Sanatório

3 Capítulo 3: Papas na língua


Notas iniciais
Olá pessoal, dessa vez eu não prestei atenção em como eu escrevi esse capítulo, mas não acho que foi durante alguma aula...

Acho que isso já está virando tradição, então hoje teremos a apresentação de mais uma personagem, mas uma mulher...

O Doutor está no Sanatório ou num harém? Talvez os dois, sei lá... Brincadeira, é um sanatório mesmo...

Esse talvez seja um capítulo de reflexão para a maioria de vocês, pode ser (ou não) uma visão exagerada do mundo, mas não a tenham como mentira só porque não querem aceitá-la...

De qualquer jeito, boa leitura,
Sir Death.

~ Papas na língua ~

— Pelo visto agora é a hora da sua consulta diária...

— Não que eu esteja feliz com isso — a mulher de uns trinta anos avançou descalça pelo frio, porém confortável chão acolchoado da sala — Então vamos logo com isso, seu viado, quero logo voltar para a minha sala, onde poderei gastar o resto dos meus dias olhando essas paredes vazias enquanto penso em diversas formas de humilhar os malditos humanos que desperdiçam suas vidas consigo mesmos em vez de estarem me louvando!

— Certo, certo, poupe-me desse seu egocentrismo, Inibição. — o Doutor realmente se sentia um pouco desconfortável com as atitudes daquela mulher, mas trabalho é trabalho.

— Egocentrismo? Do que está falando, seu macaco depilado? — ela bateu as mãos na mesa fazendo bastante barulho — Aliás, por que eu tenho que perder meu tempo como você?

— Você poderia ser um pouco mais... Feminina?

— O que você quer dizer com isso? Quer que eu te obedeça como uma escrava? Por acaso você quer que eu me ajoelhe diante de você e abocanhe o que você tem entre as pernas? Se é que você tem isso!

O Doutor se assustou com a reação dela, ele se afastou um pouco da mesa arrastando a cadeira. Ele suava enquanto a mulher parecia fuzila-lo com os olhos. Inibição, aquela era de longe a paciente com quem mais sentia dificuldade de conversar, sua própria aparência era autoritária. Alta, um metro e oitenta e cinco centímetros, mais alta que o Doutor. Elegante, sua postura daria inveja a qualquer Miranda Priestly da vida. Bonita, um pouco mais morena do que a Existência, pele macia e livre de qualquer marca do tempo, cabelos negros, longos e lisos, um olhar penetrante e igualmente preto. Atraente, curvas bem definidas, seios fartos, cintura fina... Suas medidas: 95, 55, 85. Era o centro das atenções por onde passava.

A dificuldade em examinar a Inibição fazia o Doutor adotar uma outra técnica, na verdade nem era ele quem adotava. Sempre que se sentia pressionado, ele erguia o espelho em um ângulo pequeno e deixava que Rotuod prosseguisse com a consulta.

E dessa vez não foi diferente.

— Você pode calar essa boca? — Rotuod gritou e surpreendeu a mulher.

— Ora, quem você pensa... — ela parecia inconformada com a atitude de quem achava ser o Doutor.

— Escute — ele interrompeu e começou um tom mais calmo — Acho que não medi minhas palavras algumas falas atrás...

— Isso mesmo... O que você quis dizer com “mais feminina”?

— Desculpe-me por isso, errei a palavra, acho que eu deveria pedir para você ser mais humana!

— Com humana eu suponho que você queira que eu meça cuidadosamente o que vou falar e não insulte de forma alguma o seu jeito abaitolado de ser...

— É justamente isso que eu quero dizer!

— Que você é um viado? Finalmente resolveu sair do armário?

— NÃO!

— Então vai continuar escondendo isso?

— NÂO!

— Então você assume que é?

— Pode parar com isso? — ele realmente se irritava com a personalidade dela. — Escute, eu quero exatamente que você respeite as outras pessoas, apenas isso!

— Então você quer que eu abdique da minha liberdade para não ofender essas pessoas que eu não conheço e com quem nem me importo? Por que exatamente eu faria isso?

— Porque nós vivemos em uma sociedade! Você ao menos sabe o que isso significa?

— É lógico que eu sei, seu macaco imbecil! Mas eu nunca pedi para entrar nela! Fui criada pelos meus pais, eles me disseram o que é certo, o que é errado, a quem rezar, no que acreditar, o que comer, o que beber, o que ler, o que estudar, o que assistir, o que ouvir! TUDO! E por um bom tempo eu fiz o que me disseram ser certo, repudiei o que era errado, rezei para um ser imaginário, acreditei veemente nele, comi o que me deram, bebi o que me serviram, li o que me davam para ler e ouvi o que devia ouvir! Em nenhum momento pude escolher o que queria! Nunca me perguntaram se aquelas eram as virtudes que levariam ao MEU bem! Nunca me ensinaram que havia escolhas!

Rotuod ouviu a tudo calado, não sabia o que responder, na verdade sabia que não havia resposta, aquilo era o que acontecia com quase todos os humanos. Inibição parecia não precisar tomar fôlego para falar e simplesmente continuou seu grito por liberdade.

— Foi então que no ensino médio eu fui apresentada às ciências sociais, li livros que nunca soube que existiam, conheci culturas que sabia que existiam, mas que sempre me fizeram acreditar que eram inferiores ou simplesmente erradas. Conheci pensadores esclarecidos que até podiam discordar entre si, mas que nunca pareciam errados. Percebi, então, que essa estranha situação de poder discordar e não estar nem certo nem errado poderia ser aplicado a qualquer coisa. Aprendi que tudo, absolutamente tudo, poderia ser interpretado de diferentes formas se visto por diferentes ângulos!

Até aquele momento ela estava bastante exaltada, sua voz era predominantemente apelativa, parecia, e com razão, de acordo com Rotuod, inconformada com toda aquela situação. Mas depois desse último desabafo ela pareceu se acalmar mais.

— Então o que você acha que aconteceu comigo? Tudo o que eu sabia foi rapidamente desmentido! Nada parecia fazer sentido! Nada parecia ser certo ou errado! Como agir? Como ser virtuosa se não se sabe o que é o bem? Então eu percebi que não precisava, percebi que era livre para ser quem eu quisesse, para crer no que achasse certo, porque certo e errado são conceitos tão subjetivos quanto o gosto musical...

— Você está dizendo que a base da sociedade, sua moral, seus costumes não significam absolutamente nada? — O Rotuod finalmente encontrou uma brecha por onde poderia se inserir na conversa.

— Não exatamente, de uma forma geral, a cultura de uma sociedade tem um significado absoluto para ela, mas isso só é válido dentro do seu pequeno intervalo no espaço-tempo. Individualmente, por outro lado, a moral e a própria ética não podem existir, não há nada de legítimo na virtude de um indivíduo longe da sua sociedade.

— Então o que separa o individual do coletivo?

— A liberdade, a liberdade como direito intrínseco do homem lhe é retirada no momento em que ele é iniciado em uma sociedade, o que muitas vezes acontece quando ele ainda nem sabe que tem liberdade. Minha principal crítica e principal exemplo é a doutrinação de crianças. Fazer uma criança acreditar em um deus é tão fácil quanto fazê-la acreditar num super-herói, a diferença é que normalmente são apresentados muitos heróis e apenas um deus, assim é muito mais difícil haver uma verdadeira liberdade religiosa dentro de uma sociedade. Por outro lado a apresentação de vários panteões é considerada perigosa. E se a criança escolher a crença errada?

— E se alguém escolher a crença errada? — ele repetiu a pergunta, estava curioso.

— Individualmente falando, nada. Mas para a sociedade ele se tornaria um pária e os indivíduos de uma sociedade tendem a proteger seus membros. Então todo homem é livre por natureza, mas todo homem é também escravo da sociedade por nascimento.

— E onde seu egocentrismo entra nessa história?

— Com egocentrismo você se refere a minha superioridade diante dos macacos da sociedade?

— Digamos que de certa forma sim, é isso que eu quero dizer.

— Eu entendo que é difícil para os menos inteligentes perceber minha superioridade, mas ela é um fato, é inquestionável...

— Mas você não disse que tudo depende do ponto de vista?

— Disse, e é por isso que afirmo que sou superior aos demais, porque eu entendo minha individualidade, eu me sinto livre da sociedade e, portanto, posso adotar meu ponto de vista como o verdadeiro, porque, estando livre da sociedade, eu posso criar minhas leis, minha moral e minha ética.

— E quanto às outras pessoas? O que acontece com elas?

— Eu quero que elas se fodam! Esses vermes não merecem nem mesmo me olhar! Eles que fiquem com sua sociedadezinha hipócrita e degenerada... Democracias? Nenhuma democracia é mais do que uma fétida Oligarquia. Res-pública? Eu diria que todas não passam de Res-burgos...

— Você não acha que está sendo muito radical? Como pretendia se manter estando fora da sociedade?

— Eu não pretendia me manter, como uma mente superior eu facilmente me ergueria até os postos mais altos da sociedade e de lá poderia rir de tudo e de todos, sem ser julgada, completamente livre!

Rotuod anotou algumas palavras em outro bloco de notas e olhou para o relógio já haviam se passado mais de uma hora.

— Inibição, nosso tempo acabou, já está na hora de você voltar para o seu quarto...

— Não fique triste, macaco pelado, eu sei que você me idolatra e sentirá minha falta, mas amanhã eu volto para tentar iluminar a sua mente pouco desenvolvida...

— Muito engraçada, Inibição, mas você já pode se retirar...

O Doutor abaixou o espelho e pegou mais um comprimido.

Notas finais
Como aviso extra eu quero lembrar que não estou atacando diretamente ou intencionalmente nenhum grupo minoritário, minhas críticas são mais gerais, direcionadas à sociedade como um todo.

E não me venham com mimimi, se quiserem podem até vir, mas não vou levantar um dedo para rebater isso.

Mais uma vez eu irei perguntar: quantas referências vocês conseguiram encontrar aqui?

Encerrando, obrigado por lerem e até o próximo capítulo,
Sir Death.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.