Sanatório

1 Capítulo 1: O Papel


Notas iniciais
Então pessoal, esse é o primeiro capítulo, nascido numa aula de geografia e influenciado pela mente insana desse que vos escreve.

É um capítulo mais leve, apenas para apresentar dois personagens e as condições gerais do ambiente da história.

Espero que gostem!

Boa leitura,
Sir Death.

~ O Papel ~


— Agora me diga: o que você está vendo?

O Doutor fazia exatamente o que mais gostava de fazer, examinava atenciosamente seus pacientes e com uma calma invejável dentro do seu ramo. De fato ele se divertia bastante com aquilo.

A paciente da vez era a sua preferida, sua queridinha, a única alegre dentre os cinco que frequentavam sua sala, a única que vinha espontaneamente e a única que ele tratava como uma filha, Existência.

Do mesmo jeito que todos naquele lugar, ela perdera seu nome, o que restou da sua identidade foi apenas um apelido, apelido de mau gosto. Estava bordado na sua camisa branca e escrito na plaquinha ao lado da porta do seu quarto, Existência.

De qualquer maneira, nomes não são necessários nesse lugar, segundo seus próprios funcionários. Não aqui, não longe da sociedade imunda, segundo seus pacientes. Porque aqui não é um lugar depravado onde as pessoas precisam de um nome artificial para se acharem importantes. Porque aqui ninguém era importante. Porque aqui todos são importantes. Porque aqui todos estão seguros longe da Sociedade. Todos aqui estão no Sanatório. Ou seria melhor dizer que todos aqui estão fora do sanatório?

Existência era uma jovem linda, com uma aparência frágil, com olhos verdes, vivos (diferentes dos da maioria dos humanos na sua idade, zumbis do capitalismo), cabelos ruivos, brilhantes, longos e lisos, porém um tanto enrolados nas pontas, e com uma pele tão clara que seria quase impossível distingui-la da roupa se não estivesse enferrujada por inúmeras e charmosas sardas.

Com sua voz meiga de uma jovem adulta de dezenove anos bem vividos, vividos longe da poluição moral da sociedade, ela respondeu ao Doutor:

— Você vê uma garotinha ruiva em um vestido branco até os joelhos, sentada no chão.

O Doutor recebeu aquela informação com certa indiferença, nenhuma novidade. Com suas mãos ele segurava um papel em branco, a verdadeira forma de saber o que pacientes então pensando, não gostava dos outros métodos, preferia essa maneira mais lenta, porém mais efetiva.

— Eu não quero saber o que eu estou vendo, aliás, como você pode afirmar que estou vendo isso?

— Porque eu não passo de uma exteriorização do seu subconsciente, o que você vê é o que está vendo. Meu papel é apenas ser o interlocutor nesse monólogo.

— Então o que você vê é o que eu vejo?

— Não. — ela disse rispidamente.

— Então o quê? — ele olhava fixamente os olhos daquela garota, era isso que ela era aos seus olhos, uma garotinhas que crescera demais.

— Eu não vejo, você vê. Eu só posso dizer o que você vê.

— Porque você sou eu?

— Negativo. — ela disse sorrindo calorosamente — Eu sou seu subconsciente, você é você, você é o consciente.

O diálogo de sempre continuava inalterado, a Existência continuava achando que não era nada mais do que uma invenção da mente do Doutor. Vendo que nada de novo apareceria nessa conversa, ele resolveu retomar o exame original, dessa vez sem estimula-la.

— Tudo bem, continue me dizendo o que eu vejo.

— Você vê uma garotinha ruiva em um vestido branco até os joelhos, sentada no chão.

— Certo, isso eu já me disse... O que ela está fazendo? — continuou enquanto esfregava a barba.

— Ela está brincando com uma boneca... — ela respondeu olhando fixamente a brancura do papel — Você já devia saber isso!

— Sim, sim, eu já sabia — disse enquanto colocava a folha num apoio metálico — Você sabe que eu sei, digamos que eu não sei o que eu sei e por isso preciso da sua ajuda...

— Então não seria melhor perguntar ao inconsciente? — ela retrucou.

— Agora você que esta se fazendo de desentendida, você sabe que eu não me dou bem com ele — inventou a desculpa de sempre — por isso eu pergunto a você, minha preciosa Existência.

— Eu já disse que não gosto quando te chamas assim!

— Desculpe, desculpe, eu sempre me esqueço disso! Apenas continue, minha querida: ela tem uma boneca, como é esse brinquedo?

— Ela não tem uma boneca!

— Não? Mas você... Eu a vejo brincando com uma boneca...

— Não seja falacioso, a ideia de posse não existe em relações interpessoais, a não ser que o seu inconsciente ainda considere a escravidão algo legítimo...

— Não! Eu tenho certeza que ele não pensa mais assim!

— Como você pode ter certeza? O consciente dificilmente se comunica com o seu in.

— De toda forma, eu me peço desculpas...

— Aceitas.

— Pensando melhor, se a relação de posse não existe entre pessoas, por que eu não posso dizer que a boneca pertence à garota?

— Porque ela é a sua melhor amiga, sua única amiga! Você consideraria seu melhor amigo algo menos do que uma pessoa à sua imagem e semelhança?

— De forma alguma!

— Então não repita mais isso!

— Em todo caso, como é essa boneca?

— Ora, é uma bonequinha de porcelana qualquer...

— Nenhuma característica notável?

— Bem, você sabe, ela está descalça... Ela e a garota...

— E isso é importante?

— Não sei, você é o Doutor...

Ele deu uma revisada em suas anotações e confirmou suas suspeitas, nada de novo, apenas a mesma conversa de meses de consultas, meses sem nenhum progresso significativo! O Doutor coçou novamente a barba e já iria se preparar para finalizar o exame, mas subitamente a voz exaltada e ainda meiga da Existência interrompeu seu raciocínio.

— Espera! Mais algumas pessoas estão se aproximando! — ela disse enquanto apontava fervorosamente para o papel em branco.

— Pessoas? Quem são? Ela as conhece? — o Doutor perguntou surpreso, enfim uma novidade.

— Sim, sim, ela as conhece, de fato ela as conhece. Você diria “elas”, tanto a garota quanto a boneca as conhecem.

— Então! — ele parecia um tanto enérgico para a situação, afinal não era sempre que havia alguma novidade no caso da Existência — O que está acontecendo?

— Nada demais, as pessoas continuam andando e a garotinha continua brincando com a boneca...

— Mas a garotinha as conhecia... — ele fez uma pausa, incrédulo, então perguntou — As pessoas conheciam a garotinha?

— Sim, você tem certeza de que elas conheciam tanto a garotinha quanto a boneca...

— Então por quê?

— Porque diferentemente de você as pessoas não costumam conversar com seu subconsciente ou com o inconsciente...

— Então foi isso?

— Não está claro? Para você está completamente claro que isso é o mais aceitável.

Ele confirmou com a cabeça.

Fez-se um silêncio prolongado. Por longos três minutos, o Doutor simplesmente observava a Existência esperando qualquer novidade, ela simplesmente olhava o papel em branco com um sorriso meigo e paciente, e o papel, bem, o papel simplesmente permaneceu em branco.

Notas finais
Obrigado pela leitura!
Como essa não é minha história principal, eu não posso garantir um padrão na data das postagens, pois eu não tenho como reservar um tempo hábil para escreve-la.

Até outro capítulo,
Sir Death.

P.s. quase me esquecia! Comentem se gostaram desse primeiro capítulo.