Salvos para Salvar
3 Praga de Avó Também Pega - Jonathan
JONATHAN
Minha mãe e minha avó sempre me diziam: TOMA CUIDADO COM ESSAS SUAS AMIZADES, ELAS NÃO VÃO TE LEVAR PARA UM BOM CAMINHO. E eu lhes dava ouvidos? Claro. Claro que não.
Desde pequeno eu sempre andava com o mesmo tipo de amigos. Era a única galera que eu conseguia me enturmar, e isso não era minha culpa. Nunca me dei bem com o grupinho dos estudiosos, dos atletas, ou até mesmo dos valentões.
Embora eu tenha que admitir que essas amizades só me trouxeram problemas, eles foram pra mim o exemplo de homem que eu não tive em casa. Infelizmente, não cheguei a conhecer o meu pai, e minha mãe teve que voltar para a casa de minha avó, junto com minha irmã mais velha, onde, até hoje, vivemos juntos.
Bom, mas chega de falar do meu passado. Vamos falar do presente... Bom, falar vai ser complicado.
−Cuidado, meu irmão! – gritei para Zoiudo, que quase atropelou uma velhinha que atravessava a rua com várias sacolas de Supermercado em mãos. Atrás de nós, uma viatura da policia queimava o pneu no asfalto em direção a gente. Nenhum de nós dois estava usando capacete, e para piorar, a moto era de um chegado nosso e, por está razão, não estávamos com os documentos da moto. Logo, assim que passamos correndo perto de uma viatura, os caras vieram pra cima da gente. –Tá querendo piorar nossa situação?!
−A velha que entrou na frente da moto, lesado. – ele guinou para a esquerda, descrevendo uma curva na esquina. –Estamos ferrados, cara. Como vamos nos livrar dos tira?
Em uma questão de segundos, eu tive que pensar.
Eu conhecia aquele bairro desde criança. Sabia onde cada rua entrava e onde saia. Porém, os policias também conheciam, então eu deveria ser mais esperto que eles.
−Vira na segunda á direita. – gritei pra ele, competindo com o zunido do vento.
−Ta drogado, é? Eles vão nos pegar ali fácil. – protestou Zoiudo.
−Faz o que eu estou falando, merda.
Ele arriscou e virou onde ordenei.
Subimos um morro sinuoso, conhecido como O Rastro da Serpente. O nome era digno ao morro, pois o caminho fazia varias curvas, o que obviamente facilitaria para a policia nos pegar, porem, eu conhecia um caminho que mesmo que eles conhecessem, não seriam capazes de nos seguir.
−Cara, a gente vai perder velocidade assim. – reclamou Zoiudo, apavorado.
−Não vamos não. Segue reto pelo beco entre aquelas duas casas na subida. – apontei o local para ele.
−É muito apertado. Não vamos conseguir passar.
−Acredita em mim, cara. Passa lá. – gritei em seu ouvido. Vi sua mão tremer, arriscando seguir o caminho oposto. –Vamos, meu irmão.
Ele acelerou em direção ao beco. A policia virava a esquina atrás de nós quando entramos beco á dentro. A manete da moto arrastou nas paredes e faiscaram. Atravessamos o beco e saímos na rua acima da anterior, o beco prosseguia a frente, então Zoiudo nem esperou eu falar para continuar.
Tenho que admitir, meu coração faltava pouco para pular para fora da minha boca, por isso a mantinha bem fechada.
−Só toma cuidado. Se for pra morrer, prefiro ir em cana. – protestei ao vento.
−Então temos pensamentos diferentes. – ele respondeu, ríspido. –Estamos conseguindo despistar eles?
Olhei para trás. Avistei somente carros civis e crianças brincando nas calçadas.
−Barra limpa.
−Ótimo. – ele guinou para a esquerda e fez um retorno brusco, descendo uma ladeira que me fez lembrar a descida de um loop na montanha russa que minha avó me levara quando criança. Para o momento ficar mais nostálgico, só faltava eu vomitar cachorro quente e algodão doce na minha camisa. –Vamos garantir que eles não vão dar de cara com a gente de novo.
Andamos uns dez minutos, até que ele certificara que estava seguro voltar para casa. Já era mais de meio dia, e minha barriga estava fazendo batida de funk, de tanta fome que eu estava sentindo. Pedi para me deixar em casa, aquela hora o almoço já estaria pronto.
Entramos no subúrbio de minha cidade. Embora houvesse mais bairros de classe média do que bairros ricos na cidade, o meu bairro era o que havia maior localização de famílias pobres. Ou, como minha avó sempre dizia, “ricos da graça de Deus”. As ruas eram como labirintos, todas interligadas e emaranhadas. A cena de pessoas que não conheciam o lugar parando outros moradores para pedir informações era algo comum.
Minha casa ficava á poucas quadras da escola estadual na qual eu estudava. A rua estava cheia, como de costume. Crianças brincavam de bola, amarelinha, pique-cola e outras brincadeiras nostálgicas, enquanto que, já outros, sentavam-se no meio-fio e jogavam em seus smartphones ou tablets.
A moto estacionou em frente do portão de casa e eu saltei da moto, as pernas já quase dormentes.
−Valeu pela carona. – disse indo em direção ao portão.
−Não vai aparecer lá com a gente à noite? – ele indagou, a voz sufocada pelo capacete da moto.
No mesmo momento, minha avó apareceu na porta de casa. Ela parecia nervosa e seu olhar dizia tudo: Entra pra casa, AGORA!
−Não sei. – respondi a ele, seguindo agora mais rápido em direção a minha casa. –Até mais.
Passei pelo portão de casa e a moto partiu logo em seguida.
Minha avó não disse nada de inicio, e nem precisava. Ela estava usando um vestido de cetim florido, já desbotado de tanto usar dentro de casa. Seu cabelo já grisalho preso em um coque no topo da cabeça, suas mãos enrugadas respingando água e um pano de prato recaído sobre seu ombro direito, logo, presumi que ela estava lavando as vasilhas quando me ouvira chegar.
−Onde você estava. – sua voz era bastante severa, mas podia-se sentir um tom de preocupação maternal.
−Fui dar uma volta com o Zoiudo, vó. Nada de mais. – passei por ela e segui para meu quarto.
−Zoiudo? Isso lá é nome de gente? – reclamou ela, me seguindo. Seus passos lentos, arrastando os chinelos no piso de casa. –E de quem é aquela moto? Que eu saiba nenhum de seus amigos trabalham, muito menos tem idade para ter carteira.
Respirei fundo antes de responder qualquer pergunta que ela fizesse, embora eu estivesse cansado para ouvir sermões, ela era minha avó, a mulher que ajudara minha mãe a cuidar de mim.
−É do irmão dele, vó. E sim, ele tem carteira. – menti, obviamente evitando olhar em seus olhos enquanto falava. Infelizmente, eu não era muito bom em manter mentiras, e minha avó sabia muito bem disso.
−Irmão, não é? – ela repetiu, descrente. –Qual o nome dele?
Minha barriga gelou. Eu nunca fora bom em dar respostas rápidas. Reprovara em tantas provas orais, mas nenhuma delas se comparava á detetive Marta Souza, minha avó.
−O nome do irmão dele? – engoli em seco. Eu comecei a suar frio, claramente nervoso. –Narizudo. – respondi, sentindo-me aliviado.
−Narizudo? – ela riu. –E como se chama o pai? Orelhudo?
Ela retirou o pano de prato sobre o ombro e secou suas mãos.
−Não quero nem saber como se chama a mãe dele.
Eu sorri, tentando disfarçar o nervosismo.
−Pois é. – balancei a cabeça, fingindo ter achado graça em seu comentário.
Seu sorriso se desfez como uma bolha de sabão, e sua expressão se enrijeceu mais uma vez.
−Vou fingir que caí nessa desculpa esfarrapada pra não preocupar sua mãe. – seus olhos brilharam em contato com os meus. –Não quero mais saber de você saindo com esses moleques, entendido?
−Sim, vó. Relaxa.
−Estou relaxada. – ela disse, saindo do quarto. –O almoço está servido. Coma antes que esfrie.
Esperei ela sair e cai sobre a cama.
Bom, embora minha casa fosse humilde e tudo mais, felizmente eu tinha um quarto todo meu. Eu crescera com minha mãe Talita e minha irmã mais velha, Michele, na casa de minha avó materna. Minha avó já era aposentada e desde criança minha mãe a ajudava, trabalhando como diarista e comprando as coisas pra dentro de casa. Mas a dona Marta não aceitava ficar parada, ela sempre arranjava uma forma de ganhar dinheiro honestamente, em casa mesmo, para ajudar minha mãe com as contas, já que ela não podia contar sempre com sua aposentadoria. Minha irmã e eu tínhamos apenas que nos preocuparmos com os estudos, e minha avó cobrava bastante isso de nós. Estava presente em todas as reuniões de pais e mestres e sempre estava por dentro das novidades da escola. Em outras palavras, era impossível esconder uma nota vermelha de seu minucioso conhecimento.
−Não vou chamar mais uma vez. – ela resmungou da cozinha, parecia estar lavando algumas panelas, pois o contato de uma panela com as outras soava um tinido metálico.
Fui em direção a cozinha arrastando o corpo sobre os pés. Sentei-me a mesa e o prato surgiu em minha frente num piscar de olhos, parecera até que havia caído de um compartimento secreto no teto, que se acionara ao me assentar na cadeira. Verifiquei o teto e não encontrei o tal compartimento, conclui que fora minha avó mesmo.
−Onde está a Michele? — perguntei, tentando distrair ela do clima pesado.
−Almoçou e saiu com os amigos dela. — respondeu, seca. −Como você foi o ultimo a almoçar, quando terminar, lave seu prato. – ela retirou o pano de prato sobre seus ombros e colocou sobre um apoio na parede. –Vou dormir um pouco.
−Bom descanso. – a respondi, mas ela me ignorou e fora para seu quarto, fechando a porta. Claramente ainda estava irritada.
Almocei, e ao terminar, coloquei o prato na pia e fui deitar.
Meus pés ainda vibravam, podia sentir cada veia de meu corpo, como se o sangue estivesse perdido, sem saber para que direção seguir, com o coração bombeando com tanta velocidade.
Não demorou muito para que minhas pálpebras se despencassem como duas pesadíssimas placas de pedra. Meu corpo foi relaxando, e quando reparei, estava tendo um sonho.
Eu estava cercado por sombras que passavam por mim e me puxavam para todos os lados. Esquerda, direita, para cima, para baixo, chão, parede, chão. Era como se as sombras transformassem toda a raiva que elas carregavam em uma forma de me ferir. Os músculos de meu corpo começavam a ter espasmos e doíam. Eu sentia meu rosto escorrer, provavelmente era suor. As sombras agora me rodeavam e olhar para elas era como olhar para enormes muros de uma prisão sem grades. Eu tentava fugir em meio aquela multidão, mas elas me abafavam. Sentia meu peito sendo pressionado e a respiração sendo cada vez mais difícil de produzir. Meus pulmões ardiam e minha cabeça parecia uma granada que ameaçava se detonar a qualquer momento. De repente, quando eu achava que as sombras iriam me sucumbir até meu ultimo suspiro, um clarão tomou conta da sala escura e as sombras se dissiparam. Caí sobre meu joelho, exausto e ofegante. Agora já conseguia respirar normalmente. Aproveitei para secar o rosto suado com a mão. Meus dedos retornaram de minha face com um liquido vermelho e quente, foi aí que percebi que o que escorria de meu rosto não era suor, e sim sangue. Comecei a me desesperar e, agora com a sala iluminada, pude notar que todo o chão estava manchado com o meu sangue. Alguém estava caído ao chão, não tão distante dos meus pés. Sangrava bastante, mais até do que eu. Ao redor desta pessoa estava peças de uma moto destruídos, tentei me aproximar para ver quem era, mas um ruído irritante como a sirene de uma viatura de policia começou a se aproximar de meu ouvido, eu não conseguia ver de onde vinha, apenas conseguia ouvir, e isso me apavorava. Algo me atingiu com força pelas costas e cai ao chão, sendo arrastado e vendo o solo se quebrando. Senti um peso sendo retirado sobre mim, porém, também sentia minha essência, minha alma sendo ceifada. Meus olhos vidrados foram se fechando ao som de meus familiares e amigos chorando sobre mim. Em meio deles estava um garoto, triste. Olhar para ele me trazia a sensação de ter decepcionado alguém que eu me importava, mesmo não o conhecendo.
Despertei em um pulo. Estava todo molhado e, felizmente, não era sangue, tão pouco era urina. Era suor, desta vez.
Pra mim, era comum ter esses tipos de pesadelos, mas nunca eu havia tido um tão consistente e pesado como este. Levantei-me da cama e fui em direção ao banheiro. Lavei o rosto e curvei a cabeça sobre a pia, encarando o ralo.
Meu celular começou a vibrar no bolso da minha calça. Alcancei-o e atendi a ligação.
−Fala Zoiudo. – tentei falar baixo para que minha avó não ouvisse.
−Tô na porta da sua casa. Bora dar um rolê.— ele respondeu do outro lado da ligação.
−Tá doido, minha avó ta de cara fechada comigo até agora. Acho melhor ficar em casa mesmo.
−Cê deve ta de zoação com a minha cara. Pleno Sábado e você vai ficar enfurnado em casa por causa da sua veia? Deixa de ser otário. Cola aqui fora.
Distanciei o celular do ouvido e fui até a porta do quarto de minha avó para ver se ela ainda estava dormindo. Bom, ou ela estava dormindo, ou estava aquecendo a voz para adorar a Deus, pois ela roncava como um anjinho.
Coloquei o celular sobre o ouvido mais uma vez.
−Espera aí fora que eu vou só tomar um banho e já saio.
−Esse é meu garoto.— ele comemorou do outro lado.
Tomei um banho rápido e troquei de roupa mais rápido ainda. Minha mãe já deveria estar chegando e minha irmã já havia chegado e entrado no seu quarto enquanto eu tomava banho.
Tentei sair de fininho e quase consegui, se não fosse pela questão: Michele.
−Onde o senhor pensa que vai? – disse a topetuda. Ela tinha cabelos longos, pele morena e rosto delicado. Seus cabelos negros estavam caídos sobre os ombros. Usava sempre roupas bem comportada e um olhar tão profundo quanto da vovó.
−Vou sair com meus amigos, não posso?
−Claro que pode, eu não disse o contrário. – ela respondeu, calma. –Mas eu posso ao menos saber onde vocês estão indo?
Respirei fundo e, novamente, tentei dar uma resposta rápida sem ter que pensar muito.
−Vamos no monte.
−No monte, sério? – seus olhos brilharam e seu sorriso foi de uma orelha a outra. −Porque não me disse? Acabei de voltar de lá com o pessoal da igreja. Podíamos ter ido todo mundo junto.
−Não, é que eu vou com o pessoal da igreja dele, sabe. – engoli em seco. Zoiudo buzinava e fazia um sinal do lado de fora.
−Ah, tudo bem. É tudo Deus, certo? – ela tocou em meu ombro, parecia contente por ter ouvido de mim que eu estava saindo com pessoas que não fossem os amigos que me levassem para beber e fumar maconha. Senti um aperto no coração por mentir pra ela, mas aquilo era necessário.
−Pois é. – dei um sorriso amarelo e tentei me distanciar com cautela, com medo de disparar algum alarme e despertar minha avó. –Bom, eu tenho que ir porque eles estão me esperando pra subir.
−Tudo bem, maninho. Vai lá.
Saí o mais rápido possível e pulei sobre a moto.
−Sai voado, sai voado.
Partimos em direção a sabe-se lá aonde iríamos. Passamos próximo a minha mãe no caminho e torci para que ela não tivesse me visto, de qualquer forma, só pra garantir, virei meu rosto para o outro lado quando passei por ela.
Paramos em um bar e nos sentamos em uma mesa de frente a uma pequena televisão presa em um suporte na parede. Assistimos a uma partida de futebol enquanto bebíamos algumas cervejas. Depois de duas horas ali, Zoiudo recebeu uma ligação e ele saiu do bar para atender. Cerca de cinco minutos depois ele voltou, parecia um pouco alterado.
−Vou ter que passar em casa pra pegar algo. – falou pegando seu capacete do chão e saindo do bar.
Pesquei meu capacete e corri atrás dele.
A tarde ia embora aos poucos, e com ela, pessoas começavam a movimentar as ruas gradativamente, como morcegos aproveitando a ausência do sol para sair de suas respectivas cavernas. O morro em que Zoiudo morava já estava bastante movimentado, com crianças brincando de diversas brincadeiras diferentes, enquanto adultos e idosos se assentavam no meio-fio e conversavam.
A moto parou de frente a um beco sinuoso e Zoiudo saltou da moto e adentrou no beco, onde sua casa se encontrava. Não demorou muito e ele voltou, escondendo algo debaixo da camisa.
−O que é isso? – indaguei, confuso. Embora no fundo eu temia saber o que era.
−Uma arma. – ele levantou a camisa e mostrou um revolver preso em sua cintura.
−Pra que você pegou isso, cara? – puxei sua camisa para baixo, tampando a arma. –Ta maluco?
−Não, mas eu tenho que acertar umas contas com um chegado meu, e se eu não conseguir acertar essa conta, você vai ter que ajudar minha mãe a reconhecer o meu corpo no IML.
Meu cérebro sempre foi um tanto lento, então demorou alguns segundos antes que eu pudesse processar todas aquelas informações. Quando finalmente o fato ocorreu, senti um arrepio gélido na coluna.
−Você não ta pensando em... – engoli em seco novamente. Reparei que eu começara a suar bastante e minhas mãos tremiam, mal conseguia pronunciar uma palavra.
−É exatamente isso. – ele assentiu, retirando o revolver da cintura e puxando minha mão. –Fica com ela.
−Por-porquê eu tenho que levar ela? – minha mão tremia mais que avião em turbulência.
−Você é menor de idade ainda e não tem passagem pela policia. – ele respondeu, como se o que ele disse fizesse sentido pra mim. Mas da forma que ele disse, parecia que aquilo fazia sentido pra ele. –Monta na moto aí que vamos dar uma volta antes de parar algum babaca.
Naquele momento, em um flash, vi minha avó me alertando para não andar com certas amizades como Zoiudo, vi Michele, contente, achando que eu estava indo orar no monte com jovens de uma igreja e, finalmente, me vi diante de um caminho obscuro e sem volta que me levaria em um caminho perigoso. Mal sabia eu.
Algumas horas depois...
Zoiudo passou voando pelo sinal fechado e guinou na esquina mais próxima. Mais uma vez a policia estava nos perseguindo, porem, desta vez, éramos culpados. Eu me segurava na moto com a mão esquerda, e com a direita segurava firme o revolver que usara para assaltar os três garotos, minutos antes. Meu coração estava dançando ao som daquele samba novamente, mas a essa altura do campeonato, eu achava que essa seria a ultima oportunidade que eu teria de sentir meu coração batendo.
Guinamos mais uma vez por outra esquina e entramos em uma rua desértica, se não fosse pelo farol da moto e a luz da sirene da viatura, a rua estaria completamente escura.
A viatura se aproximava e eu já não aguentava aquilo mais. Preferia me entregar e ter que passar a humilhação de ser levado a delegacia do que continuar naquela perseguição infame.
−Para essa moto, cara. Para logo. – tentei gritar para ele, mas minha voz competia com o vento.
−Não vou parar na cadeia de novo, meu camarada. — ele respondeu, o tom de sua voz me assustara, parecia que ele pretendia fazer algo que evitaria totalmente que ele fosse pego. −Faz o que eu te mandei.
−O que? — gritei pra ele. Ele olhou pra mim pelo retrovisor, e sorriu. −Desacelera, mano, por favor.
Ele pareceu ter entendido errado a mensagem e acelerou ainda mais a moto, e então, eu apenas senti meu corpo atingindo o chão e sendo arrastado por alguns segundos até cair próximo do meio-fio. Ouvi a viatura freando e imediatamente um policial estava me abordando. Fui erguido e algo gelado enrolou-se entorno de meus pulsos e soltou um tinido metálico ao trancar-se.
−Calma, calma. – tentei falar, mas fui rapidamente jogado para dentro da viatura.
De dentro da viatura vi o outro policial indo ate Zoiudo. A moto estava toda destruída, caída ao lado de um muro de placas com um enorme buraco. O policial abaixou-se e ai que pude perceber o que tinha acontecido.
−Esse aqui já era. – respondeu o policial, verificando o corpo de Zoiudo caído ao chão.
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