Sams Town
5 Sonhos
Chegaram a uma casa que não era muito diferente das outras. De tábuas de madeira, essas mais escuras, estacionaram o carro em frente à sacada da residência e, tomando todo o cuidado de acionar alarmes e trancar as portas – por mais que Sam tivesse alguma admiração por aquela cidade, ainda não estava totalmente convencido de que aquele era um lugar seguro -, eles deixaram o automóvel e se dirigiram para a entrada do local. Havia uma brisa fria correndo pelas ruas naquela noite, o que tornou o braço que envolveu Quinn pela cintura num abraço algo bem confortável e muito bem vindo. Caminhando, ela pousou a cabeça no ombro de Sam. Em frente à porta, ele teve que soltá-la para poder tocar a campainha. Como não a encontrou, fechou o punho e bateu três vezes na porta.
- Estou apreensiva – Quinn disse com um sorriso nervoso. Achava que, se expressasse seu sentimento, ele diminuiria de intensidade. Não foi bem o que aconteceu.
Segundos depois, um homem surgiu à porta. Era bem idoso, coisa que era perceptível pelas marcas no seu rosto, que eram inúmeras, e olhos já cansados, de quem já viu muita coisa na vida e já não consegue mais mantê-los totalmente abertos. Era baixo, ou apenas encurvado demais. Usava roupas antigas, talvez de quarenta ou cinquenta anos atrás, já bem surradas, e o orgulho com que se apresentou, mesmo estando desse jeito, fez parecer que se sentia muito bem sobre sua condição. Talvez isso explicasse o porquê de apenas os seus familiares terem deixado a casa para irem em busca dos “atrativos da cidade grande”.
- Pois não? – ele disse com uma voz pesada, rouca. Os dentes amarelados só vieram para confirmar o que Quinn já suspeitava: ele fumava.
- Meu nome é Sam Evans e essa aqui é a minha namorada, Quinn Fabray – Sam tomou partido, dando um passo à frente e apertando a mão do homem que não parecia confortável o bastante para fazer o mesmo com a mesma força.
Namorada...?, Quinn observou em pensamento. Sorriu discretamente, surpresa.
- Certo. Vocês não são daqui, são? – o homem tornou a perguntar.
- Não, não somos.
- Me desculpem a pergunta, mas é que a memória já não é mais a mesma há algum tempo... – ele disse, levando o indicador à têmpora. – Entrem.
Sam e Quinn seguiram o senhor pela abertura da porta, que levava a um ambiente bem escuro, mas não antes de Sam abrir espaço para que Quinn entrasse primeiro. Ela agradeceu, embora estivesse acanhada demais sobre a situação.
- Não acendi os lampiões essa noite – o senhor disse em tom de desculpa. – Não achei que fosse ter visitas, portanto, não pensei que fosse precisar de iluminação.
- Desculpe-nos o incômodo, senhor...?
- Bill. Podem me chamar apenas de Bill.
- Senhor Bill.
- Isso. Mas não é um incômodo – Bill disse e Sam pensou tê-lo visto abanar a mão no ar, como se dissesse “Deixe disso, meu jovem!”. – Tenho poucas visitas nesse lugar, ainda mais por morar tão no centro de Sam’s Town, mas, quando tenho uma, ela costuma ser inesquecível. Gosto de visitas. Elas sempre significam uma história nova para conhecer.
- Concordo com o senhor.
- Estão em busca de um lugar para ficar?
- Sim, se não for atrapalhar.
Aqui não, aqui não!, Quinn pensava enquanto mordia com fúria o lábio inferior. Ela não estava gostando daquele lugar. O chão rangia conforme eles andavam. A iluminação só vinha de lampiões que, a muito custo, usando aquelas mãos que tremiam demais para que a tarefa fosse feita com rapidez, o homem acendia com fósforos. Se já não bastasse tudo isso, o cheiro do lugar... Ela não sabia dizer se aquele era o cheiro natural de uma casa de madeira bem cuidada ou se era de coisa velha, principalmente daqueles móveis e sofás com estofados já bem antigos, então, por via das dúvidas, se incomodava também com aquele cheiro. E a presença do Sr. Bill...
- Tenho muitos quartos – Bill continuou a dizer. – Antigamente, eles eram usados pelos membros da família, que é muito grande. Mas meus filhos se casaram e construíram suas próprias casas em Sam’s Town, casas essas que hoje são usadas como local de férias. Agora, eles moram na cidade grande, bem longe daqui, longe de qualquer lembrança que um dia eu possa ter tido. Não tenho interesse em conhecer esses lugares. Vocês não podem me julgar, levando em conta que são as cidades as principais culpadas por separar as pessoas.
Ou por uni-las, Quinn pensou e olhou de relance para Sam, que parecia bastante focado no que o homem dizia.
- Eu poderia cobrar de vocês pela estadia...
- Podemos pagar, Sr. Bill, é só dizer quanto custa...
-... mas não vou.
Quinn franziu o cenho. Sam fez o mesmo.
- Gostei de vocês – disse Bill com o que Quinn imaginou que fosse um sorriso. – Não são muitos os jovens como vocês, que exalam juventude, que pensam em vir para um lugar tão longe como esse apenas para tirar férias. Eu admiro esse espírito aventureiro. Um dia eu também fui assim.
Quinn, inspirada pelo discurso do homem, abraçou o braço de Sam e começou a acariciá-lo com o dedão. De repente, se sentiu feliz por estar ali.
- Escolham o quarto que preferirem no andar de cima. Há um corredor com pelo menos dez deles. Eu costumo dormir aqui embaixo, porque subir as escadas é um negócio que tem me feito me sentir bastante cansado ultimamente... Mas hoje, quem sabe?, eu vou abrir uma exceção e ajudá-los com as suas bagagens...
- Não é necessário, Sr. Bill!
-... A Judith tem limpado lá em cima com frequência, então acho que vocês não vão ter problema com higiene e essas coisas – Bill prosseguiu, como se ignorasse a fala de Sam.
Ao terminar, Bill acendeu o último lampião em sua sala que, agora Quinn podia ver, era bem bonita na verdade, com os móveis antigos bem posicionados, quadros, lareira e papel de parede florido muito bem escolhido. Era um lugar em que muitas horas poderiam ser gastas, sem sombra de dúvida.
- Espero que gostem da estadia – disse o senhor, novamente sorrindo. – As pessoas por aqui podem parecer ríspidas ou sérias demais, mas, na verdade, são bem legais. Só escondem isso para não parecerem fracas. Vocês ainda vão gostar muito desse lugar.
- Tenho certeza que sim – Quinn disse pela primeira vez.
~//~
Quinn ficou sozinha no quarto por algum tempo, enquanto Sam e Bill traziam as bagagens. Não que ela não tivesse ajudado, pois o que havia de mais leve ela já tinha trazido. Durante esse tempo, então, ficou a observar o ambiente, se surpreendendo a cada novo detalhe que encontrava. Era incrível como cidades pequenas como aquelas, quase que sem nenhum tipo de intervenção moderna, costumavam ser incríveis. Quinn viajava nas histórias dos quadros e tapeçarias nas paredes, nos desenhos das louças, nas fotografias pousadas de maneira organizada em móveis de madeira que já deviam ter sido confeccionados há muito, muito tempo.
No quarto também havia uma pequena varanda, mas ela também era incrível. Apesar de ser um espaço onde caberiam no máximo quatro pessoas lado a lado, a vista a partir dela, apesar de não ser muito alta, era maravilhosa. Por sobre a casa que ficava à frente, o céu estrelado, com aqueles milhões de estrelas jamais vistos em outro lugar, pareciam de mentira de tão bonitos. No horizonte, também era possível divisar a paisagem meio desértica que margeava a cidade e a estrada que levava até ela. Quanta coisa já não devia ter acontecido naquele lugar, Quinn se perguntava, fascinada.
Assim que a última bagagem foi trazida, Quinn ouviu Sam agradecer ao Sr. Bill. Depois disso, ele fechou a porta do quarto – trancando-a – e, sem qualquer delonga, puxou Quinn para si, enchendo-a de beijos instantaneamente. Quinn se sentiu excitada de um momento para o outro. Quando menos puderam perceber, os dois faziam amor, nus diante do olhar de milhões de estrelas que os assistiam através da abertura da varanda, que fora esquecida aberta por Quinn.
Sam a beijava incontáveis vezes enquanto entrava e saía do corpo da mulher num ritmo que, para ela, era perfeito. O ato estava tão cheio de sentimentos que, para Quinn, significava a mais pura felicidade. Fazer amor com Sam era algo que, agora ela descobria, ela simplesmente amava fazer, porque a completava, porque a deixava com aquela sensação prazerosa de alegria, de estar à beira da felicidade. Quando terminaram, ficaram lado a lado, como costumavam ficar, e, deitados ainda nus, ficaram a observar as estrelas, mais uma vez encantados com tão grande beleza.
- Qual é o seu maior sonho, Q? – Sam perguntou, rompendo o silêncio.
- Não sei – ela respondeu de primeira. Parou para refletir um pouco, os olhos voltados para o céu, como se nele procurasse a resposta, e então disse: — Quero fazer algo de importante.
- Algo de importante? – Sam repetiu.
- É. Quem sabe escrever um livro que influencie as pessoas a pensar da maneira correta ou que pelo menos as ajude a encontrar seus caminhos? A vida é um dom tão precioso para que a gente gaste fazendo aquilo que não gostamos. Devíamos ser felizes desde o começo, vivendo como sempre quisemos viver e do lado de quem mais gostamos ficar.
Sam virou-se para contemplar o rosto de Quinn. Ela virou-se exatamente no mesmo instante, voltando aqueles olhos claros tão belos na direção dos do rapaz.
- Isso quer dizer que, agora, sou a pessoa mais feliz do mundo, Sam. Estar ao seu lado, para mim, é o que mais importa. É o que me deixa feliz.
Sam sorriu, demonstrando claramente o quanto estava alegre por ouvir aquilo.
- E os seus sonhos, Sam? O que se passa nessa sua cabeça linda quando você pensa no seu futuro?
Sam virou-se para o céu e então seu rosto tomou uma expressão séria. Ele refletia. Não que aquele fosse um assunto no qual ele não tivesse pensado ainda. O problema era que, naquela situação, ele tentava encontrar o melhor jeito de expor esse sonho, sem fazer parecer que era um louco por ter uma vontade tão importante quanto àquela. É claro que Quinn entenderia assim que ele a dissesse. O problema seria ela entender, mas não aceitar.
E essa era uma hipótese que fazia Sam estremecer sobre a possibilidade de expressar o que realmente sonhava.
- Ficar ao seu lado também me faz muito feliz – ele começou dizendo. – Mas às vezes tenho a impressão de que é a única coisa que me faz feliz. Nada mais faz sentido sem você, Quinn, nem o meu trabalho medíocre, nem a minha casa simples, nem as amizades que eu tenho... Nada faz sentido. Você é a pessoa que me mantém no lugar onde eu devia estar. É a mulher responsável por tornar meus dias mais alegres e a minha rotina, mais perfeita.
- Uau – disse Quinn realmente comovida por ouvir aquilo. – Isso é lindo de ouvir. Mesmo assim, você não respondeu a minha pergunta. Qual é o seu maior sonho, Sam?
Sam virou-se para Quinn e, causando ainda mais impacto justamente por ter decidido usar seus olhos azuis tão bonitos para transparecer ainda mais sentimento, disse:
- O meu maior sonho é me casar com você, Quinn.
Quinn arregalou os olhos momentaneamente e então engoliu em seco, sem saber o que dizer.
- E, se for possível, casar aqui, em Sam’s Town, longe da influência de qualquer pessoa que possa querer tornar esse relacionamento impossível.
Quinn continuou em silêncio. Isso pareceu incomodar e muito o rapaz, que esperava alguma resposta sobre o seu pedido de casamento. Isso não pode ser verdade!, era o que ela pensava enquanto seus olhos tremulavam por toda a extensão do corpo do rapaz. Assim, tão de repente? Não pode ser real. Isso é algum tipo de piada?
Sam deslizou a mão pelo corpo da mulher até atingir sua mão. Segurando-a com carinho, entrelaçando seus dedos nos dela, finalizou:
- Se a sua resposta for não... Será que eu posso fazer com que mude de ideia?
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