Same Old Games
19 I'm broken. Do you hear me?
Notas iniciais
PDV Marleine
- LOUIS TOMLINSON, ABRE ESSA PORTA AGORA! – eu disse socando a porta do quarto dele.
Ele não tinha ido a escola e nem dado satisfação aos meninos. Eu não me preocuparia, mas nós já tínhamos chegado em casa e Niall disse que tudo indicava que Louis não tinha sequer saído do quarto.
Encontrei sua mochila jogada na sala, intocada, com os mesmos materiais de sexta-feira passada. Pedi a Niall que Liam que saíssem com Victória e Gabriela pra que eu tentasse resolver as coisas com Lou. Já esperava o pior antes deles saírem de casa.
Assim que os dois saíram pela porta, eu comecei a mexer em tudo ali que pudesse conter algo, alguma pista do que poderia ter acontecido com Louis.
Fui até a cozinha e por fim encontrei um bilhete amassado, atirado com tanta pressa de acertar o lixo que acabou caindo no chão atrás dele. Era uma carta, com uma caligrafia que eu não conhecia. A data era de dois meses atrás e continha poucas palavras.
Querido Louis,
Seu pai voltou pra casa a pouco tempo, livre da prisão. Ele parece ser um homem melhor. Tem tratado a todas nós com mais afeto e nos pediu desculpas por tudo que nos fez. Ele queria te ver, mas eu achei melhor que isso não acontecesse. Sei da mágoa que ainda guarda por ele e não quero que isso acabe em uma briga entre os dois.
Espero te ver mais uma vez antes do seu próximo ano letivo. Eu te amo muito, muito mesmo.
Com amor,
Mamãe.
Uma carta da mãe de Louis? De dois meses atrás? Pelo que ele tinha me contado, foi pouco antes do pai dele se descontrolar e espancar a mulher. Louis havia me dito que o estado dela era grave, mas me garantiu que sua mãe já estava bem.
Mas, aquele bilhete... algo estava errado. Muito errado.
Eu estava me levantando, quando vi algo no chão. Eu podia pensar que era água se não fosse pelo cheiro forte e o lugar de onde havia sido derramado. Perto de um ponto pouco acessível da cozinha, um lugar que apenas alguém que soubesse onde estava procurando, conheceria. Vodka.
Subi as escadas correndo e agora socava a porta do quarto com todas as minhas forças.
- LOUIS, ABRE A PORTA.
As lágrimas já se formavam em meus olhos, imaginando o pior. Bebida em excesso, ele não havia saído do quarto, não me respondia. Era só somar dois mais dois.
- LOUIS, ABRE. ABRE. ABRE ESSA PORTA.
Dei um último murro e ele finalmente abriu. Respirei aliviada, mas esse sentimento não durou muito quando olhei para o seu rosto.
Continha uma expressão dura e sombria e seu rosto estava marcado por lágrimas que a muito tinham parado de escorrer. Ele não conseguia andar direito e logo eu entendi porque. Três garrafas de Vodka jaziam vazias no chão, e mais algumas estavam prontas para serem abertas. Ele tinha outra pela metade em mãos.
- Louis, o que você está fazendo? – perguntei, entrando no quarto.
- Ah, bem-vinda ao inferno. Quer fazer parte da minha festinha, Mar?
Ele aumentou o volume do rádio, deixando o som de um rock pesado ecoar pelos meus ouvidos, quase me deixando surda. Ele tomou um gole de sua garrafa e eu gritei, cobrindo os ouvidos.
- LOUIS, ABAIXA ISSO.
Minha voz saiu abafada pelo som e Louis não me deu ouvidos. Continuou bebendo até quase esvaziar a garrafa.
Arranquei-a das mãos dele e desliguei o rádio.
- Será que você pode me explicar o que está acontecendo?
- Por que se importa? Você não tem nada a ver comigo e nem com a minha vida.
Eu sabia que ele estava alterado, mas aquilo doeu em mim. Eu me importava com Louis e considerava ele como um amigo. Não suportava ouvir isso dele.
Louis tentou abrir outra garrafa, mas eu a joguei em cima da cama.
- Olha pra mim.
Ele olhou em meus olhos e eu vi lágrimas se formando. Dor, mágoa, raiva.
- O que aconteceu? – perguntei gentilmente
Ele respirou fundo e disse, deixando as lágrimas escorrerem, com raiva:
- A minha mãe morreu. Pronto, está feliz?
Louis me deu as costas e passou a mão pelos cabelos. Eu não sabia o que dizer e nem como reagir. Meu mundo parecia ter girado de cabeça pra baixo.
- O-o quê?
- Morreu, morreu, está morta. – ele disse gritando e se virando pra mim – E sabe por que?
Balancei a cabeça negativamente.
- Por causa daquele CANALHA.
Ele disse a última palavra jogando uma garrafa vazia contra a parede. Ela se estilhaçou.
- ELE A MATOU. A MATOU. MATOU A MINHA MÃE. DESGRAÇADO, CANALHA.
Ele jogou as outras três garrafas na parede, enquanto o vidro se espalhava para todos os lados.
Louis encostou as costas contra a parede e começou a chorar, deslizando para o chão, pouco se importando com os cacos de vidro.
Eu estava estática. Com certo medo dele e muito atordoada com a notícia que tinha recebido.
Aos poucos, me aproximei de Louis e sentei ao seu lado. Ele chorava compulsivamente com o rosto enterrado nas mãos.
- Louis... eu sinto muito.
Ele me olhou e eu pensei que fosse gritar comigo, mas ele disse algo que me assustou mais ainda.
- Me abraça? Por favor.
Eu o abracei e permiti que ele chorasse com o rosto no meu ombro. Louis me abraçava com força, com dor e as lágrimas não paravam de cair nem por um segundo. Eu comecei a chorar junto.
Odiava vê-lo naquele estado, longe de ser o Tomlinson sorridente e metido que eu conhecia. Longe de ser o garoto que eu repugnei no primeiro dia de aula.
- Promete que nunca vai sair do meu lado? Por favor, por favor. Não deixa acontecer o que aconteceu com ela. Não vai embora sem me dizer adeus, por favor. Me desculpa por ter gritado com você, mas por favor não me deixa sozinho. Não me deixa.
Eu me soltei do abraço para olhar em seus olhos. Louis não havia parado de chorar por nenhum segundo.
- Ei, nem brinca com isso. Eu nunca vou te deixar, entendeu? Você é meu amigo, Lou, e por mais que ache que não, eu me importo muito com você. Você não sabe o quanto me destrói te ver desse jeito.
Eu limpei as lágrimas dele, enquanto tentava limpar as minhas. Depois de um tempo, Louis se acalmou. Ele encostou a cabeça em meu ombro e deixou mais algumas lágrimas escorrerem enquanto eu mexia em seus cabelos.
- Ela vai fazer falta. – ele disse com a voz rouca.
- Lou, se não quiser conversar sobre isso...
- Não, tudo bem. – ele segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos – Eu quero falar.
Ele respirou fundo e disse:
- Foi ontem a noite. Meu pai fugiu da prisão á uma semana e finalmente chegou em casa, bêbado como sempre. Ele pediu abrigo à minha mãe, disse que precisava ficar lá pra fugir da prisão. Ela disse que não, afinal ele tinha estado lá por culpa dela. Ele já estava alterado. Começou a acusá-la de tê-lo mandado para aquele inferno e a bateu. Bateu tanto, tanto. Lottie disse que só conseguia escutar os gritos no andar de baixo. Ela tentou separá-los, mas meu pai foi longe demais. Ele empurrou minha mãe com muita força e ela bateu a cabeça. Não acordou mais.
Ele voltou a chorar, enquanto eu também deixava as lágrimas caírem.
- Ele pegou 80 anos de cadeia e dessa vez está com segurança dobrada. Vai apodrecer lá dentro.
Eu não disse nada. Não tinha o que dizer, afinal. Ainda estava atordoada com a situação.
Louis pegou o celular e colocou em uma foto dele com a mãe. Os dois estavam sorrindo.
- Foi no Natal passado, a última vez em que a vi. Meu pai estava preso naquela época e foi nossa primeira festa de verdade. O sorriso dela naquele dia, é algo que nunca vou me esquecer. Queria ter me despedido dela, sabe, Mar? Queria ter dito que a amo. Você deve ter achado a carta dela na cozinha. – eu assenti – Eu não a vi depois daquilo, nunca pude. A escola me ocupava todos os dias e sempre que eu estava livre, ela estava no trabalho. Nunca conciliamos um horário. Mas, até acho que foi melhor assim. Quando eu me lembrar dela, quero lembrar daquele sorriso no Natal. Não gostaria de olhar para seu rosto cheio de hematomas. Lottie me disse que ela já estava acabada. Elas estão sofrendo muito.
- Você também está.
- Estou sofrendo mais por isso. Queria ter dito a ela que eu a amo, que eu sentia sua falta, que eu me importava. Queria ter matado aula só pra vê-la. Queria ter rezado todas as noites pra que ela ficasse bem.
- Eu tenho certeza que ela sabia que você a amava, Louis. E não fique se culpando, você não tem culpa de nada. Tenho certeza que foi um filho maravilhoso pra ela. Ela deve ter orgulho de você, onde quer que esteja.
Ele tirou a cabeça do meu ombro e apontou para o quarto.
- Orgulho disso, Mar? De ter um filho alcoolatra? Eu nem sequer consigo controlar meu temperamento e já estou tão acostumado a isso, que nem fico bêbado mais.
- Louis, você tem que aprender a controlar isso. Beber não vai te ajudar a resolver nada.
- Eu sei, mas pode me ajudar a esquecer. Eu posso capotar por horas e simplesmente esquecer de toda essa dor que estou sentindo.
- Isso não vai adiantar e você sabe. Isso pode te matar, Louis.
- POIS QUE MATE, ENTÃO. Que me mate, porque eu não aguento mais isso. Vou acordar todos os dias com a imagem do sorriso dela quando eu era criança e logo em seguida vai vir a noção de que ela está morta.
- NÃO. – eu gritei – MAS QUE DROGA, LOUIS. SERÁ QUE VOCÊ NÃO ENTENDE? EU ME IMPORTO COM VOCÊ, EU NÃO IA SUPORTAR QUE VOCÊ SE MATASSE.
- E por que não?
- Porque eu te amo, Louis. Você é meu amigo e seria difícil conviver sem você. Caramba, será que você não pensa nas pessoas ao seu redor? E quanto aos meninos? Acha que seria fácil pra eles enterrar o corpo do melhor amigo? Acha que seria fácil pra Liam e Niall terem um quarto vazio, após ter a sua presença depois de tanto tempo?
- Eu... não tinha pensado nisso.
- É claro que não, ou não teria bebido tanto.
- Eu tô com sono, Mar.
- Não. Você não pode dormir. Vai tomar um banho gelado e depois a gente conversa melhor.
Louis foi tomar um banho e eu aproveitei para varrer os cacos de vidro do seu quarto. Quando terminei, me sentei na cama e esperei que ele chegasse. Algum tempo depois, Louis abriu a porta e se sentou ao meu lado.
- Melhor? – perguntei
- Apenas com um pouco de dor de cabeça. Mar, escuta. – ele pegou minha mão – O enterro da minha mãe é amanhã. Eu sei que é meio estranho pedir isso, mas você pode ir comigo? Não vou aguentar isso sozinho, Mar. Não vou. – ele praticamente implorava.
- É claro, Lou. Eu chego aqui bem cedo e a gente vai, tá? Não vou te deixar sozinho em uma hora dessas.
Ele me abraçou forte.
- Muito obrigado, por tudo. Eu não sei o que seria de mim sem você.
- Não precisa agradecer. Lou, eu preciso ir pra casa. Você vai ficar bem?
- Vou tentar, eu prometo.
- Tudo bem, mas eu vou levar as garrafas de Vodka por precaução.
- E... o que vai fazer com elas? – ele perguntou assustado.
- Não vou contar a ninguém, fique tranquilo. Vou escondê-las de algum modo. Eu vou indo, tá?
- Obrigado mesmo, Mar.
Ele me levou até a porta e me abraçou. Eu virei as costas, mas ele disse.
- Mais uma coisa, Mar.
- O que foi, Lou?
- Aquilo que você disse é verdade? Que você me ama?
- Claro. – eu respondi como se fosse óbvio – Você é meu amigo, Lou. É claro que eu te amo.
Ele sorriu.
- É bom ver esse sorriso. – eu disse
- É bom saber que alguém ainda pode me fazer sorrir.
Louis me puxou pela mão e me deu mais um abraço apertado antes de eu entrar em casa. Gabi e Vick ainda não tinham voltado, o que me deu tempo pra pensar. Eu não conhecia a mãe de Louis, mas permiti a minha mesma que chorasse por causa dela.
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