Estávamos quase na Casa Grande.

— Eu não me meti em encrenca, né? — quis saber. — Tipo, ser reclamada não é uma coisa boa?

— Fique tranquila. – agora o semblante de Briana era sério. – Eu resolvo isso.

Quando entramos na Casa Grande, Briana passou direto pela sala de estar e entrou num cômodo que parecia ser um salão de jogos. Em volta da mesa de ping-pong estava algumas cadeiras, nas quais os conselheiros-chefes e Rachel estavam sentados. Eu achei aquilo estranho, mas optei por não comentar.

Avistei Jenny lá atrás. Ela estava sendo abraçada pela cintura por um garoto alto, com o cabelo castanho liso. Eu estava tentando entender de onde vinha tamanha intimidade quando eles trocaram... um beijo? Olhei para ela com uma sobrancelha arqueada e Jenny viu. Entendeu a mensagem. Ela fez um gesto indicando que iríamos resolver isso depois. Lancei um olhar revoltado em resposta.

— Bom, Samantha. Tudo indica que você sairá em missão – disse Quíron

— Missão?

Quíron pediu que eu me sentasse à mesa. Puxei uma cadeira e me sentei ao lado de Briana.

— Primeiro iremos ao Olimpo falar com os deuses. — Nick disse. Não gostei do jeito que ele falou ‘iremos’. — E essa torre Titã? O Monte Tamalpais já não está em ruínas?

— Vai ver o Livro vai estar perdido nas ruínas da caverna. —disse um garoto. ‘’Matt, conselheiro-chefe do chalé de Ares.’’, ouvi a voz de Briana em minha mente. Certo, podemos ler mentes e também falar na mente alheia. Mais alguma surpresa? — Mas quem é esse sábio?

— Sócrates. Vocês querem o Livro de Sócrates. –— entrou na conversa Briana.

— O filósofo? — eu perguntei. — Existem vários livros deles nas livrarias e na internet. Pra que esse transtorno todo se eu posso baixar em pdf?

— Sim, estamos falando de Sócrates, o filósofo. – confirmou Briana – Mas o que muitos não sabem é que Sócrates era um meio-sangue também. Nosso irmão, para ser específica. Dizem que ele fez um livro que contem meios de deter todos nossos inimigos. Todos. Nunca acharam esse livro. Bom, até agora.

—Certo, certo. — tentei me concentrar. — Mas a profecia diz que, se todos estiverem a salvo, a missão seria em vão. Eu não quero que ninguém se machuque, e não quero viajar por nada. Então por que eu iria?

— As palavras do Espirito de Delfos sempre têm mais de uma interpretação. – falou Rachel.

— Eu não vejo se isso se cabe a essa profecia – Nick opinou. – Não temos o livro e todos sairão a salvo ou temos o livro e um fica. – Ele olhou para mim, com uma expressão maldosa. — Cruzaremos os Estados Unidos, chegaremos a São Francisco, entraremos ao por do sol no Jardim Das Hespérides para poder subir o Monte Tamalpais eprocurar o Livro de Sócrates nas ruínas de sua caverna, podendo lutar com um possível guardião. Muito simples. Sem erro.

Simples?

— Sam, você liderará está missão. — Quíron disse. — É a primeira a ser citada na profecia. A presença de Nicholas é indiscutível. — ao ouvir isso, Nicholas bufou. — A lira é um dos símbolos de Apolo. Terá que chamar um filho dele.

— A Jenny, é claro.

— Até parece que os deuses armaram isso para gente! — Jenny disse, feliz.

— Certo. Então parabéns e blá blá blá – Sr. D. começou, nem o tinha percebido ali. – Você saem amanhã e...

— De jeito nenhum! – interrompeu Briana.

— Como disse? — Sr. D. perguntou com fúria nos olhos. Como ousa me interromper?

— Simplesmente não quero que minha irmã vá ao suicídio! — ela disse em tom alterado. — Vejam bem, ela acaba de se recuperar de um ataque de cães infernais, lutou uma vez na vida e nem faz uma hora que ela foi reclamada. Querem mesmo manda-la para uma missão? Nós treinamos anos antes de nos arriscar lá fora.

Não sei se me sentia lisonjeada pela proteção ou ofendida pela pouca fé depositada em mim. Vamos ficar com lisonjeada.

— Olhe, Briana. Quando há profecias no meio da situação... – Quíron tentou começar

— O que só estou pedindo é tempo para eu poder treina-la — ela respirou fundo. — Hoje é domingo. Que tal eles saírem sábado de manhã?

Houve uns múrmuros de concordância.

— Está feito! Samantha, Jennifer e Nicholas partem sábado de manhã!

Todos saíram do salão de jogos, menos Nick, Jenny, o garoto que ela beijou e eu. Vi Julia entrar pela porta para ir ao nosso encontro. Respirei fundo. Eu ia atravessar os Estados Unidos em uma semana, com alta probabilidade de ser morta. Quem se importa?

Olhei para Jenny e para o desconhecido garoto. Ele estava sorrindo para mim, sem saber o que fazer exatamente.

— Quem é ele? — perguntei.

— O Victor, ué. — ela respondeu, dando ombros.

Cruzei os braços, desconfiada.

— Victor? O cara da internet? Aquele que morava no fim do mundo? O cara que você ficava de papinho e cheia de charmes?

— Ah, qual é, Sam? Você não ia querer conhecer meu suposto namorado se eu falasse que ele morava tão perto? E Victor não tem permissão para ficar saindo do acampamento bem quando ele quiser. Não vi outro modo. Fiz isso para te...

— Proteger. — completei, irritada. — Namorado?

— Há sete meses. — respondeu Victor, contente, abraçando Jenny pelos ombros. — Prazer, Victor. Filho de Afrodite.

Fiquei balançando a cabeça.

— Você me disse que os segredos tinham parado.

— Ah, mas eu me esqueci do Victor!

Ele franziu as sobrancelhas.

— Esqueceu de mim?

Jenny pegou sua mão.

— Não, amor. É que... Ai, gente! Qual é! Parem de agir como se isso fosse um crime. Tive que esconder a identidade de Victor, assim como fiz com a minha. Vamos, Srta. Wikipédia, não fica de cara comigo.

— Eu nunca menti para você.

Um curto período de silencio se estendeu.

— Srta. Wikipédia? — Nicholas riu, querendo quebrar o péssimo clima.

— Você cale a boca, Cabeça de Bagre. — respondi, ríspida.

— Mais algum segredinho? — indaguei para Jenny.

— Nick chupa o dedão enquanto dorme. — ela respondeu, sorrindo. — Esse é o último, juro. Olha, já me sinto mais aliviada.

Nicholas protestou, revoltado, e eu não pude deixar de sorrir rapidamente.

— Eu vou dormir. — anunciei, por fim. — Amanhã vou começar a cavar minha própria cova. Boa noite para os que ficam.

E assim eu saí de lá, sem mais nem menos cerimônias, fui batendo pé até meu chalé. Eu odiava ter que bancar a rabugenta, mas eu me sentia uma completa idiota por ter sido tão facilmente enganada a vida inteira.

Ao chegar em meu chalé, vi Briana em sua cama, lendo. Alguns já estavam dormindo, os demais presumi que ainda estivesse no covil.

— É um bom livro. — eu comentei ao ler o título do livro que ela estava lendo, Guerra e Paz.

— Magnífico. — ela concordou.

Fiquei jogando o peso de meu corpo de uma perna para outra.

— Sabe, Briana, eu queria te agradecer por ter me ajudado no conselho. Está me dando mais chances de conseguir vencer.

— Disponha. — ela sorriu e fechou o livro — Irmãs são para isso. Agora somos uma família, Sam. E protegemos um ao outro. É assim que funciona por aqui.

— Eu percebi. E fiquei muito feliz. Obrigada de novo. Bom, acho que vou me deitar. Boa noite, Briana. Tenha bons sonhos.

— Boa noite. — ela disse e, depois, voltou à sua leitura.

Peguei um moletom que Mary havia deixado em cima de minha nova cama e guardei as demais roupas no baú do respectivo beliche. Joguei-me na cama e fechei os olhos, mesmo que sem sono.

E como eu poderia dormir? Ontem eu vivia apenas para os quizes acadêmicos e hoje eu era uma semideusa, logo possuía sangue divino, havia lutado contra monstros, tinha uma espada mágica e estava se preparando para uma missão que aparentava não ser difícil, mas que ia dar errado. Era informação demais até para mim.

Acabei dormindo pensando em papai e em como ele ficaria sem mim. Algo me dizia para relaxar porque papai sempre soube que esse dia chegaria. Ainda assim, eu não conseguia tirar a imagem de papai deitando-se em casa e se perguntando o que eu teria feito o dia inteiro. Dormi com o coração cheio de saudades de casa.

. . .

Em meu sonho eu estava em uma luta. Com quem era que eu estava lutando eu não sabia. Tudo o que eu sabia é que eu tinha que ganhar a luta. Meus amigos precisavam de mim.

Eu estava no chão e sentia dificuldade de me levantar. Meu corpo era pura exaustão e dor. Não desista, eu dizia para mim. Ponha os outros na sua frente uma vez na vida. Mas nem toda a força de vontade do mundo me faria levantar. A última gota de energia que eu ainda tinha havia se evaporado. Eu estava praticamente morta.

Desabei no chão.