Sanatório

2 Capítulo 2: Mundo dos Espelhos


Notas iniciais
Pessoal, esse é o segundo capítulo dessa fic! Foi escrito numa tarde de segunda depois de uma aula cancelada... Eu só escrevo quando não tenho para fazer? Talvez, foi começar a prestar mais atenção nisso...

Nesse capítulo temos a apresentação de um novo personagem, talvez... Ele é um pouco menos subjetivo, já que é focado numa explicação...

Então boa leitura!
Sir Death.

~ Mundo dos espelhos ~

Abriu a gaveta da escrivaninha e retirou um pote alaranjado onde se lia “Coma-me”. Lembrou que não havia sequer um copo de água naquela sala, destampou o frasco e retirou um comprimido branco, olhou fixamente para ele e ingeriu-o a seco.

— Estranho, quando foi que ela saiu da sala?

Ele percorreu com os olhos a sala, um cubo branco espaçoso revestido provavelmente de gesso. Mobília? Apenas a mesa onde escrevia e duas cadeiras, uma para si mesmo e outra para os pacientes. Percebeu a porta aberta.

— E ela nem se lembra de fechar a porta! — olhou para o papel no suporte metálico — Como ela consegue ver tanta coisa no nada?

O Doutor coçou a barba e se preparou para a parte mais chata do seu trabalho, tinha que analisar os dados adquiridos. Ele gostava bastante de conversar com seus pacientes, mas era preguiçoso demais para gostar de racionalizar o pensamento humano distorcido. Para evitar o tédio absoluto ele adotava uma técnica simples e para a qual só precisava de um espelho, posicionando-o à sua frente o Doutor contemplou seu próprio reflexo.

— Olá novamente Rotuod — cumprimentou sua imagem especular — Não faça muito barulho, talvez a Existência fique com ciúmes!

— Não precisa se preocupar com isso, nós sabemos que ela não se encontra nessa sala...

— Sabe, eu consegui novas informações com ela hoje.

— Sim, eu fiquei sabendo... Mas não lhe preocupa saber que ela acha que faz parte de você? Não é um tanto estranho isso?

— De fato, ela está sempre me tratando assim, ela nem mesmo costuma usar a palavra eu, apenas você isso, você aquilo, isso me assusta, essa fixação por não se achar real me preocupa, eu não aprendi a tratar isso!

— E você acha que isso deve ser curado? Achei que só se interessasse por diagnosticar... Essa preocupação toda é por que você a considera uma filha?

— De fato... — ele olhou preocupado para seu espelho e Rotuod devolveu o sentimento, ele abaixou a cabeça e viu o caderno de anotações — Acho que já podemos parar de nos amargurar, vamos começar a analise.

— Como quiser — o reflexo ergueu as anotações e as apontou para o espelho.

— Primeiro uma recapitulação: Existência é uma garota de dezenove anos...

— Você insiste em chama-la assim? — Rotuod parecia irritado — dezenove anos! Ela é uma mulher!

— Cala essa boca! Ela chegou aqui aos dezesseis, curativos nos pulsos, maquiagem borrada. Desde então ninguém tentou visita-la...

— Isso não é um tanto estranho para uma jovem tão bonita? Ela não tinha namorado?

— Eu já disse para não me interromper! — ele olhou sério para o espelho — Ela não usava drogas, não bebia, não gostava de sair de casa, morava sozinha e não frequentava a escola, não acessava a internet e nem tinha um televisor.

— Ela era um vegetal?

— Pare de chama-la disso! Ela apenas queria saber a quem pertencia...

— Ela tinha fetiche por dominação?

— Por que você sempre leva para o lado degenerado?

— Porque eu sou um interlocutor num monólogo! Se eu apenas concordar com você nada produtivo surgirá!

— Interlocutor num monólogo... A Existência usa essa mesma expressão...

— Quem sabe eu sou ela? — Rotuod comentou levantando as sobrancelhas.

— Muito engraçado você! — O Doutor disse enquanto relia suas anotações — Continuando, não sei quando ela adquiriu esse pensamento, mas antes de chegar aqui ela já se imaginava como uma imaginação de alguém e contra sua natureza caseira ela costumava sair pelas ruas procurando alguém que a estivesse imaginando.

— Natureza caseira? Bela metáfora eufêmica para antipatia social aguda! Então quer dizer que ela vagabundeava por aí procurando alguém a quem pertencesse? Você pensa de um jeito estranho...

— Espere um pouco! Quando foi que você parou de falar “nós”?

— Algum tempo atrás, por quê?

— Porque você sou eu!

— Será mesmo? Encoste sua mão no espelho. — o Doutor obedeceu — Agora me diga: o que você está vendo?

— Minha mão esquerda encostando-se à sua... — ele parou de falar subitamente enquanto olhava perplexo para o Rotuod.

— Parece que você já entendeu... — disse apontando para o Doutor — Você não sou eu! Eu não sou você! Será que você poderia entender isso?

Por um momento o Doutor abaixou o espelho, ele suava frio, parecia extremamente nervoso, nunca tivera essa conversa antes consigo mesmo, olhou para o pote laranja onde estava escrito “Coma-me” e engoliu mais um comprimido. Então a voz do Rotuod, que era igual a sua ressurgiu.

— Poderia me levantar? Não me sinto bem quando não estou refletindo você...

— Pare de falar comigo! Você quer me enlouquecer? — ele gritou apertando o espelho contra a mesa.

— Ei! Assim você vai quebrar minha janela! Tudo bem, eu paro de perturba-lo! Vamos voltar a discutir o caso!

— Você promete não me incomodar mais? — o Doutor ergueu o espelho e olhou profundamente os olhos do Rotuod.

— Sim, eu prometo! Você narrava a vida da Existência antes de chegar ao Sanatório...

— Certo... Agora temos um abismo nas anotações, da procura por seu imaginador ela pula para o suicídio imaginando que a morte a levaria de volta ao criador.

— Onde foi que eu já vi esse pensamento?

— É um pensamento difundido na maioria das religiões, a promessa da imortalidade da alma e do reencontro com um deus criador é o que move a maioria das crenças.

— Então podemos dizer que ela entrou num estado de beatice por uma ideologia platônica?

— De fato, no seu apartamento foram encontrados muitos livros sobre as escolas filosóficas gregas e as partes dobre o mundo das ideias eram as que mais estavam sublinhadas e comentadas.

— Não me lembro de nenhum desses comentários...

— Isso porque as informações que recebemos sobre isso pararam por aqui. Depois disso o relatório sobre a tentativa de suicídio acaba e começam as anotações pós-internamento.

— Então diga como andam nossas investigações.

— Nós aprendemos que ela adorava brincar com uma boneca, não uma boneca qualquer, a mesma boneca sempre, mas possivelmente não consegue descreve-la o que é refletido na esquiva que ela faz quando toco no assunto.

— Por favor, não use a expressão refletido perto de mim...

— Essa boneca é a sua melhor amiga e supostamente a única, assim não fica claro se ela se trata realmente de uma boneca, ou é uma amiga viva, um familiar morto para com o qual ela possuía muito afeto ou se era um simples amigo imaginário decorrente do ainda inexplicável isolamento social durante a infância.

— Isso é o que sabíamos antes de hoje, certo?

— Sim... — ele fez uma pausa e virou a página — Hoje nós descobrimos que de fato a Existência conhecia outras pessoas, mas estas não lhe davam atenção e provavelmente o isolamento e o possível amigo imaginário originaram uma crise existencial que por sua vez levou a garota a acreditar que era uma projeção de um desconhecido.

O Doutor e o seu reflexo, Rotuod, passaram um tempo analisando as anotações até que uma voz arranhada interrompeu seu raciocínio.

— Se maquiando, viadinho enrustido? Por que sempre que eu chego aqui você está olhando para esse espelho de merda? Eu posso estar preso aqui dentro, ter que frequentar essa porcaria de sala e me consultar com um doutor boiola, mas isso não significa que você tem alguma chance comigo!

— Acho melhor eu tomar mais um comprimido... — Rotuod suspirou fingindo ser o Doutor.

Notas finais
Então foi isso pessoal,

Obrigado por lerem, ficaria ainda mais feliz se comentassem!

Gostaram do Rotuod? Quem sabe o nome dos comprimidos que o Doutor está tomando? Alguém pode citar as referências que eu coloquei? Aquele que acertar o maior número de referências receberá uma propaganda da fic que desejar! (não que isso seja grande coisa...)

Lembrando que essa não é minha fic principal, então não esperem muita rapidez nas postagens... Desculpem-me!

Até o futuro,
Sir Death.