Samantha Roberts - O Livro de Sócrates

2 Coragem, burrice... Chame do que quiser.


O quizz estava rolando. A partida era entre o colégio Abraham Lincoln e nosso adversário histórico, a Academia James Dashwood. De um lado, Jenny e eu. Do outro, dois engravatados mauricinhos de nariz empinados, bancando os gênios.

Eu sentia a tensão em cada tendão de meu corpo. Meu coração estava a mil. Os olhares da plateia, que não era tão grande assim, pesavam sobre mim. Minha respiração ficava mais pesada a cada segundo que passava no relógio.

Eu batucava em meu balcão, tentando encontrar a resposta. Jenny havia feito seu trabalho muito bem: apertou o botão primeiro. Agora a responsabilidade era minha. Uma resposta certa e iríamos para as regionais. Uma resposta certa e eu iria esfregar meu troféu na cara daqueles filhinhos de papai. Uma resposta errada e a Academia James Dashwood se aproximaria da gente e poderia muito bem voltar para a corrida do título.

— Vou repetir. — anunciou o anfitrião do quizz. — Como se chama a estadista que em 1988 — ele disse a data pausadamente, como se a resposta estivesse ali. — conseguiu ser a primeira mulher chefe de um Estado islâmico?

Eu sabia aquela, juro que sabia. Recordava-me de ter lido sobre isso. Lembrava em qual específico livro de história se encontrava aquela resposta. No entanto, um clarão me veio à mente. Eu sabia que ela tinha um nome diferente, mas não tão estranho quanto os outros. Talvez começasse com B...

Minha linha de raciocínio foi cortada por um barulho que ecoou no auditório inteiro. Aquilo era... Um latido?

As portas de saída do auditório começaram a tremer. Alguma coisa bateu nelas violentamente. De novo. E mais uma vez. Todo mundo parou para tentar entender o que estava acontecendo.

Mais uma tentativa e as portas foram arrombadas por dois vultos enormes, que derrubaram as cadeiras desocupadas dos fundos. A plateia se levantou e recuou para perto do palco.

Aquilo são rottweilers?

Porém não eram quaisquer rottweilers. Eram enormes. E não é uma hipérbole para um cachorro normal dessa raça. Eles tinham uns dois metros e meio. Não estou brincando. Eram assustadores.

Os cachorros começaram a rosnar a avançar, derrubando tudo o que vinha pela frente. As plateia, em resposta, começou a se desesperar e a correr. O cenário parecia uma cena apocalíptica: um completo caos.

— Ai, caramba. — Jenny disse ao meu lado.

Eu estava completamente paralisada de medo. Como de costume, presumi que Jenny agisse totalmente ao contrário de mim — que saísse correndo e esperneando. Mas ela procedeu de modo que me surpreendeu. Jenny foi até o anfitrião do quizz, caído de medo no chão, e lhe arrancou o microfone.

— Senhoras e senhores, por favor mantenham a calma. — Jenny começou.

— TEM DOIS MONSTROS ATACANDO O COLÉGIO E VOCÊ ESTÁ PEDINDO PARA A GENTE MANTER A CALMA? — eu berrei para ela.

Jenny respondeu-me com um olhar de repreensão. Nesse meio tempo, os cachorros gigantes passaram para a lateral do auditório, arrancando cartazes e derrubando mais cadeiras.

— Estes cães pertencem à delegacia aqui ao lado. — Jenny continuou. — Mantenham a calma que a polícia já deve estar ao caminho. Saiam do auditório, com calma! Eles podem ainda estar em treinamento. São nocivos!

Cães da polícia? Em que tipo de pet shop a polícia acharia aquelas criaturas?

A plateia seguiu o conselho e foi evacuando o auditório aos poucos. Os mauricinhos da Dashwood também passaram por mim, choramingando. Crianças estavam chorando e alguns homens pareceram estar dispostos para domarem as feras, mas foram puxados pelos que estavam saindo.

Eu estava prestes a segui-los quando Jenny me puxou pela camisa. Olhei para ela, revoltada, mas algo chamou mais minha atenção: um arco que ela segurava.

— De onde você tirou isso? – perguntei, espantada.

— Da minha mochila. — ela respondeu naturalmente, como se fosse normal tirar um arco daquele tamanho da mochila. — Sam, me escute. Mantenha a calma. O que você está vendo?

— Como assim o que eu estou vendo? Tem dois monstros enormes atacando a escola! — comecei a puxar o braço dela para descermos do palco, mas ela se soltou.

Trememos ao ouvir o ensurdecedor latido que um dos monstros soltou. Maldita acústica. Jenny rapidamente voltou ao normal. Seus olhos estavam sérios por debaixo do cenho franzido. Não é uma feição muito encontrada na sempre alegre Jenny.

Jenny foi até sua mochila, que antes estava nas coxias do palco, e de lá tirou uma aljava com flechas. O que?

— Sam. — ela disse, séria. — Não temos tempo. Jurei fazer de tudo para nunca ter que te contar isso. Me perdoa, sério. Mas agora e-eu... — ela sacudiu a cabeça. — Eu venho guardando um segredo de você.

Engoli seco. Jenny e eu tínhamos uma rigorosa, embora não explicitamente admitida, política de completa confiança e honestidade recíproca. Eu mal conseguia imaginar que tipo de segredo seria tão importante ao ponto dela ter de omiti-lo a mim.

Jenny respirou fundo.

— Você é que nem eu, Sam.

— Tenho mochilas com um enorme armazenamento interno e com flechas dentro?

— Sam, me escuta. É sério. São armas de batalha. E você tem as suas também, mas não na sua mochila. — ela grunhiu como se arrependesse do que falara. — Esquece. Desculpa dizer isso assim, mas... — ela deu uma longa pausa. —Sam, você é uma semideusa.

— Jenny, não é hora para isso.

Ela pôs uma flecha no arco e puxou a corda.

— Se não fosse verdade, como explicaria dois cães infernais e uma mochila magicamente alterada para comportar meu arco e flecha? — ela indagou.

Parei de respirar, atônita. Meu Deus, o que estava acontecendo? Minha melhor amiga... semideusa? Eu, uma semideusa? Cães infernais? Que diabos! Não podia ser real. Era apenas um sonho estranho. Só podia ser.

Jenny disparou a flecha e acertou no olho vermelho de um dos cachorros. Cães infernais. Tanto faz. O bicho uivou de dor; e aquele som arrepiante me fez acreditar que aquilo não podia ser um sonho.

Cães infernais. Mitologia grega. Cães do submundo. Eu já havia lido algo sobre isso, mas nada sobre como ganhar deles. Mesmo assim, eu não iria deixar minha amiga lutar contra dois sozinha. E realidade caiu sobre mim em súbito. Uma energia estranha vibrava no meu corpo. Eu tinha que ajuda-la.

Ai, que confusão na cabeça.

— Jenny. — chamei. — Armas. Você disse que eu tinha armas. Quais?

Ela atirou mais uma vez antes de olhar para mim. A preocupação estava estampada em seu rosto.

— Não importa agora. Fique atrás de mim e não fuja. Eles podem te seguir.

Minha cabeça doía. Arco e flecha. Semideusa. Cães infernais. Quem era aquela garota que estava ali na minha frente? Eu não podia estar me sentido pior. Meu mundinho de verdades universais estava desmoronando.

— Eu tenho o direito de saber! — gritei, engolindo um soluço. — Você chega e bagunça toda a minha vida e agora quer me deixar com meias verdades? — ela tensionou a corda do arco, calibrando a mira. Não me respondeu. — Jennifer!

Jenny bufou, vencida.

— Seu colar. É um presente de sua mãe. É um artefato mágico, assim como minha mochila. Entende? Seu colar é uma espada.

Carreguei uma espada por quinze anos no pescoço e nunca desconfiei disso.

Meu colar era uma simples corrente de prata com um pingente de coruja. Eu usava esse colar desde que me entendia por gente. Sempre achei que fora um presente de papai. Afinal, a coruja era símbolo dos professores. Mas, minha mãe? Um presente? O que foi aquilo? Fique quietinha com seu pai e ganhe um brinde?

Os cães infernais avançaram em nossa direção. Jenny e eu corremos para as coxias do outro lado do palco. Jenny armou seu arco mais uma vez e se colocou para fora. Disparou e voltou rapidamente para nosso abrigo.

— Como eu ativo esse troço? — perguntei.

— O que? Eu não vou te deixar lutar!

— Você vai me dizer como essa droga vira uma espada agora!

— Não mesmo!

Agarrei o seu braço e olhei fixamente dentro de seus olhos. Eu podia ver meu reflexo neles. Eu apresentava uma feição completamente alterada. Não estava para discussõeszinhas.

— Sofía. — ela revelou. — Seu pai me disse... Tinha um bilhete de sua mãe, coisa assim... Diga sofía.

Um bilhete. Meu pai também era um mentiroso. Nunca havia me contado desse tal bilhete.

Pus a mão em meu pingente, relutante.

— Sofía.

Então, meu colar começou a brilhar. Ele foi desaparecendo aos poucos sob meus dedos. Quando senti um volume em minha mão, olhei para ela. Uma espada. Tinha uma espada na minha mão! Ela tinha a lâmina comprida e bem polida, seu punho era de couro preto e tinha uma coruja em alto-relevo bem no meio.

E estava comigo o tempo todo, bem na minha cara. Uma coisa ligada a minha oculta verdadeira essência e eu nunca me toquei. Mas, também, como poderia?

Jenny atirou mais uma flecha quando um dos cães estava subindo no palco. Percebi naquele momento que ela nunca impediria os cães infernais assim.

— Olha, eu espero que você não...

Antes de ela terminar a frase, arranquei em direção ao monstro em cima do palco.

— SAM!

Uma saraivada de flechas voou por cima de mim, quase todas certeiras. O cão estava sangrando (um sangue... dourado?) e estava fraco, mas continuava de pé. Talvez Jenny conseguisse dar conta do recado se continuasse, mas as flechas se cessaram. Olhei para trás e vi que sua aljava estava vazia. Ela gritava para que eu voltasse, mas meu corpo gritava mais alto e me conduzia ao confronto.

Eu não sabia muito bem o que fazer. Tentei imitar mais ou menos o que via nos filmes, porém, com certeza, não iria dar certo. Levantei a pesada espada e tentei desferir alguns golpes, mas eu estava distante demais. E eu não queria chegar mais perto. O cão deu um passo a frente e avançou em mim, querendo me mordei. Joguei-me no chão e caí por cima do ombro. Antes que eu pudesse pensar em fazer algo, vi uma enorme pata descendo na minha direção. Rolei para o lado.

O segundo cachorro, que tinha a flecha no olho, subiu no palco e eu me declarei morta. Então, uma vozinha me disse: Já está morta. Que faz mal ter seus últimos insanos momentos de vida?

Segurei firme minha espada e cravei sua lâmina na pata do cão ao meu lado. Ele uivou e, com a outra pata, bateu em mim. Voei para fora do palco e caí em cima de algumas cadeiras.

— Sam! — Jenny gritou.

Arquejei de dor. Com certeza havia quebrado algo. Tentei me levantar, mas as forças escaparam de meu corpo. Senti uma coisa melada no pescoço. Seria aquilo sangue?

Não tive tempo de descobrir, pois tudo, de repente, ficou preto.