Samantha Roberts - O Livro de Sócrates
3 Mitologia não-mitológica
Acordei em uma cama, olhando para um teto de madeira. Nossa, como minha cabeça doía. Parecia que eu estava de ressaca. Meu corpo estava dolorido e formigava. Abri meus olhos devagar e, aos poucos, minha visão foi ficando mais nítida.
Macas, remédios, curativos usados. Eu estava em um tipo de enfermaria. Olhei para o lado e avistei mais jovens em macas com ferimentos sérios. Eles deviam ter de doze a dezessete anos aproximadamente. Senti algo no outro de meu pescoço e virei-me novamente. Jenny trocando minhas ataduras. Ela segurava um pote com algumas coisas em grego escritas. Juro que sabia o que estava escrito.
— Néctar? — perguntei.
— A bebida dos deuses — então aquilo tudo não tinha sido um sonho. Era verdade. — Eles ajudam a curar os ferimentos de batalha de um semideus, mas, se consumido em excesso, pode fazer você queimar por dentro e ter uma morte lenta e dolorosa.
— Que informação muito útil. – comentei.
Ela apoiou o pote numa mesa perto de minha maca e voltou a olhar para mim.
— O que você tem na cabeça? Entrar numa batalha sem experiência alguma? Não. Melhor dizendo: o que eu tenho na cabeça? Porque fui eu quem deixou isso tudo acontecer.
Levantei meu tronco para me sentar na maca. O mundo girou. Ignorei a sensação e pus a mão em meu colar/espada. Respirei fundo e tentei pensar um pouco. A resposta tinha que estar ali.
— Semideusa. — eu comecei. — Filha de um deus com um mortal.
Jenny assentiu, me incentivando a continuar.
— Meu pai é, indiscutivelmente, um mortal. — prossegui. — Então, na tese, eu seria filha de uma deusa.
Passei meus dedos pelo pingente. Coruja. Símbolo dos professores. E animal sagrado de uma deusa da mitologia — não tão mitológica — grega.
— Atena? — chutei.
— E palmas para ela! — Jenny disse e começou a aplaudir. — Deusa da sabedoria, da guerra estratégica, da justiça, das artes e muita mais coisa que eu não me lembro!
Minha mãe. Uma deusa. Tipo, que nem os personagens de Hércules. Que vivem no Olimpo. Minha mãe. A pessoa que me abandonou. Minha vida inteira foi uma mentira.
— É informação demais para absorver. Onde estou? – perguntei
— Acampamento Meio-Sangue. O local de treinamento para pessoas como nós.
— Tem muitas pessoas aqui? – perguntei.
— Muitas. — deuses safados.
Fiquei encarando Jenny por um bom tempo.
— Por que nunca me contou?
Não consegui evitar dessa vez que as lágrimas viessem ao meus olhos. Era muita coisa de uma só vez. Meu coração estava aos frangalhos.
Eu confiava tudo a Jenny. Nunca sequer ousei esconder alguma coisa dela. E, mesmo assim, ela escondeu metade da vida dela. Escondeu metade da minha vida.
Jenny olhou para mim, culpada. Ela jogou meus pés de lado e sentou-se na cama comigo.
— Olha, o acampamento é legal e tudo mais. Mas essa vida é difícil. Temos uma vida curta e... Se você não soubesse, talvez seria melhor. Eu queria te dar uma vida normal. Estava sempre cuidando de você para que isso não acontecesse.
Uma ideia horrível me ocorreu e um nó se formou em minha garganta.
— Cuidando de mim? Quer dizer que esse é seu cargo? Cuidar de mim, me proteger? Então, na sexta série você começou a falar comigo porque... — não consegui terminar a frase.
Jenny encarava a nada, como se a mente estivesse bem longe dali.
— Seu pai estava preocupado com você e ligou para Quíron, pedindo orientação. — ela disse depois de um tempo. — Como você não havia sofrido nenhum incidente ainda, resolveram manter sua vida na normalidade. Seu pai desejou isso. Era o melhor para você. Já que estudávamos no mesmo colégio, Quíron pediu para eu ficar de olho caso qualquer coisa acontecesse.
— Aí você veio sentar com a fechadona da classe. — completei a história.
Jenny olhou para mim, séria.
— Eu sou sua melhor amiga. E você é a minha. Não importa como isso tenha começado. É verdadeiro.
Mordi a língua. Eu não iria chorar.
— Prazer no trabalho. Claro.
Jenny suspirou.
— Passou a ser mais uma necessidade do que trabalho. Quanto mais eu te conhecia, mais eu queria fazer isso. Você é incrível, Sam. E tinha um futuro brilhante pela frente. Merecia uma vida normal. Eu estava disposta a dar minha vida para isso.
Eu nunca ouvi ela falar tão francamente como daquele jeito.
Engoli seco.
— Tinha?
— Sam, muita coisa vai mudar daqui para a frente. Mas eu vou estar aqui com você. E sem segredos.
Eu queria gritar com ela, tentar mostrar o quanto eu estava magoada e o quanto me sentia traída. Porém eu nunca fui boa em lidar com sentimentos, tampouco em expressá-los.
Dei ombros.
— Está bem. — eu disse. — Deixa pra lá.
Jenny sorriu, agradecida.
— Você não sabe o quanto é bom para mim não ter mais segredos. Mais um ano e eu iria pirar! Você quase me pegou tantas vezes! Agora eu posso dividir minha vida todinha com você. Ah, deuses, que ótimo. — ela se levantou. — Eu tenho aula de arco e flecha agora. Mas já pedi para Quíron providenciar alguém para te mostrar o acampamento. Acho que será a Julia, pelo o que ele disse. É uma filha de Hécate. Tenho certeza que vocês vão se dar bem.
— Quíron, o centauro? — eu quis me certificar. — Tipo, instrutor de Aquiles e....
— Não começa, Srta. Wikipédia! – ela me interrompeu. — E aqui ele é Quíron, nosso diretor de atividades.
— Ok. Nossa. Nossa. Isso é... tem certeza que isso tá acontecendo?
— Bem-vinda a sua nova vida.
Jenny me levou para uma tal de Casa Grande, que ela disse ser o principal lugar do acampamento. O dia estava ensolarado lá fora, o que fazia o lugar parecer um verdadeiro paraíso das férias. No caminho, passamos por um campo de morangos, que Jenny disse que é o disfarce o Acampamento e um meio de sustento alternativo.
Jenny jogou a cabeça para trás e fechou os olhos, apreciando o clima. Lembrei-me, então, do quanto ela adorava dias como aquele.
— Você é filha de Apolo, né? O deus do Sol.
— Não só o deus do Sol. — ela respondeu. — Deus da profecia, da musica, o patrono dos jovens, do tiro com arco, da medicina e o deus mais sedução do Olimpo – ela completou.
— Daí vem seu grande ego.
Chegamos à tão falada Casa Grande, que era uma enorme casa azul. Na sala de estar havia um cara meio cavalo, meio homem. Devia ser o Quíron. E ao seu lado havia um outro homem. Devia ter seus quarenta anos. Ele usava shorts de corrida e camisa de estampa de leopardo. Quíron tinha o cabelo grisalho, uns olhos que pareciam ter visto de tudo e, pelo menos sua parte de cima, vestia uma camisa ‘’ Pôneis de Festa – 2006 ‘’.
Jenny pigarreou.
— Sam, estes são Quiron e Sr. D. — ela se virou para eles. — Esta é minha amiga de que eu havia falado. Samantha Roberts. – Jenny me apresentou.
— É um prazer, Sara — disse Sr. D.
— É Samantha, senhor. — corrigi.
— Foi o que eu disse. Devo dizer bem-vinda ao Acampamento Meio- Sangue e blá blá blá. Você tem o sangue divino e blá blá bla – ele saiu andando e murmurando algo como ele não aguentava mais isso.
— Não ligue para o temperamento de nosso diretor, ele também é muito legal – afirmou Quíron. Ele virou para Jenny. — A garota é muito velha. Já foi reclamada?
Velha? Oi? Eu tenho quinze.
— Ainda não. — Jenny respondeu. — Mas eu já conversei com seu pai diversas vezes sobre isso. Ele tem total certeza que é Atena. E é o que tudo indica, também.
— O que é ser reclamada? – perguntei.
Nesse momento uma menina de longos cabelos negros entrou pela porta. A garota era pequena, mas devia ser mais velha que eu. E também não parecia inofensiva por causa da altura.
Ela chegou até mim e estendeu a mão.
— Olá, eu sou Julia Parker! Filha de Hécate ao seu dispor. Acho que vou te apresentar ao acampamento hoje.
Peguei na sua mão e a cumprimentei.
— Sou Samantha Roberts, me chame de Sam. Possivelmente filha de Atena.
Julia abraçou Jenny, cumprimentou Quíron e perguntou:
— Vamos?
Andamos da Casa Grande para a parte central do Acampamento. La havia um monte de chalés dos distribuídos na forma de um ômega. No centro deles havia algumas toras, que imaginei servirem de bancos.
— Esses são os chalés — Julia começou. – Antes eram doze, um para cada Olimpiano, mas agora fizemos chalés para os deuses menores e Hades.
— São muito bonitos. — admirei. — Qual é o seu?
— Chalé vinte – rla apontou para um chalé na base do ômega.
Andamos mais para o centro, para aquelas toras. Quando chegamos, vi que no meio delas havia uma círculo de pedras e alguns resquício do que algum dia foi uma fogueira.
— Aqui nos reunimos depois de um dia de treinamento para conversar, cantar e simplesmente estar junto. Para mim, a Fogueira é o melhor momento do dia. — ela explicou. — Seu chalé é aquele ali. – Ela apontou para o lado direito do ômega — Chalé 6!
Era um chalé branco, de mármore polido. Na parte de cima pude ver o símbolo de Atena, uma coruja no centro de um arco de folhas de oliveira. A majestosa simplicidade do chalé me deixou de queixo caído. Era ali que eu iria ficar?
Andamos pelos campos de morango de novo, pelo Arsenal, pelo Anfiteatro e por vários locais de treinamento. Julia era extremamente simpática e sociável. Eu não sentia que ela estava falando comigo apenas porque eu era a nova. Já a considerava um amiga apesar das poucas horas juntas.
Passamos pelo píer, Arena de Combates, o refeitório, e depois ficamos conversando na praia. Julia disse que eu podia ficar ali o quanto quisesse e que meu pai já havia sido notificado da minha localização. Senti-me culpada porque eu não havia pensando nele até o momento desse assunto ser tocado. Prometi ligar para ele assim que puder.
Encontramos Jenny quando estava anoitecendo.
— Vamos jantar? — perguntou Julia.
— Vamos. — respondeu Jenny.
O que eu fiz foi segui-las enquanto eu recitava meus mais novo mantra “isso só pode ser um sonho”.
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