Acordei num sobressalto, assustada. Minha respiração estava ofegante; meus batimentos cardíacos, acelerados. Mas que diabos de sonho havia sido aquele? Parecia ter sido tão real.

Atordoada, procurei por algum relógio no quarto. Encontrei um na parede. Ele estava marcando 5h30. Praguejei ao ver que acordei tão cedo. Conhecendo-me muito bem, logo saí da cama. Eu sabia que não iria tornar a dormir. Troquei de roupa e fui dar um volta pelo acampamento.

O sol ainda não havia nascido. O silêncio e a brisa gelada facilitavam em deixar a manhã com cara de começo de madrugada. Tudo o que ouvia era os meus passos sobre a grama levemente molhada pelo sereno e as cigarras que cantavam em algum lugar distante de mim.

Optei por passear pela floresta, não por qualquer motivo especial, mas porque ela estava bem próxima aos chalés. As árvores muito próximas as outras barravam as correntes de ar, tornando o local mais aconchegante. O som da grama sendo pisada foi substituído pelo som dos gravetos quebrando-se aos meus pés.

Recordei-me que Julia me dissera que haveria uma Caça à Bandeira na próxima quinta-feira, e que ela seria realizada dentro da floresta. Fiquei me questionando como seria uma Caça à Bandeira grega, mas não queria importunar Julia com mais uma de minhas milhares perguntas. Eu teria de esperar para saber.

Encostei minhas costas numa árvore e segurei meu colar.

– Qual é a sua? – perguntei, esperando que minha mãe me ouvisse. – Depois de tantos anos, por que só agora?

Obviamente, ela não respondeu. Manteve a distância de mim que tive que suportar a vida inteira.

Resolvi deixar a história de lado e continuei a explorar a floresta. Quanto mais eu andava, mais eu tinha a sensação de estar andando em círculos. Tudo parecia ser tão igual. Parei de andar por lá antes que eu me perdesse de vez e voltei para trás, de onde eu supus que tinha saído.

Consegui me encontrar depois de dez minutos quando avistei os estábulos a alguns metros de distância. Saí da floresta. Olhei para o sol e vi que ele já estava começando a ficar mais claro. Há quanto tempo eu estava acordando não sabia, mas eu sabia que o sol estava prestes a nascer.

Andei apressadamente para o píer do lago de canoagem, que era do outro lado do acampamento, para chegar a tempo de ver o nascimento do sol. No caminho passei com algumas dríades começando a trabalhar e harpias ralhando com alguns sátiros mulherengos. Era, aparentemente, um começo de dia normal no Acampamento Meio-Sangue.

Sentei-me na balaustrada do píer um minuto antes do sol começar a mostrar sua cara. Ele ia se mostrando depois dos chalés, que pareciam ser bem pequenos por causa da distância. A água do lago refletiu os primeiros raios solares do dia ao som dos pássaros recém-acordados cantando.

Eu deveria acordar cedo mais vezes, pensei comigo.

Voltei para meu chalé bem na hora quando meus irmãos estavam saindo para tomar o dejejum. Entrei no fundo da fila sem dizer nada.

Sentamo-nos à na mesa e começaram a nos servir.

– Onde você se meteu? – Briana perguntou.

– Fui dar uma volta.

Peguei meu prato e me dirigi ao brasão, sem dar maiores explicações à minha meia-irmã. Despejei uma panqueca no fogo.

– Para Atena. – eu disse. – Você me ouve, mãe. Por que não me responde?

Voltei à mesa para começar a comer. Enquanto comíamos, Briana disse que o primeiro horário para utilizar a arena de combates era nosso. Parte de mim ficou ansiosa para começar o treinamento.

Assim que terminamos tudo, fomos para arena. Clarck, outro meio-irmão, me ajudou a colocar minha armadura. Aquela coisa parecia pesar dez quilos. Era humanamente possível usar aquilo?

– Não. Mas é meio-humanamente possível. – Clarck me respondeu, piscando.

– Vocês querem parar com isso? Privacidade!

Ele deu risada e foi pegar uma espada. Briana se dirigiu ao meio da arena.

– Preciso de uma cobaia para mostrar esse novo movimento – Briana olhou justamente para mim. Que surpresa. – Sam! Venha cá e vamos lutar um pouquinho, sim?

– Estou indo. – falei.

Andei com dificuldade até Briana.

– Ok, Sam. Trouxe algumas espadas e deixei ali no canto. Vá lá pegar uma para você e...

– Creio que não será necessário, Briana. – a interrompi. – Olhe só. Sofía!

Uma sensação boa percorreu meu corpo quando a espada se materializou em minhas mãos novamente. Alguns me encararam surpresos. Fiquei com medo por pensar que talvez não fosse o certo por mostrar isso a eles. Briana riu.

– Do grego, Sabedoria. – ela traduziu. – Nada mal, Roberts. Vamos ver se mamãe confiou a você uma espada por quis ou por que ela viu algum potencial em você.

Ela mostrou o golpe que tínhamos que fazer e a sua respectiva defesa, primeiro duas vezes devagar e depois algumas vezes na velocidade normal.

– Se dividam em duplas. – ela mandou. – Menos você, Sam. Você fica comigo.

Sabe aquele amor fraternal? Naquele momento acho que Briana esqueceu no chalé. Ela me atacava sem dó nem piedade, até parecia que tinha esquecido que eu era a novata. Fiz o máximo para tentar acompanhá-la ao aplicar a defesa que ela ensinara. Aos poucos, fui me acostumando com o peso da armadura.

– Estilo livre! – Briana gritou e todos começaram a luta como bem queriam.

Minha luta com Briana não mudou muito de estilo – ela atacava e eu tentava defender. A situação só foi mudando aos poucos, quando comecei a ficar mais confiante. Deixei de ficar pensando nas técnicas que Briana ensinara e me deixei ser levada pelo instinto, já que pela experiência eu, obviamente, não poderia ser levada.

Eu estava realmente gostando da luta com espadas. O barulho das lâminas se chocando soava como música para meus ouvidos. Fazer tudo certo para mostrar para Briana que eu era capaz deixou de ser uma preocupação. Eu estava começando a me entreter com a luta.

Briana desceu a lâmina de sua espada em movimento diagonal. Para desviar, abaixei-me; e, com o impulso do movimento, girei meu corpo e dei uma rasteira em seus pés. Briana caiu com as costas no chão e largou sua espada. Ela fez menção a tentar recuperar sua arma, mas coloquei a ponta de minha lâmina no seu pescoço.

– Rendida. – declarei, triunfante.

Então me dei conta do que eu havia feito e larguei minha espada, perplexa.

– O que... eu fiz? – perguntei.

– Vejo que você é bem hiperativa. – Briana disse, rindo.

– Quando eu era menor me diagnosticaram com TDAH. – revelei. – Mas comecei a tomar medicamento para isso. Hoje ele quase não se manifesta. O que isso tem a ver?

– Não se preocupe, isso é muito comum. O TDAH não é nada mais que nossos reflexos de batalha se manifestando. Não somos feitos para ficarmos quietos. E, a título de curiosidade – Briana se levantou –, se você também for disléxica, isso tão bem é normal. Acontece porque nossa mente é automaticamente programada para o grego antigo. Coisas de nossa linhagem divina.

Continuamos a lutar por um bom tempo. Não vou dizer que a luta estava ficando equilibrada, porque não estava. Briana era infinitamente melhor que eu. Porém, ao poucos, eu sentia meu progresso.

– Levante essa guarda ! – Briana me advertia.

Assim que ela sentia que eu estava preparada, Briana me ensinava novos movimentos e passava mais dicas. Consumimos todo o tempo vago que tínhamos para utilizar a arena. Dez minutos antes do próximo chalé chegar, fizemos uma pausa para tomar água.

– Sabe – Briana disse e tomou mais um gole de água – se você continuar assim, eu nem me preocuparei em te deixar ir para uma missão.

– Pelo jeito que você enfrentou o Sr. D., parecia que você achou que eu iria morrer assim que eu desse um passo para fora do acampamento.

– Não. – ela disse. – Quem sabe um quilômetro ou dois. Aí um grifo surgiria do céu e te agarraria. Duas semanas depois acharíamos seu corpo num ninho gigante no topo de uma montanha.

Dei um cotovelada nele, fingindo estar brava, mas na verdade eu estava rindo.

– Cá entre nós – eu disse depois de um tempo. –, qual é o nome do Sr. D.? Quer dizer, não pode ser D, né?

Tornei a bebericar o copo de água.

– Dionísio.

– Dionísio? O deus?

– Shhh. – Briana levou o dedo indicador à boca. – Não fique falando o nome dele em voz alta. Nomes são poderosos, principalmente aqui. Por isso chamamos ele de Sr. D.

– O deus? – perguntei, desacreditada.

Briana apenas ignorou e foi andando.

– Venha. – ela disse, ainda de costas para mim. – Temos um dia cheio.

Briana deixou-me aos cuidados de Jenny. Tudo o que eu tenho para dizer sobre aquela fatídica aula de arco e flecha é que eu era realmente péssima. Depois da escalada e do almoço, fui tomar banho. Minha tarde foi preenchida por aulas de todos os tipos: grego antigo, teoria de batalha, aprofundamento em história (não mais mitologia) grega.

O resto da semana continuou assim, exceto por Briana aumentar meus exercícios de condicionamento físico e o tempo de meus treinos a cada dia que passava. Nunca tive uma semana mais exaustiva em toda a minha vida.

Na quarta-feira de manhã fizemos uma reunião de chalé para decidirmos quais seriam nossos aliados na Caça à Bandeira. O chalé de Atena sempre liberava um dos times, era tradição do acampamento. Nosso habitual adversário era Ares. Como éramos vinte chalés, o jogo deve que ser dividido em duas rodadas. Quatros times com cinco chalés cada.

– Acho que pode dar certo. – disse Mary.

– Será esse time. – Briana decidiu.

Entramos em contato com Quíron e ele aceitou nosso requerimento. Voltamos para nossas atividades, satisfeitos e ansiosos para o dia seguinte.


Estávamos todos reunidos no começo da floresta. Quíron tomou seu lugar na frente da multidão. Ele assoprou o apito que estava pendurado em seu pescoço e todos pararam para escutá-lo.

– A primeira rodada será Atena contra Ares. – ele anunciou. – O time de Atena é: Apolo, Hécate, Hefesto e Hermes. O time de Ares: Poseidon, Afrodite, Zeus e Dionísio. As regras não mudaram desde a última vez que jogaram. Sem matar ou aleijar. O riacho divide os dois lados da floresta. Se reúnam para discutirem estratégias! Os demais esperem sentados no refetório.

Nosso time, o time azul, se reuniu numa grande roda, longe do time adversário. Briana nos dividiu em quatro grupos principais: os que iriam invadir o território inimigo para quebrar suas defesas, os que iriam defender diretamente a bandeira, os que iriam montar a defesa e os que iriam, sorrateiramente, procurar por nossa bandeira no território adversário. Dentro dos que iriam montar a defesa, fiquei na Subdivisão Riacho. Assim que os integrantes de meu time passassem para o outro lado, eu teria que ajudar a montar outra linha de contensão perto do riacho.

Ouvi as ordens atentamente, com os olhos fixos no chão.

– Time azul no três. – Briana disse. – Um, dois, três...

– Time azul! – todo o time gritou em uníssono.

Acompanhei meu time até a parte norte da floresta, onde seria nosso território. Posicionei-me com meus companheiros de subdivisão um pouco atrás do primeiro grupo.

Quíron se posicionou no meio das duas equipes.

– Eu ficarei na arbitragem. Qualquer tentativa de quebrarem alguma regra, a expulsão será imediata. Entendidos? Ao som do apito.

Todos ficaram quietos. Prendi meu ar e segurei com mais força o punho de minha espada. Olhei para frente, para os semideuses que usavam um elmo com plumagem vermelha. Eu não podia deixa-los passar. Era esse meu único trabalho.

Quíron assoprou o apito.

As linhas de frente ergueram suas armas e avançaram soltando gritos de guerra que ecoaram pela floresta inteira. Eles estavam vindo.

Posicionei-me mais a frente quando a primeira divisão inteira já havia ultrapassado os limites de nosso território. Pus-me em posição de combate, esperando pelos filhos de Ares que vinham com sangue nos olhos para o nosso lado do riacho.

Três semideuses adversários passaram por mim como um raio. Eu mal tive reação. Eles nem ligaram para mim, só passaram.

Indignada por ter sido ignorada, nem percebi o outro semideus do time vermelho que vinha me atacar. Ele vinha em alta velocidade, com a espada em meia altura. Coloquei-me em sua frente, o que o obrigou a reduzir. Ele tentou aplicar com golpe lateral, que broqueei sem maiores dificuldade. Tentei aplicar uma estocada, porém ele desviou minha investiga rapidamente com sua espada.

Uma porção de ataques se sucedeu. A luta não parecia ter nenhum favorito à vitória. Mas eu não me importava. Atrasar – essa era minha única missão.

O semideus levantou sua espada. Prevendo seu movimento próximo movimento, girei meu corpo num pé só, ficando de costas para ele. A lâmina dele desceu junto ao meu ombro esquerdo assim que eu terminei o movimento. Antes de ele terminar de descrever um arco vertical, como estava indo fazer, agarrei com as duas mãos o pulso da mão que segurava a espada. Sacudi seu pulso violentamente até ele soltar a espada. Olhei para trás para ver onde exatamente estava seu rosto. Dei-lhe duas cotoveladas fortes na face, mas ainda segurando com uma mão seu pulso. Segurei seu braço com as duas mãos e passei seu corpo por cima do ombro. Ele caiu com as costas no chão, arfando. Pisei em seu peito.

Naquele exato momento, Nicholas passou correndo pela minha frente. Eu sabia que era loucura, mas eu queria confronta-lo. Procurei por um companheiro de equipe, desesperadamente.

– Julia! – gritei, feliz, quando a encontrei no meio daquela confusão toda. – Cuide dele. – apontei para o semideus que eu pisava.

Ela assentiu e eu fui correr atrás de Nicholas.

Ele estava andando rápido por entre as árvores, com cuidado para não ser visto. Antes que ele avançasse demais, eu disse:

– A bandeira está bem escondida para alguém com seu QI encontra-la.

Nicholas olhou para trás e, ao ver quem era a dona da voz, deu meia volta.

– Acho que alguém está muito confiante. – ele disse enquanto andava calmamente. – Talvez esteja na hora de cortar sua asinhas.

Ele levantou a mão esquerda e balançou o dedo que tinha um anel de prata. Nicholas tirou o anel do dedo, com um sorriso traquina no rosto, pôs a joia na palma da mão e fechou seus dedos em volta dela. Não demorou muito até uma haste crescer em suas mãos. A extremidade superior da haste dividiu-se em três afiadas pontas.

Ah, claro. Um tridente. Por que não estou impressionada?

Nicholas me encarava com aquele olhar de psicopata que eu já vira uma vez antes. Ela dava passos para frente, eu recuava; a guarda sempre montada. Eu estava esperando ele dar o primeiro ataque. Nunca fui treinada para lutar contra um oponente armado com tridente, não fazia ideia do que eu deveria fazer.

Felizmente, Nicholas deu sua primeira investida, fazendo do tridente um verdadeiro garfo, tentando me espertar na altura da barriga. Para bloquear o golpe, coloquei minha espada entre os dentes do tridente. Ele deu risada. Nicholas girou o tridente e minha espada voou de minhas mãos. Tentei pegá-la novamente, mas Nicholas foi mais rápido. Fui arranca-la de sua mão, mas ele pôs o tridente entre nós.

– Não, não, não, não. – ele disse. – Quietinha aí. Será que eu ouvi mal quando disseram que você daria uma excelente espadachim? Não, não pode ser. Você está pegando leve comigo, não é?

Nicholas jogou minha espada para mim.

– Pode lutar pra valer comigo. – ele falou. – Não tem problema.

Olhei para ele com raiva. O infeliz ainda tinha coragem de zombar da minha cara.

Dei uma estocada, porém ele rebateu minha espada com a haste do tridente. Por pouco a espada não voou da minha mão novamente.

– Por aqui, não. – ele disse, zombeteiro.

Ataquei pela lateral, mas ele também conseguiu desviar os golpes com esforço mínimo.

– Nem por aqui.

– Alguém já te disse que você é completamente irritante?

– Creio que você não seja a primeira a falar isso. — ele riu. — Olha, você fez um ótimo trabalho tentando me impedir. – ele disse, dando alguns passos para trás. – Mas eu tenho uma bandeira para pegar, e um jogo para vencer. Agora, se a senhorita me der licença...

Nicholas jogou o ombro para trás e lançou o tridente em minha direção. Os dentes passaram apenas de raspão em meu braço direito, mas ainda assim arrancaram algumas camadas de pele. Larguei a espada e grunhi de dor, xingando Nicholas de todos nomes possíveis.

Ele abriu a mão e o tridente voou até ela. Nicholas parecia estar disposto a voltar para o plano que haviam traçado para ele, mas algo o deteve. Ele olhou para algo atrás de mim.

– Já viu o que um filho de Poseidon pode fazer?

Olhei para cima do meu ombro e entendi o que ele quis dizer. A dez metros atrás de mim, as águas do riacho corriam no fluxo da corrente.

Peguei rapidamente a espada do chão, tentando pensar no que fazer a seguir. A dor em braço não ajudava em nada. Recorri à opção mais corajosa: fugir. Porém, antes mesmo que eu desse um passo, olhei para trás e vi que dez mil litros de água estavam erguidos no ar.

Droga, droga, droga.

Eu não poderia detê-lo. E não havia ninguém por perto. O único que poderia parar Nicholas era ele mesmo. Como se ele fosse se dar um soco, pensei. Ou apenas desistir da deliciosa ideia de encher meus pulmões de água.

Acredite ou não, mas aconteceu. E, não. Não foi a opção mais plausível: ele desistir. Nicholas realmente se deu um soco. No nariz, ainda por cima.

Os dez mil litros de água caíram no riacho novamente. O impacto fez a água respingar por todos os cantos, inclusive minhas costas. A princípio, não sabia quem estava mais confuso: eu ou Nicholas. Então eu entendi o que tinha acontecido.

Senti uma ligação ser criada entre Nicholas e eu. Era como se eu tivesse criado membros novos em meu corpo. Eu podia mexer no corpo de Nicholas como se fosse o meu próprio. É difícil de se explicar. Mas mesmo com essa ligação estranha, Nicholas era uma coisa totalmente isolada. Meu corpo era meu corpo; e o corpo de Nicholas era o corpo dele. Só que eu tinha poder sobre os dois.

Testei aquela loucura fazendo com que ele mexesse os dedos das mãos.

– O-o que... você... Como? – Nicholas gaguejou.

– Já viu o que um filho de Atena pode fazer?

Não perdi tempo.

Fiz com que ele se desse mais um soco no nariz, que começou a sangrar.

Gostei da brincadeira.

Foi uma sucessão de socos no rosto e na boca do estômago. Vi que ele estava totalmente sem ar e resolvi dar o golpe final – fiz com que ele pulasse e se jogasse no chão. Subitamente, minha pressão caiu. Tudo começou a ficar preto. Dei passos vacilantes para o lado.

Nicholas gemeu e rolou no chão, para tentar se levantar. Antes que ele o fizesse, andei até ele e abri um talho em sua coxa com minha espada.

Ele gritou de dor, pondo a mão no machucado.

– Sua louca! Sem aleijar. – ele repetiu.

– O que é? Vai contar para a mamãe? – abaixei-me e peguei seu tridente. Era pesado. Pus a ponta de minha espada na base de sua garganta. – Vamos. É meu prisioneiro. Levanta.

E, rendido, ele deixou ser conduzido por mim até o local que explicaram para mim que serviria de prisão – uma câmara no meio da floresta. Permanecemos mudos o caminho inteiro. O sangue escorria pela perna e pelo nariz de Nicholas, e também pelo meu braço direito.

Briana estava prendendo outro integrante do time vermelho quando chegamos. Ela notou nosso estado físico e assobiou.

– Quanta violência!

– Ele mereceu. – me defendi.

Briana andou até nós.

– Conseguiu prender nossa raposa favorita. – Briana disse. – Belo trabalho, Sam. Como conseguiu fazer este estrago? Ele não é muito de levar desaforo para casa, não é, querida raposa?

– Não. – Nicholas respondeu entre os dentes.

Levei Nicholas até as algemas conectadas por uma corrente na parede e o prendi.

– Você não vai acreditar, Bri. – comecei a história. – É loucura mesmo! De algum modo... ainda não sei como fiz isso... eu consegui sentir o corpo dele. Tinha total controle sobre seus movimentos!

– Você conseguiu entrar em suas funções motoras? – Briana perguntou, espantada.

– Se é assim que você chama, sim.

Ela olhou para mim, boquiaberta.

– Sam, eu venho tentando fazer isso há anos! – Briana estava quase gritando. – Sabe quanta energia, quanta concentração e treino isso exige!?

– Concentração? Eu estava desesperada porque esse daqui – apontei para Nicholas – estava querendo me matar.

– Não compreendo.

– Nem eu.

Uma rapaz se aproximou de mim.

– Posso cuidar disso? – ele disse, se referindo ao meu braço.

– Claro.

Eu o segui até uma mesa repleta de coisas de primeiros socorros. Um pouco depois de ele conseguir lavar meu corte – para ser sincera, o anticéptico ardia muito. Então uma garota do time azul entrou correndo na câmara.

– O jogo acabou! – ela disse. – Nós ganhamos! Natalie pegou a bandeira!

Eu e a Briana nos encaramos, felizes. Soltamos todos os prisioneiros e corremos para fora, a fim de se juntar ao restante da equipe.

Avistamos o aglomerado de elmos azuis de longe. Estávamos todos alegres, nos cumprimentando com as mãos espalmadas. Eu nunca tive uma experiência ruim com os filhos de Ares até o momento, mas todos pareciam mais que satisfeitos ao derrota-los. Como se tudo fosse uma doce vingança.

Natalie, filha de Hermes, apareceu na multidão e dois filhos de Hefesto levantaram-na e puseram-na nos ombros. Os olhos da garota brilhavam.

Eu olhava para a Natalie de baixo. Mas, ao sentir toda aquela energia e ao me dar conta de que eu tinha participado daquilo, juro, nunca me senti tão por cima.

Notas finais
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