Salve-me

13 O embate


Notas iniciais
Recapitulando: Remi escapou do black site. Está ferida e furiosa. Kurt e Emma a colocaram para dormir contra sua vontade. Mas chegou a hora da fera despertar. Boa leitura.

Kurt só precisou que seus olhos repousassem por alguns segundos na realidade de sua cama para sentir seu coração despedaçar. Mesmo que tenha se dirigido rapidamente para o banheiro procurando manter-se racional, foi inútil.

A Remi adormecida parecia muito mais frágil e indefesa do que a jovem mulher que trouxera para casa poucas horas atrás. Inferno, saber que ela esteve por quatro meses num black site já era o bastante para abalá-lo. Perceber a extensão dos danos causados a ela era ainda pior. De certa forma lhe faltava coragem para encarar a realidade. Como lidar com essa situação? Como convencê-la a ficar? E por que ela deixou o plano que traçaram juntos de lado para ir até Oscar?

Embaixo do chuveiro, Kurt amaldiçoou o falecido. Sim, ele odiava o Oscar com todo o seu ser. O infeliz fez Remi criar laços enquanto dormiam juntos. Seu estômago revirou ao imaginar aquele homem a tocando e a afastando de seus braços. Merda! Mesmo morto Oscar continuava separando os dois. Para tentar salvar a vida dele, Remi foi capturada, torturada por meses e agora Kurt sequer podia abraçá-la. Os danos foram tão extensos e profundos que ela se negava aceitar seus cuidados.

Desligou o chuveiro e vestiu uma calça de moletom e camiseta. Ainda sem coragem te retornar ao quarto, recostou-se na bancada da pia. Respirou fundo algumas vezes ciente de que precisava controlar suas emoções.

“Eu sei que é difícil, mas você precisa aceitar a realidade, Kurt. – Nas tinha um tom imperativo e doce chamando-o para suas responsabilidades enquanto deslizava a mão sobre seu peito nu na cama. — Fez tudo o que podia por ela, fez mais do que qualquer um teria feito. Foi escolha dela afastar-se de você e de sua filha. Continuar nessa jornada insana de busca só está fazendo mal para você e pra menina. Foque no que realmente importa: sua filha e sua profissão.”

Durante todos esses meses, ele acreditou que Nas era sua nova ancora. Ela parecia compreendê-lo como Remi jamais fizera. Agora se sentia um miserável por ter acreditado nela. Não passou de um pião em suas mãos. Foi seduzido, enganado, afastado daquele que deveria ser seu principal objetivo: reencontrar Remi.

Algo dentro dele dizia que deveria odiar Nas com a mesma intensidade de seu ódio por Oscar. Mas por algum motivo que ele desconhecia, isso não aconteceu. Desprezo e decepção foram os sentimentos que substituíram a admiração que ele sentia por Nas. Por quê?

Porque, de certa forma, ele deixou que isso acontecesse. Odiava a si mesmo por ter se deixado enganar. E, se Remi queria deixa-lo sem saber que enquanto era torturada ele compartilhava a cama com sua algoz, desapareceria de forma definitiva quando descobrisse.

Perder Remi era inevitável, ele a sentia escapando entre seus dedos a cada segundo desde que a reencontrou. Mas, por tudo o que havia de mais sagrado, ele precisava retardar esse momento. Por ela, para que se recuperasse o suficiente para ter alguma chance sozinha lá fora. Ou talvez assim ela pudesse compreender que tinha o direito de viver bons momentos com Roman e Avery. Como ele faria isso era grande questão que o atormentava.

Respirou fundo e voltou para o quarto. Montaria guarda ali a noite toda. Estaria presente para qualquer necessidade que ela tivesse. Impediria a qualquer custo que ela deixasse a casa antes do amanhecer, antes que estivesse minimamente descansada, decentemente vestida e alimentada.

Posicionou a poltrona ao lado da cama e acomodou-se em prontidão. Olhar para ela era tudo o que ele podia fazer no momento.

Sua relação com Deus nunca foi das melhores, não era um homem religioso desses que frequenta igrejas e faz orações diariamente. Muitas vezes ele simplesmente optou por não se preocupar com essas questões. Outras vezes, suplicou em desespero e, quando atendido, não foi exatamente um milagre como a volta de sua filha sã e salva. E agora era um desses momentos raros em que tudo o que ele podia fazer era suplicar para que alguma força divina a impedisse de partir ao acordar.

As horas foram passando e o sono se tornando o seu novo inimigo. Talvez ele tenha cochilado uma vez ou outra. Com certeza não estava alerta quando ouviu seu nome, baixo, trêmulo, num fiapo de voz suplicante dela.

Abriu os olhos precisando verificar se não era apenas uma armadilha de Orfeu. Remi continuava adormecida na cama, mas a serenidade deixou a seu rosto. Sua respiração estava ofegante, as linhas de expressão tensas. Vez ou outra, seu corpo se agitava movendo os lençóis. Parecia lutar contra um inimigo invisível.

— Kurt... — Chamou de novo, ainda mais baixo dessa vez, num gemido dolorido que usou escapar de sua garganta.

— Aqui! Estou bem aqui com você. – ele garantiu num sussurro doce e protetor enquanto envolvia calorosamente a mão dela e se ajoelhava ao lado da cama.

Mesmo adormecida ela pareceu ouvir e entender, parou de se mover e sua respiração, aos poucos, foi voltando ao normal. Quando seu sono voltou a ser calmaria, ele pensou em se afastar, retomando sua poltrona em guarda. Cada uma de suas três tentativas, porém, falharam. Ao retirar sua mão, a dela se movia pedindo seu retorno. Ou talvez fosse apenas ele procurando um motivo qualquer para ficar. De qualquer forma, foi o que bastou para que Kurt ocupasse o lugar ao lado dela naquela cama.

*** *** ***

Era o mais perfeito sonho que ela tivera nos últimos anos ou talvez em sua vida toda. O cheiro de Kurt estava por todos os lados, o calor da presença dele a envolvia mesmo sem sentir seu abraço. Estava aquecida e confortável sem dor alguma, sem que a ansiedade, a incerteza ou a sobrevivência fizessem qualquer cobrança. Ela só queria continuar dormindo e sonhando por muito tempo.

Por que inferno seus olhos insistiam em querer se abrir para verificar a realidade? Aquele sonho ou ilusão não era o melhor do que a consciência? Não! Ela não se cederia, continuaria ali pelo máximo de tempo que pudesse. Permitiu-se navegar um pouco mais na linha tênue que separava o sono e vigília. Sentiu os dedos dele entrelaçados aos seus, a respiração com passada de Kurt próxima demais do seu pescoço.

Mas sua consciência sempre foi seu maior algoz seja cobrando que cuidasse de Roman ou que se afastasse de Kurt e Avery. E, de repente, ela estava de novo sozinha sentindo frio da ausência dele ao seu lado.

Não precisou abrir os olhos para que as lembranças se abatessem sobre ela. A cama e os lençóis macios cheirando a Kurt diziam muito. Sua nudez também. Sim, ela concordou em passar a noite ali, mas foi clara sobre não aceitar qualquer forma de sedação.

Merda! É óbvio que ele desrespeitou sua vontade. Precisava sair dali o quanto antes.

Forçou os pés para fora da cama e sentou-se, agarrando-se a beirada do colchão para manter o equilíbrio quando se sentiu desorientada. Respirou fundo e concentrou-se, precisava ficar em pé. Apoiando se na cabeceira, levantou-se. Mais algumas respirações e estava pronta para caminhar. Foi até a cômoda próxima e puxou a gaveta.

O som da descarga vindo do banheiro a fez amaldiçoar sua lentidão. E mal deu tempo te pegar uma camiseta, Kurt abriu a porta e a flagrando ali.

— Onde estão as minhas roupas? – confrontou sem encará-lo.

— Estão sendo lavadas. E também estavam grandes demais em você. Emma trouxe algumas que são mais próximas do seu tamanho.

Quando Kurt terminou de falar, a voz dele estava próxima demais e antes mesmo que ela se virasse, sentiu o lençol envolvendo seu corpo nu.

Ela puxou o tecido com força. Não podia se deixar envolver pelo lado protetor dele, isso sempre a vencia, quebrava suas barreiras fazendo com que cedesse.

As lesões na clavícula e costelas cobraram seu preço a fazendo parar e puxar o ar.

— Você precisa ir com cuidado. – existia uma certa exigência na voz dele enquanto assumia o controle do lençol.

Essa foi a gota d’água para Remi.

— Não sou uma criança, Weller! Posso me vestir sozinha – cuspiu as palavras retirando o lençol das mãos dele. – Se puder me dizer onde estão as roupas. Ou acha que mantendo nua vai me forçar a voltar para sua cama? Você já foi melhor nisso sabia? Costumava me convencer a tirá-las e a dormir com você sem que me dopasse para isso.

— Não tínhamos outra escolha, você sabe disso. Estava irredutível e precisava descansar.

— Ainda estou irredutível. Onde estão as roupas que Emma trouxe? Quero distância de você. Vir até aqui foi um erro e o que aconteceu ontem à noite só prova isso. – os olhos dela o fuzilaram.

Ele torceu o pescoço irritado. Ela sabia que o atingiu. Sem tirar os olhos dela, continuou:

— As roupas estão no banheiro. Posso preparar o banho para você.

— Qual foi a parte do “quero distância” que você não entendeu, Weller?

Dando-se por vencido, ele recuou e deu passagem a ela. Remi tentou juntar o imenso lençol ao redor do seu corpo para ser capaz de caminhar, mas os movimentos irradiavam uma dor que ela não conseguia disfarçar.

Observar aquilo sem fazer nada era impossível para Kurt. Ele era um homem de ação e não te palavras, era incapaz te convencê-la através do diálogo e Remi sabia disso. Foi mais forte que ele, mais forte do que todas as promessas que fez a si mesmo de respeitar o espaço dela.

Remi não viu isso chegando, talvez estivesse concentrada demais em não transparecer a dor apesar de estar falhando miseravelmente. Quando se deu conta, estava nos braços de Kurt sendo levada para o banheiro.

Ela odiava a forma como ele assegurava, parecia uma carga frágil, indefesa e valiosa. O calor do corpo dele a fazia se sentir protegida, baixando suas defesas. E o que dizer da forma como ele a colocou sentada na bancada? Estupidamente cuidadoso! Isso a deixava confusa, quase ao ponto que pedir para que ele continuasse ali, sua presença garantindo todo o conforto que ela precisava, tal adolescente tola que ela foi um dia se perdendo nos braços dele.

— O que pensa que está fazendo? – questionou quando ele se abaixou e começou a encher a banheira.

— Estou preparando o seu banho.

Ela deixou a cabeça cair para trás inconformada. Puxou o ar e voltou a confrontá-lo.

— Então essa é sua estratégia: me forçar a fazer suas vontades?

— É só um banho, Remi. Depois disso você se alimenta e poderá ir para onde quiser.

Ela não disse mais nada. Estava irritada demais para dizer qualquer coisa. O que mais odiava em toda essa situação era saber que ele estava certo: ela precisava mesmo de um banho e precisava se alimentar se quisesse ter qualquer chance lá fora. Decidiu usar a inércia como principal forma de confronto, sabia que sua apatia o atingiria.

Kurt preparou a água do banho enquanto analisava o silêncio de Remi. Ela simplesmente ficou parada, não fez qualquer menção te descer da bancada ou de se livrar do lençol. Inferno! Ela tinha que tornar tudo mais difícil para ele!

Pensou em rosnar um pedido de “com licença” quando se aproximou, mas as palavras não encontraram o caminho. Estava irritado e constrangido, sentindo se culpado quando tudo o que queria era o bem dela. Droga, Remi!

Com cuidado, soltou o lençol que a envolvia e percorreu com os olhos cada detalhe do corpo nu dela fazendo um verdadeiro inventário de suas lesões visíveis. Todo o seu foco estava na difícil missão que tinha pela frente. Precisava transportá-la até a banheira, depositá-la na água em segurança e com a menor dor possível. Para isso era preciso saber onde e como tocá-la, calculando a força de cada movimento.

Ao mesmo tempo, o agente especial do FBI estava em ação, memorizando cada lesão num detalhado exame de corpo de delito que ela não permitiu que agentes especializados fizessem. Mas ele precisava fazer, precisava saber para alimentar todo o desprezo que Nas merecia pelo resto de sua vida.

Remi ficou estranhamente em silêncio, sua postura desafiadora quase se transformando em algo que ele não era capaz de precisar. Isso acendeu seus instintos de alerta e acelerou sua decisão. Tomando-a nos braços, cuidadosamente a colocou na banheira, tentando terminar tudo o mais rápido possível.

Quando terminou, notou sua respiração ofegante e seu corpo trêmulo.

— A água está muito quente? – questionou preocupado

A negativa dela saiu num fiapo de voz enquanto virava o rosto para que ele não visse as lágrimas em seus olhos.

Kurt rapidamente puxou uma toalha e a dobrou como um travesseiro que colocou na borda da banheira para que ela se acomodasse. Ele considerou se afastar depois disso, mas foi incapaz de se mover.

Remi fechou os olhos e deixou que é a sensação da água abraçando seu corpo dolorido a levasse. Estava mergulhada em emoções fortes demais, precisava se concentrar para não perder o controle. Odiou constatar que ele estava certo: ela precisava daquele banho, as feridas em seu corpo e sua alma precisavam ser lavadas. A água parecia estar arrancando de sua pele o cheiro do black site, afastando a de vez do cativeiro. Aos poucos, sua respiração encontrou de novo o ritmo certo.

— Melhor?

A voz de Kurt estava tão doce e preocupada, tornava impossível não ter noção do quanto ele se importava. Por Deus, como se a presença dele ali ao seu lado enquanto ela se acalmava já não fosse o bastante.

Ela assentiu. Vencida, permitiu que o silêncio entre eles se tornasse mais leve e segurou a mão dele para que Kurt tivesse a certeza de que sua presença era bem-vinda.

Pouco tempo depois, barulhos vindos do outro lado da casa acenderam todos os seus sentidos. A risada infantil tão distante precisava ser captada e guardada em sua memória. Os olhos de Remi se arregalaram entusiasmados.

— Avery... — Balbuciou entre a dúvida e a constatação.

— Sim. Ela acorda cedo. Gosta de brincar no quintal com... – os latidos o interromperam e foram seguidos de novas risadas da filha. – Com o cachorro, antes de ir para a escola. Thor é um golden muito carinhoso e desastrado.

Estendendo a mão, alcançou seu celular e iniciou uma grande apresentação de fotos de Avery e do cão. Os olhos de Remi brilhavam a cada imagem.

— Está crescendo feliz. Você é um ótimo pai, Kurt.

— Ela pergunta muito sobre você.

Kurt percebeu algo murchando dentro dela.

— Avery é uma garota muito esperta, Remi. Já percebeu que não contamos toda a verdade sobre você. Desde que voltamos, o assunto preferido dela é a “moça que a resgatou”. Ela quer ver filmes e animações de super-heróis sempre procurando algum que se assemelhe com você. Te acha corajosa, forte, inteligente. Quer ser como você quando crescer. Quer te reencontrar. Acho que no fundo ela sabe que a moça que a resgatou é você: a mãe dela. Só está nos testando, procurando pistas ou algum outro tipo de confirmação.

— Eu poderia decepcioná-la de tantas formas...

— Não pense assim.

— Tenho uma péssima referência sobre o que é ser mãe, lembra-se?

— Você não é como ela. Sabe que não.

— Os psicólogos e psiquiatras avaliaram Roman, mas não me avaliaram, Kurt. Talvez meu irmão não tenha se estragado porque não conheceu Orion. E, se mesmo depois disso sobrou alguma coisa boa em mim, os últimos meses...

— Tudo é muito recente, Remi. É preciso tempo para processar todas essas coisas e superá-las. Não deixe que Shepherd continue te afastando das pessoas que realmente te amam.

Ela baixou os olhos, culpada e derrotada.

— Ela está morta, Kurt. Morreu durante a nossa fuga. Quando consegui me soltar, eu a libertei, mesmo sabendo que ela cometeu vários crimes, que se tivesse conseguido concretizar os seus planos, milhares de vidas seriam ceifadas. Ainda assim, eu não pude deixá-la para trás nem mesmo depois de tudo que ela fez com você e com Avery. Não sou a heroína que você e nossa filha querem enxergar, Kurt. Se alguma gota de heroísmo correr sem minhas veias, eu teria aceitado apodrecer naquele black site para pagar pelos meus crimes em Órion.

— Eu sinto muito, Remi. Sinto que tenha visto ela sendo torturada e morta. Ninguém deveria passar por isso. Eu odeio tudo que ela fez com Avery e com você. Odeio que ela tenha nos afastado. Não aceito de forma alguma o que ele estava tentando fazer. Mas entendo você tentar tirá-la de lá. Mesmo com todo ódio que carrego, eu teria feito o mesmo. A tortura é algo desumano, não é normal aceitar esse crime. Eu suspeitaria mais tinha uma pessoa capaz de cometê-la ou de alguém que acompanha uma sessão de tortura do que de uma filha que tenta libertar sua mãe dela. Por mais que Shepherd tenha te decepcionado, por mais que tenha agido de forma fria e calculista com relação a você, ela ainda é a pessoa que te tirou daquele orfanato. Eu me preocuparia se isso não tivesse qualquer significado para você ou para Roman. O amor que vocês dois sentem por ela é a maior prova do quanto são diferentes do que ela dizia e do que ela foi.

— Vai tentar me inocentar por Orion também?

— Você é exigente demais consigo mesma. Shepherd te preparou para isso desde que te tirou daquele orfanato. Ela e todos nas forças armadas te fizeram acreditar que Órion era uma espécie de missão salvadora da humanidade quando não passavam de assassinos. Soldados em guerra dificilmente carregam o peso das mortes que causaram. Se o que fez te incomoda, isso prova o quanto você é sensível a dor do outro e não o contrário.

Ela fechou os olhos e se encolheu como quem tenta se proteger de algo que pode machucar. Kurt se aproximou mais da borda da banheira e sentou-se no chão, seu rosto quase tocando o rosto dela, sua respiração próximo ao bastante para que ela sentisse, sua presença a envolvendo como seus braços não podiam fazer.

— Você não entende, Kurt. – disse chorosa — Se eu não fosse monstro, o que eu sinto por você e Avery seria diferente.

— O que é que você sente?

— É a melhor coisa que eu já senti, mas saber que um de vocês está em risco é a pior dor que já experimentei. Quando eu me aproximo, não quero mais me afastar mesmo sabendo que devo fazer isso, que é o melhor para vocês.

— Se o que você sente é algo errado, também estou condenado pois sinto a mesma coisa. Talvez meus sentimentos sejam ainda piores que os seus. Ontem à noite, senti vontade te trazer Oscar de volta do mundo dos mortos só para matá-lo novamente. Doía em mim saber que você rompeu com o que combinamos para tentar salvá-lo. Culpei ele por tudo o que você passou, por que tudo o que aconteceu ainda está te afastando de mim. Por outro lado, você, a Remi que eu conheço não deixaria ninguém para trás, nem Oscar, nem Shepherd, nem qualquer outra pessoa. Isso é uma das coisas que eu mais admiro em você.

Remi abriu os olhos e o encarou com um sorriso triste.

— Isso foi pesado. Não minta sobre você mesmo só para fazer eu me sentir melhor.

— O quê? Estou sendo sincero, Remi. Está decepcionada demais comigo?

— Você não precisa ser perfeito...

— Nem você.

— Talvez eu ainda volte. Se você estiver certo, vou me recuperar e voltar. Sei que já rompi muitas promessas que fiz, mas serei fiel a essa.

— Eu posso te dar todo o espaço e tempo que você precisar, Remi. Mas também tenho minhas necessidades. E, no momento, preciso que você só deixe essa casa depois que estiver mais recuperada.

— Você não conseguiria me manter guardada em segredo neste quarto, Kurt. E eu não posso aceitar que é Avery me veja assim.

Kut não respondeu, torceu o pescoço insatisfeito e se levantou. Aguardou que ela terminasse o banho, ajudou que se secasse e vestisse as roupas de Emma. Também insistiu para que ela aceitasse a tipoia que providenciaram e conseguiu. Depois a tomou nos braços e levou de volta a cama. Remi tentou protestar, mas ele foi enfático:

— Café da manhã primeiro, você só sairá dessa cama depois disso.

Ele ainda ajeitava os travesseiros nas suas costas quando a porta do quarto se abriu e Roman entrou eufórico segurando a bandeja repleta de guloseimas.

— Bom dia, Sis! – os olhos dele brilhavam como de um menino que acaba de ganhar uma bicicleta. – É muito bom ter você de volta.

Remi tentou sorrir, mas as emoções se agitavam em seu peito. Rever o irmão era bom demais. O sentimento de ter sido capturada numa armadilha hábilmente preparada por Kurt também era forte.

As circunstâncias eram desfavoráveis, é inútil tentar resistir agora. O melhor que ela podia fazer era se alimentar. Sabia que aqueles dois não cederiam qualquer outra alternativa. Precisava comer devagar, seu estômago estava sensível e pouco acostumado há uma refeição farta e diversificada. Ela odiou constatar que isso era tudo que os dois queriam: que ela ficasse mais tempo. A cada minuto que se passava, a cada diálogo que fluía, ela sentia que partir seria mais difícil.

Roman estava realmente muito bem. Ela não se lembrava de ter visto o irmão tão leve feliz. Seus olhos brilhavam, existia tanta alegria nos seus relatos e tanta esperança no futuro. Isso aqueceu seu coração. Mesmo que ainda se sentisse uma prisioneira de Kurt, a gratidão por tudo que ele fez ao seu irmão amenizou sua raiva.

De repente ela se deu conta de que poderia facilmente desistir de partir se continuasse mais tempo ali, rodeada pelo carinho e pelo cuidado daqueles dois. Avaliou o que já tinha sido consumido da refeição à sua frente. Talvez eles considerassem pouco, mas estava próxima demais do limite que seu estômago suportaria. Comeu proteína, cereais e frutas. Provavelmente Kurt ficaria satisfeito. Era hora de dar um basta e sair.

Foi então que ouviram as batidas suaves na porta e a voz de Emma:

— Posso entrar?

Remi poderia ter odiado isso, mas a verdade é que ficou feliz por ter a oportunidade te agradecer a mulher que tanto ajudou.

— Entre. – Kurt autorizou com um tom suspeito.

A porta se abriu e tudo o que Remi viu foi a garotinha loira usando uma jardineira jeans e segurando um ramalhete de flores nas mãos.

Notas finais
O que acharam? Imaginaram que seria assim? Essa mistura de Remi e Jane está adequada? Vou amar saber as impressões de vocês. Deixe um comentário! Muito obrigada pela leitura.