Sams Town

4 Sobre Sam's Town


Viajaram por muito tempo. No início, tudo parecia divertido, com Sam contando suas histórias enquanto manejava o volante nas quase raras ocasiões em que tinha que fazer alguma curva. O calor deixou de ser um problema, porque as janelas, abertas, deixavam um vento forte e fresco entrar no carro. Ligar o ar-condicionado era uma opção, mas se privar do aroma do campo que aquela estrada carregava consigo era algo do qual Quinn não queria se privar. Não havia aromatizante de carro que conseguisse copiá-lo, e, mesmo se houvesse, como amante da natureza, ela preferia o que fosse natural. E foi esse aroma que embalou a sua conversa com Sam.

Aliás, ela não imaginava que houvesse tanto a ser dito. Deparou-se surpresa quando, depois da primeira hora, ainda estavam conversando sem, em nenhum momento, perder o fio da meada. Fazia pouco mais de três anos que eles não se viam, Quinn imaginava, e quem diria que tão pouco tempo seria suficiente para que tanta história acontecesse durante esse afastamento...? Enquanto observava o mar, de poucas ondas, à sua janela, ir e vir conforme avançavam na estrada, Quinn se deparava sedenta por mais informações sobre Sam. Fazia parecer que estava interessada na vida do rapaz, que as histórias dele eram bastante interessantes e que nada mais no momento tinha mais importância, mas a realidade era que queria saber como tinha sido a vida dele enquanto ela esteve longe. Queria saber se ele estivera feliz, se sentira a sua falta e se a falta que ela fizera fora de alguma forma marcante.

Sam, enquanto falava, não deixou de mencionar em nenhum momento a falta que Quinn fizera, mas também fazia questão de dizer que não sabia que esse sentimento ruim que o assolava quando ia dormir, se deparando desperto o suficiente para assistir a noite inteira passar diante dos seus olhos, era a lacuna em seu peito que Quinn deixara ao partir da sua vida. Agora ele sabia que não houvera garota em todo aquele tempo que o fizera se sentir tão completo quanto naquele instante – nem Santana, nem Mercedes e muito menos Brittany. O buraco no seu coração pertencia a Quinn e era só ela que lá cabia.

- Como eu pude nunca perceber isso...? – ele disse, terminando o assunto.

Quinn se sentia no ápice da felicidade que seu corpo permitia comportar. A viagem com Sam, pelo visto, faria bem, mas em maior intensidade do que ela podia imaginar. O homem ao volante levantava sua auto-estima num nível que quase parecia irreal. Quantos homens que ela conhecera faziam o mesmo? Ela podia contar nos dedos e tinha certeza de que não precisaria nem usar a segunda mão para isso. Sam era único. Se era ele o responsável por tão boas sensações em que sua mente e coração estavam mergulhados agora, talvez isso significasse que ali estava o homem com o qual ela deveria dividir todo o restante da vida, amando-o como se todo dia fosse o primeiro encontro. O mais engraçado de tudo isso era que ela tinha certeza de que era isso mesmo o que ela faria a partir daquele dia.

Quando começou a anoitecer, já não havia mais assunto entre os dois. Quinn, encostada à janela agora fechada – depois de um tempo, o vento fresco começou a fazê-la sentir frio -, adormecia e acordava quando os solavancos do carro ficavam mais intensos. Em uma estrada reta, dormiu tanto que fez parecer que já era outro dia. Sam, durante todo esse tempo, permaneceu quieto, certo de que a noite da mulher ao seu lado fora muito bem usada para que ela pudesse dormir, o que justificava aquele cansaço tão iminente. Como forma de se distrair então, já que a estrada não mudava de vista com muita frequência, ele ligou o rádio numa canção lenta que andara tentando aprender a tocar no violão, a de uma banda da qual gostava muito, mas que Quinn desconhecia. Contudo, a música era boa e envolvente. Mesmo assim, foi determinante na hora de levá-la ao máximo do estado do sono ao qual ela poderia ter chegado.

Quando despertou, não havia mais sol no céu e nem qualquer sinal de que um dia ele estivera lá. No lugar, um imenso manto negro cheio de pontinhos luminosos e a metade de uma lua, engolida por sombras. A noite na estrada era muito mais bonita do que em Lima, Quinn pôde perceber. Afinal, quando já tinha visto um céu tão cheio de estrelas quanto aquele? Nunca. A cidade não permitia. A estrada, pelo visto, tinha muito mais vantagens do que apenas levar alguém a algum lugar. A paisagem nela costumava ser linda.

- Por quanto tempo estive fora? – Quinn perguntou, ajeitando-se na cadeira, percebendo que a posição em que estivera nas últimas horas fizera com que seu corpo ganhasse algumas dores.

- Por três anos ou mais – Sam respondeu prontamente.

Quinn primeiro arregalou os olhos, confusa. Depois, conseguiu entender o que Sam estava falando e riu. Olhou para o rapaz a tempo de percebê-lo tentar esconder um ataque de risos por trás daqueles olhos apertados e boca enorme. Só você consegue fazer isso comigo, Sam, ela pensou desviando o olhar. Não queria deixar que ele percebesse que ria.

- Estamos longe? – perguntou, ainda rouca por ter acabado de acordar.

- Não muito. Na verdade, estamos bem perto.

- Para onde disse que estamos indo, mesmo?

- Sam’s Town.

Quinn franziu o cenho, novamente confusa. Por um instante, ficou apenas a observar a estrada vazia se desenrolar em frente aos faróis do carro e, depois, decidiu perguntar.

- Escolheu essa cidade por algum motivo em especial?

- O que quer dizer com isso?

- Sam’s Town. Essa cidade é sua?

Sam riu novamente.

- Não... – ele primeiro disse, ainda gargalhando. Não estava conseguindo se conter. – O nome é apenas uma coincidência. Ainda não possuo uma cidade, por menor que ela seja. Mas quem sabe eu não consiga mudar isso ao ter uma grande mulher ao meu lado?

Quinn deu de ombros, querendo fazer parecer que aquele assunto a desinteressava.

- Quem sabe? – disse em seguida. – Mas por que Sam’s Town? Nunca ouvi falar desse lugar.

- Ninguém ouve. É remoto o bastante para estar fora do mapa e desinteressante o bastante para não trazer ninguém de volta.

- Uau. E por que você decidiu me levar para lá, então? Nem a sua fala faz parecer que é um lugar legal.

- Porque você sempre gostou daquilo que parecia inexplorado, como uma coisa nova. Achei que uma cidade desconhecida fosse ser interessante, pelo menos para você.

Quinn ficou um instante em silêncio, saboreando a frase do amante. Piscou os olhos algumas vezes, como se isso a ajudasse a manter o foco. Quando tornou a abrir a boca, o que disse foi:

- Você sempre me conheceu melhor do que ninguém.

Sam suspirou no lugar.

- E quem te falou desse lugar?

- A minha avó – Sam respondeu. – Quer dizer, pelo menos foi o que os meus pais disseram. Ela costumava dizer que Sam’s Town era um lugar onde ninguém mais sonhava, onde todos estavam tão conformados com suas situações de isolamento que não tinham mais qualquer motivação de “cortar a fita” que os mantinham preso ao lugar. É uma sensação que pode inclusive tomar conta de nós, mas eu não me importo.

- Não se importa? Parece-me bastante preocupante uma sensação como essa.

- Não me importo porque, Quinn, nós fizemos parte de um Glee Club! Cantamos várias vezes sobre como é importante sonhar e, mais de uma vez, vieram até nós nos falar sobre os benefícios de seguir um sonho. Estamos “vacinados”. Quem sabe não seremos nós aqueles que levarão um pouco de alegria para esse povo?

Quinn novamente deu de ombros, mas, por dentro, nunca se sentiu tão excitada. Não sabia dizer se era a fala de Sam ou se a perspectiva de finalmente fazer algo que fosse realmente novo.

- Talvez Sam’s Town seja um lugar onde grandes coisas devem acontecer – ela deparou-se dizendo, estranhando a própria frase.

- Você acha? – Sam perguntou, desviando por um segundo a atenção da estrada para contemplar Quinn.

- Acho – Quinn respondeu. – Não sei por que, mas é essa a sensação que tenho.

- Talvez você esteja certa.

Sam sorriu de um jeito sugestivo. Quinn sentiu vontade de perguntar o que aquilo poderia significar, mas refreou-se. Talvez fosse melhor se surpreender nos próximos dias, certa de que aquele sorriso claramente queria dizer que Sam tinha alguma coisa em mente.

Dirigiram por mais alguns minutos, talvez uns quinze, quando finalmente perceberam algum sinal de civilização no final daquela longa estrada. Na noite, tudo o que se podia ver eram pontos de luz e algumas silhuetas grandes, indicando casas e prédios pequenos de talvez não mais do que três andares. Quinn, novamente, voltou a se sentir empolgada. A vista dos primeiros sinais de Sam’s Town parecia trazer um sentimento bom a ela, algo próximo do sentimento de nostalgia, e se só a vista era capaz de fazer isso, ela não conseguia imaginar o que mais faria assim que colocasse os pés naquele chão.

À entrada de Sam’s Town, havia uma placa de madeira com o nome da cidade e o número da população que já não devia ter sido atualizado há algum tempo. O número atual era 320 pessoas. Não era uma placa muito bonita, mas um dia devia ter sido. Passando por essa placa, o asfalto da estrada perdia espaço para um chão de pedregulhos que fazia bastante barulho enquanto as rodas do carro de Sam passavam por ele. Tanto barulho, então, foi capaz de acordar as pessoas que dormiam nas casas que margeavam aquelas primeiras ruas ou apenas chamar a atenção de quem ainda estava acordado.

As casas, aliás, eram de uma construção tão peculiar que Quinn não se lembrava de já ter visto iguais antes. As ruas eram estreitas, talvez de tamanho suficiente para caber um carro do lado do outro, o que permitia que as casas, que tinham suas frentes direto para essas ruas, ficassem muito próximas umas das outras. Em sua maioria, eram de tábuas de madeira, algumas claras, outras escuras, e não costumavam ser muito grandes. Assemelhava-se muito ao que Quinn imaginava que fosse o Faroeste, baseando seu conhecimento dessas regiões no que vira em alguns filmes sobre o tema. As portas dos bares, daquelas que abrem com um empurrão de corpo e se fecham sozinhas, não antes de se moverem como asas que batem, se faziam muito presentes ao redor.

As pessoas tinham rostos sérios, o que quase dava a entender que aquelas não eram pessoas muito amistosas. Olhavam o carro de Sam passar, um automóvel muito mais moderno do que os que quaisquer pessoas por ali tinham, e pareciam se perguntar o que aquilo poderia significar. Sabiam que não eram muito visitados, porque Sam’s Town não era um ponto turístico, mas sabiam também que, quando um turista aparecia, por mais raras que fossem essas ocasiões, novas histórias estavam para acontecer. Estavam curiosos e não viam a hora de alguém daquele carro se manifestar. Contudo, enquanto isso não acontecia, eles paravam o que estavam fazendo e observam ansiosos o carro se movimentar pelas ruas.

- Sua avó viveu por aqui? – Quinn perguntou, passando o olhar por um grupo de mulheres já de certa idade, todas fortes, que paravam uma sessão de tricô para olhar o carro.

- Acredito que sim, mas por pouco tempo – Sam respondeu, fazendo uma curva.

- Quando você disse que essa era uma cidade pequena, não pensei que fosse minúscula.

- Hum... – Sam suspirou. – Não está gostando do lugar?

- Estou. E tenho a impressão de que poderei gostar ainda mais.

Sam estacionou o carro em frente à sacada de uma casa que não era muito diferente das outras. Abaixou o vidro enquanto uma mulher de seios fartos, também de certa idade, se dirigia até ele. Ela abaixou-se para alcançar a janela e, perdendo a expressão séria para tomar uma mais jovial, surpreendendo Quinn, perguntou:

- Em que posso ajudá-los, meus jovens?

- Estamos em busca de um hotel.

- Ah, vocês não vão encontrar muitos por aqui, mas há um senhor que vive no fim dessa rua que perdeu muitos parentes para os atrativos da cidade grande e agora tem uma casa cheia de cômodos em desuso. Ele costuma alugá-los quando há necessidade. Vocês deviam falar com ele.

- Ok. Muito obrigado, senhora.

- De nada. Sejam bem vindos!

- Ela foi bem mais cortês do que pensei que seria – Quinn disse assim que o carro voltou a andar.

- Eu também me surpreendi – disse Sam com uma expressão divertida. – Está se divertindo?

Quinn hesitou antes de responder.

- Estou – disse de repente e, de alguma forma, sentia que não estava mentindo.

Notas finais
Hum... Qual é a dessa cidade, hein?