Salve-me
5 A missão
Notas iniciais
Remi respirou fundo tentando limpar sua cabeça de todas as possibilidades e sentimentos que a consumiam. Precisava se manter focada, só assim se sobrevive ao caos. Abriu a porta e entrou com total casualidade.
Roman se levantou do sofá num súbito, fazendo menção de vir até ela, mas foi parado e silenciado por um gesto de Ellen. A mulher não se levantou da poltrona, seus olhos fulminaram Remi a distância.
— Fale! – ordenou altiva e friamente calma.
— Precisei resolver algumas coisas.
— Você desapareceu por dois dias. Deixou seu irmão sozinho. Merecemos justificativas melhores do que isso.
— Ele estava na escola quando saí. Eu pretendia retornar ao final do dia, mas demorou mais do que eu previa...
— Foi irresponsável. Novamente. Devo presumir que isso está se tornando um hábito. Um péssimo hábito.
— Isso não vai se repetir, Ellen. Eu prometo. Você não me verá falhar de novo – e, após uma breve pausa, arrematou – Acabou.
Ellen estreitou os olhos intrigada, se levantou e caminhou até a filha. Quando estava próxima o bastante, estendeu a mão e, segurando a barra do moletom que Remi usava, ergueu a blusa. Fechou os olhos e puxou o ar insatisfeita.
— Onde está o bebê, Remi? – Perguntou baixando a blusa com raiva.
— Ela não sobreviveu ao parto – a garota respondeu a encarando.
— E você espera que eu acredite nisso?
— É a verdade. Não existe nada além disso.
— Não meça forças comigo, Remi. Não é um bom jogo. Deixar o bebê por aí foi estúpido demais. Só nos causará mais problemas.
— Não existe mais um bebê. Como eu disse, ela morreu no parto. Nunca saberão que ela existiu – e, propositalmente, seus olhos fizeram um caminho rápido até Roman antes de voltarem a encarar Ellen.
A mulher compreendeu e agiu:
— Roman, vá para seu quarto!
— Mas eu...
— Sem “mas”, Roman. Vá para seu quarto agora!
A garoto saiu cabisbaixo. Assim que ouviram-no bater a porta do quarto, Ellen continuou:
— Tudo o que você fez foi decepcionante e estúpido demais. Vamos, Remi, conte-me onde está a criança para eu tentar consertar mais esse erro seu. Não me faça tomar medidas mais drásticas.
— Você não precisa fazer nada, Ellen. Tudo está resolvido. Quando você me fez propôs uma acordo para a adoção minha e de Roman, prometi que não causaria problemas. A gravidez foi um erro. Muita imaturidade da minha parte. Eu precisava resolver isso do meu jeito.
— Tudo já estava resolvido, Remi. Entregaríamos a criança ao casal que consegui e você poderia cumprir o que combinamos quando os adotei.
— Não, Ellen. A criança se tornou o meu coelho, sentia isso cada vez mais forte enquanto o parto se aproximava. Agora acabou.
Ellen a olhou em choque por um breve instante. Depois seu olhar se converteu numa espécie de compaixão e orgulho. Num ímpeto, a puxou para um curto abraço.
— E você tem certeza que deixou o corpo num lugar seguro?
— Absoluta. Não há a menor possibilidade de a encontrarem.
Ellen pegou as mãos de Remi e colocou entre as suas. Observou as unhas com traços de terras.
— Vá para seu quarto, tome um banho e descanse. Vou fazer algumas ligações suspendendo a entrega da criança.
Remi assentiu e saiu em direção ao seu quarto. Quando chegou a porta, Roman colocou a cabeça para fora do quarto dele:
— Sis...
— Hoje não, Roman. Eu preciso descansar – disse seca.
Entrou, fechou a porta sem passar a chave. Sabia que precisava deixar o acesso livre a Ellen se queria reconquistar a confiança da mãe.
Tirou as roupas e entrou no chuveiro. Repetia incessantemente para si mesma “Acabou!”. Ela precisava acreditar naquela história mais que qualquer outra pessoa.
O que Remi não sabia, é que nada mais seria do mesmo jeito.
Dois anos depois...
Não foi difícil conseguir acesso ao prédio. Ela observou a rotina do lugar apenas duas vezes até encontrar uma forma de entrar sem precisar interfonar para algum morador. Uma vez lá dentro, trocou rapidamente de roupa. O macacão de eletricista não lhe daria boa impressão.
Usava uma roupa básica. Ajeitou a boina, era um acessório que dispensaria, mas ajudava a disfarçar sua identidade. Manteve os óculos escuros.
Amaldiçoou-se por sentir aquelas borboletas no estômago. Precisava manter um autocontrole impecável. Seria uma visita rápida com um objetivo prático.
Bateu a porta. Escutou vozes lá dentro. Respirou fundo e aguardou.
— Pois não?
A jovem mulher a atendeu enquanto terminava de abotoar a camisa. Devia ter cerca de 1,60 de altura, cabelos castanhos claros presos num rabo de cavalo, jeans clássico completando o visual. Parecia determinada e prática. E, merda, ela era bonita.
— Desculpe-me. Bati no apartamento errado – Remi disse já se virando para sair.
— Talvez não – a mulher insistiu. – Se está procurando Kurt Weller, ele está no banho. Não deve demorar.
Antes que Remi pudesse verbalizar sua insistência no engano, Weller surgiu atrás da jovem. Cabelos ainda mais curtos, barba bem aparada, a camisa desalinhando mostrando que se vestiu às pressas.
— Estou aqui – disse rápido.
Se encararam, ela muito mais desconfortável.
— Eu volto outra hora – disse casualmente.
— Não! – Weller e a jovem mulher disseram ao mesmo tempo.
— Allie... – ele começou.
— Eu já estava de saída. Agora entendo por que você relutou tanto em me trazer até seu apartamento.
— Não, Allie. Isso... é complicado.
— Sem argumentos, por favor. A gente se fala uma outra hora – e, pegando a bolsa e o casaco, saiu.
Weller recuou e fez sinal para Remi entrar. Isso estava no plano dela. Entrar, expor a que veio. Sair. Simples e rápido. Mas, ao sondar o local, seus instintos gritaram que havia algo muito errado. O apartamento tinha uma decoração simples, própria de um homem solteiro, sem muita preocupação com a decoração. Tudo estava no lugar, exceto uma petisqueira sobre a mesa de centro da sala e as taças de vinho vazias no balcão que separava o ambiente da cozinha. Tirou os óculos escuros para verificar melhor. Não era um ambiente adaptado para uma criança.
— Onde ela está? – questionou aflita.
— Dois anos. Você desapareceu por dois anos.
— Você disse que cuidaria dela.
— Eu tinha 22 anos. Estava começando minha carreira. Tem ideia do que é cuidar de um bebê? As despesas, a rotina, o quanto dependem de nós.
— Você era acolhedor, responsável e protetor. Me protegeu e me apoio durante o parto. E, droga, Weller, você é o pai dela!
— Você dormiu comigo algumas vezes, depois bateu a minha porta parindo. Não ficou por lá tempo o suficiente para saber se eu queria realmente ser pai ou se daria conta de um bebê.
— Com quem você a deixou? Entregou para a adoção?
— Se você se importava, por que a deixou?
— Ela teria você! E você era melhor que qualquer casal de pais adotivos, porra!
— Se eu era tão bom assim, por que você não ficou comigo?
— Eu não podia, Weller! Eu disse que precisava fazer o que meu pai esperava de mim. Eu e Roman só fomos adotados porque ele tinha planos para nós. Eu não tinha escolha. Tudo que estava ao meu alcance era proteger sua identidade e fiz isso. Todos os dias, a cada hora, eu queria saber se vocês estavam bem. Mas vir até vocês era arriscado demais.
Ele a observava absorvendo suas palavras. Toda a estratégia que criou ao longo dos anos para confrontá-la começando a desestabilizar diante das oscilações na voz dela que mostravam o quanto estava emocionada. Inferno, só a presença dela já tornava tudo muito mais difícil do que nas projeções que ele calculou.
— Você tem alguma ideia sobre onde e com quem ela está? Só tenho alguns dias, mas talvez consiga verificar se está tudo bem. Não vou interferir, nem cobrar qualquer coisa por ser quem gerou ela. Eu sabia do que estava abrindo mão quando a deixei. Só preciso ver que ela está bem.
Ele passou a mão pelo cabelo, incomodado. Puxou o ar e disse:
— Ela está com Emma.
E viu a tensão deixando Jane enquanto ela respirava aliviada.
— Durante a semana, é comum meu horário no FBI se estender no final da tarde. Não teria como continuar sendo um agente especial e ser pai sem uma rede de apoio. Então, Emma se mudou para cá. Ela dá plantões nos finais de semana para poder ficar com Avery nos demais dias. Vou até lá toda noite e a trago nos finais de semana.
— Tudo bem... Ela tem você... – ela tentou dizer a voz entregando sua emoção mais do que ela desejava.
— Não foram dois anos fáceis, Jane. Como agente do FBI, preciso garantir a segurança dela. Lido com muitos casos complicados. Nem mesmo minha equipe no NYO sabe que sou pai. Confidenciei isso apenas para minha diretora, Bethany Mayfair, que mantém minha paternidade em sigilo.
Ela assentiu, claramente concordando com as preocupações e decisões dele.
— Vem comigo – Weller a chamou entrando no corredor que dava acesso para os quartos.
Chegaram a uma porta. Ele abriu e um quarto infantil em tons pasteis iluminou o olhar dela. Em estilo Montessori, caminha no chão, tapete convidativo, cortinas esvoaçantes, brinquedos ao alcance da pequena e uma bagunça considerável num canto.
— Essas são as coisas dela que ficam pela casa. Tirei tudo para trazer Allie noite passada. Ela também não sabe sobre Avery.
— O quarto é lindo, Kurt. Tenho certeza que ela é muito amada e está feliz.
Depois disso, voltaram para a sala. Kurt pegou álbuns e mostrou dezenas de fotografia a ela. Sentados lado a lado, um calor confortável se instalou entre eles. A sensação de família os envolvendo. Contou situações e detalhou a vida da bebê nos últimos dois anos. Desabafou como não fizeram com ninguém sobre as dificuldades que passou. Nos relatos dele, havia muito dela na criança e muito dele também.
De repente, ela disse:
— Já tomei demais o seu tempo. Vim pra te entregar isso – e, puxando do bolso um pequeno aparelho, entregou a ele.
— O que é?
— É um bip de longo alcance, via satélite. Não importa em qualquer parte do mundo que eu esteja, saberei se vocês precisarem de mim. Weller, eu sei que abri mão de tudo ao te deixar com Avery. Mas também sei vocês podem precisar biologicamente de mim numa emergência. E, se acontecer, estarei aqui o quanto antes. E totalmente disposta a fazer o que for preciso, inclusive dar minha vida por ela.
Ele segurou o aparelho processando aquela forma estranha que a mãe de sua filha tinha de demonstrar amor. Seria amor? De qualquer forma, parecia que ela realmente se importava. Então, porque não ficava? Weller pensou que deveria confrontá-la sobre isso, jogar na cara dela que tudo o que ela fazia estava errado, que Avery precisa dela como mãe todos os dias e não como um auxílio biológico numa emergência. Merda, ele também precisava dela. Bastou poucos minutos juntos para que seu corpo e sua alma pulsassem por ela novamente.
Tinha o direito de gritar com ela se fosse preciso. Devia gritar com ela, era justo. Mas ele não queria fazer isso. Só o que sentia era uma estranha forma de compreensão se apoderando dele, exigindo clemência e empatia. Weller ainda olhava para o objeto, girando-o na mão, quando sugeriu:
— Você pode vê-la se quiser. Podemos ir até a casa de Emma – o canto dos olhos a sondando.
— Não sei se devo... – as palavras saíram totalmente relutantes, num pedido velado para que ele insistisse.
— Significaria muito para mim.
Minutos depois estavam a caminho. No carro, continuaram conversando.
— Avery não se abre fácil, por isso ainda não a colocamos na escola. É difícil conquistá-la. Até mesmo Sarah, quando vem nos visitar, demora a conseguir um sorriso.
— Eu achava que nós dois éramos assim por causa do nosso histórico complicado, mas parece que é genético – e riram juntos.
Por que tudo entre eles fluía tão bem? Porque rancores, exigências e medos desapareciam quando estavam juntos? Nenhum deles estava disposto a buscar a verdade naquele momento porque o momento era tudo que tinham e não perderiam isso por nada.
Quando chegaram, Emma os recebeu com o sorriso acolhedor de sempre. Envolveu Remi num abraço afetuoso que mostrava não guardar qualquer rancor.
— Ah, menina, ficamos tão preocupados com você.
— Nunca vou me esquecer do que fez por mim, Emma. E nem do que está fazendo por Avery.
— Não se preocupe com isso, Jane. É um prazer poder ajudar. Avery me trouxe a felicidade de uma forma que achei ter perdido para sempre. É como uma netinha.
Avery estava brincando na sala. Assim que ouviu a voz do pai, veio correndo, bracinhos abertos pedindo seu colo. Remi acompanhou a sequência de beijos, abraços, brincadeiras e risadas dos dois.
— Avery, o papai trouxe alguém especial para você conhecer. Essa é Jane... uma grande amiga.
A menina franziu a testa e olhou desconfiada. Remi cumprimentou sem jeito. Kurt resolveu agir.
— O que é aquilo no tapete? São blocos de montar. Eu amo montar blocos. Podemos brincar com vocês, Avery?
A garotinha escorregou de volta ao chão e correu para o brinquedo. Kurt pegou a mão de Remi e a levou ao tapete. Sentaram-se juntos e, para surpresa de todos, pouco depois os três brincavam e riam juntos. Avery fez questão da participação de Remi e, num certo momento, sentou-se em seu colo.
A garotinha era muito esperta. Falava com facilidade surpreendente para sua idade. Até já havia deixado as fraldas. Sondava Remi o tempo todo. Brincou com seus cabelos e fez perguntas. Todas essas atitudes da garotinha eram muito atípicas.
Quando Kurt foi ao banheiro, Emma se aproximou:
— Que bom que você veio. Eles sentem muito sua falta. Ele principalmente.
Remi puxou o ar disfarçadamente, tentando ignorar o impacto daquelas palavras e retrucou:
— Eu não posso ficar, Emma. É melhor assim. Acho que atrapalhei o relacionamento dele com Allie.
— Allie? Quem é?
— Ela estava no apartamento dele quando cheguei. Pensei que você a conhecia.
— A única mulher que ele já me apresentou foi você. Se não a conheço, não deve ser algo que realmente importante para ele.
Remi baixou o olhar, tentando conter a uma estranha alegria que se apoderou dela.
Nesse instante, Kurt voltou parecendo empolgado e já se dirigiu a Remi:
— Você disse que tem alguns dias. Nós planejamos ir para uma cabana na montanha. Avery adora o lugar. E será o aniversário dela. Se puder ficar, posso conseguir que Mayfair me libere por alguns dias.
Com Avery no seu colo e descobrindo uma forma de carinho desconhecida, a tentação foi grande depois para Remi:
— Um aniversário?! Ah, essa princesa vai completar dois aninhos! Sim, sim. Eu posso ficar. Mas temos que cantar parabéns bem bonito.
Um sorriso bobo invadiu o rosto de Kurt que já se juntou a elas no chão.
— Tenho certeza que será perfeito. Mas terão que ir sem mim. Tenho escalas a semana toda.
O casal tentou argumentar para convencer Emma a ir com eles, mas foi inútil. Então, cederam e iniciaram os preparativos para a viagem. Não seria muito tempo, mas eles precisavam viver uma experiência em família.
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