Samantha Roberts - O Livro de Sócrates
15 Bailando
Notas iniciais
Estávamos novamente sentados nos sofás da sala de estar traçando nossa nova rota quando a campainha tocou. Da cozinha, Liza gritou, pedindo que atendêssemos desta vez. Foi Nick quem se levantou para abrir.
Nem nos meus mais bizarros sonhos eu poderia adivinhar quem estava de pé do outro lado da porta.
A mulher era sensacional. Digo, mesmo. Seus cabelos tinham aquele tom que você poderia analisar por meia hora e ainda assim não decidir se era castanho ou ruivo. Eles caíam ondulados, perfeitamente moldados, sobre os ombros. O nariz arrebitado e o formato do rosto demonstravam delicadeza, porém seus olhos — duas grandes órbitas azuis — irradiavam poder. Ela usava um vestido preto, que colava em seu corpo, devo admitir, invejável.
Nick recuou um passo para trás.
— La-lady Afrodite! — ele olhou rapidamente por cima do ombro, para Jenny e eu, como se perguntasse o que diabos estava acontecendo ali. — A que devemos a honra?
A deusa exibiu seus dentes perfeitos em um sorriso.
— Pequeno Nicholas. Sempre tão educadinho. — ela deu tapinhas no topo da cabeça dele e entrou pela porta. — Vi que vocês estavam pela área e vim aqui com uma proposta ir-re-cu-sá-vel.
A simples presença de Afrodite ali — já mencionei o quão absurdo isso soava para mim? — fazia com que eu me sentisse menor. Ajeitei minha postura e passei a mão discretamente no cabelo, tentando aparentar de modo mais apresentável. Uma necessidade entranhada de tentar subir meu nível, o mais perto possível do dela.
Ela sentou-se no sofá entre Jenny e eu com tamanha naturalidade que parecia que ela frequentava a casa de Nick.
— A senhora disse proposta? — perguntou Jenny.
— Senhora? Minha querida, não sou tão velha assim. — ela soltou uma risadinha.
Pelo que me lembrava, Afrodite era até mais velha que o próprio Zeus. Resolvi, no entanto, não comentar sobre isto.
— Venho aqui como uma mãe desesperada. — ela disse. — Preciso que façam isso por mim. Tenho essa filha, a Thais. Acho que não a conhecem. Apesar de saber quem realmente é, ela prefere não morar no acampamento. Tem a idade de vocês! É uma garota tããão boa, tem tanto potencial!
Nick voltou a se sentar conosco.
— E o que tem ela?
— Quer entrar na Caçada! — respondeu a deusa, indignada. — Como pode uma filha minha renunciar ao amor, simplesmente assim? Uma vida imortal sem amor romântico, sem descobrir o poder do amor maternal? É inaceitável! Ela está negando parte de sua essência. Acredite, isso não fará bem a ela.
Até onde me explicaram, havia outro grupo de semideuses por aí. As Caçadoras de Ártemis. Um grupo de garotas, algumas delas até mortais, que seguiam a deusa virgem e lhe juravam fidelidade. Em troca disso, ganhavam a imortalidade. Juntas, elas se aventuravam na natureza.
Para quem admitia a hipótese de haver um acampamento que treinava semideuses, eu não achava nada demais em também haver uma Caçada.
— Certo. — eu falei. — O que a se... — a deusa me lançou um olhar assustador. — você quer que a gente faça?
Ela fez um movimento aflorado com o pulso e, de repente, uma foto se materializou em sua mão. Afrodite a entregou a mim. A foto era de uma garota de cabelos escuros e olhos castanhos. Ela usava franjinha e tinha um sorriso alegre, espontâneo. Devia ser a tal Thais.
— Ela mora aqui do lado, em Salt Lake City. — contou a deusa. — Maaas, estará hoje aqui em Provo com a irmã, em uma festa na Brigham Young University. Vocês vão até lá e conversar com ela. Samantha é filha de Atena, não é? Saberá dissuadi-la. Se vocês fizerem isso por mim, amanhã terão três passagens de primeira classe para São Francisco. Hotel cinco estrelas também. Eu arranjo roupas para vocês irem bonitinhos para a festa e estará tudo perfeito!
Troquei um breve olhar com os dois.
— Iremos aceitar. — anunciou Jenny. — Pode deixar que falaremos com ela.
— Perfecto. — a deusa disse ao se levantar. — Espero que vocês não me decepcionem. E acho melhor vocês também esperarem isso, sim?
Engoli seco.
— Claro.
Afrodite piscou para mim e saiu, sem maiores cerimônias. Nick fechou a porta, depois apoiando-se nela pelas costas. Não sabia nem o que falar sobre o que acontecera.
Respirei fundo. Aquela era nossa maior chance.
_____
Nossas roupas misteriosamente apareceram no quarto de Susana. Assim que as viu, Jenny deu um berro, jogou as peças de Nick em sua cara e o expulsou do quarto, trancando-se lá comigo. Notei que, de bônus, Afrodite havia me arrumado mais algumas peças de roupa para seguir viagem. Fiz um agradecimento mental a ela.
Liza ficou feliz em nos emprestar sua maquiagem e coisas para trabalharmos nossos cabelos. Ela parecia estar verdadeiramente se divertindo com a situação toda. Até tirou algumas fotos nossas.
Quase oito da noite, eu estava pronta para partir. Meio a contragosto, estava usando o vestido esporte fino de mangas que Afrodite me providenciara. Uma faixa negra em minha cintura contrastava com o tecido creme de renda. Prendi meu cabelo em um coque, deixando minha franja para fora. Liza emprestou-me algumas de suas joias para dar o toque final.
Jenny fora agraciada com uma saia godê florida, de fundo azul escuro. Estava usando-a juntamente com uma blusa branca. Depois de terminar seu cabelo e maquiagem, ela havia ficado realmente maravilhosa.
Assim que ficamos prontas, Jenny e eu fomos para sala. Nick nos esperava lá, trajando uma calça jeans escura, camisa social e um blazer por cima. Aos nos ver, ele assobiou.
— Mas o que é isso, hein? — ele disse ao pegar Jenny pela mão e roda-la. — Se Victor não fosse meu parceiro, eu com certeza não te deixava passar.
Ela riu.
— Queria ver o que ele faria contigo se dissesse isso na cara dele.
— Eu digo, se quiser. — respondeu Nick, então olhando para mim. — E você está maravilhosa, Samantha. Está vendo? Sei fazer elogios. Tente alguma vez.
Andei até ele, com um sorriso no rosto, e alinhei seu blazer com a camisa.
— Você está... fofo.
— Sério? É o melhor que consegue fazer?
Ignorei a provocação e deixei-lhe sem resposta. Terminamos os últimos preparativos e saímos de casa.
James nos deixou de carro na entrada do campus da universidade. Havia uma entrada aberta unicamente para visitantes, por onde várias pessoas transitavam. Saltamos do carro e seguimos o fluxo, adentrando no terreno da faculdade.
Era um campus grande. Cortando os extensos gramados, uma teia de caminhos abria espaço até os mais diversos prédios e construções. O local era bem arborizado e me fez pensar que seria agradável passar a tarde estudando ali, sob a sombra de uma árvore.
Ao meu lado, Nick grunhiu.
— Solo inimigo.
Demorei algum tempo até entender o que que ele queria dizer, então lembrei do moletom que ele usara no ônibus vindo para cá, da Utah University. Talvez as duas universidades mantivessem certa rivalidade entre si.
Chegamos a um grande ginásio poliesportivo. Ele havia sido decorado com as cores azul e branco — ao julgar pela presença delas em todo o lugar, as cores da universidade. A festa já havia começado, e a música tocava alto. As pessoas pareciam se divertir.
Ao redor da quadra, perto das arquibancadas, mesas foram postas para aqueles que preferiam permanecer sentados. No outro extremo da quadra, sobre um palco aparentemente improvisado, um DJ mixava a música. Próximo à entrada, uma grande mesa estava servida com bebida e alguns petiscos.
Caminhamos até essa mesa como quem não quer nada e pegamos refrigerante para a gente.
— Tem muita gente aqui. — Nick disse. — Vai ser um saco para acha-la.
Beberiquei meu copo de Coca.
— Tem mais gente dançando do que sentada. — observei.
Jenny olhou em volta, disfarçadamente, os olhos atentos a todo rosto que se fazia visível.
— Vou verificar as mesas. — ela anunciou. — Vocês dois olhem na pista de dança. Sejam discretos. Se encontrarem-na, não façam nada. Vamos nos juntar para ver como conseguiremos ter essa conversa.
Assenti, concordando. Terminei meu refrigerante e joguei o copo descartável no lixo ao lado da mesa.
— Vamos. — eu disse a Nick.
E fomos para o centro do ginásio dançar.
A festa realmente estava lotada. Até o ato de andar entre os que dançavam se tornou algo difícil. Esbarramos com algumas pessoas no caminho, mas nenhuma delas se parecia com Thais.
Para nos misturar melhor, começamos a dançar. Eu, particularmente, não era a melhor dançaria no mundo — minhas habilidades paravam no Just Dance. No entanto, eu tentava me movimentar de lá para cá ao ritmo da música, abrindo caminho entre as pessoas, procurando pela garota.
Eu não fazia a mínima ideia por que Afrodite tanto achava que conseguiríamos fazê-la mudar de ideia. A especial menção que a deusa fizera sobre mim ainda me deixava nervosa. Não entendi o que ela queria dizer com aquilo.
Enquanto eu ponderava sobre isto, o DJ fez uma pausa brusca na música.
— Agora é o momento de você convidar aquela pessoa especial pra dançar. — ele disse. — Vou desacelerar as coisas.
Pelos altos falantes, uma famosa introdução ecoou pelo ginásio. Era Dream a little dream of me. Meu pai costumava a cantarolar esta música quando eu era bem pequena.
Ao meu redor, as pessoas deram ombros e começaram a dançar em pares. Nick me olhava com um ar de divertimento. Ele estendeu a mão para mim e fez uma pequena reverência.
— Será que a dama pode me conceder essa dança?
Relutante, peguei sua mão. Ele me puxou para mais perto de si e envolveu minha cintura com sua outra mão. Pousei a minha em seu ombro, estranhando aquele contato.
Por cima de seu ombro, eu observava os casais a nossa volta. Propositalmente, Nick me conduzia de forma que nos movimentássemos em uma área maior pelo ginásio, o que me atrapalhava toda. Contudo, assim conseguiríamos ver mais gente.
Em algum momento da dança, acabei pisando no pé de Nick. Isso tirou-o de seu estado de concentração e fez com que ele soltasse uma risada.
— Deuses, Sam, você é toda desengonçada!
Fechei a cara.
— É difícil fazer duas coisas ao mesmo tempo.
— Vamos, não é tão difícil assim. Onde meu pé vai, o seu também vai. — olhamos para baixo, observando nossos pés. — Dois pra cá, dois pra lá.
Eu me sentia ridícula, mas segui por alguns segundos a orientação de Nick.
— Acho que devemos deixar essa aulinha para outra hora e nos concentrar em Thais. — pontuei.
Ele balançou a cabeça.
— Temos a noite inteira ainda. Eu, definitivamente, vou ter essa dança com você.
Depois apertou sua mão na minha e começou a cantar com a música. Desta vez, ele se movimentava mais devagar, certificando de que eu estivesse o acompanhando corretamente. Fiquei frustrada no começo, porém fui me deixando levar.
Eu estava tão compenetrada em meus pés que demorei a perceber o olhar de Nick fixo em meu rosto. Quando retribui a atenção, ele nem sequer desviou o olhar. Nick às vezes parecia ser desprovido de toda e qualquer vergonha. Meus olhos se prenderam nos dele, e eu me obriguei a encarar aquele amedrontador tom de verde.
— Cuidado. — eu disse, tentando amenizar o clima. — Se fizermos contato visual por mais alguns segundos, você pode acabar se apaixonando por mim.
Ele riu.
Nick me rodou e, ao me puxar de volta para si, apoiou a mão sob minhas costas e me inclinou. Quase tombei de tão rápido e inesperado que tinha sido aquilo. Contudo, ele me segurou firme, e veio com a cabeça para perto da minha. Tão perto que, por um pequeno e estúpido momento, permiti-me ficar desesperada, porque realmente achava que ele avançaria o sinal.
No entanto, ele parou a três centímetros de minha boca.
— Prefiro as morenas. — disparou.
Levantou-me e começou a dançar normalmente comigo, um sorriso torto em seus lábios. Aquele bastardo. Ele tinha feito de propósito! Quis morrer de raiva, principalmente porque sabia que estava ruborizando.
Nick pegou minhas mãos e colocou-as em volta de seu pescoço. Então usou seus dois braços para abraçar minha cintura.
— Assim fica mais fácil. É só balançar. — ele explicou. — E você, Sam? O que prefere?
Olhei para seus cabelos escuros e imediatamente soube que era uma cilada. Se eu respondesse morenos, iria de forma subliminar indicar que eu poderia vir a ter algum interesse nele. Se respondesse qualquer outra coisa, por outro lado, seria como entrar no joguinho idiota de provocações dele. Qualquer resposta que viesse de mim, ele ganharia.
Resolvi sair pela tangente.
— Não me apego a qualquer estereotipo.
Ele pareceu ficar satisfeito com a resposta.
— E a o que você se apega?
—Está aí, meu caro Watson. Não me apego a o que. Eu me apego a quem.
Antes que Nick pudesse responde qualquer coisa, avistei Jenny passando discretamente entre os que dançavam. Ela viu como eu me encontrava com Nick e me lançou um olhar malicioso, aproveitando que ele estava de costas para ela. Ah, droga, agora Jenny nunca mais iria me deixar esquecer aquilo.
— Galera. — ela disse ao se aproximar de nós. — Achei Thais. Está sentada ali no fundo. Como vai ser?
Puxei os dois para fora da pista de dança. Jenny começou a nos guiar pelo ginásio, nos levando até a garota. Paramos perto da mesa dela e nos sentamos no segundo degrau da arquibancada, observando.
Thais estava sentada, conversando com uma garota. Ela parecia tão leve e alegre quanto na foto que Afrodite tinha me mostrado. Sorria e gesticulava energeticamente, até dava risadas de vez em quando.
Decidimos esperar que ela ficasse sozinha para iniciarmos nossa intervenção. Para nossa sorte, um cara veio e chamou a garota que conversava com Thais para dançar. Ambas se despediram e Thais ficou sozinha.
Troquei um breve olhar com Nick e Jenny. Era o momento exato.
Andei até a mesa de Thais, pensando no que eu poderia dizer. Sabia que de nada adiantava fazer um roteiro em minha cabeça, que qualquer coisa poderia sair daquela conversa. Porém eu sempre me saía melhor lidando com planos.
— Licença. — eu disse, ao me aproximar. — Você é Thais, não é?
Ela levantou o olhar até mim, então direcionou-o a Nick e Jenny, que estavam logo atrás. Thais estranhou a nossa chegada, mas se esforçou para ser simpática.
— Sim, sou eu. Posso ajudar?
Puxei uma cadeira e tomei a liberdade de me sentar.
— Na verdade, sim. É algo importante.
Seus doces olhos castanhos passaram a me analisar. Por um segundo, vi que ela tentava entender o que três estranhos queriam com ela. A resposta veio com um brilho em sua íris.
— Ah, já entendi tudo. Vocês são que nem eu, não são? — ela perguntou, entonando mais baixo a última parte.
Nick e Jenny também se sentaram à mesa.
— Sim mais uma vez. — respondi. — Prazer, sou Samantha. Esses são meus amigos, Nicholas e Jennifer. Queremos saber se tem um minutinho para falar.
Ela deu um gole em seu refrigerante, desconfiada.
— Toda ouvidos.
Respirei fundo.
— Viemos a pedido de sua mãe.
Thais soltou um suspiro cansado e sua feição simpática subitamente virou uma feição entediada. Ela não aparentava mais estar disposta a colaborar conosco.
— De novo? Será que ela se toca que não vou mudar de ideia?
Jenny adiantou-se.
— Veja bem, ela está querendo seu melhor.
— Exato. — Nick concordou. — Você pode ter tantas aventuras no Acampamento Meio-Sangue quanto terá na Caçada. É um lugar bom, seguro. Sempre terá missões para realizar.
Thais pareceu se esforçar para não revirar os olhos.
— Por favor, não fale que o acampamento será tão emocionante quanto a Caçada. Vocês vivem num cubículo de área delimitada e chamam isso de segurança. Para mim, isso é zona de conforto. Eu quero ser livre. Eu quero mais.
— Pense em sua mãe. — pedi. — Ela realmente se importa com você.
— Se ela se importasse mesmo com minha felicidade, me deixaria escolher. Tudo o que importa para ela é adoração, é não ser rejeitada. Aparentemente, ingressar na Caçada é renunciar tudo o que a representa. Só que não é bem assim.
Jenny resolveu a apelar.
— Mas você não quer se apaixonar? Ter seu final feliz?
— Eu não preciso de um garoto para ter meu final feliz. Essa ideia e quem quer que a tenha inventado são ridículos. Além disso, posso muito bem viver o amor na Caçada. Amor às minhas irmãs, à minha senhora.
— Ah, qual é! — Nick reclamou. — Todo mundo quer sua cara metade.
— Não é porque vocês dois são felizes juntos, que eu necessariamente tenha que ter alguém para me sentir assim.
A princípio, não entendi o que ela quis dizer. Então vi a mão de Nick pousada ao lado da minha, quase a encostando, e vi como aquilo parecia sugestivo. Rapidamente, recolhi a mão. Nick também entendeu tudo e cruzou os braços.
— Não! — me apressei a dizer, encabulada. — Acho que você entendeu errado. Nós...
— É! — Nick falou por cima. — A gente não...
— Nós nunca...
— Quer dizer, ela me acha um panaca.
— Ele prefere morenas.
— É. Morenas.
Thais encostou-se na cadeira e arqueou uma das sobrancelhas. Tinha um sorriso sabichão no rosto que eu não gostei muito.
— Ah, é? Vi vocês dançando. Além disso, podia jurar que senti... Deixem para lá. O ponto aqui é que eu não vou mudar de ideia. Sinto muito. Sinceramente, já estou cansada dessa insistência toda.
Nick e Jenny olharam para mim, desesperados por um plano B. Também sabia que deveria reagir, mas eu não me via fazendo isto. No fundo, eu sabia que Thais estava certa. Senti-me ridícula por estar invadindo seu espaço e tentando convencê-la a ir contra sua vontade, sendo que eu nem ao menos a conhecia.
— Tudo bem. — eu disse ao me levantar. — Vamos deixa-la em paz. Me desculpa mesmo por te fazer passar por isso. Só queríamos te ajudar.
— Tá ok. Sei que minha mãe pode fazer qualquer coisa para conseguir o que quer. A culpa não é bem de vocês.
Dei-lhe um sorriso solidário e me despedi. Quando saímos de seu campo de visão, Nick me apertou pelo braço.
— Você sabe o que acabou de fazer!?
Arranquei violentamente meu braço de sua mão.
— O certo.
Jenny não disse nada. Apesar de estar chateada com a grande chance perdida, vi que ao menos ela concordava comigo. A situação toda era sem pé nem cabeça. Fiquei feliz por não estar sozinha em minha decisão de jogar tudo para o ar.
A festa ainda continuava, mas a noite havia acabado para nós. Fomos até um telefone público e pedimos que James viesse nos pegar, torcendo que ele não estivesse muito longe.
A volta para a casa foi silenciosa. O clima não era dos melhores. Nick nem sequer olhava para minha cara, como se ainda protestasse contra minha atitude. Embora ou soubesse estar certa, me sentia mal com aquilo tudo.
A situação só foi mudar quando abrimos a porta e nos deparamos com uma visita na sala de estar. Sentada ao lado de Liza, uma criança nos observava entrar. Havia, no entanto, algo em sua expressão — uma serenidade — que não condizia com seu rosto infantil.
— Tia? — a voz de Jenny ecoou ao meu lado.
Perguntei-me se não tinha ouvido errado. Aquela miniatura de gente, tia da Jenny?
Desisti oficialmente de tentar entender o mundo grego.
A criança se ajeitou no lugar, aprumando a postura e fazendo um movimento com a cabeça que servia de cumprimento. Parecia uma daquelas crianças reais, treinadas desde cedo a seguir uma rigorosa etiqueta.
— Lady Ártemis veio nos fazer uma visita. — explicou Liza.
Ah, certo. Ártemis. Muita idiotice minha não adivinhar de primeira vez.
Senti vontade de encolher-me e dar meia volta, de tanta vergonha. Não fazia nem uma hora que eu estava tentando impedir que uma semideusa entrasse para a Caçada da deusa.
— Não vou ignorar o que vocês fizeram. — disse Ártemis.
Engoli seco. Eu já estava começando a suar de tão nervosa. Jenny deu um passo a minha frente, em um gesto protetor. Nick retesou os músculos e tomou nossa dianteira.
— Senhora — ele fez uma pequena reverência com a cabeça. — O que fizemos foi atender a um pedido de Afrodite.
Ártemis meneou a cabeça, entendendo.
— E, apesar do que seja o que ela tenha oferecido em troca, vocês optaram por não atender ao pedido. E eu vim pessoalmente aqui expressar minha gratidão.
Eu poderia desmaiar de alívio ali mesmo. Sério.
— Acreditem, eu sei tudo que se passa com minhas garotas. Thais ainda não fez seus votos, mas já me ofertou os desejos de seu coração. Já a considero como uma das minhas. Sentiria muito se a perdesse logo agora, tão próximo a sua data de ingresso.
Sentamos nós três em um dos sofás.
— Fiquei preocupada ao saber que havia uma filha de Atena envolvida. — confessou Ártemis. — Isso poderia estragar tudo.
Senti-me incomodada.
— Afrodite também sugeriu isso. — comentei. — Mas, senhora, eu não entendo.
Ela ficou surpresa.
— Ah, não? Então vocês simplesmente não conseguiram convencer Thais?
— Não insistimos, se quer saber. — Nick disse, cruzando os braços. — Sam decidiu que tentar fazer a cabeça da garota era babaquice.
Ártemis encostou-se ao sofá, refletindo, as mãos delicadamente pousadas sobre o colo.
— Pois bem. A garota...
— Samantha. — informei.
— Samantha poderia usar de seus dons naturais para manipular Thais. Aparente, seu domínio sobre a mente alheia é extenso.
Prendi o ar, surpresa.
— De-desculpa. Eu não sabia disso.
— Está tudo bem. De qualquer forma, vocês declinaram voluntariamente. Por isso e por Thais ser uma pessoa muito especial, vou recompensa-los. Providenciei passagens de ônibus até a Califórnia para vocês. Também estão hospedados em um hotel. Dei um jeito no carro roubado... Ele vai magicamente aparecer para o dono. Não se preocupem.
Jenny apertou minha mão, alegre. Abri um sorriso de orelha a orelha, verdadeiramente satisfeita com minha escolha. No final das contas, eu não havia ferrado com a gente. Nick iria ter que morder a língua.
— Lady Ártemis! Não sei como te agradecer! — disse.
A deusa parou um momento para me analisar. Esperou um pouco, então soltou sua proposta:
— Na verdade, acho que há um jeito, sim. Você mostrou ter um bom coração, Samantha. Estou certa de que já explicaram sobre a Caçada para você. Peço que considere a possibilidade de se ajuntar a nós.
Poucas vezes na vida eu me sentira tão lisonjeada. Uma deusa estava ali, logo a minha frente, convidando-me a entrar para seu grupo. E ela mal me conhecia. Era algo incrível de se pensar. Apesar disso, eu já tinha uma resposta na língua.
Resposta essa que não consegui dar de prontidão, porque Nick irrompeu em uma risada sem humor.
— Senhora, Sam não pode se juntar à Caçada! Ela mal descobriu que é semideusa!
Tive vontade de soca-lo na cara. Ou fazer com que ele se socasse de novo. Jenny também teve a mesma vontade, mas contentou-se a dar uma discreta — não tão discreta assim — cotovelada na costela dele.
— Desculpa, Nick, mas acho que Lady Ártemis estava falando comigo.
A deusa gostou de minha resposta.
— De qualquer forma, senhora, acho que terei que deixar passar. Por enquanto, pelo menos. É que é tudo tão novo ainda. Além disso, só falei com meu pai uma vez desde que tudo aconteceu. Ele teria que estar a par de minha decisão também. É um convite incrível, mas acho que ainda não é a hora.
Ártemis pareceu entender.
— Mantenha isso na cabeça. Depois pode ser tarde demais. — ela mandou um olhar assustador para Nick. — Vou embora, mas fiquem com meus agradecimentos.
Feito isto, nos despedimos da deusa. Ela saiu pela porta e foi se aventurar pela noite. Fiquei perguntando se ela não buscaria Thais e a levaria consigo. Imaginei a surpresa que a garota teria ao esbarrar com Ártemis.
Enquanto os outros começaram a se aprontar para dormir, fiquei conversando sobre a noite com Liza. Nós havíamos criado rapidamente essa afeição recíproca. Totalmente ao contrário do que aconteceu com seu filho. Vai entender.
Minutos mais tarde, descendo o corredor até o quarto de Susana, fui parada por Nick, que já trajava roupas para dormir.
— É, Sam, pelo menos você não deu bola fora.
Revirei os olhos.
— Tem razão. Seria o fim decepcionar você.
Ele se pôs entre a porta do quarto e eu.
— Nah, não me decepcionou muito não. Quase aprendeu a dançar que nem gente grande! No geral, foi legal. Não acha?
— É, pode ser. Tanto faz.
Empurrei-o para longe da porta e entrei no quarto. Antes que eu pudesse fecha-la em sua cara, Nick a segurou com a mão.
— Fiquei feliz por não ter entrado na Caçada.
— Como se isso mudasse muito sua vida. — resmunguei. — Posso tirar essa maquiagem da cara agora?
— Tá certo. — ele disse, contrariado. Então pôs um sorriso travesso na boca. — Ei, Sam. Mais uma coisa.
— Quê?
— Dream a little dream of me.
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