Salve-me
14 O lar
Felicidade. Muitos acreditam que ela não passa de ilusão. Outros defendem sua existência real, seja ela fugaz ou duradoura. Remi nunca refletiu sobre isso. Ao longo de sua vida, considerar a possibilidade de haver felicidade à sua espera sempre pareceu uma forma enganosa de lidar com seus problemas. Concentrava-se em fazer o que devia e cumprir as ordens recebidas. Seu foco estava nisso. Kurt era seu ponto fora da curva, um convite a formas de deleite da vida que ela desconhecia. Ao lado dele, suas emoções, antes tão ponderadas e sensatas, fervilhavam em novas cores e sabores. Era tentador se entregar, deixar-se mergulhar no aconchego que ele criava.
Era incrível como as muralhas de gelo dentro dela se derretiam no calor daquele quarto. Mesmo com todas as suas certezas estilhaçadas e com o coração pulsando tão rápido e forte, ela sentia uma paz que provou poucas vezes. Sua razão silenciava, negando-lhe o alerta do quão perigoso era se entregar, afinal ela caiu numa armadilha preparada na calada da noite. Devia estar se rebelando, deixando a fúria em seu olhar atingir Kurt e Roman. Ela tinha sido clara: partir era o melhor que podia fazer nesse momento. Mas eles conspiraram contra suas razões. Agora era tarde demais. Rever a filha foi o golpe fatal.
Os cabelos dourados, as bochechas rosadas, os olhos azuis a fitando, a testa com a mesma linha de tensão do pai. Remi tentou sorrir e dizer olá, mas nenhuma palavra encontrou o caminho certo, perdendo-se em tantos sentimentos bons.
— Olá, seja bem-vinda. – A voz da menina soou receptiva.
Antes que Remi pudesse responder, Avery estava muito próxima, em pé ao lado da cama.
— Essas flores são para você.
— São lindas! – O tom afável da resposta surpreendeu até ela mesma. – Muito obrigada.
Com delicadeza, Remi estendeu o braço e projetou o corpo para o lado recebendo as flores que a pequena soltou sem cuidado algum. Impetuosa, Avery aproveitou-se da aproximação para alcançar os cabelos da misteriosa mulher, afastou-os para trás com a clara intenção de ver melhor o hematoma em seu rosto.
— É, você realmente se feriu bastante nesse acidente. Veio ao lugar certo! Somos bons em cuidar de pessoas. Cuidamos uns dos outros. E nada de motos depois disso, entendeu? Uma bicicleta já basta.
Remi sentiu-se grata por sua filha ser tão falante, as informações saltaram sobre ela antes que a razão lhe dissesse que deixar uma criança perceber seus ferimentos era um erro.
—Tio Roman, você pode trazer um vaso para as flores?
— Claro que posso.
— Obrigada. E você – disse virando-se novamente para Remi – precisa de roupas mais confortáveis. Um pijama bem quentinho e gostoso.
— Tem alguns pijamas ali sobre a cadeira. – Emma disse se aproximando. – Bem-vinda, Remi. Posso ajudá-la a se trocar.
Avery imediatamente estendeu-lhe a mão. A garotinha tinha senso de liderança, Remi teve que admitir que a genética favorável em parte era culpa sua. Assentiu com a cabeça e obedeceu. Mas havia algo totalmente novo na velha obediência que a acompanhou a vida toda. Uma nova forma de satisfação e paz.
Conduzida de volta ao banheiro, assim que a porta se fechou atrás dela, Remi pareceu voltar ao normal.
— Emma, me desculpe por tudo isso. Essa invasão...
—Shishishi! Nada disso. Sem desculpas. Estamos felizes que você esteja aqui, que tenha vindo até nós. Avery tem razão: somos bons em cuidar uns dos outros. Roman pode te confirmar isso. E você, Remi, é parte dessa família. Então, apenas deixe-nos fazer nosso trabalho.
Emma mostrou delicadeza e profissionalismo enquanto ajudava Remi a trocar de roupas. Falou de amenidades, contou sobre as traquinagens de Avery. Quando retornaram, as flores já estavam no vaso sobre a mesa de cabeceira.
Kurt e Roman pareciam dois tolos superprotetores a acompanhando de volta à cama, distante a menos de um passo e prontos para agir caso ela vacilasse. Um calor desconhecido e bom inundou sua alma.
— Finalmente! Eu posso ficar com você na cama, se quiser. Eu fico aqui com meu pai, às vezes. Podemos assistir um filme – a menina disse empolgada.
— Eu adoraria.
Avery saltou para a cama, assustando todos que repetiram a ladainha sobre ser mais delicada. Remi acompanhou atenta, mostrou-se séria enquanto ouvia, mas ria por dentro. A menina tinha muito dela.
Enquanto Kurt ligava a TV e listava os filmes disponíveis nos streamings, Emma saiu e voltou com um copo d’água.
— Hora dos remédios, Sis. – Roman disse já destacando os comprimidos das cartelas.
— Isso é muito importante. Assim você vai se recuperar muito mais rápido. – Avery foi imponente.
— Eu devia ter filmado isso para usar num momento oportuno. Como nas dores de garganta. – Kurt alfinetou a filha rindo.
— Papai! – ela sussurrou de volta aborrecida. Revirou os olhos para Remi — Homens! – Após bufar, sorriu tomando a mão dela — É só ter um pouquinho de coragem.O comprimido nem é tão grande. Engula de uma vez.
Remi não conseguiu conter o riso. Mas voltou a se concentrar e engoliu o remédio. Mal terminou de fazê-lo e outro salto sobre a cama acompanhado de uma gritaria no quarto a deixaram alarmada. Um imenso cão caramelo lambia Avery e depois foi pra cima dela a cheirando por inteiro. Os gritos de nada adiantaram.
— Remi, esse é Thor, nosso Golden. – Kurt fez a apresentação enquanto tentava pegar o cão para tirá-lo da cama.
— Ah, deixa ele ficar, papai.
— Sim, deixe ele ficar, Kurt. – Remi se juntou ao apelo da filha com olhar de súplica.
Kurt sorriu tímido, encabulado por não conseguir esconder sua felicidade com os últimos acontecimentos.
Aos poucos, os adultos saíram do quarto e deixaram as duas sozinhas. Não demorou muito e Avery se juntou a eles na sala. Sentou-se ao lado do pai que a enlaçou.
— Ela dormiu... – disse desanimada.
— Melhor assim. Ela precisa descansar, filha.
— Ela não fala muito.
— Vocês terão longas conversas em breve. Tenha paciência, ela está se recuperando.
A menina suspirou
— Vou colocar o filme de novo outro dia quando ela estiver melhor.
— É uma boa ideia. Que filme estavam assistindo?
— Encantada.
— Esse é um dos seus favoritos.
— Sim! Esse filme é muito importante, papai. Quando ela estiver melhor, vai gostar e vamos conversar muito sobre ele.
— Tenho certeza que sim.
Após o almoço, todos estavam se ajustando a nova rotina. Avery e Remi no quarto. Roman e Emma na cozinha. Então, uma visita surpreendeu Kurt. Sem fingir casualidade, seus olhos a fuzilaram enquanto indicava para se afastarem da porta. Nas, ao contrário, o fitava da forma mais inocente possível. Isso o irritou mais ainda.
— Fale! – exigiu cruzando os braços sobre o peito a espera.
— Senti sua falta. Queria conversar...
— Após o almoço e com o risco de contrair conjuntivite? – Ele sabia que veio atrás de informações sobre Remi.
— Eu cruzei os dedos apostando que, na realidade, só sua filha estaria doente.
— Você não arriscaria tão alto. Só joga com certezas.
— E acertei em vir, não foi? Sua receptividade indica isso.
Com certeza, tudo indicava que Kurt já sabia que Nas rompera o acordo que fizeram, prendendo e torturando Remi.
— Olhar para você e ouvir sua voz me causa asco. Então, vamos acabar logo com isso.
— Kurt, você precisa entender que ela é perigosa...
— Cale a boca, Nas! Quem precisa entender muita coisa aqui é você! Se eu levar isso a Suprema Corte...
— Ah, Kurt, por favor, você não acredita mesmo eles deixariam chegar isso?
— Eu sei que não. Mas também sei que sua carreira estaria arruinada. Sua preciosa carreira na ASN. Nesse exato momento, existem pessoas e instituições pelo mundo todo em posse de arquivos que provam sua falta de ética no acordos que faz. Todas estão prontas para entregá-los a imprensa e abrir o processo caso alguma coisa aconteça com qualquer pessoa da minha família. Então, eu sugiro que você entre nesse carro e desapareça de nossas vidas para sempre.
Ela fez menção que diria algo em sua defesa, mas se calou, entrou no carro e partiu.
A confiança é uma trama densa e complicada, tecida de forma rápida demais quando há interesses em comum. Ninguém é perfeito. Pessoas erram. O perdão existe para manter viva a chama da esperança. Ele poderia perdoar Remi mil vezes. Mas jamais perdoaria Nas porque não havia um erro a ser perdoado. A essência dela estava mergulhada num poço profundo e muito distante de qualquer ética.
Por toda a tarde, a família se redescobriu e interagiram respeitando os momentos de descanso de Remi. À noite, quando Avery se deu por vencida e aceitou se retirar para seu quarto, finalmente o casal pode ficar a sós.
Kurt se apressou em preparar o banho e gentilmente se ofereceu para ajudá-la. Acreditou que seria mais fácil dessa vez. Ledo engano. Remi insistiu vigorosamente que poderia fazer tudo sozinha.
— Vou chamar Emma. Avery já deve ter adormecido. – Balbuciou cabisbaixo acreditando que sua presença era o problema e deixando claro que não permitiria que ela fizesse isso sem ajuda.
Queria compreender por que ela o repelia dessa forma. Será que voltou só por Avery e Roman? Será que o amor entre eles era um sonho impossível?
— Kurt! – ela o chamou quando ele já estava próximo a porta.
— Sim.
— Eu posso concordar com isso se...
Os olhos dele estavam sobre ela ávidos de esperança.
— Se?
Ela puxou o ar, buscando uma desculpa válida. Mas como sempre, não era muito racional na presença dele, seus sentimentos sempre falavam mais alto.
— Se você não ficar olhando pra mim.
Rapidamente ele assentiu e, sem dizer uma só palavra, a conduziu até o banheiro.
Assim que começou a despi-la, tudo se tornou complicado demais para Remi. Apesar dele estar se esforçando em não deixar seus olhos muito tempo sobre o corpo dela, os olhos dela estavam atentos aos dele, aos seus toques, ao seu cuidado. As emoções entraram em ebulição rápido demais para que ela pudesse controlá-las de forma eficaz.
— Chega!
Remi tentou não gritar, mas a aspereza das palavras saia em sobressaltos enquanto sua respiração se tornou ofegante demais. Tomado de surpresa, Kurt apertou os olhos a encarando.
— Eu não posso! Não posso... – ela disse visivelmente transtornada.
Kurt não entendia o que estava acontecendo. Sabia que devia ser algum tipo de sequela ou transtorno pós-traumático causado pela tortura. Queria era ajudá-la. Precisava ajudá-la mais que tudo. Tomando sua mão, a colocou sobre seu peito.
— Está tudo bem, Remi. Você não está sozinha.
Mesmo sufocada por tantas dores, sentir o coração dele trouxe muitas lembranças boas de volta. E tudo que ela queria era poder voltar no tempo, estar de novo deitada no peito dele após o amor.
— Fale comigo, por favor – ele pediu.
— Eu estou tentando, Kurt. Eu juro que estou tentando sair daquela merda de lugar.
— Você saiu, Remi. Acabou.
— Quando você me olha, sei que sabe como cada ferimento foi causado. Eu sei que estava no seu maldito treinamento! E isso me arrasta para lá de novo, pra tudo que aconteceu. Isso me aprisiona naquele inferno. E eu me sinto um vidro trincado que vai se estilhaçar em mil pedaços a qualquer momento...
— Estava no seu maldito treinamento muito mais que no meu, Remi. O que aconteceu foi horrível. Mas não foi capaz de destruir a mulher maravilhosa que você é. Hoje, com Avery, é a prova disso. Você não é um objeto que pode ser quebrado. É muito mais que isso. É o ser humano mais incrível que já conheci. Nosso maldito treinamento é realmente uma merda, nos torna racionais quando deveríamos só nos jogar no que sentimos um pelo outro deixando todo o resto de lado. Devíamos ter fugido pra bem longe há muito tempo, não é? Devíamos ter deixado tudo em Quântico.
— Eu não podia deixar Roman...
— Eu não deixaria Sarah e Emma.
— Maldito treinamento!
— Maldito treinamento. Eu queria não te olhar como prometi, mas eu preciso. Não posso te causar nenhuma dor. Não posso aumentar suas lesões. Seria bem fácil de resolver se pudesse manter distância, mas a vontade de te abraçar só aumenta. E isso me faz te olhar, vasculhar cada detalhe em busca de uma forma de te envolver nos meus braços e te apertar bem forte contra meu peito.
Ela jogou o corpo contra o dele. Kurt a envolveu cuidadosamente odiando a certeza do fracasso.
— Você está ignorando a parte em que eu disse que não posso me arriscar a aumentar suas lesões.
— Eu suportei muitas formas de dor para cumprir as ordens de Ellen e dos meus comandantes. Suportei tudo que fizeram comigo nesses últimos meses. Então, posso suportar alguma dor agora pra salvar a mim mesma.
Pelo espelho, ele viu que o rosto dela estava banhado em lágrimas.
A partir daquela noite, ela se aconchegou a ele para dormir aceitando que finalmente estava em casa.
A semana transcorreu tranquilamente com muita conversa, sessões de animações com Avery e momentos no quintal com Thor. Foi ali que o casal se sentou no início da noite para admirar as estrelas, depois que todos da casa já estavam em seus quartos.
— O mundo sobreviverá aos dois na fase adulta? Eles parecem ter a energia de uma bomba atômica! – Remi comentou rindo enquanto observava a bagunça do quintal.
— Essa energia tende a diminuir, mas antes teremos que enfrentar a adolescência. Pelo menos é o que os sites dizem. Eu pesquisei. Precisava de uma luz no fim do túnel. – Kurt beijou os cabelos dela. – Com você aqui, me sinto mais seguro. Ter alguém com quer dividir o peso de cada decisão sobre Avery é bom.
— Preciso esclarecer quem sou para ela. Mas ainda não encontrei coragem para isso.
— Tudo está muito recente. Concentre-se na sua recuperação por agora. Aliás, você parece bem melhor desde ontem.
— E estou. Vocês me fazem muito bem. – Com bastante agilidade, ela se virou na espreguiçadeira o encarando. — Em poucos dias poderei ficar livre dessa tipoia.
— Mais dez dias e após aceitar fazer um raio X com certeza.
Remi revirou os olhos. Mas sorriu. Então, foi surpreendida pela mão dele acariciando seu rosto e se afundando em seus cabelos. Seu coração acelerou e ela soltou um suspiro. Todo seu corpo se encheu de expectativa. Kurt tinha sido tão cuidadoso e carinhoso por esses dias, obcessivamente protetor para se permitir beijá-la.
— Posso confiar na sua melhora? – sussurrou estreitando deliciosamente a distância já quase inexistente entre os dois.
— Deve! – ela respondeu o encarando.
Um sorriso torto se formou nos lábios dele segundos antes de tocarem os dela. Kurt foi lento e cuidadoso. Remi deixou-se guiar, sabia que o lado protetor dele interromperia o beijo em qualquer sinal de excesso. Inferno, Weller, ela poderia devorá-lo com a saudade que sentia sem se importar com qualquer reação dolorida de seus ferimentos. Mas a paz dos últimos dias pedia calma, pedia que aceitasse o jogo dele. E ela cedeu.
Os lábios de Kurt eram suaves, seu sabor inconfundível e inesquecível. Sua delicadeza não camuflava seus sentimentos. A paixão e reverência que tinha por ela estavam ali, em cada toque, na forma como suas línguas se encontravam e se deliciavam sem pressa.
Aquele beijo plantou nesse uma nova certeza: o amor dos dois sobreviveu a muitas tempestades e finalmente encontrou a paz.
Fale com o autor