Salve-me
8 O desentendimento
Notas iniciais
Um mês depois...
Foi um dia difícil numa semana mais difícil ainda. Treinamentos e estratégias mostrando falhas, execução de planos sendo interrompidas. Os planos de Shepherd caminhavam a passos lentos e ela não estava nada feliz com isso.
O grupo de elite que recrutaram sentia o peso daqueles dias. Estavam frustrados e desanimados.
Remi ia de um extremo ao outro dentro da organização e fora dela. As buscas por informações sobre o desaparecimento de Avery não tiveram sucesso algum. Shepherd a transformou numa espécie de relações públicas da organização e isso era muito bom. Ela sabia como conquistar a confiança e a empatia das pessoas. Nessa função, oportunidades de subverter as ordens da mãe usando seus novos contatos para conseguir informações além daquelas exigidas por ela permitia que Remi ampliasse rapidamente o alcance de suas buscas. Mas não ter absolutamente nada após um mês inteiro de investigações era frustrante.
A relação com Weller não podia estar pior. Ele lhe passou tudo o que tinha conseguido com as agências de segurança sobre o desaparecimento de Avery através de arquivos criptografados. Fora isso, só conversaram na presença de Shepherd. Inferno! Não ter uma mísera pista para reacender a esperança dele a dilacerava. Se, pelo menos, ela não o conhecesse o bastante para saber que aquela veia pulsante da sua fonte ou os músculos tensos sobre as omoplatas era o sinal claro do quanto ele sofria...
Minuto após minuto seu fracasso como mãe também a cercava. Falhou com sua filha desde a concepção. E repetia isso dia após dia enquanto não era capaz de trazê-la de volta aos braços do pai. Talvez se a vida dela tivesse sido diferente, se ela fosse uma garota normal, poderia agora enrolar os braços ao redor de si mesma, se atirar na cama e chorar. Mas nem isso ela podia.
A reunião com Shepherd e Weller foi dura. Ela amargou cada palavra da mãe, cada gesto... Mas não transpareceu. Manteve o olhar indiferente e os comentários frios e calculistas. Quando ele propôs uma nova forma de obterem os explosivos que precisavam, manteve-se atenta sem olhar para ele uma vez sequer.
— A quantidade não é suficiente, mas negociar com os coreanos pode diminuir o rombo que essa semana nos causou. – Ele concluiu de forma totalmente profissional, como sempre fazia.
— Não era minha primeira opção, mas as perdas dessa semana não nos deixam outra escolha. Faça! – Shepherd concedeu seu aval.
— É um risco grande demais. A CIA já tem Shatei, podem ter outros contatos dentro da Yakuza. Esse plano nos entregará explosivos insuficientes e um risco incalculável. É o momento para ter calma. Nenhuma das agências sabe de nossa existência e, se queremos realmente tomar o poder, precisamos nos manter assim. — a voz incisiva de Remi trouxe os olhares para cima dela.
— O que você propõe, então? – o tom desafiador de Weller era nítido.
— Esperamos. Uma ou duas semanas mais. Yakuza fará sua limpeza interna como sempre faz. Só depois disso poderemos negociar com eles em segurança.
— Duas semanas é tempo demais. Todos os nossos planos terão que ser reorganizados – rosnou dirigindo-se diretamente para Shepherd.
— Ser servidos numa bandeja de prata para a CIA parece mais animador? – Remi retrucou.
Shepherd engoliu seco e puxou o ar pensativa. Após uma breve pausa, concluiu:
— Vamos nos recolher por hoje. Amanhã retomamos o assunto.
Weller fechou a tela do lapbook insatisfeito e saiu da sala pisando duro. Remi fez menção de fazer o mesmo, mas a voz da mãe a deteve:
— Espere!
Voltou insatisfeita, expirou e disse:
— Você sabe que estou certa!
— E você sabe que eu não nos deixaria correr tanto risco. Mas ele está frustrado. Só queria estimular sua autoconfiança. Você sabe como homens tem egos frágeis.
— Eu não confio nele.
— Eu já percebi isso, Remi. E isso não mudará as coisas por aqui. Porque eu confio em Weller. Seja mais gentil e permissiva, deixe que ele se sinta realmente no comando e não vigiado e avaliado pela minha filha. Você tem feito um trabalho incrível com nossos correligionários além de ter conquistado todos os homens dessa organização. Faça o mesmo com meu consorte.
Remi respirou fundo e soltou fria:
— Eu não confio nele.
Shepherd balançou a cabeça rindo e fez sinal para que ela se retirasse.
Remi só respirou aliviada quando já estava bem distante dali. Odiava aquelas reuniões. Odiava ouvir Shepherd se referindo a Weller como seu consorte. Odiava mais ainda vê-los lado a lado por mais que os dois mantivessem uma postura completamente profissional. E odiava mil vezes mais aquele plano arriscado dele.
Ela sabia que ele estava ansioso por finalizar os planos de Shepherd. Diante da falta de pistas sobre o paradeiro de Avery, talvez a única esperança fosse mesmo que chegassem ao poder para descobrir onde a criança estava. Mas uma falha daquela poderia custar a vida dele. Shepherd pediria sua cabeça antes que a CIA chegasse até eles. Inferno! Ele precisava ser mais cuidadoso. Teria que alertá-lo. Como pode propor algo tão estúpido?
Do lado de fora do QG, os homens estavam reunidos ao redor de uma fogueira, bebendo e petiscando. Ela se juntou a eles. Queria que confiassem nela, que a vissem não só como uma líder, mas como parte do bando.
Tinha pena de alguns deles. De Markos, principalmente. O cara esperava que Shepherd instalasse uma forma de sociedade mais justa. Ela duvidava disso. Conhecia a mãe e sabia que seja lá qual tipo de sociedade ela pretendia instalar após o golpe, não existiria espaço para falhas, o amor nunca poderia falar mais que o dever. E Markos estava ali movido pelo desejo de fazer um bem maior, por se importar demais, por amar demais. À medida que conquistou a confiança dele, percebeu seu amor por Cade.
Oscar era o favorito de Shepherd, depois de Weller, é claro. Diferente de Markos, esse sabia exatamente onde estava se metendo. Existia uma sintonia de pensamento entre ele e Shepherd. Foi por isso que ela o deixou se aproximar, que permitiu o flerte, que foi pra cama com eles algumas vezes... Não, espere, ela não seria hipócrita para dizer que não precisava passar a noite fodendo com alguém pra tentar esquecer que Weller provavelmente estaria na cama de sua mãe... Enfim, ele era alguém de quem ela precisava para satisfazer seu corpo e afastar qualquer suspeita acerca do sentimento que a dominava diante da simples menção do nome de Weller.
Assim que Remi chegou, Oscar se aproximou. Ele não era um idiota, sabia que não deveria mostrar intimidade demais na frente dos outros rapazes. Mas também marcava território a curta distância, lhe entregando a bebida, trocando discretos olhares. Num momento oportuno, bem mais tarde, os dois se viram sozinho num lugar discreto. Oscar deixou seus dedos correrem pelo braço dela num toque de quase veneração:
— Posso ir até você mais tarde... – sussurrou.
Antes que Remi pudesse processar uma resposta, Weller se materializou atrás deles:
— Recolha os homens. Você ficará como sentinela essa noite.
Remi respirou fundo e gesticulou com a cabeça para que Oscar se juntasse aos demais. Depois anunciou que todos deveriam se recolher aos seus aposentos. Quando Oscar passou por ela, moveu os lábios numa palavra silenciosa:
— Um chato
Remi segurou o riso. Os homens respeitavam Weller, mas rotulavam a distância que mantinha do grupo. Com certeza ele não sabia manter-se num clima de amizade com aquele grupo e ela entendia seus motivos. Ele estava sofrendo, fechado sobre si mesmo desde o desaparecimento da filha.
Quando o último homem saiu, Weller a surpreendeu:
— Precisamos conversar. Te espero no lugar de sempre – e desapareceu pelo corredor.
Tudo dentro dela virou uma confusão e ainda assim era algo bom. Teriam um momento a sós. Conversariam. Será que ele teria encontrado alguma pista de Avery?
Após a primeira ronda da noite, se esgueirou para dentro do quartinho de produtos de limpeza. A presença dele ali, o calor que emanava do seu corpo, o cheiro suave da sua pele, a envolviam de uma forma que nada mais no mundo era capaz.
— Alguma novidade? – perguntou deixando a voz escapar para aliviar as palpitações no seu peito.
— Nada. Pensei que talvez você tivesse alguma coisa. Conversou com tanta gente nas últimas semanas...
— Não, infelizmente não consegui informação alguma.
Ele soltou um quase grunhido de insatisfação e buscou espaço para deixar o quartinho.
— Espere! – ela disse urgente.
— O que?
— Você precisa tomar mais cuidado ao propor novos planos a Shepherd.
— Sei o que estou fazendo...
— É arriscado, Kurt! Ela não perdoaria uma falha como aquela.
— Estou tentando ser útil. A partir do momento em que não for, será arriscado para mim da mesma forma. Ou você acha que ela me deixaria partir sabendo tudo que sei?
— É... com certeza não deixaria. Você já se envolveu demais. Ainda assim, por favor, tome cuidado.
— E que tal você se cuidar se afastando do Oscar.
— Oscar? Ele é inofensivo.
— Oportunista. Te entregaria por menos que um cigarro. – rosnou com desprezo.
— Você está com ciúmes? – Remi verbalizou sem saber se o desafio no tom da sua voz era real ou apenas uma súplica disfarçada.
Weller bufou e impulsionou o corpo em direção a porta. Remi interrompeu sua passagem e o desafiou com o olhar.
O que aconteceu em seguida foi tão rápido que ela não teve tempo de processar. Inferno! Com mais ninguém ela baixaria a guarda dessa forma. Mas com Kurt... Quando ela se deu conta, estava imprensada contra a parede, os lábios dele procurando desesperadamente pelos dela. Seria um sonho? Ela não queria conhecer a resposta. Não queria raciocinar. Só se entregou deixando que ele tivesse tudo que queria por que não era um desejo só dele.
Era como entrar num lago cristalino num dia quente de verão ou receber o calor aconchegante do fogo da lareira no inverno. Aquela troca criava uma espécie de redoma protetora para eles. Um refúgio. Uma espécie de paraíso. A urgência dos primeiros momentos foi cedendo diante da certeza de que o outro não se afastaria. Seus lábios e línguas continuaram brincando agora de forma mais calma, num deliciar-se disposto a saciar toda a saudade. Os leves gemidos que escapavam quando buscavam um pouco de ar era só um convite para continuar. E ficaram assim por um tempo que pareceu eterno...
Quando finalmente a testa dele caiu sobre a dela, confessou:
— Estou enlouquecendo, Remi... Você tinha razão. Não consigo viver sem Avery. Não consigo aceitar você com Oscar. Não consigo levar toda a essa farsa ao meu redor. E não há mais saída.
— Você é mais forte do que imagina, Kurt – sussurrou já o envolvendo em seus braços. – Vamos encontrar Avery e vamos sair daqui. Talvez seja até possível parar Shepherd. Mas precisamos fazer uma coisa de cada vez...
— Por onde começar?
Ela suspirou...
— Eu não sei... O que seus instintos dizem?
— Meus instintos acabaram de me fazer te beijar dentro desse armário de produtos de limpeza. Então, acho que eles não devem ser levados em conta.
— É insano, arriscado... Mas foi a primeira vez há muito tempo que eu sinto que pode ser que a gente encontre um caminho – confessou exausta, sendo mais honesta do que tinha sido consigo mesma até ali.
— Você não deveria tê-la entregue para mim. Ela estaria segura com a família que a adotaria.
— Nunca repita isso! Você é o pai dela, por isso é e sempre será o melhor para nossa menina. – então pegou a mão dele e a levou até seu peito. – Eu continuo confiando em você. A única coisa que desejo é encontrá-la para que vocês fiquem juntos novamente. Ninguém no mundo é capaz de protegê-la como você. Estamos juntos nisso e vai dar tudo certo.
Ele balançou a cabeça concordando e a abraçou. O silêncio era só o que tinham então...
Por semanas trabalharam juntos em seu armário de refúgio. Eram cuidadosos, não tinham rotina. Criaram estratégias. Foram a campo disfarçados fingindo atender apenas aos interesses de Shepherd.
Não se beijaram mais. Alguns toques estavam lá, criando uma cumplicidade que não precisava ser verbalizada. Foi a forma que encontraram para lidar com aquela situação já que Kurt precisava se manter com Shepherd para continuar ali.
Quando Shepherd apresentou seu plano final, os dois precisaram conversar.
— Isso vai muito além do que tomar o poder político do país. Milhares de vidas se perderão, milhares de Avery pagando o preço para que ela chegue ao poder. – Remi desabafou. – É carnificina!
—Você já pensou que a vida pode nos levar por caminhos tortuosos a propósitos maiores?
— Do que você está falando, Kurt?
—Todos os nossos esforços se concentraram em encontrar nossa filha, mas foram em vão. Não temos a menor pista. Mas temos a possibilidade de parar Shepherd e salvar milhares de crianças e suas famílias.
— Eu ficava me perguntando quando você finalmente me faria essa proposta. Esse é você. O que preciso fazer?
Juntos reuniram as provas que precisavam. Um ponto frágil era Roman. Remi precisava convencer o irmão a se juntar a eles e achava que isso não seria nada fácil. Apesar de Shepherd tratá-lo com descaso há muito tempo, Roman projetava muito de sua carência sobre a mãe e poderia traí-los. Além disso, ele não gostava nada de Weller.
Diante de tudo isso, decidiram afastar Roman e contar a verdade apenas quando Shepherd já estivesse presa.
Remi criou uma falsa missão para o irmão.
— Desde que voltei, percebi que você estava certo. Weller não é confiável e precisamos afastá-lo de Shepherd. Para isso, preciso que me ajude.
— Sou todo ouvidos, Sis. Vamos resolver isso já!
— Descobri que ele tem uma filha que está desaparecida. Então, se descobrirmos onde a menina está podemos chantageá-lo para se afastar de Shepherd.
— Faz sentido. Já que ele só está aqui porque a menina desapareceu. Então, você quer que eu pegue a menina e leve para onde dessa vez?
— Roman, sua missão será descobrir onde essa criança está. Tenho uma pista...
— Mas eu já sei onde ela está. Fui eu quem a sequestrou na escola e a entregou para a família adotiva.
Remi sentiu seu coração pular uma batida.
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