Salve-me

4 O bebê


Notas iniciais
Ainda tem alguém por aí? Se tem, vamos sem enrolação. Boa leitura

Por alguns segundos, ele ficou em choque absorvendo a informação. Ela foi um ponto fora da curva na sua vida desde que se cruzaram. Mexeu com todo o seu ser desde que ele a percebeu naquele bar. Ele tinha planos concretos para seu futuro: a academia, o FBI e garantir que a justiça fosse feita. Cuidar de Sarah até que ela pudesse cuidar de si mesma. Nada de família nem relacionamentos que significassem mais que sexo. Nunca, em hipótese alguma, ter filhos.

Ele devia ter desconfiado que Jane era encrenca. A forma como conversaram, como ela conseguia tudo dele... Porra! Conseguiu até que ele aceitasse transar sem camisinha. Conseguiu sua confiança, colocou abaixo todos os seus muros. Nos últimos meses ele se pegou até sonhando com a volta dela enquanto defendia a teoria de “almas gêmeas”.

Todo o seu mundo parecia tão melhor quando ela estava lá, compartilhando sua cama, tocando sua alma, aquecendo seu coração...

E agora ela estava aqui, grávida, talvez parindo e... Inferno, ela disse ter apenas 16 anos! Só podia ser mentira. Uma piada de mal gosto. Ele conhecia garotas de 16 anos. Era a idade de Sarah. Eram imaturas, sonhadoras e falavam sobre a vida de forma inocente. Definitivamente elas não eram como Jane. Ele até duvidou que ela tivesse 21 anos. Tinha a maturidade e determinação de quem já viveu muito mais que isso.

Algumas coisas eram inadmissíveis para ele: mentiras, falta de ética, corrupção moral e política. Ele jamais ficaria com uma garota com menos de 21 anos. Jamais!

Se ela mentiu no passado, poderia estar mentindo agora também. Mas algo dentro dele insistir em confiar cegamente nela. Se Jane dizia que só tinha 16 anos, ele acreditaria mesmo que isso custasse caro ao seu ego.

— Você fica com o bebê, tenho certeza que será um ótimo pai.

— É por isso que preciso garantir que você e o bebê recebam a assistência médica adequada.

— Você ouviu o que eu disse? Vamos perder o bebê e você irá preso se fizermos isso!

A voz determinada dela o trouxe de volta de suas reflexões. Rapidamente ele se colocou em pé e buscou seu celular discando o número.

— Você escutou o que eu disse? Ninguém pode saber que estou aqui, Weller. Desliga esse telefone!

— Se quer a minha ajudar, terá que confiar em mim. – Alguém atendeu do outro lado da linha e ele se esforçou para parecer calmo. – Oi, é o Kurt. Preciso de sua ajuda. Posso ir até sua casa? Estarei aí em breve. Muito obrigado.

Quando desligou, olhou para ela. Estava com o olhar fulminando raiva, mas não ousava encará-lo, derrotada.

— É uma grande amiga, enfermeira. Trabalha numa maternidade. É confiável. Vamos até a casa dela fazer uma avaliação do seu estado. Depois decidimos o resto.

Ela concordou com um meio gesto de cabeça, ciente que a proposta dele era justa.

Com outra ligação, Weller alugou um carro. Em minutos, lá estava ele esperando com a porta do veículo aberta como se a estivesse levando para um “date”. Ao se aproximar, ela percebeu os sacos de lixo e toalhas de banho forrando o assento do passageiro. Seus olhos voaram para ele que respondeu:

— Preparado exclusivamente para você, Madame.

Ela revirou os olhos e pensou em confrontá-lo, mas Weller continuou:

— O carro é alugado. Se tudo tem que ser sigiloso, não podemos deixar provas molhando o assento.

Ela fingiu desdém e entrou. Na verdade, o cuidado dele a tocou. Sentiu que acertou em procura-lo.

Pegaram o sentido leste, contrário ao centro da cidade. Ele realmente não a estava levando ao hospital. Então, saíram da cidade pegando uma estrada vicinal. Rodaram menos de dois quilômetros até chegaram à casa. Uma mulher morena, magra, com idade em torno de 50 anos sorria em frente a porta principal.

Weller desceu e se apressou em contornar o carro para ajudá-la a sair, mas era tarde. Ela já em pé do lado de fora, imponente dentro do seu moletom escuro e... quase ameaçadora, olhando para a anfitriã.

— Nós precisamos de sua ajuda, Emma.

Remi pensou em relativizar o pedido, tentando amenizar a necessidade que continha, mas uma nova contração a fez calar e se apoiar no carro.

— O que aconteceu? – Emma disse solidária se aproximando e levando as mãos em direção da garota.

— Não encosta em mim! – a outra rosnou entre dentes.

— Ela está um pouco sensível hoje. – Kurt justificou passando a mão nervosamente pelo pescoço. — Talvez esteja em trabalho de parto...

Os olhos de Emma foram de Kurt para a garota algumas vezes tentando captar o máximo que podia da situação. Manteve-se em silêncio. Se a garota estava mesmo tendo uma contração, o ideal era esperar que a dor passassem antes de qualquer tentativa de aproximação.

Assim que ela se restabeleceu, eles entraram. Como Jane não se mostrou confortável em ocupar o sofá da sala, foram para a cozinha. Emma lhes ofereceu suco e água que a garota agarrou com vontade.

— Quanto tempo faz que você comeu? – Emma questionou docemente.

— Estou bem, obrigada. Só preciso que diga a ele que estou em condições de voltar para minha casa.

— Ela está com 37 semanas de gestação, tendo essas dores com frequência. Também perdeu bastante líquido. Mas quer viajar de volta para a cidade onde mora.

— São indicações fortes de que o trabalho de parto pode ter começado. Sei como essa reta final da gestação pode ser assustadora. É normal você querer estar perto da sua família. Mas o melhor agora é procurarem a maternidade. – Emma falou enquanto colocava frutas picadas e preparava um misto que colocou em frente a garota.

— Um hospital não é... viável nesse momento.

— Você não tem seguro saúde? – questionou a garota que já devorava o pão.

— É mais complicado que isso. Pra resumir: ela tem só 16 anos e assinou os papéis para a adoção. Se os pais souberem quem sou, vou acabar preso.

Emma ouviu pensativa. Tudo aquilo era muito estranho, as reações dos jovens a sua frente principalmente. Resolveu tentar ajudá-los como podia, sem interferências.

— Monitoraram o tempo entre as contrações? Sabem se estão ritmadas?

Diante da negativa, baixou um aplicativo e começou a monitorar as dores da garota. Ensinou algumas posições que podiam trazer um pouco mais de conforto a ela e massageou suas costas quando as dores vinham. Percebeu que o casal não trocava olhares. Kurt parecia bem irritado e a garota só sondava quando ele estava de costas para ela. Ainda assim, a cada nova dor que vinha, ele se disponibilizava para auxiliar. E ela se agarrava a ele.

Como as contrações estavam ritmadas e a bolsa rompida, Emma voltou a cogitar que procurassem um hospital.

— Se eu a levar para a maternidade, você acha que é possível sairmos de lá assim que ela e o bebê nascer e antes do pai dela saber?

— Eu não vou para a maternidade. Se meu pai souber que estive aqui nessa cidade, vai chegar até você num piscar de olhos. O único lugar que vou é para minha casa. Preciso estar lá antes de anoitecer. Emma, você pode fazer esse parto?

— Num hospital você terá amparo da equipe médica para qualquer intercorrência. Além disso, poderá receber analgesia e passar por isso quase sem dor...

— Não terá intercorrências e a dor não é um problema pra mim. – insistiu com firmeza.

— Não! Você vai para o hospital. Não vou arriscar sua vida e a do bebê – existia um misto de proteção e imposição na voz dele.

— Kurt, podemos conversar um pouco a sós? – Emma interveio.

Saindo para fora da casa, Emma respirou fundo antes de começar.

— Todo parto envolve riscos mesmo dentro de um hospital. Mas também dá tudo certo em quase a totalidade das vezes. A humanidade não chegaria à superpopulação mundial se não fosse assim. Não é o parto em si que mais me preocupa aqui. Trabalho há mais de 20 anos numa maternidade e já vi muita coisa. Tem algo diferente com sua garota, muito diferente. E, por algum motivo, acho que ela e o bebê estarão realmente mais seguros se o parto acontecer aqui.

— Diferente?

— É cedo para tirar conclusões. Preciso observá-la melhor.

— Meu receio de ficarmos aqui é ela fugir de repente. Desde que chegou está insistindo em voltar pra casa antes que o irmão retorne da escola.

— A família dela parece ser um grande problema. Temos que apoiá-la, Kurt. Você não precisa temer que ela se vá. As coisas vão ficar bem difíceis pra ela em breve. Perderá a noção do tempo à medida que o trabalho de parto avançar. E cada nascimento é único, pode evoluir rapidamente ou demorar horas. Para tranquilizá-la, melhor não deixar claro que hora é. O bebê é seu?

— É meu! – respondeu rápido e com determinação – Se ela não mentiu quanto a isso como mentiu a idade – e baixou a cabeça tomada pelo sentimento de traição.

Emma sorriu.

— Ei, olhe para mim. Estou feliz que alguém tenha consigo romper suas barreiras ao ponto de convencê-lo a fazer sexo sem proteção – e passou o braço ao redor do rapaz, batendo com a mão em seu peito. – E, se ela veio de longe até você lutando contra tudo e todos é porque realmente acredita que você é o pai da criança. Agora vamos entrar e cuidar de tudo para que o bebê de vocês venha ao mundo rodeado de amor.

Entraram e começaram a preparar tudo que era necessário para o parto. A mágoa de Weller foi cedendo no mesmo ritmo em que as contrações aumentavam. Aprendeu rapidamente todas as dicas e falas de Emma e procurava estar disponível sempre que “sua Jane” precisava dele. A garota enfrentava as dores com coragem.

“Já se passaram 30 segundos, falta pouco pra essa acabar. Só respire que está quase no fim”. “A cada uma delas está mais perto do final de tudo isso. Você está indo muito bem”. “Respira fundo, se concentra em respirar e só nisso”. Muitas vezes ele sequer tinha perfeita noção do que dizia, só queria ajuda-la de alguma forma.

“Você fala demais, Weller! E se preocupa demais também. Fica um pouco quieto!”. “Não encosta em mim!”. “Kurt, Kurt, vem! Segura a minha mão”. “Fala alguma coisa, qualquer coisa. Só não faz essa maldita contagem regressiva”. Ela dizia aflita.

E Emma tinha razão, logo Remi parou de questioná-los sobre a hora e parecia totalmente entregue ao parto. As horas foram passando e o cansaço cobrou seu preço fazendo Remi se soltar nos braços dele exausta nos intervalos das contrações.

— Eu não queria causar problemas pra você. Não planejei tudo isso – se desculpou quase chorosa num sussurro.

— Não pense assim. Acho que estou feliz por você ter engravidado. Isso fez você me procurar de novo – ele sussurrou de volta, beijando os cabelos dela.

Pouco depois, a garota disse que estava sentindo muito vontade de fazer força. Emma a examinou e disse que o momento havia chegado.

— Quando a contração vier, você pode empurrar. Quando passar você descansa. Entendeu?

A garota assentiu com a cabeça. Estava agachada, apoiando-se em Kurt. Começou a empurrar e não parou como Emma havia orientado.

— Não, não, não. Descanse.

— Mas está queimando muito e só quero que isso termine logo.

— Se o bebê sair muito rápido sem que seu corpo esteja preparado para isso terá lacerações e não poderá voltar logo pra casa. É isso que você quer?

A garota cedeu, contração após contração, o bebê foi nascendo. Emma estava preparada para pegá-lo assim que saísse, mas a nova mamãe foi mais rápida. Alcançou o bebê e puxou em direção ao peito, agarrando-se a ele enquanto tremia muito. A mulher cobriu o bebê com uma toalha e deixou que o casal se deliciasse com a cria recém-nascida. Kurt estava eufórico, sorrindo feito bobo abraçado a garota.

— É uma menina. – anunciou feliz acariciando o rostinho da filha. Mas de repente, sua alegria deu lugar a uma tristeza disfarçada de resignação – Eu já vou entregá-la a vocês. Só preciso de mais um minuto.

— Você pode ficar com ela o tempo que quiser. – Kurt garantiu olhando preocupado para Emma.

Emma se sentou no chão junto a eles e os observou. Minutos depois, começou a massagear a barriga de Jane.

— Tem algo errado? – a garota se preocupou.

— Não, tudo está certo. Só estou estimulando para que você possa expelir a placenta. Isso pode demorar um pouco...

Emma ainda estava falando quando viu a garota levar uma das mãos ao cordão e enrolá-lo como se fosse uma corda qualquer. Rapidamente a deteve.

— Ei, o que pensa que vai fazer?

— Vou puxar. Preciso acabar com isso logo para voltar pra casa.

— Puxar dessa forma pode te causar muita dor e uma hemorragia. Deixe que a natureza faça no tempo certo.

— Já é madrugada, Jane. Não há trens ou carros agora. E uma hemorragia só te levaria para o hospital. É isso que você quer? – Kurt falou com calma, aprendendo a lidar com ela.

Ela bufou em resposta e se acomodou nos braços dele.

— Não sabia que era tão tarde assim. Eu não podia ter demorado tanto.

— Você fez o melhor que podia. E o risco de hemorragia será grande pelas próximas 12 horas. Então, o melhor a fazer agora é descansar – Emma insistiu.

A garota deu-se por vencida. Estava muito envolvida com a bebê para discutir. Ter algumas horas a mais ali seria um erro, como foi ir até o bar e transar com Kurt sem proteção. Mas mais uma vez ela queria aquilo mais que tudo.

Mais tarde, o casal estava na cama com a bebê completamente deslumbrados com ela.

— Ela é tão linda, tão perfeita.

— É porque se parece comigo – ele disse parecendo totalmente convencido disso o que fez Remi rir. – Que daremos a ela? – Kurt questionou.

— Ela é sua. Você pode escolher.

— Ela é e sempre será nossa, Jane. E passou nove meses dentro de você. Deve ter pensado em algum nome.

Ela beijou a mãozinha da filha e confessou:

— Avery.

— É um lindo nome. Excelente escolha. Bem-vinda, pequena Avery.

Adormeceram juntos.

No dia seguinte, Jane estava muito bem e parecia totalmente encantada com a filha. Não falou mais sobre voltar para casa. Isso tranquilizou Kurt e Emma. No meio da tarde, ela e a bebê dormiam tranquilamente no quarto quando Kurt desceu receber as entregas do delivery. Precisou fazer muitas compras: roupinhas, fraldas e outros acessórios.

Uma hora depois, o choro insistente de Avery o fez subir para conferir se tudo estava bem.

Encontrou a bebê sozinha na cama. Jane tinha partido.

Notas finais
Preciso que me ajudem com relação ao nome dela. Sabemos que Ellen a chama de Remi, nome que ela mesma adota atualmente. Mas Weller a chama de Jane, nome que ela usou para se apresentar para ele. Será que ficou confuso no capítulo? Tentei usar os dois nomes nesse capítulo e não sei como vocês receberam isso. Preciso saber porque Weller só conhecerá a Remi daqui dois capítulos. Para cada leitor que continua comigo: muito obrigada pela leitura!!!