Sams Town
6 Viajantes
Eles foram dormir e a resposta que Sam esperava de Quinn ainda não tinha vindo.
Ele se lembrava de, na madrugada, tê-la observado por muitos minutos, tantos que não conseguia dizer quantos, e então ela se levantou e foi até o banheiro. Ficou lá por mais algum tempo – muito tempo. Sam, deitado, concluiu que ela precisava dessa pausa para pensar no seu pedido, e talvez por isso tivesse ido ao banheiro. Decidiu, então, que a esperaria ali até o momento que saísse com a resposta que ele procurava, por isso permaneceu deitado. Adormeceu minutos depois, já não mais conseguindo controlar seu corpo. Teve uma noite excelente de sono, o que significa que só acordou na manhã seguinte com o calor e o sol forte da manhã de uma cidade sem prédios entrando pela porta da varanda. Quinn estava lá.
Apoiada no beiral da varanda, ela fitava Sam’s Town acontecer lá fora em silêncio. O vento de um dia de verão sacudia seus cabelos louros com leveza, fazendo o mesmo com a leve camisola que ele não se lembrava de tê-la visto vesti-la. Sam pensou em se levantar e abraçá-la por trás, como já fizera várias vezes desde o dia em que se reencontraram, mas desconsiderou a ideia. De alguma forma, imaginava que ela ainda precisava do seu tempo para pensar, e um abraço, partido dele, não ajudaria em muita coisa em momentos como aqueles.
O que ele não sabia era que Quinn parara de pensar no casamento há muito tempo. Quando saíra do banheiro na madrugada, depois de um pouco chorar, sem saber dizer se pela emoção de ser pedida em casamento ou porque considerava a ideia de dizer não ao seu amado, ela estava disposta a dizer que essa era uma decisão que não podia – e não precisava – tomar naquele dia. Ou ele pensava mesmo que era uma boa ideia se casar num lugar como aquele, remoto e tão distante de qualquer amigos ou familiares que eles pudessem ter? Ela até tinha vontade de se casar – E quem não tem? -, mas não naquele dia e não agora que já tomara algumas dúzias de decisões importantes que começaram no momento em que ela voltou a se encontrar Sam, na festa de confraternização da empresa em que trabalhava. Decidira deixar o evento para fazer amor com o homem da sua vida e, em seguida, aceitara deixar seu emprego para se aventurar numa viagem cujo destino era incerto. Isso já era o bastante para Quinn, mas, pelo visto, não para Sam.
Contudo, assim que rompeu pela porta do banheiro, já com o rosto recomposto, sem qualquer sinal de que andara chorando, ele não estava mais lá. Quer dizer, seu corpo estava ali, mas sua mente não, já que ele dormia tão profundamente. Então Quinn guardou para si todas as palavras que tinha para dizer e apenas se deitou ao lado de Sam, achando que, naquela noite, não conseguiria dormir. Durante a primeira hora, ela quase se convenceu de que aquelas seriam várias horas que passariam diante dos seus olhos em claro, mas, quando menos pôde perceber, adormeceu. Acordou horas depois com o mesmo calor e claridade que acordara Sam uma hora depois. Levantou-se e quis verificar a vista da varanda, que para ela tinha sido muito bonita até ali.
Quinn não tinha pretensão de voltar a pensar no pedido de casamento, até porque remoer assuntos era algo com o qual ela não estava acostumada. Sempre tomara decisões precisas e rápidas durante a sua vida, por isso que ficar pensando em assuntos de maneira demorada a incomodava tanto. Olhar a paisagem da varanda, então, era uma excelente maneira de se esquecer das conversas da madrugada, quando ela e Sam ficaram a olhar as estrelas e a confessar sonhos. Por um tempo, essa tática funcionou. No entanto, momentos depois, Quinn se deparou pensando em algo que, até aquele dia, não voltara a entrar na sua mente.
Havia uma criança brincando lá embaixo na rua. Era uma menina, também de cabelos louros, mas de olhos tão azuis que, à distância, pareciam duas pequenas safiras coladas em um rosto tão angelical. Estava vestida num vestido que devia ser a junção de outros cinco, coisa que era facilmente perceptível porque ali havia pelo menos cinco outras cores de tecidos emendadas. Ela estava sentada na areia enquanto usava o indicador para fazer desenhos que só eram compreensíveis por ela – ou talvez apenas achasse engraçada a forma como a areia caía para os lados quando seu dedo passava por ela. Parecia estar se divertindo bastante, apesar de estar sozinha. Quinn, de repente, deparou-se gostando da garota.
Beth deve ter a idade dessa menina, pensou e sorriu de lado, sem perceber. Inclusive, devem ser muito parecidas, principalmente por causa dos olhos claros...
Uau. Faz tempo que não vejo Beth.
Quinn franziu o cenho e mordeu o lábio. Será que eu seria capaz de ter outro filho? Com Sam?
Passou a mão no rosto e esfregou-o como se faz ao lavá-lo. Ao voltar a olhar a menina lá embaixo, ela já tinha mudado de posição, cansada daquela brincadeira na areia. Agora, brincava com uma boneca feia de pano que Quinn não se lembrava de ter visto antes.
Por que estou pensando nisso de novo?, perguntou-se em pensamento. Casar já é uma decisão importante, mas por que estou pensando em ter filhos novamente? Beth foi um erro meu e de Puck, e, desde aquela época, eu sempre fui nova demais para ter filhos. Nem agora acho que tenho idade suficiente para isso. Por que, então, estou considerando a ideia de ter filhos com o Sam? Por quê?
- Porque eu o amo – ela respondeu em voz baixa, mas alto o suficiente para que a menina lá embaixo virasse o rosto para cima para se certificar do que poderia significar aquela voz.
A garotinha acenou para Quinn com um sorriso que revelou que faltavam alguns dentes na sua boca, talvez porque ela estivesse na época dos dentes de leite. Quinn acenou de volta e sorriu também, totalmente contagiada pela felicidade da menina.
E Sam, agora cordado, viu esse gesto. Aproveitou essa deixa, imaginando que Quinn estava bem o suficiente para voltar a tratar do assunto proposto por ele sem fazer qualquer tipo de evasiva, como fizera durante a madrugada, ele se levantou e caminhou até ela, mas não antes de se vestir pelo menos com o roupão que estivera pendurado na cabeceira da cama.
- O dia está mesmo lindo – ele disse a Quinn, apoiando-se também no beiral da varanda.
- É... – foi o que sua amada disse em resposta.
Sam fez uma careta de desgosto. Esperava que com aquela história de dia bonito conseguisse fazer com que Quinn sorrisse e começasse a conversar. Mas não tinha como fazer rodeios ao se tratar daquela mulher. Se quisesse que um assunto fosse abordado, ele teria que dizê-lo de uma vez por todas, pois Quinn não tinha intenções de fazê-lo vir à tona.
- Pensou no que eu te disse? – falou, por fim.
- Pensei – ela voltou a dizer.
- E então...?
Quinn se remexeu no lugar, procurando uma posição melhor na varanda. Ainda fitava a garota com alguma alegria, até o momento em que ela se levantou porque uma voz ao longe a chamou. Devia ser sua mãe. Quinn, então, desviou o olhar do chão lá embaixo e agora olhou para frente, observando as colinas longínquas que quase não podiam ser enxergadas num dia tão claro quanto aquela.
Estendendo uma mão ao lado, ela pediu a mão de Sam. Se não estivesse tão nervoso com a situação, Sam teria sorrido com aquele pedido, mas não conseguiu, então só levou a sua mão até a dela e apertou-a com carinho. Aquele já era um grande avanço na opinião dele.
- Por que viemos até aqui, Sam? Por que Sam’s Town? – Quinn começou perguntando.
- Achei que você pudesse gostar de uma viagem.
- E acertou. Viajar também está na lista de coisas que mais gosto de fazer quando tenho algum tempo livre. Mas pessoas “normais” teriam pensado em opções de viagens mais viáveis e fáceis. Poderíamos ter ido à Nova Iorque, mesmo que lá tenha mais prédios do que paisagens para observar. Poderíamos, inclusive, ter ido à Miami, onde há praias e todos aqueles dias tão ensolarados e belos. Mas, no final, tudo o que quisemos foi vir a Sam’s Town, um lugar que nem eu nem você conhecíamos e que inclusive não se encontra em nenhum mapa. Você diria que somos viajantes, então?
- Diria. – Sam fez uma pausa. – Por que não?
- Porque não somos viajantes de verdade. Viajantes não costumam vir a Sam’s Town. Fugitivos, sim.
- Você quer dizer que somos fugitivos?
- E não somos?
Sam ficou em silêncio. Não sabia o que responder. Acabou dando de ombros.
- Fugimos de muita coisa ao aceitar vir até aqui. Sam’s Town, querendo ou não, é um lugar que não pertence ao nosso universo. Aqui, conseguimos fugir de quaisquer responsabilidades ou lembranças que possam nos atrapalhar na hora de tomar decisões, e isso é algo que até você sabia ao propor uma viagem até aqui. Duvido que tenha planejado essa empreitada para, no final, me pedir em casamento em algum momento, até porque o nosso encontro naquela festa não foi planejado, o que quer dizer que eu e você tivemos que deixar muita coisa para trás para vir até aqui.
- E isso é verdade.
- O que significa que, sim, somos fugitivos.
- Talvez você tenha razão. Mas se somos fugitivos, não acredito que seja por nenhuma causa.
- Você acha que temos um motivo para isso?
- Sabemos que nunca conseguimos ficar juntos do jeito como estamos hoje porque sempre os acontecimentos ao redor fizeram de tudo para que isso não fosse possível. Eu não consigo pensar em uma semana sequer em que eu e você tenhamos sido namorados um do outro sem que o universo conspirasse para que algum de nós de repente não quisesse mais saber do outro.
- Você tem razão.
- E Sam’s Town está longe de toda essa má influência. É como você disse, esse é o lugar onde grandes coisas devem acontecer.
Quinn engoliu em seco, percebendo que aquela conversa, mais uma vez, estava mexendo com os seus ânimos, querendo fazê-la chorar.
Foi então que Sam se ajoelhou, ainda segurando a mão de Quinn, fitando-a com aqueles tão belos olhos claros, impossíveis de serem ignorados.
- Quinn, eu quero me casar com você. Não tenho nenhum anel para selar esse noivado agora, mas, sendo um homem e honrando esse nome, eu devo cumprir a minha palavra, fazendo com que ela tenha valor. Por isso, posso dizer sem nenhuma vergonha ou medo que eu sou aquele que pode te fazer a mulher mais feliz do mundo...
- Eu sei... – Quinn disse, agora chorando, o peito subindo e descendo conforme os soluços vinham.
-... e não só você, como o nosso bebê que ainda nem nasceu...
-... Eu não estou grávida, Sam – Quinn disse, unindo as sobrancelhas.
-... Enfim, sei que seremos as pessoas mais felizes do mundo enquanto tivermos um ao outro. Não é algo que se supõe... Veja bem, as estrelas nos disseram isso na madrugada passada. Confesso que em nenhum momento eu tinha pensado em te pedir em casamento, nem mesmo quando te vi naquela festa, mas hoje eu tive a certeza de que essa é a coisa certa a se fazer. É uma decisão da qual tenho certeza de que nunca vamos nos arrepender.
- Você sabe que somos jovens e que temos bastante tempo para pensar nisso, não sabe? – disse Quinn enquanto limpava as últimas lágrimas com a única mão livre.
- Sei também que a felicidade é algo que não pode esperar.
Se tivesse mais o que chorar, mais lágrimas teriam rompido pelos olhos de Quinn naquele momento.
- Então, Quinn Fabray, é só isso o que te pergunto: você aceita se casar comigo e ser a mulher mais feliz desse e de outros planetas em que podemos viver algum dia?
Quinn podia ter dado a sua resposta logo em seguida, mas acabou franzindo o cenho, confusa com a última frase do homem ajoelhado à sua frente. Outros planetas?, repetiu em pensamento e quase começou a rir.
Esse é o Sam que conheço, continuou a pensar. E, não, não posso deixar que ele suma da minha vida mais uma vez.
- Sim – ela disse num súbito.
- Sim? – Sam repetiu, como se não fosse essa a resposta que esperasse.
- Sim, Sam, eu aceito me casar com você e ser a mulher mais feliz desse e... – Quinn teve que refrear um ataque de risos. -... de outros planetas.
Sam sorriu tão grandemente que só essa reação, para Quinn, valeu a resposta concedida.
Enquanto eu puder ver esse sorriso, vou ter certeza de que tomei a decisão certa, pensou e também sorriu, contente.
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