Salvos para Salvar
2 Refém em Minha Própria Casa - Isaque
ISAQUE
TODOS ACHAM QUE SER FILHO DE PASTOR É FÁCIL, mas não é bem assim. Eu cresci na igreja em que meus pais pastoreiam. Quando criança, ser filho dos pastores titulares era algo maravilhoso. Toda a atenção entorno dos pequenos futuros profetas ou missionários. Na escola bíblica, inclusive, eu adorava ficar jogando na cara quem era meus pais para as crianças novas que entravam na classe. Coisa de criança.
Mas com o passar dos anos, comecei a perceber que não é algo tão simples.
A atenção dos outros sobre você, principalmente dos irmãos da igreja, se torna uma expectativa irritante. E essas expectativas começam a te sufocar aos poucos, até chegar ao ponto de ser criticado ao cometer o menor dos erros.
“Aquele lá saindo com os amigos à noite não é o filho do pastor?!”
“Filho de pastor pode fazer isso?!”
“Se você é filho de pastor, então por que...?”
Pra resumir, essas são as frases que eu mais escuto. E não se torna algo fácil de conviver, pois, assim como os outros jovens membros da igreja, também sou propício á erros.
...
Era Sábado. Meu pai havia nos acordado cedo para acompanhá-lo em uma reunião de pastores que aconteceria na cidade vizinha.
O evento não demorara tanto e, embora eu preferisse ter ficado em casa, até que fora divertido.
No caminho de volta para casa, Alícia (minha irmã gêmea) e eu, conversávamos sobre os futuros eventos de jovens que ocorreriam na igreja. Ela faz parte do grupo de ministração, então não parava de falar sobre os vários tipos de peça envolvendo dança que ela estava pretendendo fazer nos eventos. Ela já estava no meio de uma entediante − porém empolgante para ela, explicação sobre os movimentos da dança, quando resolvi tocar no assunto do louvor.
Ah, eu não deveria ter feito aquilo.
−Cantar, Isaque? Esqueceu que está de castigo por tempo indeterminado? – falou meu pai ao volante.
Alícia calou-se no exato momento, e de repente, parecia que não estava mais no carro com a gente. Um clima desconfortável tomou conta.
−Bom, eu pensei que até o final do ano, que é quando vai acontecer o evento, eu já estaria livre desse “castigo”. – fiz aspas com os dedos.
−Se eu achar que devo te livrar do castigo, eu irei livrá-lo. Mas por enquanto é melhor não fazer nenhum projeto. Quero que se concentre nos seus estudos.
−Tudo bem, pai. Eu só acho que o senhor está fazendo uma tempestade num copo d’água.
A face de meu pai avermelhou-se e, pra ficar ainda mais parecido com um desenho animado, faltaria apenas suas narinas ejetarem vapor como uma chaleira.
−Tempestade num copo d’água? Você estava vendendo ingressos para um show de um cantor Sertanejo na porta da escola, Isaque. Nem ao menos parou para pensar o que eu acharia disso?
−Eu não estava bem vendendo, pai. Eu só estava... Ajudando um amigo meu que vai fazer a abertura no show, eu já disse. Ele me deu alguns ingressos e pediu para ajudá-lo. Só isso. Nada demais. Parece até que eu estava matando alguém ou usando droga.
Meu pai suspirou e manteve-se em silêncio por alguns poucos segundos. Algo que ele fazia sempre quando estava irritado e evitava se estressar ainda mais. Meu pai sempre foi um cara tranquilo e calmo, mas, da mesma forma que um filho de pastor pode cometer erros, um pastor pode se estressar com o filho, às vezes.
Seus dedos tamborilavam sobre o volante, mania que ele e Daniel compartilham e fazem quando estão irritados ou ansiosos.
Ele trajava um terno preto com gravata vermelha. O cabelo bem penteado para trás e a barba por fazer. Carregava leves olheiras, ocasionadas pelas ultimas noites má dormidas. Alguns cabelos brancos salientes começavam a aparecer em seu cabelo e em sua barba, mas como minha mãe costumava dizer, era puro charme.
Olhei pelo retrovisor e Alícia levava sua bolsa à frente do corpo, abraçando-a como um ursão de pelúcia, seus cabelos caídos sobre os ombros e algumas mechas encobriam seu rosto, que encurvava para o carpete do carro e evitava olhar em nossa direção. Ela odiava quando alguém brigava perto dela.
−O seu problema é que você não reconhece o que fez de errado. Pra você está tudo sempre certo. Pode fazer o que lhe bem entender. – lançou ele, os olhos fixos na estrada.
−E a mamãe nunca seria tão injusta quanto o senhor está sendo. – retruquei, sem nem mesmo pensar antes de falar.
Meu pai se calou após o meu comentário. Alicia se calou e agora olhava pela janela do carro.
Cruzei os braços e me virei pro outro lado. Trinquei o maxilar e resmunguei novamente que era injusto.
Quando chegamos, desci do carro e sai em direção ao meu quarto. Subi as escadas da garagem com Alícia vindo logo atrás de mim, chamando por mim.
−Zaque! Espera. – repetiu ela, ofegante. –Por favor.
Sua voz ecoou pelo corredor até os meus ouvidos. Ela não sabia, mas sua maior arma contra mim era justamente ela. Acho que por sermos gêmeos e desde pequenos sempre sermos tão unidos, ela era uma das poucas pessoas que conseguia me desconstruir.
Parei e me virei a ela, que se aproximava com a bolsa arrastando no chão como uma mochila de rodinhas.
−Não fica com raiva do papai. – ela começou, guiando uma mecha de cabelo por trás da orelha. Ela tinha cabelos louros escuros assim como os meus, porém, seus olhos, por trás de seus óculos de grau, eram cinza e momentaneamente tomava tons mais claros, como o azul, ou mais escuros, como preto, dependendo da iluminação do ambiente. Seu rosto era como a de uma boneca de porcelana. Tão perfeitinha, que dava medo só de imaginar ela tropeçando ou caindo. Vestia um vestido de cor rosa, até o joelho, com detalhes em preto e rosa mais claro. Calçava uma sandália rasteirinha preta e usava uma pulseira de prata com pingentes de ursinhos, notas musicais, uma bíblia e uma bailarina. Seus olhos cinzentos fixos nos meus enquanto falava. –Ele já está cheio de coisas para resolver na igreja. – prosseguiu. −Ainda tem a rádio, a nossa escola e tem a... – ela se silenciou. Eu não havia notado, porém ela começara a reprimir algumas lagrimas.
−Alícia. – eu me aproximei dela e a abracei. Seus cabelos tinham um aroma doce e suave. –Não se preocupe, ok? Eu e o papai vamos ficar bem, você sabe como a gente é.
−É eu sei, e é por isso que eu me preocupo tanto. – ela disse, secando os olhos.
Nosso pai subia as escadas atrás de nós. Ele carregava uma maleta de couro escura.
−Está tudo bem com vocês?
−Sim, está. – eu respondi, distanciando de Alícia e dando-os as costas. –Vou para o meu quarto.
Deixei a sala com meu pai e Alícia me vendo bater a porta de meu quarto. Ouvi ele perguntando-a algo sobre o hospital, mas não fiz questão de ouvir o resto da conversa.
Deitei-me sobre minha cama.
A luz do sol passava pelas frestas do black-out e riscavam a parede do quarto tomado pela escuridão. Ao lado da cama, a luz do botão de ligar do monitor de meu computador sobre a escrivaninha piscava, o ventilador de teto zunia enquanto ventilava e esvoaçava serenamente algumas folhas de papel espalhadas sobre o criado-mudo. Eu havia descalçado os pés de meus tênis e deitado sobre a cama ainda com as meias e a camisa social branca com calça jeans escuro que havia usado para a reunião.
Há alguns anos, eu dividia aquele quarto com Alícia. Éramos crianças e não havia mau algum dividirmos o quarto, porém, ao passar dos anos, eu e Alícia começamos a nos distanciar, e eu não falo somente de cômodo na casa, mas em questão sentimental. Ela continuava a falar comigo sobre tudo o que lhe ocorria, sobre seu namoro, ensaios com o grupo de Ministração da igreja, escola e etc. O problema não era com ela, era comigo. Não me sentia confortável mais em falar tudo o que me acontecia para ela, mas, embora ela demonstrasse que se sentia afastada, sempre respeitou isso.
O bom de não mais dividir o quarto com minha irmã era a privacidade. Sempre odiara as pessoas fuçarem as minhas coisas. Exceto por Daniel, eu era o único que podia mexer nas coisas em meu quarto. Mas em alguns momentos, até Daniel não era bem vindo em meu quarto.
Me levantei e fui em direção ao computador. O CPU já estava ligado, apenas o monitor havia sido desligado quando fui me deitar na noite anterior. Pressionei o botão do monitor e deslizei o mouse impacientemente enquanto a tela iniciava.
Desabotoei minha camisa e a joguei sobre a cama.
Quando a minha foto segurando um microfone e cantando no último evento jovem da igreja apareceu de wallpaper no computador, sentei-me novamente na cadeira e abri logo o navegador.
Eu não tinha bem o que fazer no computador. Normalmente, há essa hora, eu provavelmente estaria me arrumando pra ir ao ensaio da banda. Porém, um outro lado meu me incitava a ligar o computador.
Direcionei o cursor do mouse ao navegador anônimo e começava a digitar o link, que aparecera automaticamente completo quando comecei a digitá-lo, quando resolvi ir até a porta e trancá-la. Ao retornar, pensei em parar ali mesmo, desligar o PC e tentar dormir. “Seria melhor fazer isso” falou um lado meu, mas meus hormônios saltitavam e imploravam para prosseguir. “Não tem nada a ver. É só dessa vez”, um outro lado meu me convenceu.
Sentei-me novamente á cadeira do computador e cliquei no link que começara a digitar. Um site pornográfico abriu e logo escolhi um vídeo. Conectei os fones para que ninguém pudesse ouvir o áudio e comecei a assistir com os olhos vidrados na tela. Não demorou muito para eu me excitar e começar a me masturbar vendo ao vídeo.
Meu corpo já soava quando o vídeo terminou. Curvei meu corpo sobre a cadeira da cama e fixei os olhos nas pás do ventilador.
Os minutos seguintes foram de puro arrependimento e auto-crucificação. Como se só agora eu me recordasse de que não deveria fazer aquilo. O pior é que era Sábado, dia de célula. Eu era núcleo, líder em treinamento. Mas o pior me consumia aos poucos a partir daquele momento, eu me recordei dos sermões que já dera aos garotos da célula sobre o sacrifício de Cristo por nós. Que Ele havia feito tanto por nós, e nós não reconhecíamos isso.
Essa foi minha morte.
Caí sobre meus joelhos e tratei de orar e pedir perdão. Um turbilhão de “eu não deveria ter feito isso”, “eu poderia ter sido mais forte” e “eu sou mesmo um fraco” enevoou minha mente, tanto, que não sabia mais o que eu estava orando, quando revolvi me levantar e ir tomar um banho quente.
O chuveiro fora um bom amigo, relaxou meu corpo e me deu tempo pra pensar, mas eu não podia ficar ali debaixo o dia inteiro. Quando retornei para meu quarto, ainda secando meus cabelos com minha toalha, meu celular apitou. Alcancei-o, calçando meus pés com minhas pantufas de Pateta que ganhara de minha mãe.
Desbloqueei o celular. Era uma mensagem de William, nosso baixista do grupo de louvor, que me chamava no WhatsApp.
[−Isaque? Kd você, mano?] — 12:35
[−Tamo te esperando pra começar o ensaio] — 12:35
[Foi mal, cara. Não vai dar...] — 12:36
[Tô preso em casa] — 12:36
[−Qual é, mano] – 12:38
[−Precisamos que vc venha nos dar uma força] – 12:38
[−Aparece aqui...] – 12:39
Não respondi a mensagem. Permaneci sentado sobre a cama. A toalha úmida jogada ao meu lado.
Eu podia simplesmente não responder a mensagem e tentar dormir, mas o problema é que estavam me chamando para o ensaio do louvor. Aquele mesmo que me levou a discutir com meu pai.
A banda havia se formado com grande peleja e sacrifício. Não fora fácil reunir o grupo de jovens talentosos e dedicados para formar a banda, para meu pai retirá-los de mim por tão pouca coisa. Aquilo não era justo.
[−Precisamos que vc venha nos dar uma força] – 12:38
[−Aparece aqui...] – 12:39
[Tô saindo de casa... Marca aí] – 12:41
Não vem me dizer que eu estou errado. É. Eu sei. Eu desobedeci meu pai, e isso é, de certa forma, um pecado. Mas me fala aí, se fosse você no meu lugar, o que faria?
Troquei-me o mais rápido possível.
Abri a porta de minha cela com cuidado. Meu pai poderia estar na sala ou no caminho em direção á liberdade, digo, a porta. Isso quer dizer que, caso ele me visse, eu voltaria a ver o sol quadrado.
Pra minha felicidade, a barra estava limpa. Quero dizer, quase.
−Pra onde você está indo?! – indagou Alícia, deitada sobre o sofá da sala, assistindo a uma série de TV enquanto comia brigadeiro, recém feito, direto da panela.
−Ahn, eu... – agarrei a mão na alça de minha mochila, nervoso. –Eu vou...
−Vai pro ensaio do louvor. – ela falou por mim, justo na hora que eu criara uma desculpa boa e convincente. –Você sabe que o papai...
−Sim, Alícia, eu sei. – a interrompi. –Eu sei que ele vai ficar bravo quando descobrir, mas... – a olhei com um olhar de cachorro pidão.
−Desculpa, mano. Eu, eu não vou poder te acobertar dessa vez. – seu corpo se enrijeceu, desencostando-se da almofada.
−Por favor, mana. É só dessa vez. Você não vai se encrencar, eu prometo.
Seus olhos cinzentos fixaram-se no tapete peludo sob seus pés. A ponta de seus dedos desaparecidos em meio aos pelos do tapete. Ela colocara a panela de brigadeiro caseiro sobre o colo e provou mais uma colher, sombria, como se o doce tivera perdido seu gosto.
−Me desculpe, Zaque, mas eu não posso. – repetiu, ainda concentrada no tapete.
−Tudo bem... Tudo bem. – segui em direção á porta da sala. –Pensei que eu pudesse contar com você. – saí batendo a porta e descendo as escadas com passos fortes. Pulei os últimos quatro degraus da escada, acionei a porta da garagem e pulei sobre minha bicicleta, partindo em direção á liberdade.
...
Após alguns minutos, cheguei á rua da igreja. Desci da bicicleta e parei em frente a uma barraquinha em que uma senhora vendia salgados fritos. Abri minha carteira e gastei o resto de dinheiro que eu havia levado com duas coxinhas e um refrigerante, que eu detonei antes mesmo de entrar na igreja.
Tranquei minha bicicleta no bicicletário ao lado da entrada. Certifiquei-me que não havia nenhum pastor auxiliar ou diácono, que poderia me entregar ao meu pai, e segui em direção as escadas.
O piso exterior da igreja era de uma cerâmica básica cinza, semelhante ao granito. O terreno ficava sobre uma pequena elevação, sendo assim, uma barra de ferro circundava os arredores da entrada, impedindo que alguma criança caísse ou se machucasse. Havia uma escada pequena, porém deslumbrante, com piso de mármore e degraus acessíveis á grande numero de pessoas, nos levava até a entrada da igreja. A fachada luminosa com o nome da igreja mantinha-se desligada, por ainda ser de tarde.
Ainda do lado de fora, já podia ouvir o som da bateria e da guitarra fervilhando lá dentro. Tenho que admitir que cheguei a arrepiar.
−Ele vem ou não vem?
−Bom, a ultima mensagem dele dizia que... – William se interrompeu ao me ver entrando. –Ah. Aí está ele!
Todos, tanto os meninos quanto as meninas se viravam em minha direção e irromperam-se em aplausos.
−Não é pra tanto, pessoal. – sorri, modesto. –Ainda não comecei a cantar.
−Nem nós. – disse Emily, impaciente, com um microfone em mãos. Emily era uma das integrantes mais antigas do grupo, crescera junto com Alícia e eu. Ela era mulata, cabelo afro castanho mel em uma espécie de moicano, com uma das laterais curto e cheio na parte de cima. Tinha olhos escuros, desafiadores e lábios carnudos. Usava uma blusa vermelha com os dizeres “SOU SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO”, calça jeans clara rasgada nos joelhos e sapatilha. Já carregava uma expressão irritada ao rosto. –Não estamos por sua conta, Isaque. Você mesmo que nos cobrava pontualidade, chegar com meia hora de atraso.
−Você deveria estar agradecendo a Deus que eu vim, querida. Meu pai me proibiu de ensaiar com a banda por tempo indeterminado.
−Então o que você está fazendo aqui, Cruz? – indagou Ictor, nosso baterista hiperativo com cabelo de Tarzan.
−Já falei pra parar de me chamar assim. – o repreendi.
−É seu apelido desde criança, Zaque, supera. – comentou William.
−Bom, Ictor, eu vim por que é meu dever estar aqui com vocês. Não importa qual seja a desculpa.
Emily me repreendeu com o olhar.
Alguém potencializou a guitarra e fez um breve solo, chamando nossa atenção.
−Então, pessoal?! Vamos ensaiar ou ficar de papinho? – pronunciou-se Tália, com um sorriso travesso aos lábios.
−É por esse e outros motivos que eu te aceitei na banda, Tália. – disse, subindo ao altar e escolhendo o meu microfone.
Começamos com um solo instrumental e passamos para hinos de cantores gospel famosos. Uma hora depois, estávamos exaustos. Ictor já batia as baquetas de sua bateria como se estivesse tocando um triângulo.
−Acho que por hoje é só. – falei, economizando a voz. –Está quase na hora da minha célula.
−É, a minha também. – informou Emily, recolhendo o microfone de minhas mãos e guardando-os no local. –Hoje eu irei dar a palavra. Então, não posso me atrasar.
Tália e os demais mantiveram-se no altar, guardando os instrumentos e recolhendo os fios. Ictor tropeçou e quase derrubou o teclado, levando um sermão de Tália e de William. Emily havia descido e arrumava suas coisas, colocando a bolsa sobre o ombro e retornava para se despedir.
−Ensaio semana que vem, mesmo horário?
Olhei para meu celular, haviam quatro ligações não atendidas de Alícia.
−Sim. Mesmo horário.
...
Faltavam dez minutos quando encontrei com os caras da célula na subida do morro da casa de Douglas. Eram no máximo dez rapazes. Três deles eu não conhecia, então presumi que fossem visitantes. Um deles, veterano na célula, andava fazendo gracinha e imitações de pregadores famosos da televisão.
−Chegamos. – anunciei a eles, parando em frente à casa de Douglas.
A rua estava movimentada como sempre. Crianças brincavam na rua e senhores com barriga de cerveja reuniam-se na porta de uma casa para jogarem dominó. Grupos de senhoras comentaristas da vida alheia se dividiam ao longo da subida do morro. Algumas delas olhavam em nossa direção e cochichavam. Resolvi ignorá-las.
Há poucas casas acima de nós, dois garotos estranhos, que eu nunca havia visto ali, conversavam próximos a uma moto. Um deles parecia nervoso, soava muito e gesticulava com a cabeça. O outro estendeu algo para o segundo, que pegou, e na mesma hora, escondeu debaixo da camisa. Foi quando eu percebi que era uma arma.
Me virei em um pulo e toquei a campainha.
A campainha soou e logo depois a mãe de Douglas apareceu na porta para nos receber. Os garotos entraram apressados, enquanto os novatos subiram mais ariscos.
−Boa tarde, Isaque! – cumprimentou-me a mãe de Douglas, enquanto o ultimo garoto passava pela porta.
−Ahn, boa tarde, senhora Alves! – respondi com um aperto de mão, ainda receoso com os garotos próximos .
−Já lhe disse que vocês tem feito um grande trabalho com os jovens da vizinhança? Grande parte dos meninos que mexiam com coisas erradas, passou a frequentar a igreja junto com vocês. Todo dia uma mãe aparece para me contar a diferença que o filho tem tido dentro de casa. Vocês tem sido uma benção para o morro.
Eu sorri, meio encabulado. Não sabia muito bem como reagir a elogios como tais, mas respondi gentilmente com um...
−Obrigado!
Na mesma hora, um motor rangeu no pé de meus ouvidos, provocando um frio repentino na minha barriga. Eram os garotos que montaram na moto e desceram empinando de uma roda.
−Bom. Não são todos que podemos alcançar. – comentou ela, melancólica, observando os garotos dobrarem a esquina.
−Conhece eles? – indaguei.
−Um deles mora aqui desde pequeno, o outro tem aparecido no morro há poucos meses e tem dado trabalho pra toda a vizinhança. – respondeu ela, logo mudando de assunto. –Bom, vamos subir. Os garotos estão esperando lá em cima.
Entrei e subi as escadas e, enquanto me aproximava do quartinho, me preparava para o que estava por vir. Não imaginava eu que as coisas sairiam tanto do planejado.
Delegacia
Horas depois...
−Conseguiu ligar para as garotas? – indaguei a Daniel que retornava do orelhão tão pálido quanto um palmito.
−Consegui. – respondeu, aflito. –Alícia, Emily e a Bia estão vindo. Eu insisti para que não viessem, mas vocês a conhecem.
Douglas e eu assentimos em silêncio.
−E agora? Vamos mesmo fazer um boletim? – questionou Douglas.
−Que pergunta é essa? É claro que vamos fazer boletim. Não vamos, Dani?
Ele não respondeu. Seus olhos cor de mel fitaram o chão com tanto interesse que eu quase curvei a cabeça para ver o que era.
−Tão de sacanagem, né? – irritei-me. –Os babacas nos roubaram. Levaram seu celular novo e colocaram a porra de um...
−Isaque, calma. – Daniel tentou me acalmar. Afastei-me dele.
−Calma nada. – trinquei o maxilar, ainda irritado.
Na mesma hora, o policial que nos abordara se aproximou de nós três.
−São os garotos que foram assaltados, não é?
−Sim. – respondemos quase em uníssono.
−Venha comigo. – ele se virou. –Encontramos os suspeitos.
...
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