Samantha Roberts - O Livro de Sócrates
4 Reclamada
Notas iniciais
E juntas fomos para o refeitório.
Um monte de mesas distribuídas, uma para casa chalé, como Julia havia me falado há pouco. Eu não tinha reparado, mas todos os campistas estavam usavam uma camisa laranja escrita "Acampamento Meio- Sangue". Era o uniforme do acampamento. Outra coisa que eu notei era que o refeitório era em céu aberto.
— O que vocês fazem quando chove? – perguntei, curiosa.
— Dança da chuva. – disse Jenny
— Você pode me falar a verdade? – me virei para Julia
— Não chove aqui, nem neva – explicou Julia — Temos fronteiras magicamente protegidas, por isso as nuvens de chuva passam por volta de nossos territórios.
Interessante e bem criativo. Fomos refeitório adentro.
— Em que mesa eu me sento? – perguntei.
— Bom, você ainda não é oficialmente uma filha de Atena – Julia fez sinal de aspas quando disse ‘oficialmente’ – Pode sentar-se comigo, se quiser.
E foi o que fiz.
Alguns espíritos da natureza nos serviram, dríades e náiades. Um bom pedaço de frango, arroz a grega (que irônico) e etc... Estava pronta para devorar tudo quando vi Julia pegar o prato e se levantar. Todos fizeram isso, então os segui. Havia uma pira ardendo em chamas, e todos estavam jogando parte de sua comida lá dentro e murmurando algo.
— Uma oferenda aos deuses. — Julia respondeu antes mesmo que eu perguntasse. — Você põe uma parte de sua comida no fogo e dedica a um deus, se quiser faça uma prece.
Que desperdício de comida, eu pensei.
Joguei uma parte de minha comida ao fogo.
— Para Atena. — eu disse. — Faça algo por mim, pelo menos uma vez na vida. Me reconheça.
O cheiro que subia era delicioso e isso me abriu o apetite mais ainda.
O jantar foi meio difícil, pois todos ali pareciam um grupo, uma família. Eu era apenas a novata intrusa. Mas isso mudou quando foi anunciada a hora da fogueira. Todos se levantaram, felizes, e se dirigiam para a área dos chalés, brincando entre si. Fui junto com Julia e depois Jenny nos alcançou. Depois de um tempo, ela parou.
— Di Immortales! – que no momento pensei em ser o “Ai, meu Deus” grego. — Esqueci meu violão no chalé! Sam, pode pega-lo para mim? Estou morrendo de preguiça.
Eu teria a mandado para um lugar muito legal em circunstâncias normais. Porém eu estava curiosa e queria conhecer cada cantinho do acampamento, inclusive seu chalé.
— Ok. Chalé .... 7, certo?.
— Isso mesmo. Terceiro beliche de baixo, do lado esquerdo. – ela completou
Fui então para o chalé 7, uma edificação dourada e deslumbrante. Avistei o violão, todo preto com detalhes em branco, jogado na cama da Jenny. A parede ao lado de seu beliche era totalmente revestida por fotos, muitas das quais eram minhas. Eu queria contar em quantas fotos eu estava, mas decidi deixar para outra hora. Não queria me atrasar para minha primeira fogueira.
No entanto, antes que eu desse mais de três passos para fora do chalé 7, senti um puxão em minha camisa.
— O que pensa que está fazendo? — disse a voz de um garoto atrás de mim.
Virei-me e me deparei com um garoto mais alto que eu. Ele deve ter treinado muito no acampamento, porque era bem preparado. Seus cabelos negros e ondulados estavam quase chegando nos olhos verdes e assustadores, que me encaravam com raiva.
— Nada! Eu só estava...
— Roubando. — ele completou. — Escuta, eu sei que vocês, filhos de Hermes, adoram causar desespero nos outros e coisas do tipo. Mas com a Jenny não. Você não vai sumir com o violão dela. Não vou deixar.
— O que? — perguntei, desacreditada. — Baseado em que você fala tanta asneira? Eu sei que esse violão é de Jenny. Ela me pediu para pega-lo, babacão. E não sou filha de Hermes. Sou Samantha Roberts, filha de Atena.
Ele deu risada.
— Filhos de Atena. Claro. Eu deveria ter adivinhado.
— Você não me conhece, se enxerga.
— Conheço, sim. — ele desmentiu. — Jenny me fala muito sobre você.
— Pena que não acontece o mesmo comigo. Quem é você? Membro da patrulha dos chalés?
— Nicholas Johnson, o filho de Poseidon.
Primeira observação: o filho de Poseidon. Eu achava o ego de Jenny grande, mas descartei a ideia ao ouvir tal frase. Poseidon, um dos três principais deuses. Esse cara deveria se achar o dono do acampamento por causa disso.
Segunda observação: Sim, Jenny havia me falara dele, me recordei. Nick. Ela contava que ele era um amigo antes dela ter se mudado para Nova York, mas nada mais.
— A tão falada Sam. — Nicholas disse. — Eu esperava mais.
— Que pena que ficou desapontado.
Então eu dei as costas para ele e fui procurar por Jenny, que achei sentada no meio de várias pessoas que vi em suas fotos. Ela me olhou, sorriu e abriu um espaço ao seu lado. Entreguei-lhe o violão e sentei, emburrada, coisa que mudou logo que a cantoria começou. O clima era realmente adorável.
Infelizmente, Nicholas teve que estragar isso sentando-se do outro lado de Jenny. Mas tentei deixar de lado. Vendo todos cantarem assim, juntos, me senti parte daquela família pela primeira vez.
A cantoria foi interrompida quando uma garota ruiva que usava uma camisa do Green Peace levantou. Eu não entendi a razão daquilo tudo, vai que ela apenas queria ir ao banheiro. Porém, todos olhavam para ela, apreensivos.
— Gent ... eu acho ... – ela tentou começar.
— Essa é Rachel, a única mortal no acampamento. Ela é nosso oráculo, faz profecias e tem visões do futuro. — informou Jenny
— Vai sair uma profe... – os olhos de Rachel ficaram verdes. De sua boca saiu uma fumaça e uma voz demoníaca:
"O novo filho da Coruja, o filho do Cavalo e da Lira,
Ao Olimpo vão buscar sabedoria.
Ao extremo Oeste irão, para buscar o Livro do Sábio na torre Titã.
E, ao deixar todos a salvos, tornarão a viagem vã."
Rachel apagou e alguns campistas a apararam. Eu estava prestes a levantar para ajuda-la também. Como as outras pessoas podia tratar isso com tamanha naturalidade? Mas eles pareciam estar preocupados com outra coisa: estavam olhando para mim. Ou melhor, para minha cabeça. Olhei para cima e vi um holograma em forma de coruja prateado em cima de minha cabeça.
Olhei para Jenny, em busca de socorro, e seus lábios desenhavam as palavras “Isso é ser reclamada’’. Levantei-me, assustada.
— Vamos dar uma salva de palmas à Samantha Roberts, filha de Atena! A deusa da sabedoria, das estratégias, das ideias, da civilização, da coragem e da justiça! – anunciou Quíron.
Todos me aplaudiram e eu me senti demasiadamente feliz. Afinal, quem não gosta de ser aplaudido?
— Quero uma reunião do Conselho de Guerra em meia hora para... discutir sobre esses acontecimentos de agora – disse Quíron – Também quero você lá, Samantha. Todos estão dispensados.
As pessoas foram saindo. Só ficaram Jenny, Nicholas me encarando. Uma garota de cabelos castanhos claros estava sentada numa tora em frente a minha, e nos observava.
— Pelo jeito vocês se conheceram – disse Jenny.
— Infelizmente — dissemos em uníssono.
— Nem venham, vocês dois! Eu arquitetei um plano para fazer vocês dois virarem amigos. E seríamos o trio! Demais, não? Claro que sim. Então, não estraguem meus planos.
— Fale isso para o Sr. Policial Mau. — eu retruquei.
— Quê?
— Eu achei que ela estava roubando seu violão! — Nicholas se defendeu. — Só isso.
— Só isso? Você veio todo cheio de si para cima de mim. Não vou deixar você esse violão. — imitei a voz dele. — Aposto que você deve adorar isso, né? Salvar o dia. E que todos ovacionem o filho de Poseidon, o gostosão do acampamento! Aposto que deve ser demais.
— Demais. — ele repetiu, incrédulo. — Demais. E depois sou quem só fala asneira. Eu não vou ficar aqui escutando isso. — ele se levantou. — Se ao menos você tivesse ideia... Esquece. Vai morder sua língua depois. Até mais, Jenny.
Então, ele saiu enfezado, com passos pesados.
— Sam, ele não se acha o gostosão. — Jenny explicou. — Quando ele disse que era o Filho de Poseidon, ele quis se referir que era o único. Isso devido a um pacto que os Três Grandes ...
— Zeus, Poseidon e Hades – completei.
— Sim. Eles juraram diante do rio Estige que não iam mais procriar filhos semideuses, pois eles seriam muito poderosos, até demais. Esse juramento foi quebrado três vezes, uma por cada deus. É muita pressão em cima dele por causa disso. Não é fácil para ele ser um erro do próprio pai, então pega leve.
Eu podia estar equivocada, mas ainda não gostava daquele garoto.
— Vou falar com Nick. — ela disse, se levantando. —Tudo indica que vocês farão essa missão juntos, então é melhor se vocês se entendessem. Ah, aquela é Briana —ela apontou a morena lá atrás — 17 anos, uma das veteranas do acampamento e conselheira-chefe do seu chalé. Não nos falamos muito, mas sei que ela é legal. Acho que ela quer conversar com você antes do Conselho de Guerra. Eu também estarei lá. Te vejo depois. – então ela foi atrás de Nick
Fui falar com minha meia-irmã mais velha. Ela acenou quando cheguei mais perto e eu repeti o gesto. Ela tinha os mesmos olhos do que eu: cinzentos e bem brilhantes. Era mais alta que eu e me parecia bem atlética. Primeiramente, pensei ter encontrado inexpressão em seu rosto. Mas então conclui que era calma.
— Oi, eu sou a...
— Sam. Eu já sei. Bom, todo mundo sabe – ela disse. Eu era uma filha de Atena burra. Ótimo.
— Então você é a Briana. Jenny falou de você. Queria falar alguma coisa comigo? – perguntei
— Eu queria te mostrar o nosso chalé! Já pedi para Mary, nossa irmã, pegar uma muda de roupas para você. Vamos ver seu beliche?
E então eu vi que ela era legal. Genética, pensei.
Chegamos à frente do Chalé 6, eu não tinha reparado muito bem ele de longe, mas agora dava para ver que em cada detalhe que ele era perfeito. Era feito de um mármore pálido e branco, ornado com grossas colunas torcidas em tranças e vários galhos da enorme oliveira. Tinha um brilho fraco. Como eu disse, perfeito.
— Que bom que pensa assim! – Briana me disse
Olhei para ela, assutada.
— Como disse? – perguntei, ainda em choque
— Que bom que pensa assim. — ela repetiu.
— Você lê pensamentos? — indaguei.
Ela sorriu e assentiu.
— E você deve poder também, mas ainda não sabe como fazer isso. Nós, filhos de Atena, temos todos os poderes possíveis e imagináveis que se relacionam ao cérebro. Você vai descobrindo aos poucos.
— Que. Legal. — eu disse.
Briana abriu a porta e entramos no nosso chalé.
Em seu interior havia vários beliches dispostos. As camas eram arrumadas, mas o chalé estava o caos. Folhas de papéis amassadas, livros espalhados em cada canto do chalé, vários lápis e canetas jogados por aí e diferentes tipos de esquadros e réguas. O lugar cheirava a livro novo.
— Temos o pensamento muito bem organizado, mas o chalé... — Briana comentou.
— Eu amei. — admiti.
Nesse momento chegou outra menina no chalé, com cabelos escuros, menor do que eu, entrou com uma muda de roupas na mão. Outra irmã, pensei.
— Eu consegui as roupas que você pediu, Bri. – ela olhou para cima e me avistou, sorriu também. – Olá, eu sou sua irmã mais nova, Mary. Um prazer te conhecer!
— O prazer é meu, Mary. – respondi
— Acho que ela pode ficar com o segundo beliche, na parte de baixo. — Briana disse. — Ponha as roupas dela lá, por favor.
Reparei, então, que estávamos sozinhas. Eu teria tão poucos irmãos assim?
— Lógico que não. – Briana falou – eles estão no covil.
Se ela respondesse mais alguma coisa que eu perguntasse a mim mesma, eu iria gritar. Juro.
Briana foi até a parede que tinha uma coruja pendurada, então levantou a asa dela. Surpreendendo-me, uma porta se abriu na parede, com uma escada aos seus pés. Briana agiu como se aquilo não fosse a coisa mais estranha do mundo e desceu as escadas calmamente.
— Segredo de estado, hein?
— Pode deixar. — eu disse rapidamente.
Quando chegamos lá embaixo, vi o restante de meus irmãos. Aproximadamente uns dez. A sala secreta era equipada com sofás e televisão, mesa para projetos e escrivaninhas, uma mesa de sinuca e pebolim, e mais prateleiras cheias de livros. Todos estavam jogados e relaxados, uns lendo e outros ouvindo música.
— Gente, essa é a...
— Oi, Sam! – todos responderam antes de Briana terminar a frase.
Fiquei conversando com eles o restante de meu tempo livre, ansiosa por conhecer meus novos irmãos. Pense só! Eu fora filha única a vida inteira a agora descobri tenho mais irmãos que meus dedos podem contar.
Mas, infelizmente, Briana me fez cair na realidade. Eu ainda tinha que comparecer ao Conselho de Guerra, seja lá o que isso fosse.
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