Salve-me
12 O black site
Notas iniciais
O tempo pareceu congelar por alguns segundos enquanto o mundo girava a centenas de quilômetros por hora ao seu redor num tornado de reflexões. Os olhos de Kurt estavam fixos no hematoma que cobria boa parte do lado esquerdo do rosto dela. Os diferentes tons de roxo e a extensão sugeriam que resultara de golpes sofridos em momentos distintos.
“Na companhia dos seus amigos da CIA”, a voz dela ressoava em looping na sua memória. Um “interrogatório” num black site. Quatro meses. Ele estudou os métodos da CIA enquanto estava na academia. Métodos... Desrespeito aos direitos humanos...tortura. Uma prática inaceitável para ele, ainda mais se tratando de Jane.
— Você foi anistiada. Eles não podiam...E ninguém escapa de um black site – a voz dele saiu relutante.
Remi balançou a cabeça descrente e cansada demais para argumentar. Enfiou o papel no bolso do moletom de onde sua mão direita nunca saiu e olhou em direção a porta, a dúvida na voz de Kurt doendo mais que todos os ferimentos que carregava em seu corpo.
— Então não fui a única a mentir para você. – considerou baixo, olhos no chão já virando o corpo para deixar o quarto que, de repente, pareceu pequeno e apertado demais.
Mas Weller foi mais rápido, colocando-se entre ela e a porta.
— Você terá que me acompanhar até o SIOC...
— Não! – Ela cuspiu de volta com fúria o encarando nos olhos pela primeira vez. – Eu não vou voltar!
—Não estou te prendendo, Jane! Você precisa passar por exames de corpo-delito. É a única forma de provarmos o que fizeram...
— Se quiser me arrastar para lá, terá que me levar morta! Os olhos dele pareciam confusos, perdidos entre a aceitação ou negação da realidade. Ela puxou o ar tentando acalmar o medo que a sugestão dele plantou em sua alma.
— Precisamos saber suas reais condições. Existe um andar hospitalar no SIOC e...
— Estou bem.
— Preciso de provas mais contundentes disso.
— Inferno, Weller! Tudo bem você não acreditar em mim, só pare de tentar bancar o bom escoteiro. Eu não sou um de seus casos no FBI. – Falou tentando passar por ele.
Mas Kurt pareceu crescer como uma muralha, bloqueando sua passagem. A resistência de Remi mexia com suas emoções. Se ela realmente esteve num black site, precisava de cuidados médicos. O passado e todas as mentiras dela o assombravam. Se ela estava mentindo, seu ferimento mostrava que devia estar metida com as pessoas erradas e seria perigoso voltar para perto deles.
— Só vou abrir mão de um checkup médico se me provar que está realmente em condições de deixar essa casa e sobreviver lá fora sozinha.
— O que espera que eu seja capaz de fazer: flexões ou polichinelos? – ironizou, seu olhar o desafiando.
— Você simplesmente não é capaz de parar de mentir pra mim, não é? – a desafiou de volta.
Ela o encarou por alguns segundo parecendo incrédula, depois soltou uma interjeição irônica.
— Eu abri mais minha vida pra você hoje do que abri minhas pernas no passado.
E pode observar nos olhos dele que tinha o atingido. Isso abria as feridas de sua alma mais do que trazia qualquer satisfação.
— Tira a porra do moletom e vamos acabar com isso de uma vez!
Ela recuou, olhou para o chão como quem está cedendo. Caminhou até a parede do fundo do quarto e se recostou ali como quem não tem pressa. Kurt leu isso como uma tentativa de vencê-lo pelo cansaço.
— Eu não posso. – finalmente Remi disse e voz baixa, ainda olhando para o chão.
— Ou não quer?
— EU... NÃO... POSSO. Não posso tirar essa porra de moletom! Mas se quer mesmo ver o estrago, terá que me ajudar.
Ela fez de novo! Atingir Kurt com a força que um golpe não conseguiria. Ele ponderou sua situação: desistir perdendo esse jogo absurdo para ela mais uma vez ou se aproximar para a emboscada de uma luta corpo a corpo. Droga!
O problema é que nenhuma parte dele queria simplesmente deixá-la ir. Na remota hipótese de Remi estar dizendo a verdade, precisava de ajuda médica. Mas é claro que seria mais uma mentira, afinal a responsável pela operação foi Nas e ela sempre se mostrou confiável, esteve na cama dele nesses últimos meses, sabia o quanto ele precisava encontrar Remi.
Disposto a desmascará-la, ele avançou. Parou a centímetros dela, tão perto que seu coração começou a se mostrar fraco demais para aquilo. Pegou a barra do moletom rápido, com medo de recuar.
— Meu ombro direito... – ela balbuciou num aviso trêmulo.
— Ok. – Kurt confirmou ainda sem saber se acreditava que ela o deixaria fazer isso.
Ele foi cuidadoso naquela tarefa tanto quando era quando Avery era recém-nascida. Os pequenos gemidos e a respiração dela o alertando sobre quando desacelerar.
Quando terminou, deu um passo atrás e seus olhos varreram o corpo dela seguidas vezes. Seu interior se agitava em desespero. A calça estava franzida na cintura por um cinto mostrando todo o peso que ela perdeu. Não havia uma peça sequer de roupa por baixo daquele moletom. Toda a pele de Remi ficou a mostra, tingida por diferentes tons de roxo e vermelho. Nem seus seios forma poupados.
— Eu não sabia que você... – começou a se desculpar, seus olhos presos em cada ferimento calculando a extensão dos danos.
— Isso é prova o bastante de que estive num black site para você, Weller?
— Você precisa de um médico...
— Não! – disse estendendo a mão e pedindo o moletom de volta.
— Pode confiar em Mayfair... – falou agarrado ao moletom, parecia que o tecido era tudo que o mantinha me pé agora.
— Tem muita gente no FBI acima dela. Por favor, preciso me vestir...
Ele imediatamente se aproximou disposto a ajudá-la na tarefa.
— Podemos procurar um outro hospital... – insistiu enquanto deslizava o tecido pelo braço direito dela com cuidado extremo.
— Não, não e não. Eu posso me cuidar.
— Sua clavícula ou seu ombro podem estar fraturados.
— Eu só preciso descansar um pouco...
— Há o risco de hemorragia interna...
— Um risco baixo, eles não pretendiam me matar. Não ainda.
— Sua fuga pode ter agravado os ferimentos que provocaram. Você VAI para um hospital agora!
— Não, eu não vou!
Nesse momento, o barulho de uma porta batendo, deixou Remi totalmente alerta e preocupada, olhando para Kurt em desespero.
— Emma... ela chega do seu turno no hospital nesse horário.
Ela assentiu com a cabeça e continuou:
— Eu consigo sair sem que ela me veja.
Kurt balançou a cabeça inconformado. Existia uma fúria diferente em seus olhos, Remi nunca o tinha visto assim. Amaldiçoou a si mesma por ter permitido que tudo isso acontecesse.
— Você não vai a lugar algum! – Falou numa determinação seca e feroz. – Está ferida, precisa de cuidados. Emma é enfermeira e pode te avaliar.
A respiração de Remi pesou ainda mais. A forma como as palavras dele a atingiram foi impactante. O lado protetor de Kurt lhe parecia agora quase sufocante. E, como ela o conhecia, sabia que havia muita coisa em jogo. Foi ela quem o procurou, seu foco estava em, pelo menos por uma única vez, não o decepcionar. Mas, diante de suas condições físicas, deixar a casa poderia arruinar para sempre tudo entre eles. E Remi sentia-se cansada e sobrecarregada demais para enfrentá-lo ou arrastar aquela disputar para um terreno menos acidentado.
Exausta, ela abaixou a cabeça e assentiu. Kurt não lhe deu tempo para voltar atrás. Avançou até a porta e, colocando o dorso para chamou Emma num tom baixo, mas firme.
Logo Remi ouviu a voz de Emma, atendendo seu chamado. Respirou fundo preparando-se para o que teria que enfrentar a seguir enquanto se esforçava para tentar esquecer o fato de que Kurt não confiava mais nela sequer para deixá-la sozinha por alguns segundo.
— Preciso de você. Por favor, seja discreta. – Kurt falou se afastando para dar passagem a mulher.
Emma entrou curiosa e ressabiada. Ao ver Remi, puxou o ar e a alegria inundou seu olhar.
— Finalmente! – disse caminhando em direção a jovem e já abrindo os braços para acolhê-la.
— Não! – Kurt a interrompeu. – Ela está ferida. Foi torturada durante quatro meses pela CIA.
— Meu Deus! – Os olhos de Emma se apiedaram e ela colocou as mãos no peito. — Eu sinto muito, Jane.
— Preciso que você avalie o estado dela.
Emma balançou a cabeça concordando. Kurt avançou e gesticulou para Remi, mostrando que tiraria novamente sua blusa. Foi cuidadoso. Emma o ajudou, orientando para que a jovem evitasse qualquer esforço.
Com sua experiência em enfermagem, Emma a examinou e fez alguns testes.
— Acha que existem fraturas? – Kurt indagou.
— Difícil dizer. Só alguns raio-x poderão precisar.
— Foi o que eu disse. – Kurt concluiu pegando o moletom e indo em direção a Remi que fechou os olhos e se concentrou a própria respiração.
Emma era experiente o bastante para perceber que havia algum muito errado entre os dois. Desde que conhecera Jane percebeu que ela precisava de ajuda. Não qualquer tipo de ajuda, algo muito mais peculiar, sutil e difícil de se alcançar. Após conhecer a versão de Roman sobre sua infância e adolescência ficou ainda mais preocupada. E, numa medida ainda maior, passou a admirá-la por sua força e resiliência. Mas nesse exato momento, a fênix a sua frente parecia desacreditada de qualquer forma de esperança.
— Clavícula e costelas são as fraturas mais prováveis. Mas os ossos não parecem fora do lugar. Os médicos não terão muito o que fazer. A recuperação pode ser um sucesso de Jane manter-se em repouso.
Remi olhou atônita para ela, pensando se conseguira uma aliada.
— Você está dizendo que ela precisa de uma internação? – Kurt insistiu.
— Talvez, podemos ver isso amanhã. Nesse momento o que ela mais precisa é se deitar. Venha, vamos ajudá-la a terminar de se despir.
Kurt rosnou qualquer coisa incompreensível e acatou as ordens de Emma que rapidamente soltou o cinto da calça de Remi e a deslizou para o chão. Ele se abaixou para desamarrar o coturno que ela calçava e depois a ajudou a se deitar. Sentia medo de tocá-la, parecia frágil demais, tão diferente da pele macia e aveludada que ele tantas vezes tocara e que ainda povoava seus sonhos.
— Tenho alguns analgésicos e anti-inflamatórios muito bons. Vou buscá-los. – Emma informou.
— Não preciso de analgésicos.
— Ela está tentando te ajudar. – Kurt rosnou.
— Kurt, tudo bem. Vou buscar os anti-inflamatório, então.
Os dois permaneceram em silêncio, evitando se entreolharem. Emma voltou rápido, sentou-se na cama e ofereceu os comprimidos a Remi. Ela aceitou sem contestar.
Então, Emma lhe deu um beijo na testa, levantou-se e começou a falar se parar enquanto recolhia as roupas e ajeitava o quarto. Falou tanto e sobre assuntos tão aleatórios que Kurt teve vontade de mandá-la parar, só não o fez pelo respeito que tinha por ela. A tensão entre ele e Remi estava tão palpável naquele quarto que ele não compreendia como Emma parecia não perceber.
Quando ele não esperava mais que isso pudesse acontecer, ela silenciou atraindo seu olhar. Emma colocou o dedo indicador sobre a boca e soprou baixinho e olhou em direção a Remi que estava adormecida. Depois indicou a porta e saíram rumo a cozinha.
Ele puxou uma cadeira e sentou-se insatisfeito. Ela fez o mesmo, pousando seus olhos maternais sobre ele.
— Não devia ter feito isso. Ela ficará furiosa ao acordar.
— Eu sei, mas não havia outra forma de fazê-la descansar de fato. Vamos lidar com cada coisa no seu tempo. Como você está?
— Estou bem.
— Não é o que parece. Nem mesmo quando ela desapareceu após o nascimento de Avery e você teve que encarar sozinho a rotina com uma recém-nascida ficou desse jeito.
Ele se remexeu na cadeira, desconfortável, seus músculos mostrando sua tensão.
—Só estou tentando garantir a recuperação dela. Mas Remi parece considerar a possibilidade de passar algum tempo comigo como algo tóxico demais. A necessidade que ela tem de se afastar de nós e maior até que seu instinto de sobrevivência.
— Foram quatro meses de tortura, Kurt.
— Exatamente. Ela precisa de cuidados.
— Quatro meses rodeada por pessoas especialistas em deixar o corpo dela no limite entre a vida e morte.
— Eu sei disso, Emma. Sei o quanto é grave. É Remi quem está ignorando isso!
— Será? Ela veio pra casa.
— Não é o que parece, Emma. Foi muito difícil arrastá-la até aqui.
— Ela veio para o único lar que já conheceu: você!
Imediatamente os olhos de Kurt se fixaram nela e Emma soube que estava conseguir fazê-lo entender. Por isso, continuou. Não podia perder esse fio de ligação pelo olhar:
— Voltou para você! Mesmo que todas as suas promessas tenham se quebrado quando ela foi presa ou quando estava sendo torturada, mesmo que, antes disso, ela tenha te reencontrado na cama da mãe dela, a única pessoa que achava já ter lhe estendido a mão. Ela te confiou Avery e depois Roman. Agora está confiando a si mesma, com todas as feridas físicas e psicológicas que a cobrem nesse momento, Kurt.
Ele se remexeu, sentindo uma estranha esperança tentando crescer em seu peito. Mas algo dentro dele resistia forte em se deixar convencer. Emma alcançou sua mão e pegou entre as suas.
— Sei que foram anos muito difíceis para você. Assim como sei que existem sentimentos te comandando que talvez você sequer consiga identificar. Decepção é o mais forte deles. Não só com Jane...
— Jane não existe, nunca existiu. – a interrompeu.
— Será? Ou está dormindo na sua cama nesse momento? Preste atenção: você está muito decepcionado com ela por não aceitar tratamento médico, seu lado protetor quer garantir que ela vai se recuperar. Mas Remi só quer ficar com você nesse momento. Como queria quando fugia de Shepherd pra viver aventuras sexuais com você. Ou quando estava trazendo Avery a esse mundo e depois antes de embarcar nos planos suicidas que a mãe tinha para ela em Orion. Mas sua decepção está te controlando agora porque não é só Remi que está causando isso. Você também está decepcionado com aquela mulher com quem estava saindo. Nas, acho que esse é o nome. Provavelmente ela sabia onde Remi estava, não é? E, acima de tudo, está decepcionado consigo mesmo, por ter confiado em Nas ou ter passado tanto tempo na cama com ela ou com Allie ao invés de ter procurado Remi.
Kurt apertou a mão de Emma e seus olhos se encheram de lágrimas.
— A verdade é que nunca fui capaz de protegê-la. Nem no passado, nem agora. Ela vai me odiar quando souber sobre Nas. Eu nem vou conseguir olhá-la nos olhos de novo.
— É muito difícil, eu sei, Kurt. Mas não julgue a si mesmo por Remi. E prepare-se. Algo me diz que nenhum de nós terá a chance de fugir do olhar dela quando acordar.
— Como eu posso me preparar para isso? – disse com um sorriso torto, sabendo da tempestade que teria que enfrentar.
— Siga seus instintos. Quanto a mim, vou procurar reforços. Vamos precisar de Roman.
— Ótimo plano – disse se levantando. — Boa noite, Emma. Não sei o que eu faria sem você. – e beijou a testa da mulher
— Vocês encontrariam o caminho um para o outro sem mim. Já fizeram isso outras vezes. Boa noite.
Emma se levantou e caminhou até o corredor com Kurt. Dali, acompanhou com os olhos enquanto ele caminhava com passos firme até seu quarto para vigiar o sono da mulher que ama.
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