha mente.

– E você? Está melhor? – Ele diz depressa. Parece alarmado.

– Acho que sim. – Digo calmamente. O mar realmente me acalma. — Você tem razão, sabe?

– Sobre o quê?

– Sobre eu ter que dar mais valor a mim mesma. Só que... eu já não sei mais o que fazer, já cumprimos quase toda profecia, na verdade, — completo — talvez já tenhamos cumprido toda ela, porque diz que o final é onde eu encaro meu destino, e pelo que parece meu destino é claramente ser imortal.

– Por que nega tanto ser uma deusa?

– Eu não quero isso! – Digo espantada. — De jeito nenhum. Achei que você entendesse.

– Não sei se entendo. – Ele se vira para mim e coloca uma mecha solta do meu cabelo que estava caindo no meu olho atrás da minha orelha, mas não tem a mesma delicadeza de antes, só pontualidade. – Para mim você já se parece com uma deusa.

Desvio os olhos subitamente concentrando minha mente no mar, tentando não corar. O que foi isso? Ele nunca fez nada assim.

– Hum... – digo engasgando – muito gentil da sua parte dizer isso, mas realmente não preciso que meu orgulho seja aumentado, eu tenho o bastante, só quero me distrair de tudo isso.

– Sem problema. – Ele diz. – Gostaria de saber curiosidades extremamente sem importância sobre... flautas?

Suspiro.

– Por que não?

Ele começa um monólogo sobre a história e as propriedades, usando às vezes uma entonação diferente e me fazendo rir. Há um momento em que ele se aproxima de mais de mim enquanto explicava sobre as propriedades sonoras do instrumento. Viro e digo apressada:

– Deuses! Estou morrendo de fome! Que horas são, Nathan?

– Não sei. Como eu poderia saber?

– É de manhã... – Não concluo a frase. Tem algo de muito estranho acontecendo, ele está agindo de maneira muito estranha. – Claro, que bobagem. Como poderia saber?! – Sorrio. Ele sorri de volta, daquela maneira estúpida e encantadora, mas estou tão assustada que não ligo. Um alarme começou a apitar no meu cérebro. Quase consigo enxergar a palavra “PERIGO” piscando em neon.

Ouço um rangido. É algo raspando no barco...

– Já deve estar na hora do almoço. Quer descer, Courtney? – Ele indaga.

Courtney. Courtney. Courtney. Courtney. Courtney.

E então, todas as peças se encaixam. Uma cena se forma claramente na minha cabeça.

O movimento na água. A atitude lenta. O flerte descarado. O fato de que ele não me entendeu. O rangido no casco. A ausência dos poderes relacionados a Apolo. O nome foi a gota d’água. Tenho que fazer alguma coisa logo, antes que perca a coragem. Nada vai influenciar minha decisão. Não me sinto tão confiante e capaz há meses.

Assinto e Nathan se vira, indo em direção as escadas.

Saco a adaga que coloquei no cós da calça – sempre tenho uma arma comigo, não importa se estou em terra, no ar ou no mar. Rebobino mentalmente as aulas que Nathan me deu enquanto estávamos rumo ao Chile sem mais o que fazer. Retomo as maneiras de ataque que ele me ensinou, os pontos onde atacar no combate corpo a corpo. Sorrio discretamente ao lembrar do dia em que ele me ensinou a atacar com uma adaga, disse que provavelmente seria muito útil que eu soubesse, já que eu podia ter tanto talento quanto minha mãe, Nathan disse que lutar com uma adaga exige força, rapidez e precisão, também disse que tinha certeza que eu podia desenvolver esses três coisas. Senti-me honrada por ser comparada a Annabeth.

Precisão. Rapidez. Força. Aperto a adaga na mão.

Com a mão vazia, agarro o braço dele e o puxo de volta, de modo que seu olhar se fixe em mim. Surpreso ele levanta as sobrancelhas, mas me encara com malícia.

Ouço alguém subir as escadas. Preciso ser rápida. Rápida. Respiro fundo. Encaro os olhos de Nathan. Negros.

Enterro a adaga no coração dele e largo seu braço. Nathan arregala os olhos e cai no chão com um baque surdo. Sangue começa a sair pelo ferimento, escorrendo em filetes muito finos pela blusa azul escura. Desvio o olhar de volta para o mar enquanto ouço Sophie gritar. É o grito mais agonizante que já ouvi em toda minha vida. Ela me encara com pavor. Mantenho minha expressão continua vazia.

O rangido no casco no barco aumenta, como eu esperava. Sorrio e volto a encarar o corpo sem vida caído precariamente no chão do deque.

Notas finais
Primeiramente: não entrem eu pânico e não me matem. Segundo: vamo lá, quero ver vocês especulando nos comentários kkkkkkkkk