Notas iniciais
Pequeno, eu sei, mas prometo que vou melhorar

— Sam! Filha, acorda! Você vai ou não para o quizz?

Murmurei algo com a intenção de implorar por mais cinco minutinhos na cama, mas o que saiu de minha boca foi algo próximo de um gemido. Alguns segundos depois, meu pai, impaciente, jogou um copo de água na minha cara. Levantei da cama em um salto.

Ótimo jeito de começar o dia, não?

Mas não vamos nos precipitar.

Meu nome é Samantha Roberts e eu estou bem ferrada.

Aquela manhã seria a mais importante do semestre. Eu havia sido convocada pelo meu diretor a representar o colégio Abraham Lincoln High School no torneio municipal de quizz acadêmico. Era uma grande responsabilidade, e ainda me faria ganhar vários créditos para a universidade.

Foram longas horas lendo sobre fatos gerais na internet, incontáveis madrugadas vendo o History Channel ou o NatGeo e muito, muito estudo. Eu estava preparada. A escola — a parte que se importava, não alguns descerebrados que frequentavam a Lincoln comigo — estava contando com minha vitória. A vitória aumentaria a visibilidade do colégio.

Meu pai não iria comparecer ao evento, ele tinha que dar aula o dia inteiro. Talvez eu devesse me sentir mal por isso, mas já não era a primeira vez. Papai, no entanto, se sentia culpado, e isso deu para perceber pela mesa de café da manhã impecável que ele preparou para mim.

— Bom dia. — eu disse ao me sentar à mesa com ele.

— Bom dia, dorminhoca.

E começamos a comer. Papai e eu nunca conversamos muito durante o dejejum — nenhum dos dois gostava muito de acordar cedo. Comemos com movimentos robóticos e o modo zumbi ligado. Ambos começavam a se despertar apenas quando iniciam seus labores diários.

Meu pai havia feito um ótimo trabalho em me criar completamente sozinho. Apesar de já estar trabalhando muito na época em que vim ao mundo, ele conseguiu dar seus pulos. Convivi com muitas babás, mas isso não fez dele exatamente um pai ausente. Só ocupado.

Não, minha mãe não havia morrido. Até onde eu sabia, pelo menos. Aquela mulher apenas me largou com meu pai, logo depois de eu nascer. A desalmada me pôs em frente à porta, tocou a campainha e fugiu. Bem estilo dos filmes da década de oitenta. Com direito a cestinho com uma carta — que nunca pude ler — e tudo. Por isso nossa brincadeira favorita era fingir que ela nunca existiu e pensar que eu tinha vindo de uma barriga de aluguel.

Geralmente, eu não ligava muito para este fato. Foi mais difícil quando meu pai conseguiu ingressar como professor na NYU e sua demanda de trabalho praticamente duplicou. Às vezes eu pensava que seria legal ter uma mãe em casa, só para variar. Mas então eu lembrava do que ela fizera com a gente e descartava logo a ideia.

A descendência de minha mãe só começou a mudar algo para mim a partir daquele dia.

Limpei minha boca com o guardanapo o olhei calmamente meu relógio de pulso. Oito e vinte da manhã. Eu tinha que chegar ao colégio em vinte minutos e ainda tinha que passar na casa da Jenny primeiro.

Soltei uma praga e me levantei correndo, indo em direção à porta de saída.

— Quer que eu te dê uma carona? — meu pai gritou da cozinha.

— Não posso esperar mais um segundo, papai! — respondi enquanto procurava desesperadamente minhas chaves.

Sempre somem na hora que eu mais preciso, pensei. Sempre somem.

— Boa sorte, então! — meu pai disse.

Achei as chaves no sofá e sorri.

— Vou ganhar, papai, só que não por sorte. — falei, convencida. — Mas obrigada. Bom trabalho!

E saí feito um furacão para a casa da criatura que havia recebido a alcunha de minha melhor amiga.

Jennifer McGuire era o nome da cidadã.

Como nossa amizade dava certo nem eu sabia. Nós tínhamos completamente nada em comum. Em gênio e na aparência. Jenny era eu às avessas. Eu gostava de ficar em casa; ela não perdia uma oportunidade de sair. Eu demorava muito tempo para conseguir fazer uma amizade; Jenny era amiga até do mendigo que ficava debaixo do toldo de um bar da rua dela. Eu era a sarcástica; Jenny, a piadista. Eu sentava na carteira da frente; Jenny era da turma do fundão. Eu tinha o cabelo loiro escuro; ela tinha o cabelo castanho mais bonito que eu já vi na vida. Olhos cinzas; olhos mel. Juro que posso continuar por um longo tempo.

Quando Jenny veio do interior da Califórnia para Nova York, há cinco anos, eu não esperava que ela olhasse para minha cara. E, para ser sincera, eu nem queria.

Jenny andava com as garotas que eu mais desprezava de nossa classe. Elas representavam a escória da humanidade, o tipinho mais fútil que poderia existir. Eu não importava de sacrificar meu status social e me manter afastada daquela gente. Mas há algo insuportável para Jenny: os outros não gostarem dela.

Realmente, ela não precisava fazer esforço algum para conquistar as outras pessoas. Ela costumava sair por aí distribuindo olhares alegres e sorrisos simpáticos. Seu jeito acalorado era envolvente. Era uma garota talentosa e estava sempre envolvida em projetos artísticos da escola. Salvara até o programa de artes dois anos atrás, o que a tornou heroína de um terço do colégio. Se importava com os outros e sempre movimentava grupos do colégio em projetos de caridade e manutenção de nossa comunidade.

Jenny era irritantemente perfeita.

Eu estanhei quando a garota-sensação perguntou se poderia sentar comigo na hora do intervalo. Indignei-me por ser o novo projeto de caridade dela e dei qualquer desculpa esfarrapada.

Ela não gostou disso.

Depois de três incansáveis meses, Jenny conseguiu me pegar de baixa guarda. Quer bancar minha amiguinha?, pensei. Ok. Vamos brincar.

E lá estava eu indo para sua casa, pronta para mais uma vez em que a dupla inseparável iria salvar o dia.

Cheguei à sua porta e toquei a campainha. Sua mãe atendeu.

— Bom dia, Srta. McGuire! — a mãe de Jenny foi mãe solteira. Mas ela procedeu de modo totalmente diferente do meu pai: cada mês ela tinha um namorado novo. Adorava dar umas saidinhas, que nem sua filha. — Por favor, diga que a Jenny já está pronta.

Antes da Srta. McGuire responder, pude ouvir a voz de Jenny lá atrás:

— Eu já estou indo!

Srta. McGuire arqueou rapidamente suas sobrancelhas como se dissesse está aí a resposta.

Jenny apareceu na porta, deu um beijo em sua mãe e foi embora comigo

— Preparada? — Jenny perguntou depois de alguns passos.

— E você ainda pergunta. Obviamente. Leu as fichas que eu fiz para você?

— Lógico que não! — ela respondeu, relaxada. Lancei-lhe um olhar homicida – Ei, você é o cérebro! Eu só aperto o botão rápido, certo?

— Certo. — eu disse entre os dentes. — Se a gente não ganhar, eu juro que vou te enterrar viva.

Jenny sorriu.

— Fala como se você não soubesse que a gente vai ganhar. — ela reparou.

E era verdade. Eu sabia que iríamos ganhar, eu sentia isso. Mas, é claro, alguns imprevistos aconteceram.

Fui para o colégio Abraham Lincoln, onde seria sediado o tal quizz acadêmico, sem saber que minha vida nunca voltaria a ser a mesma depois que eu pisasse lá.

Ah, como eu queria ter dormido mais cinco, dez, quarenta minutos. Talvez fosse melhor eu não ter acordado naquele dia.

Notas finais
E aí, muchachos? O que acharam? Logo adianto que essa dupla vai apronta poucas e boas por aí.