Notas iniciais
Amei demais fazer esse capitulo!

Acordamos tão cedo que só o balconista da noite anterior estava acordado, bem como um velhinho que passava aspirador no tapete do saguão de entrada. Fizemos o check-out sem algum problema e logo estávamos seguindo viagem.

Sem saber que rumo tomar, apenas conduzi o carro na direção oeste. Esperávamos encontrar alguma rodoviária ou coisa assim no meio do caminho. Qualquer coisa que pudesse nos levar para a Califórnia.

Se alguém tivesse nos visto no carro da outra vez, certamente não iria nos reconhecer agora. Quando Jenny, sentada ao meu lado, notou que a estação de rádio estava tocando uma música antiga da Avril Lavigne, aumentou o volume a uma altura que fazia o carro tremer ao som da batida. Nick começou a batucar no encosto de meu banco, cantando junto com a música.

— He was a skater boy. She said: see you later, boy!

Jenny também entrou na cantoria, elevando-a ao nível de berros. Soltando uma risada alegre, cedi ao contagio da Lavigne, e comecei a balançar meus ombros, dançando da melhor maneira possível.

Nick gargalhou.

— Deuses, Jenny! Você lembra daquela vez que...

— Que roubamos aquela loja? — ela se antecipou. — E tava tocando essa música? E você arreou...

— A calça do segurança! — os dois disseram em uníssono, rindo logo depois.

Eu estava prestes a perguntar por que raios os dois tiveram que roubar uma loja, porém meus olhos pararam no painel do carro. Prendi o ar ao verificar que o indicador da gasolina estava perigosamente baixo.

— Galera? — minha voz saiu sem firmeza. — Quanto dinheiro sobrou?

Jenny fez uma contagem mental.

— Na linha do limite para a gente sobreviver esses próximos dias.

Engoli seco. A pernoitada no hotel estava fora de nosso cronograma da missão. Bem, assim como o ataque da Hidra de Lerna e do Touro de Creta, mas isso são outros quinhentos.

Jenny seguiu meu olhar e viu o tanto de gasolina que ainda tínhamos. Seus olhos se arregalaram e eu logo soube que ela estava tentando pensar em uma solução rápida. De repente, sua atenção ficou presa em alguma coisa na estrada, para a qual era apontou. Descobri ser uma placa.


RODOVIA DO ESTADO DE UTAH

SALT LAKE CITY 40KM

PROVO 43KM

RIVERTON 50KM

— Nick. — ela disse em tom suplicante.

Abaixei o som do carro e olhei para Nicholas através do retrovisor.

O garoto se afundou em seu encosto, de braços cruzados. Ele ficou amuado por algum tempo, a cara fechada.

— A última vez que estive lá foi para contar que Susana... — ele balançou a cabeça. — Não posso fazer isso. Não mando notícias para ela há meses! Eu não posso simplesmente aparecer lá.

Jenny se virou para trás.

— Você pode. Aliás, você deve simplesmente aparecer lá. — ela esperou alguma resposta dele. Nada. — Uma hora isso tinha que acontecer.

Nick soltou um suspirou.

— Sam. — ele disse. — Siga as placas até Provo.


Quando entramos na cidade, Nick começou a me guiar, me fazendo virar aqui e ali. Conforme afastávamo-nos da rodovia, Provo mudava sua cara — tornava-se cada vez mais simples e acolhedora.

A cidade era cercada por gigantescas montanhas; podia -se ver um bocado de neve em seus cumes. Era uma cidade cheia de verde, com muitas árvores e casas com quintais amplos e gramados. Prédios altos não marcavam presença ali. Não consegui ver um maior que três andares — pelo menos, não por onde tínhamos andado.

Pela janela do carro, vi que as pessoas usufruíam de seus quintais. Crianças jogavam bola e pulavam corda; mais além, vizinhos de duas casas juntavam pratos de comida para servir a mesa do que me parecia ser um churrasco.

Um senhor tirou o chapéu para cumprimentar dois jovens que passavam. Os dois, ao invés de apenas acenar e seguir caminho, pararam para apertar a mão do senhor e dar-lhe tapinhas nas costas.

Céus, aquela cidade era completamente o inverso de Nova York.

Fui orientada a parar em frente a um sobrado branco. Estacionei o carro e Jenny cuidou de manipular a névoa, fazendo com que o carro não parecesse ter sido violado por um grupo de adolescentes.

Nick saltou do carro e ficou um tempo encarando a casa.

Não precisavam explicar nada para mim — pelo semblante nostálgico de Nick, eu já havia entendido tudo. Ele era dali. Era nessa casa que crescera e, muito provavelmente, onde sua mãe ainda vivia. Foi desse lugar, no centro de um bairro residencial, que ele fugira com sua irmã gêmea anos atrás.

Atravessamos o jardim do quintal da frente e fomos direto para a varanda. Nick parou em frente a porta, encarando-a, como se estivesse tomando coragem. Estava evidentemente nervoso. Após alguns segundos, ele ergueu a mão em punho e bateu três vezes.

Eu esperava ver a mãe de Nick, mas quem nos atendeu foi um homem. Ele era alto e encorpado. Trajava camisa e calça social, porém de um jeito um pouco desleixado — talvez, para se sentir mais à vontade em casa. Aparentava ser apenas alguns anos mais novo que meu pai.

Quando viu Nicholas de pé em cima do tapete de entrada, o queixo do homem caiu. Seu olhar foi tomado por uma legítima surpresa.

— Oi, James. — Nick cumprimentou, tentando não parecer encabulado. — Tudo certinho?

O homem juntou as sobrancelhas.

— Nicholas? O que você está fazendo aí? Sua mãe sabia que você estava vindo?

Nick coçou a parte de trás da cabeça.

— Meio que não. Ela tá aí?

James deu uma avaliada em Jenny e eu. Desfez a cara surpresa e a trocou por um semblante mais receptivo. Deu um passo para trás e abriu a porta consigo.

— Está sim. Quer entrar?

— Na minha casa? — Nick devolveu, zombeteiro. — Claro. Valeu pelo convite.

E foi entrando.

Indignada com a falta de modos de meu colega, sorri para James antes de transpassar a soleira da porta, na esperança de desfazer a má impressão de nossa chegada. Ele devolveu o sorriso, simpático, e eu imediatamente decidi que ia com a sua cara.

A sala de estar era espaçosa. O carpete escuro e os sofás de tecido chenille creme passavam a sensação de harmonia e aconchego. Encostada à uma das paredes, uma estante de design moderno exibia alguns livros e porta-retratos. A sala de jantar, por sua vez, ficava no ambiente ao lado. Era em um nível superior, separada por dois degraus da sala de jantar, como se fosse em um grande tablado. Mais ao fundo, um corredor levava ao restante da casa.

Deste corredor, uma mulher — a mãe de Nick, concluí — saiu andando com uma revista na mão. O sorriso estampado em seu rosto era jovial. Seu cabelo castanho trançado também reforçava o ar jovem que possuía. Quando ela virou o rosto em minha direção, reconheci alguns traços de Nick. O contorno do queixo, a boca ligeiramente larga. Era uma mulher bonita. Eu me sentiria elogiada se me comparassem a ela.

— Querido — ela disse, alegre, sem tirar os olhos da revista que carregava. — Você nem vai acreditar no que a Healthy indicou contra o estresse!

Nick pigarreou alto. Ele não estava conseguindo esconder a tamanha expectativa que sentia.

A mulher abaixou a revista e notou a inesperada presença de Nick ali.

Várias emoções passaram pelo seu rosto. A primeira foi de identificação; a segunda, de confusão. Logo depois veio a aceitação do ocorrido e, com ela, a forte comoção. Seus olhos começaram a marejar mesmo antes de ela conseguir dizer com a voz falha:

— Filho.

Nick não se aguentou no lugar e correu de encontro à mãe. Ela o recebeu com os braços abertos e o apertou contra o corpo. Começou a chorar de verdade enquanto passava a mão pelos cabelos do filho.

Jenny e eu nos entreolhamos. Era melhor dar privacidade a eles um minuto.


Vinte minutos depois, eu estada sentada no sofá da sala comento o melhor brownie do mundo.

Assim que parou de chorar, Liza, como a mulher havia se apresentado para mim, começou a nos encher de perguntas. Principalmente a Nick, que parecia não ter se importado muito a dar sinal de vida para a mãe. Feitas as apresentações, Liza nos acomodou no sofá e nos ofereceu alguns brownies.

Pelo modo como falamos abertamente sobre a missão na frente de James, entendi que ele também sabia quem Nick realmente era. Jenny contou-me que ele a Liza casaram-se pouco tempo antes do acidente de Susana. Quando Nick veio contar sobre a tragédia, ele e a mãe tiverem que abrir o jogo para explicar por que não haveria um funeral ou qualquer cerimônia do tipo. Hoje, ele parecia aceitar bem o fato.

Explicamos tudo o que havia acontecido conosco até o momento, contornando um pouco a parte em que quase morremos, e falamos que preferimos parar por ali e pensar no que iríamos fazer em seguida para concluir a viagem.

Liza insistiu que ficássemos em Provo até o dia seguinte, no mínimo. Não me opus ao pedido — não tínhamos nenhum prazo a cumprir. Até seria melhor descansar e poder lavar dignamente nossas roupas.

James teve que voltar ao seu escritório, numa corretora de imóveis. Fiquei o resto da tarde ouvindo histórias de bebê do Nick. Ele não se importou muito — estava feliz demais por estar com a mãe. Às vezes, em meio a risadas, pedia a Liza para calar a boca. E é claro que ela descia ainda mais o nível da humilhação.

Eram quase dez horas da noite quando começamos a nos preparar para dormir. Por mais que a casa fosse grande, não possuía quarto de hóspedes. Jenny reclamou a cama de Nick para si. Ele disse que tudo bem dormir no sofá. O outro quarto de solteiro ficou para mim. O quarto de Susana.

Perto da meia noite, eu ainda estava sentada de pernas de índio na cama de Susana. Não conseguia cogitar a ideia de dormir, porque, droga, eu estava no quarto de uma garota morta.

O cômodo não era muito diferente dos de milhares outras de garotas pelo resto do país. Parede rosa, lençol florido, uma escrivaninha. O que me atormentava era ter que dormir na cama de uma defunta. Como se no meio do meu sono ela fosse me acordar e me arrancar dali, impedindo-me de tomar o que era seu.

Levantei-me da cama, entediada. Caminhei até a abandonada escrivaninha, coberta por uma fina camada de pó. Imaginei que Liza não costumava muito a entrar naquele quarto. Dei atenção a um caderno de capa vermelha, um hardcover. Curiosa, abri-o em uma página aleatória. Deparei-me com uma folha totalmente cheia; a caligrafia revelava ser de uma garota. No topo da página, via-se a data escrita à mão.

Fechei o livro na mesma hora.

Eu não ficaria lendo o diário alheio.

Sem mais saber o que fazer, caminhei até a cozinha, perguntando-me se não seria muita ousadia já sair abrindo a geladeira dos outros para beber algo. Para minha sorte, alguém havia tido a mesma ideia que eu.

Nick saiu de trás da geladeira, bebendo leite diretamente do galão. Ao me notar, ele arqueou as sobrancelhas rapidamente, como que um cumprimento. Fechou a geladeira com o pé e foi andando até a ilha central da cozinha, que servia como um segundo balcão.

Ele apoiou o galão sobre a superfície da ilha. O bigode de leite que se formou acima de seus lábios me arrancou um risinho.

— Que foi? — perguntou Nick.

Passei levemente meu polegar em meus lábios e ele entendeu o recado. Limpou a boca com as costas da mão.

— Você também não é muito de dormir bem, não é?

Puxei o banco encostado na cabeceira da ilha e sentei. Apoiei meus cotovelos na bancada e sustentei meu queixo com os punhos fechados.

— Para ser sincera, aquele quarto me dá arrepios.

Ele não questionou isto. Sorvou mais um pouco de leite e ofereceu parar mim. Não parecia ter a intenção de me arranjar um copo. Um pouco relutante, peguei o galão de sua mão e coloquei a boca no gargalo.

— Nick. — eu disse, depois de tomar um gole. — Na escrivaninha dela tinha esse caderno...

— O diário de missões dela? Você leu?

Ele não me parecia ofendido.

— Não quis. Você leu?

Percebi um sorriso triste em seu rosto. Ele tomou impulso e sentou-se em cima da ilha, perto de mim.

— Tentei muitas vezes. Mas quando ela não estava aqui parar gritar comigo e me impedir... Eu não consegui.

Meneei a cabeça, compreendendo.

Como da última que conversamos sobre ela, o clima ficou pesado. A iluminação precária da cozinha — apenas um lance de lâmpadas estava aceso — contribuía de algum modo com isso. O resto da casa estava imerso em um silêncio absoluto.

— É, Samantha. Todos têm seu fantasma. O meu tem um rosto e meu sobrenome. E por ironia, hoje é um espírito mesmo. — ele tomou mais um gole de leite. — Eu odeio a vida. — deu uma pausa. — E você, Roberts? O que não vem te deixando dormir?

Parei para pensar. Eu não dormia minhas amadas oito horas de sono desde que havia chegado no acampamento, tirando aquele dia após a Caça a Bandeira. Não tinha certeza se era a ansiedade com todas aquelas coisas novas ou aquele sonho sem pé nem cabeça que costumava a me acordar no meio da madrugada. A noite anterior, por exemplo, havia sido um horror. Se eu dissesse que havia dormido cinco horas, seria puro otimismo.

— O que foi? — Nick disse em resposta à minha demora — Não quer contar? Pensei que já fôssemos amiguinhos.

Tive que dar risada.

— Não somos amiguinhos. Estou apenas te suportando por algum tempo. Ou não se lembra de nosso tratado de trégua?

— Eu realmente ficaria ofendido se não estivesse tomando leite.

Encarei-o, confusa, tentando achar algum sentido naquela frase. Ele abriu os lábios em um sorriso pândego, se divertindo comigo.

— Sabe o que eu acho? Que essa sua implicância comigo é uma tentativa desesperada de esconder que no fundo desse seu coraçãozinho, se é que você tem um, reconhece que eu sou um cara muito legal. Eu não te culpo.

— Sabe o que eu acho? — devolvi. — Que esse seu jeito presunçoso e de não ligar para nada é uma tentativa desesperada de esconder um Nick inseguro e sensível.

— O que é agora? Virou psicóloga?

Senti o gosta da vitória na ponta de língua.

— Essa grosseria só comprova que estou certa. Nicholas Johnson, você é muito fácil de ler.

Ele pareceu tão incomodado quanto se eu estivesse vendo-o pelado. Tentou disfarçar, inclinando-se para mim, com o ar sério.

— Ah, é? Então me diga o que estou pensando agora.

Lembrei-me de quando eu quase havia conseguido fazer isso com Briana, não muito tempo atrás. Não sabia muito bem como eu estava entrando em sua mente, porém seus pensamentos principais se fizeram conhecidos para mim. E se eu tentasse propositalmente ler a mente de Nick?

Cheguei mais perto dele, até nossos olhos estarem na mesma altura. Fechei a cara e tentei isolar todo o resto. Em minha semana de treinamento, Mary me dissera que a concentração era imprescindível para a precisão no uso de nossos poderes.

É só se concentrar e arranjar alguma forma de projetar o seu objetivo, foi o que ela disse.

Tentei imaginar Nick abrindo a porta de sua mente para mim. Convidando-me a entrar naquele íntimo lugar. E, de uma forma inexplicável, foi o que fiz.

Uma série de emoções percorreu meu corpo, da espinha ao peito. Eram estranhas e inesperadas. Passageiras. Com certeza, não eram minhas. Por uma fração de segundo, senti a alegria de uma criança e uma gargalhada entalou-se em minha garganta. Logo em seguida, um nó se formou ali. Pesar e dor fizeram-me sentar direito no banco, ereta, como se estivessem me prendendo no lugar. Elas começaram a me sufocar e, de repente, me vi desesperada por socorro, por algo que me livrasse daquilo. Comecei a sentir saudades de algo que nem o que sabia ser.

No meio de tudo isso, algo veio para mim. Era pequeno, porém distinto de todo o resto. Quando eu menos esperava, veio ao meu encontro e eu juro que pude ouvir como se o próprio Nicholas estivesse sussurrando ao meu ouvido: Mas é estranha mesmo.

Levantei-me do banco, então tudo se dissipou.

— Eu ouvi isso! — quase gritei.

Levei a mão ao peito, surpresa. Eu estava ofegante. Aquilo tinha sido uma experiência inigualável.

— Ouviu o que? — indagou Nick, confuso.

— Você me chamando de estranha. — fechei a cara. — Por que me chamou de estranha? Qual é a sua?

Ele saltou do balcão e ficou me fitando, curioso.

— Como sabe disso?

Procurei palavras.

— E-eu não sei. Foi tão estranho! — ajeitei minha franja para trás da orelha. — Primeiro foi como se tivesse entrado na sua memória emocional, ou coisa assim. Foi... — olhei para ele. Eu estava prestes a dizer horrível, mas percebi que eu estaria o expondo demais. — diferente. Então foi como se eu pudesse te ouvir, mesmo você estando calado.

Ele ficou impressionado.

— Sam, você está lendo mentes! Em uma semana! Isso é muito louco.

Assenti, um pouco assustada. Eu. Lendo mentes. Estava tudo errado na minha vida.

Nick foi até a geladeira e guardou o leite.

— Quer assistir um filme? — ele perguntou casualmente, saindo da cozinha. — Minha mãe tem uns DVDs guardados. Eu não tô afim de dormir.

Pensei no quarto de Susana e em seu diário.

— Pode ser. — disse, seguindo-o. — Mas eu escolho.

— De jeito nenhum. A casa é minha. E não vou assistir filme de mulherzinhas.

— Exatamente! Eu sou a visita. Eu que deveria escolher.

— Não sei como as coisas funcionam em Nova York, mas aqui em Utah a etiqueta é bem diferente.

— E o que a etiqueta de Utah diz?

— Que você deveria calar a boca e me deixar escolher o filme.

Discutindo, fomos para a sala de estar. E continuamos assim por um bom tempo, até chegarmos a um consenso. No final das contas, eu pouco assisti ao filme. Durante todos os cento e quarenta minutos com Nick no sofá, eu só conseguia pensar no que havia sentido na cozinha, e no que mais ele escondia com seu jeito irritante.

Fui dormir sem ter chegado a uma resposta.

Notas finais
E esses dois, hein? Alguém já tá shippando? O que vocês acharam do reencontro?