Salve-me
9 O resgate
Notas iniciais
Os punhos cerrados de Weller, os músculos tensos nos seus bíceps, a veia pulsante na fonte eram sinais de que ele travava uma batalha para manter o controle, Remi sabia bem disse. Tentou compartilhar as informações que colheu com calma, mas conhecia Kurt bem o bastante para compreender o quanto as revelações o impactaram. Ele era um homem de ação e, nesse instante, socaria as paredes até ser capaz de fazer o mesmo com Roman e Shepherd. Foi manipulado o tempo todo e não pouparam aquilo que ele tinha de mais precioso: sua filha.
— Ela está bem, Kurt. Coloque seu foco nisso.
— Eles não tinham esse direito... Ela é só uma criança!
— Shepherd não tem qualquer pudor moral quando se trata de atingir seus objetivos. Avery era um obstáculo para que ela conseguisse você. Felizmente o desaparecimento dela era mais vantajoso do que sua... — e calou sem coragem de continuar.
— Sou tão idiota... achei que me juntar a essa organização poderia me trazer Avery de volta, mas estava perpetuando nossa separação e fazendo exatamente o que Shepherd queria.
— Não se culpe. Isso só dará mais força a ela. Precisamos focar no resgate de Avery e numa forma de deixá-la em segurança. Depois disso, faremos Shepherd cair e ela pagará por todos os seus crimes.
— Só preciso do nome ou do endereço. Vou buscar minha filha agora!
— Você não pode fazer isso, Kurt. Shepherd sentiria sua ausência e, se ela desconfiar que você descobriu tudo, não poupará sua vida ou a de Avery. É por isso que eu farei esse resgate.
— Não! Eu vou! Preciso ver minha filha. E Shepherd saberá que descobri tudo independentemente da pessoa que resgatar Avery. O casal que está com ela fará contato assim que a tirarmos de lá.
— Não são mais um casal. Se separaram há seis meses. E há dois meses a mulher morreu num suspeito acidente aéreo. Robert Daemon não gostou da ideia de dividir seu patrimônio. O empresário tem visto Avery como um problema desde então. Mas você está certo: ele contataria Shepherd caso a menina desapareça. Por isso, ela não pode desaparecer. Teremos que simular sua morte.
— E como faríamos isso?
— Ele tem um iate e costuma velejar próximo à costa leste. Como serão férias escolares, levará a menina. Vou cuidar para que a babá precise de alguns dias de licença médica. Assumirei seu lugar. Também substituiremos o piloto do iate por Roman. Daemon costuma deixar o iate em Silver City, para visitar a amante. Enquanto ele não estiver a bordo, o iate sofrerá uma falha na bomba de combustível que causará um incêndio e, pouco depois, a explosão da embarcação. Não sobrarão vestígios dos corpos das três pessoas a bordo: Avery, o piloto (Roman) e a babá (eu).
— Tem certeza que é seguro?
— Já repassei cada detalhe inúmeras vezes. O plano é perfeito. Após resgatarmos Avery, vamos levá-la para Emma, que seguirá com Roman via marítima até o México. Lá os três estarão seguros.
— Roman?
— Sim, precisamos afastá-lo daqui. Ele pode ser um ponto fraco se perceber nosso plano com relação a Shepherd. Mas não falhará numa missão que dei a ele. Precisa me provar que é capaz. Ele não é uma pessoa ruim e não suportaria a vida na prisão. Por isso, preciso garantir sua segurança quando tudo isso desabar.
— Você realmente confia nele?
— Confio. Não colocaria as vidas de Emma e Avery aos cuidados dele se não confiasse. Nossa filha é o que há de mais valioso no mundo para mim também.
— E, como é de costume nesse nosso relacionamento louco, você não me deixou qualquer escolha.
— Não há outra forma, Kurt. Avery te reconhecerá se estiver conosco. Além disso, sua presença aqui é crucial para tudo dar certo. Enquanto estou fora, precisa se empenhar para atrasar Shepherd e para mobilizar as agências de segurança. Quando eu retornar, sabendo que as pessoas que amamos estão em segurança, poderemos enfim reduzir esta organização ao pó.
— Temos que agir rápido, Shepherd está a um passo de conseguir as armas químicas que deseja.
— Estarei viajando essa madrugada para contactar os últimos fornecedores. Os primeiros diálogos serão amanhã à noite, a negociação final em quatro dias. Nos intervalos entre elas, resgato Avery.
— Então, é isso. Vamos fazer essas engrenagens girarem a nosso favor.
Remi assentiu com um gesto de cabeça e, em seguida, seu olhar mudou do profissionalismo habitual para uma empatia latente. Levando a mão ao ombro dele, garantiu:
— Três semanas no máximo. Esse é todo o tempo que demorará até esse pesadelo ter chegado ao fim. Então, você nossa menina nos seus braços novamente.
Kurt a enlaçou pela cintura e puxou para seus braços, a segurando firme em seu abraço:
— A segurança de Avery não é minha única preocupação, Remi. Por favor, cuide-se para que estejamos todos juntos em três semanas bem longe daqui.
Ela o abraçou de volta e não disse nada. Era tudo que podia fazer. Não podia dar garantias de sua própria segurança pois estava disposta a dar sua vida para que eles ficassem bem.
Dois dias depois, ela e Roman estavam perfeitamente integrados ao iate de Robert Daemon. Enganar o empresário substituindo seus empregados originais foi muito fácil. Mas Remi não sabia o quão despreparada estava para reencontrar Avery.
Seu coração parecia que explodiria no peito quando o encontro se deu. A garotinha está tão grande e linda! A semelhança com Weller era inegável: a cor e o formato dos olhos, o sorriso torto, o jeito de arquear as sobrancelhas. Era muito esperta também. Bem mais difícil de enganar do que Daemon.
— Olá, meu nome é Clair. Serei sua babá por alguns dias enquanto Tereza se recupera.
— Você não se parece com uma babá. Tem um sorriso estranho. — Avery disse a medindo de alto a baixo.
Remi sabia que tinha falhado no sorriso. Inferno! Por que estava tão insegura diante de uma criança? Por que precisava tanto da aceitação de sua filha? Sabia que sua conta estava no vermelho e que dificilmente quitaria as dívidas que tinha com pequena. Então, por que ainda se importava tanto com isso?
— Desculpe-me. Realmente sou péssima em sorrir quando estou ansiosa. Tudo aqui é novo para mim. — tentou ser sincera.
A garotinha continuou olhando para ela em silêncio, a observando abertamente. Isso era realmente intimidador.
— Que tal brincar de alguma coisas: aqui tem quebra-cabeças, massinha de modelar, jogo da memória...
— Prefiro um jogo no seu celular. Tem alguns bem divertidos de tiros.
— Isso não é adequado para sua idade. Nem é saudável em idade alguma.
— Mas eu fico quietinha enquanto estou jogando e não te dou trabalho algum. Pergunte a Stefany, ela vai te confirmar isso.
— Esse tipo de jogo está fora de cogitação, mocinha. Melhor encontrarmos outra forma de te distrair.
— É só me dar seu celular. A Stefany e todas as outras sempre acabam fazendo isso. O Sr. Daemon também.
— Bem, não sou como todos eles. Terá que encontrar outra distração. Que tal desenhar?
— Você tem algum pet?
— Não tenho. Uma vez tive um coelho, mas acabou não dando muito certo. Você tem um pet? Está aqui no iate?
— Eu não tenho pet, não me deixam ter. Mas o assunto aqui é você. Tem certeza que não tem um gato?
— Tenho certeza. Nada de gatos, nem cães. Você gostaria de ter um pet?
— Claro que sim! Um cachorro, eu acho. Daqueles bem fofos. Ou um bem grande. Mas e quanto a você, gostaria de ter um gato?
— Acho que gostaria. Quer comer algo. Temos várias frutas aqui para seu lanche.
— Frutas? Não! Eu quero bolachas com muito recheio.
— Sinto muito, Avery, isso não é saudável. Escolha sua fruta.
—Meu nome é Bethany – disse olhando bem séria e desconfiada para Remi.
— Bethany, claro! Por favor, me desculpe. Não errarei mais.
A partir daí, a garotinha fez um longo tempo de silêncio comendo a maçã que Remi lhe ofereceu e mantendo seus olhos sobre ela.
Mais tarde, Remi tentou uma nova aproximação através do desenho. O convite foi recusado pela pequena, mas ela não desistiu. Pegando uma folha, começou a rabiscar. Era muito boa nisso. Logo fez um esboço de Avery sorrindo.
— Nossa, muito bom seu desenho. Parece até mágica! Não consigo desenhar assim.
— Basta treinar. A gente consegue desenvolver muitas habilidades através da dedicação.
— Então, faz você aqui. Bem pequena, lá atrás. Meu pai diz que uma babá tem que sempre estar por perto, mas não pode aparecer.
Remi obedeceu.
— Olha só, você está de roupa preta e não com o uniforme de babá. Essa é sua cor preferida?
— Agora foi sua fez de usar a magia. Sim, preto é minha cor favorita.
— Consegue desenhar um caldeirão mágico?
— Posso tentar, Avery...
— Bethany! Você errou de novo. Faz muito tempo que eu não me chamo mais Avery.
— Não vai acontecer de novo, eu prometo, Senhorita Bethany.
A pequena continuou a observando e evitando uma aproximação. As perguntas eram pontuais e algumas bem significativas como aquela que procurava entender porque Remi não desfez a mala.
Na manhã seguinte, tudo transcorreu como previsto. Daemon deixou o iate no final da manhã. Roman instalou os explosivos e um de seus contatos trouxe o jetsky para deixarem a embarcação. A mala de Avery foi levada primeiro. Colocar a menina para fora foi bem mais difícil.
— Eu não vou, eu não vou, me solta. – esperneava nos braços de Remi que se cansou de tentar convencê-la.
— É só um passeio. Você vai gostar. Vamos fazer muitas coisas legais.
— Nunca é só um passeio. Vocês roubam crianças e não devolvem nunca mais para seus pais. Você é má! Eu soube desde que te vi pela primeira vez. É uma bruxa e quer me levar para fazer sopa no seu caldeirão! Socorro!
“Uma bruxa, é claro! Gosto de preto, falei que teria um gato, desenhei o caldeirão e sei que o nome dela era Avery! Como foi tão tola?” Sentiu seu coração apertado, pensando no quanto a pequena sentia medo dela, a pessoa que deveria protege-la por toda a vida. Desistiu de fazer aquilo a força. Colocando-a no chão, agachou-se para ficar da altura dela e falou bem calma:
— Avery, preciso que acalme-se e me escute!
— Bethany... – a garotinha corrigiu a encarando com ódio nos olhos.
— O seu nome não é Bethany. Você é e sempre será Avery. Pessoas ruins te roubaram de seu pai. Mas estamos aqui para levá-la de volta. — Colocando a mão no bolso, puxou uma pequena foto. — Talvez não se lembre, mas esse é seu pai: Kurt Weller. Ele te ama mais que tudo. E precisa tê-la de volta. Não sou uma bruxa e não vou te machucar. Sei que é difícil e que está com medo. Mas precisa confiar em mim. Eu não faria mal algum a você, Avery. Daria minha vida para protegê-la se preciso.
A menina fez um bico estranho, estava lutando para se mostrar forte e não chorar. Como não se orgulhar dela?
— Daemon não é seu pai e não te ama. Você sabe disso. – Remi insistiu, colocando toda sinceridade no olhar. — Por favor, venha conosco.
Avery assentiu balançando a cabeça. Remi se apressou em vesti-la com o salva-vidas. Depois subiram no jetsky e se afastaram rapidamente do iate que explodiu em pedaços bem pequenos.
Não muito longe dali, encontraram a lancha que os levaria até o México. Lá estariam seguros até a queda de Shepherd. Emma já os aguardava a bordo, olhos rasos d’água ao ver Avery. Assim que embarcaram, Remi não foi capaz de cumprimentar Emma. Estava agarrada a filha. Sentou-se com ela ainda nos seus braços.
— Você foi muito corajosa, Avery. Estou orgulhosa! Continue assim. Você é muito especial – falou encarando o rostinho da filha e acariciando seus cabelos. — Vou deixá-la com seu tio Roman e com Emma agora. Eles vão cuidar de você até seu pai chegar. Mas preciso que me prometa uma coisa.
— O que?
— Preciso que ame e cuide do seu pai por mim. Ele é forte, corajoso, mas precisa de amor, Avery. Pode fazer isso por mim?
— Eu achava que o papai Kurt morava só nos meus sonhos. Ele é muito bom.
— Sim, ele é o melhor. Você verá.
— Eu cuido dele, Dona Bruxa Boa.
Em seguida, Remi apresentou a pequena a Emma. Conversaram um pouco e chegou a hora da despedida. Emma lhe deu um abraço caloroso.
— Cuide do meu menino e cuide de você também, Jane. Quero nossa família inteira reunida outra vez.
— Ele voltará a salvo, eu prometo, Emma.
— Ele e você, entendeu? Vocês dois são importantes.
Remi concordou com o olhar cabisbaixo.
— Por favor, Emma. Cuide de Roman. Pode chamá-lo de Ian. Tivemos um passado muito difícil. Não faça perguntas, deixe que ele se abra para você primeiro.
— Vá em paz. Cuidarei dele com tanto carinho quanto cuidei de Kurt e de Avery.
Então, Remi foi até Roman:
— Cuide delas, Ian. Nunca precisei de você para uma missão tão importante.
— Você está escondendo algo de mim, Sis. Não sou confiável?
As palavras de Roman bateram forte no peito de Remi. Seus instintos gritaram que era hora dele saber pelo menos parte da verdade.
— Avery é minha filha, Roman. Preciso que cuide dela por mim.
— Você e Weller... – e fez uma expressão de nojo e incompreensão.
— É uma longa história...
— Eu vou matá-lo!
— Não, não vai. Ele é o pai de Avery. Quando souber toda a história entenderá que a verdadeira culpada de tudo sou eu. Mas o importante é que Avery agora está segura.
— E continuará assim, Sis. Eu te prometi que ajudaria a cria-la e que seríamos uma família feliz. Vou cumprir. Cuidarei delas até você voltar.
— Confio em você, Ian. Fique bem.
Dois dias depois, ela estava de volta ao QG. O encontro com Kurt aconteceu logo. Ele tinha urgência por notícias. Nunca o quartinho de produtos de limpeza pareceu tão pequeno e apertado enquanto ele a esperava. Remi entrou e o encarou:
— Correu tudo bem?
— Eles estão bem e no lugar combinado. Avery cresceu bastante. Está saudável e muito esperta. Devia ter me informado que ela era uma mini agente do FBI. Não consegui enganá-la.
— É mais esperta que o pai, então, se você não conseguiu enganá-la. Como conseguiu persuadi-la.
— Da mesma forma que faço com você. Fui sincera. E contei uma parte significativa da verdade. Mostrei sua fotografia. Ela se lembrava, Kurt. Não se esqueceu de você.
Ele se recostou a parece e as lágrimas banharam seu rosto silenciosamente. Remi se aproximou e ele a puxou para um abraço. Os dois precisavam daquilo tanto quando do ar que respiram.
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