Salvos para Salvar
1 Tivemos um Encontro com a Polícia - Daniel
DANIEL
A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS, sendo essas certas ou erradas.
Isso depende de cada um de nós. O livre-arbítrio nos dá liberdade, mas também, pode servir como um teste pra provar a nossa fidelidade.
Quando pequeno, me questionava porque Deus fica triste conosco por tomarmos caminhos errados se Ele é todo poderoso e sabe de todas as coisas. Num certo dia − eu me recordo como se fosse ontem, minha tia Liz me disse algo que nunca esquecerei...
...
−Deus é tão poderoso, Dani, que ele consegue prever as duas, três, quatro estradas que surgirão em sua caminhada. Ele conhece cada passo que você poderá dar em cada estrada, onde sua mão tocará e as palavras que sairão de sua boca, sabe o que você irá olhar com seus olhinhos e também sabe o que vai lhe acontecer no final de cada uma das escolhas. Mas ele também sabe qual é a única que você deve seguir. E Ele é tão maravilhoso, Dani, que ele nos permite escolher. Por isso Ele fica triste ao nos ver desviar, nos ver perdidos no caminho. Pois ele sabe que nós tínhamos oportunidade de escolher o caminho certo, mas acabamos por escolher o mais fácil, sendo esse, muitas vezes, o errado.
...
Eu costumava dizer que minha tia era meu anjo da guarda. Ela foi a pessoa que me ajudou a ser o servo de Deus que eu sou hoje. Desde pequeno ela me levava à igreja − muitas vezes até contra a minha vontade, eu devo admitir. Contava-me histórias bíblicas e me ensinava a orar. Convenceu-me a entrar no clube de teatro da igreja. E mesmo eu sendo bastante tímido, acabei me juntando a eles. Toda peça na igreja eu comecei a fazer parte. Ela não perdia uma sequer.
Ela era o meu pilar de sustentação.
Após o seu falecer, eu desmoronei. Minha mãe, que já não era tão ligada à igreja e aos ensinamentos de Deus, distanciou-se de vez. Sua fé se esvaiu de uma forma tão intensa, que acabou me atingindo. Mas eu não posso culpá-la por uma decisão errada que eu mesmo tomei. A decisão foi minha. Toda minha.
De todos os testemunhos que eu já ouvi, eu sempre dizia que o meu não chegava a ser tão transformador, mas isso não diminui a mudança que Deus fez em minha vida.
Eu nunca cheguei a usar drogas − por ter tido aconselhamentos bem rigorosos de meus pais no decorrer de minha juventude, muito menos me tornei um criminoso ou assassino, não mesmo. Porém, eu estava entrando em uma estrada muitas vezes sem volta... Eu começava a me tornar um cético e por pouco comecei a duvidar da existência de um deus.
Alguns anos depois, com a indicação persistente de Isaque − um amigo que há muito tempo não o via, tornei a seguir uma igreja.
Aos quinze anos tomei uma grande decisão... Me batizei nas águas. Foi o momento mais feliz da minha vida, talvez seria um pouco mais, se meus pais tivessem comparecido, mas não me abalei por causa disto. Sei que minha tia ficaria orgulhosa de me ver fazendo aquela escolha. De me ver sabendo pisar na estrada que Jesus estava me indicando a seguir.
Após alguns meses, ingressei em uma célula da igreja − uma espécie de reunião que fazemos em determinada casa com determinado grupo para estudarmos a palavra de Deus e alcançar o máximo de pessoas perdidas que conseguirmos e que normalmente a igreja não consegue alcançar. Não demorou muito até que me tornassem líder da célula e me designarem, após um período de estudos, para tomar conta dela.
Na célula, sempre nos reunimos na casa de Douglas. Ele, junto de Isaque, formavam meu núcleo. Douglas estava na igreja há poucos meses. Iniciara na minha célula, e após um extenso tempo, resolveu se batizar. Entrou para a escola de discipulado, e posteriormente, se integrou ao núcleo.
A casa dos pais de Douglas ficava na subida de um pequeno morro, cercado de casas mais humildes, construídas com tijolos e sem acabamento. A vizinhança, embora a maioria fosse tranquila, muitos davam má fama ao lugar. Mas isso não nos impediu de abrir uma célula ali. Pra falar a verdade, esse foi o motivo de irmos para aquele local.
O convencional era que eu abrisse em minha própria casa, mas meus pais não deram o sinal verde. E não seria nada legal um bêbado de um metro e sessenta entrando e saindo sempre que estivéssemos no meio da dinâmica.
Mas Deus ouviu nossas orações e encontramos um lar tranquilo e bem estruturado.
Hoje era Sábado, dia de célula. Arrumei-me o mais rápido possível e saí uma hora antes do inicio da célula. A casa dele não era muito distante da minha, cerca de dois quarteirões até a subida do morro.
Ao chegar, Douglas me recebeu á porta.
Ele é um garoto não muito alto, media um pouco menos do que eu. Ele também não tinha um porte físico muito superior ao meu. Nós dois podíamos dar as mãos em relação a sermos magros. Seus cabelos castanhos claros estavam bagunçados, como de costume, esvoaçando com o vento e, ocasionalmente, tampando seus olhos escuros. Ele vestia uma bermuda tactel preta com estampa de ondas azuladas, camisa vermelha com a frase “Ore mais, irmão” e pés descalços.
Sua pele naturalmente bronzeada, suas roupas folgadas e seu cabelo rebelde lhe deram o apelido de Surfista entre os garotos da igreja.
Passamos pela sala, onde seus pais assistiam televisão, e nos dirigimos ao segundo andar.
A casa de Douglas havia três quartos. Um para o senhor e a senhora Andrade, outro para Douglas, e um terceiro que viria a ser para um futuro irmão ou irmã que, infelizmente, não chegara a nascer.
Foi difícil aceitar, mas dona Marli insistiu em que fizéssemos naquele cômodo.
Douglas entrou primeiro e começou ajeitar o local, colocando bancos de plástico em forma de um U em direção á porta...
−Está tudo certo em relação ao quebra-gelo, Douglas? – dirigi-me a ele.
−Mais ou menos. – ele abriu um sorriso enorme, o mesmo sorriso que uma criança faz quando se esquece de fazer algo que a mãe ordenou. –Não tive muito tempo e meu celular está com problema, então...
−Sei. – balancei a cabeça, olhando constantemente ao relógio em meu pulso. –Faltam cinco minutos. — retirei meu celular do bolso e o entreguei. –Toma. Pesquise algo no Google.
Ele pegou-o em sua mão e o observou, contemplativo.
−Celular novo, é!?
−É. – sorri. –Minha tia-avó me deu de aniversário.
−Gostei. – disse, fuxicando o celular. –Câmera top!
−O Google dele também é top, quer testar ele não?
−Calma, moço. – ele riu, indo até uma cadeira e se sentando, enquanto fazia a pesquisa.
Lá em baixo, a campainha tocou.
−Deve ser eles.
Douglas me entregou o celular e correu até a janela.
−São sim. Isaque está com eles.
A mãe de Douglas abriu a porta com um cumprimento gentil, e eles subiram a escada em direção ao terraço. Antes de chegarem, Douglas e eu já podíamos ouvir a conversa e os risos de cada um se aproximando.
Por ser uma célula só de garotos, o clima ficava sempre leve e descontraído, o que ajudava na hora de passar uma palavra mais pesada.
Muitos deles, outrora, estavam mexendo com drogas e ou entrara no mundo do crime. Outros eram vizinhos de Douglas, que após muito verem vários jovens se reunindo, decidiram aceitar o convite e visitar a célula.
Começamos com o quebra-gelo, que Douglas se saiu bem, por sinal. Ele escolhera uma dinâmica bem engraçada, levando todos aos risos. Logo depois, partimos para o louvor e iniciei a palavra.
No decorrer, notei que alguns ainda se sentiam incomodados, talvez por timidez. Já outros me olhavam atentos e acenavam com a cabeça, expressando sua compreensão. O silencio era agradável de ouvir, exceto, é claro, quando alguns levantavam a mão para opinar, aí era de se encher os olhos de satisfação.
−“Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente. Melhor seria que você fosse frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” – fechei a bíblia e direcionei meus olhos aos jovens diante de mim. –O que esse versículo tem a dizer? O que entenderam disso?
Todos mantiveram-se calados. Muitos deles pareciam querer dizer algo, mas hesitavam.
Da janela aberta do quartinho em que nos reuníamos, uma brisa noturna entrou serenamente, esvoaçando a cortina e fazendo um zumbido que preencheu o silencio do local.
Sorri, compreensível.
A primeira vez que fui á uma célula, também não me atrevi a levantar a mão para dizer o que pensava, embora uma parte de mim enlouquecia-me para me manifestar, não mexi um músculo sequer.
−Ninguém? – perguntei outra vez, contornando meus olhos no circulo envolta. Da direita à esquerda.
Isaque pigarreou.
−Posso? – indagou retoricamente, já esperando um não.
Suspirei exaustivo.
−Eu estava esperando um deles se pronunciar. – sussurrei para ele, que deu-se de ombros. –Ok. Tudo bem.
Isaque levantou-se do banco de plástico em que se sentava e abriu a boca para responder.
Todos olharam para ele, aliviados.
−A palavra diz que Deus não quer que você seja morno... Neutro. Ele prefere que você seja quente ou frio. Que esteja completamente com Ele, ou com o mundo. Mas nunca os dois. Embora ele prefira que você siga a Ele, a Bíblia diz que ele vomita quem se diz estar com Ele, e pelas costas, está com o mundo.
E assim ele terminou, sentando-se com um sorriso de superioridade enquanto os novatos aplaudiam a ele com exaltação.
Pelos anos que eu conheço Isaque, ele “odiou” aquele momento.
−Tudo bem, tudo bem. – interrompi o aplauso que se estendera demais. –Acho que não preciso completar mais nada. É exatamente o que Isaque disse. – olhei para ele, dando-lhe os créditos, enchendo um pouco mais o seu ego. –Mais alguém quer dizer alguma coisa?
−Trouxe um lanchinho. – Dona Marli entrou no cômodo com uma bandeja repleta de sanduíches em uma mão, e na outra, uma jarra de suco de laranja.
Os garotos irromperam-se em glorias e aleluias dramáticos em relação à entrada de Dona Marli. Que recebeu tudo como um elogio.
−Pensei que fossem gostar de comer alguma coisa. – completou ela, olhando diretamente para mim. –Espero não ter interrompido nada.
−Não, não. Que isso! – neguei, sorrindo gentilmente. –A senhora não atrapalhou nada. Já estávamos encerrando.
−Então podemos comer? – indagou um dos garotos que, lembrando-me agora, fingiu não estar ali quando perguntei se alguém queria responder a pergunta... Tsc, tsc.
−Sim, claro, mas antes. Vamos orar. – procurei Douglas em meio o alvoroço, encontrando-o perto da bandeja, com dois sanduíches pré-devorados na boca. –Ahn... Doug. Quer fazer as honras?
−Eu? – engoliu o lanche de uma vez, quase engasgando. –É... Claro. Vamos orar, gente.
Todos estenderam as mãos em direção aos sanduíches e fizeram uma oração simplória.
Mantive meus olhos abertos e fiz sinal para Isaque, que também estava observando.
−Vem cá. – o chamei discretamente.
Saímos do quartinho e paramos na escada.
Isaque estava um degrau abaixo de mim, e mesmo assim estava dando a minha altura. Seus cabelos loiros escuros estavam sempre bem penteados, combinando com sua camisa gola pólo branca e sua calça jeans escuro.
−O que houve? – indagou, confuso. –Disse algo de errado?
−Não, não é nada disso. – sorri tranquilamente, colocando a mão sobre seu ombro. –Eu queria saber como você está. Não ti vi a semana toda. Faltou as aulas e não respondia minhas mensagens. Cheguei a ficar preocupado.
Sua expressão se enrijeceu.
−Não é nada.
−Certeza? – fitei seus olhos escuros. –Sabe que pode contar tudo pra mim, certo? Sou seu melhor...
−Eu sei, eu sei. – forçou um sorriso, parecia ter se incomodado com a minha inspeção. –Mas não aconteceu nada. É sério. Só não estava a fim de ir à escola esses dias.
Claro que não acreditei em uma só palavra. Mas Isaque sempre fora assim. Seu mundo poderia estar de ponta cabeça que ele jamais contaria a alguém, até que não fosse mais capaz de aguentar sozinho.
Normalmente eu insistiria mais um pouco até ambos ficarem irritados um com o outro e mudarem de assunto, ou levar a uma discussão leve. Mas a célula ainda não havia terminado oficialmente e os garotos ainda estavam ali.
Direcionei-me até a soleira da porta e chamei a atenção de Douglas que contava uma de suas horríveis piadas de duplo sentido que na maioria das vezes as pessoas riam por educação.
−Está tudo bem aí? – desenhei com os lábios.
−Tudo sob controle, capitão. – respondeu, batendo continência.
Virei-me para trás e Isaque estava encostado na janela, pensativo, olhando para a paisagem ao lado de fora.
O alto do morro da casa de Douglas dava vista de toda a cidade. Ao horizonte podia-se ver enormes montes verdejantes com arvores diversas cercando sua base, enquanto que seu topo era enfeitado com torres de radio. O estádio de futebol logo a oeste começava a ascender suas luzes no decorrer que anoitecia. Como num efeito lerdo de dominó, as luzes dos postes em um morro vizinho se acendiam. Crianças entravam para suas casas e viaturas da policia começavam suas rondas. Buzinas de carros, motos e caminhões zumbiam desesperadas no viaduto. Homens gritavam uns para os outros em uma praça, enquanto jogavam pôquer. Um grupo de mulheres descia o morro, trajadas com roupas extravagantes, cheias de brilho e maquiagem, com destino a um show de um cantor de sertanejo não muito famoso que iniciaria á poucas horas.
Uma noite normal em minha cidade.
Meu celular vibrou no bolso de minha bermuda. Retirei-o imediatamente e atendi a ligação.
−Oi!
−Oi, Dani!— respondeu a voz do outro lado da linha. —Ainda está na célula? Te interrompi?
−Não. Já encerramos. – afirmei. –O que houve?
−Não é nada.— sua voz tentava competir com um fuzuê de garotas falando ao mesmo tempo. –As meninas e eu estamos indo em direção ao Barrigão. Aparece aqui. Chama o Zaque e o Douglas, se quiserem.
−Alícia está nos chamando pra lanchar. – retirei o auto-falante de perto de minha boca e o tampei com a mão direita. –Vamos?
−Sei lá, mano. Você que sabe. – disse sem nenhuma animação.
−Ele disse que vai. – respondi para Alícia, ignorando-o.
−Que bom.— sua voz pareceu animada. —Esperamos vocês na entrada, então.
−Tudo bem, não vamos demorar muito. – garanti.
−Ok, então. Beijos. Tchau.
−Tchau. Beijos.
Desliguei o celular e Isaque me fuzilava com os olhos.
−Eu não vou.
−Vai.
−Vamos ver.
−Vamos, então.
ALGUNS MINUTOS DEPOIS...
Douglas e eu andávamos como equilibristas sobre o meio-fio da calçada e cantávamos uma musica do Thalles Roberto, passando por senhoras que riam de nossas caras e vaiavam ironicamente.
−Podiam cantar um pouco melhor, queridos. – uma das senhoras soltou, fazendo Douglas e eu cairmos na gargalhada.
−Culpa do Isaque. – gritei, olhando para trás e o encontrando há alguns metros atrás de nós, tão animado quanto um cachorro á caminho do veterinário. –Se ele tivesse um pingo de humildade e cantasse com a gente, evitaria nosso vexame.
Eu ouvi um resmungo qualquer vindo dele, mas Douglas e eu ignoramos e gritamos ao mesmo tempo: CHÃO DE LAVA, e saímos em disparada, pulando de degraus para tampas de bueiros e calçadas, evitando ao máximo pisar no asfalto.
Atravessamos cerca de duas quadras pulando de asfalto em asfalto enquanto o senhor Está-Tudo-Bem nos seguia rezingando.
Enquanto andávamos, percorremos bares, bocas de fumo, casas de festas, bocas de fumo, grupinhos de crianças brincando, bares e bocas de fumo.
Já perdia a conta de quantos bares havia encontrado quando Douglas, pendurado numa placa de PARE, virou-se para trás e gritou.
−Ah não! Isaque caiu na lava!
−Vamos socorrê-lo. – anunciei balançando o punho no ar e correndo sobre o meio-fio em direção a Isaque, que só teve tempo de ouvir nossos gritos se aproximarem, antes de ser erguido no ar e ser carregado sobre nossos ombros em direção a esquina.
−Me põem no chão. – rosnou.
−E te deixar morrer em lava efervescente? – disse Douglas fingindo secar suor de sua testa. –É quente, cara.
−Que se dane. Me coloquem no chão AGORA.
Douglas olhou para mim, ainda rindo. Então assenti com a cabeça.
−Vamos descer ele.
−Obrigado. – falou, trincando o maxilar. Seus pés tocaram no chão de lava pesadamente.
−Pronto. Agora vamos. – disse, olhando ao redor. –Que rua é essa mesmo?
Douglas e Isaque olharam do inicio ao fim da rua.
Deserta. Sem nenhum sinal de vida sequer.
−Que ótimo. – resmungou Isaque novamente, ele já deveria estar sobre uma poça de seus pés derretidos aquele momento. –Nos perdemos!
−Claro que não nos perdemos. – contradisse, tentando encontrar a alcateia de senhoras debochadas, críticas do The Voice, que havíamos encontrado há pouco. –Ué.
A rua iniciava-se e terminava silenciosa. As casas pareciam abandonadas de tão pacato que estavam. As luzes dos potes insistiam em ficar piscando, ameaçando a nos deixar no escuro. O vento assobiava em nossos ouvidos e agitava algumas telhas metálicas soltas, provocando um barulho fantasmagórico.
Com o kit filme de terror quase completo, só faltava um cara com mascara de furinhos surgir de um beco escuro com uma serra elétrica ensanguentada em mãos.
−Vamos voltar. – sugeriu Douglas, já não achando mais graça alguma na irritação de Isaque.
−Voltar? Mas as meninas estão nos esperando. – eu disse.
−Então, a menos que você saiba como chegar lá por esse caminho sinistro, vamos voltar pra casa. – Isaque se pronunciou, aparentemente um tanto contente pela opção de irmos embora ter surgido.
−Ok, ok. – ergui os braços em rendição. –Vocês venceram, seus medrosos.
Dei meia volta e segui em direção oposta em que andávamos. Mesmo de costas, pude ver o sorriso de Isaque brotar perversamente.
−Deus ouviu minhas orações. – cantarolou, aparentemente mais alegre.
−Se não calar a sua boca, ele vai ouvir seus gritos agonizantes daqui a pouco. – disse Douglas, com um teatral tom ameaçador.
Isaque deu-se de ombros e apressou o passo, nos acompanhando.
No céu, a lua se exibia majestosa sobre nós. Seu brilho poderia substituir tranquilamente aqueles que se diziam postes de iluminação.
A rua mantinha-se em silêncio. Até mesmo os garotos e eu havíamos nos calado. Permanecemos atentos aos poucos ruídos que soavam nas residências.
Podíamos cair no sono de tão entediante que estava. Até que algo nada entediante aconteceu.
No inicio da rua, há poucos metros de nós três, uma moto com dois garotos entrou lentamente.
O farol da moto quase nos cegou, de inicio. Foi tão rápido.
Ficamos atordoados e só percebemos o que estava acontecendo, quando o carona saltou da moto e apontou uma arma em minha cabeça.
−Pode parar aí mesmo, playboy. – falou o primeiro, ainda de capacete.
−Aí meu Deus! – grunhiu Douglas.
−Passa tudo que tiverem aí, mermão. – a mira de sua arma alternava de Douglas, a Isaque e por ultimo, a mim novamente. –Estão surdos? – ele gritou, sua mão totalmente trêmula. Parecia tão nervoso quanto nós, talvez até um pouco mais.
−E-eu não tenho nada aqui comigo, cara. – disse Isaque, esvaziando os bolsos.
−Eu só estou com esse dinheiro. Toma, pode ficar. – Douglas entregou-o algumas notas que ele levava para lanchar, o suficiente para pagar para nós três.
−E você, olhos de mel. – voltou sua atenção para mim. Sua voz estava nitidamente abalada. –Passa tudo que tem aí.
−Anda logo com isso, zé. – o motorista apressou-o, olhando para os lados para certificar que não se aproximava nenhuma viatura, − que por sinal, só podiam ter sido todos convocados a não aparecerem naquele local, né?
−Passa logo, maluco. – o bico da arma tocou minha testa totalmente suada. O gélido do metal provocou um arrepio intenso na minha coluna espinhal. Minhas pernas deveriam estar brincando de chão de lava ainda, pois eu já não as sentia.
−Calma, calma. – eu tentei falar. Meu coração já sapateava dentro do meu peito. –Eu só estou com o meu celular aqui e...
−Pode ser isso mesmo, cara. – ele enfiou a mão no meu bolso e tomou meu celular, apressado.
Douglas, que estava ao meu lado, cerrou os punhos e já ia direcionar-se ao assaltante, que se virava em direção à moto, porém, eu segurei-o a tempo.
−Não faça isso. – sussurrei, olhando no fundo de seus olhos.
Seus olhos enraivecidos fitaram os meus e se acalmaram, assentindo.
Os assaltantes deram partida na moto e seguiram rua adentro, desaparecendo no final dela.
Após o susto, Isaque e Douglas assentaram no asfalto, ainda abalados com o ocorrido. Nossas respirações ofegantes quase formavam uma bela sinfonia, se não fosse o terror tingido em nossos rostos.
Olhei em direção a esquina e uma luz avermelhada iluminou meu rosto, dando seguida a sirene da viatura da policia que se dirigia a nossa direção.
−Bom. – disse, tropeçando nas palavras. –Acho que não vamos conseguir encontrar com as garotas.
...
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