Salve-me
1 O bar
Notas iniciais
Shipley pediu a terceira rodada com a voz já bem mais alta do que usava convencionalmente. Alegou que precisavam ser mais ousados, afinal nenhum dos amigos estava nas mesas mais discretas do outro lado do bar se pegando com uma garota. Seu argumento foi convincente, ninguém se opôs.
Passaram por uma semana dificilmente chata e precisavam de diversão. Após os testes de língua inglesa, matemática, física e direito básico, estavam exauridos. Sexo seria mais que bem-vindo, mas nenhum deles estava no melhor momento com relação as habilidades de conquista. A maioria das garotas dali representavam um risco que não valia a pena correr. O Agente Especial que os recepcionou deu um único conselho “Vá para a cama cedo!”. Evitar relacionamentos nas 20 semanas em Quântico era o primeiro passo para obter sucesso na Academia do FBI.
Weller ainda tomava sua segunda dose devagar. Pretendia se manter sóbrio o bastante para não fazer nenhuma merda na academia. As repetidas observações na sua ficha da escola militar já eram um problema grande demais. Na verdade, ele pouco acreditava que seria aprovado para estar ali. Após mais de quatro meses de espera, achou que essa porta estava fechada. Se surpreendeu ao receber o e-mail de convocação. E, aqui estava ele.
Voltou de suas divagações quando algo chamou sua atenção no fundo do bar. Um agente em treinamento, que ousou muito mais na bebida que ele, ultrapassa a linha entre paquera e assédio. A garota na mesa parecia calma, pelo menos era isso que ele podia deduzir àquela distância, mas podia se irritar a qualquer momento. Ele se irritaria se enfrentasse uma situação assim. Resolveu fixar sua atenção no casal para acompanhar o desfecho.
Observou quando ela se remexeu na cadeira, visivelmente desconfortável. Weller fez uma aposta interior: ela se levantaria e deixaria o projeto de agente inconveniente lá. E se o rapaz insistisse e a segurasse pelo braço ou algo assim? A bofetada seria inevitável. Ele precisava ver isso.
Cercando a moça por trás, o rapaz ousou um toque. Ela reagiu rápido, interceptando a mão dele. Pareceu puxar o ar descontente, mas gesticulou com a cabeça indicando o banco vazio ao seu lado. Inferno! Foi uma decepção total ver que o babaca iria terminar a noite melhor que ele.
Então, algo totalmente inusitado aconteceu. Habilmente, a garota tombou o banco com um dos pés no exato momento o cara ia se sentar fazendo-o se espatifar no chão. Não satisfeita, se levantou e despejou o resto do seu drink sobre ele indo ocupar um lugar no extremo oposto do balcão. Humilhado, o agente babaca se retirou do bar.
Um sorriso se formou no rosto de Weller surpreendendo-o. Ele raramente sorria, especialmente numa semana tensa como aquela. A estranha ganhou sua admiração e, por isso, resolveu continuar a observando de longe. Pouco depois, poderia dizer que ela estava ali apenas pela bebida já que não se aproximava de outras pessoas. Mas seu olhar atento percebeu que ela discretamente observa as pessoas a sua volta. Seria solitária?
Envolvido demais para manter a distância, ele se aproximou do balcão fingindo casualidade. Pediu uma nova bebida e deixou seu olhar percorrer ao redor distraidamente com um único propósito: captar o máximo que pudesse da estranha sem chamar sua atenção. Porra! Ela tinha uma beleza fora do comum. Rosto quadrado e o queixo levemente projetado para a frente harmonizavam perfeitamente. Os longos cabelos pretos ondulavam formando cachos nas pontas. A roupa simples combinava tons escuros, sem pretensões. Ela decididamente não saiu de casa para uma noite de sedução.
Weller apertou os dedos em volta do copo, um calor subindo mais rápido que todo o álcool que ele havia consumido. Se remexeu na cadeira, desconfortável e torcendo para as reações do seu corpo pararem por ali.
Inicialmente, ele pensou que foi mero acaso a forma como ela girou o corpo levemente em direção a ele. Mas o fato é que a estranha manteve a posição. Um arrepio gostoso percorreu sua espinha, ao captar com a visão periférica o olhar rápido dela sobre ele. Encorajado, ele fez o mesmo: movimentos e olhar discretos. Sorrisos minúsculos que se instalaram em seus rostos.
Ela fez um comentário aleatório sobre o lugar. Ele concordou e acrescentou qualquer outra informação casual. A baixa qualidade do diálogo não os dissuadiu de insistir em frases uma após outra.
— Sou Weller. Kurt Weller – disse completamente envolvido pela necessidade de aprofundar a intimidade com ela.
— Weller, soa bem. Sou Jane – ela retribuiu com firmeza. — Jane Ferrer.
A conversa fluiu fácil e logo ela pulou para o banco ao lado dele. Weller sabia que isso era um sinal claro que ele tinha espaço para agir, só não sabia qual o limite. Lentamente moveu seu copo centímetro após centímetro para mais perto do dela até que suas mãos se tocaram. Seu plano era deixar a mão ali como por distração, acaso e intenção jogando a seu favor, até ser flagrado pelo tempo.
Deu certo. Ao ver que a mão dele não recuava, o olhar dela o alcançou por alguns segundos antes de baixar com rapidez, trazendo um leve rubor para suas bochechas. Pouco depois, o calor da perna dela contra a dele no mesmo jogo o fez queimar como brasa. Por um segundo, ele não sabia o que fazer até olhar para ela e ver que seus olhos estavam fixos nele, questionando cheios de esperança.
Num aceno rápido e com o olhar seguro, ele se levantou e estendeu a mão para ela, num convite para saírem dali. Entrelaçaram seus dedos e sua mão pousou suavemente sobre as costas dela enquanto um sorriso lhe passava segurança. Caminharam até as mesas discretas que ficavam à esquerda do bar, ali teriam privacidade para muito mais.
Acomodaram-se em seus novos lugares quase colados um ao outro no banco único, mãos ainda entrelaçadas e aquele toque incentivando um diálogo muito mais aberto, dispostos a se conhecerem mais. E, de repente, nada mais parecia existir ao redor dos dois. Eram incapazes de tirar os olhos um do outro.
A conversa fluía com uma facilidade que o surpreendeu, afinal ele era sempre tão reservado. E evoluiu com os toques, sorrisos e olhares até que um doce silêncio nervoso se instalou. Olhos nos olhos, ambos sabiam o que viria depois.
Sem saber como controlar as fortes batidas do seu coração, ele fechou a distância entre os dois, deixando seus lábios caírem sobre os dela com toda a necessidade que sentia. Deus, ele não suportaria adiar aquilo por um minuto mais. Suas mãos soltaram as delas para se afundarem em seus cabelos.
A boca dele se moveu sobre a dela com uma ternura que a fez estremecer. E evoluiu lentamente, buscando espaço e permissão que ela cedeu feliz, sentindo-se derreter contra ele e se deixando levar.
O fogo entre eles cresceu rápido e queimava sem parar. Seus corpos ousavam cada vez mais e se tornou perigosamente arriscado para continuarem ali.
Ele arriscou o convite. Ela aceitou se deixou conduzir para outro lugar.
Dinheiro com certeza era um problema. Ele não tinha o suficiente para um bom hotel, mas não a levaria para os motéis de beira de estrada que cercavam Quântico. O Super 8 by Wyndham Dumfries cabia no seu orçamento e era bem próximo de onde estavam. O quarto amplo e sem luxo: a cama, dois sofás, uma mesa lateral. Era simples, mas oferecia a privacidade que buscavam.
Se o treinamento na academia não fosse tão primoroso, talvez ele não tivesse percebido a leve mudança nela quando entraram no quarto. E Weller tinha que admitir que aquelas evidências teriam passado despercebidas com qualquer outra mulher. Mas com ela não se tratava só foder até satisfazer seu corpo. Ele estava interessado sobre tudo a seu respeito: cada gesto, cada palavra. Foi por isso que percebeu a respiração em pequenos goles e o sorriso que se desfazia brevemente antes dela recolocá-lo nos lábios parecendo ter receio de que ele percebesse.
— Você está bem? – ele questionou a envolvendo pela cintura.
— Quanto a estar aqui com você sabendo que seus planos não são exatamente pudicos para essa noite? – e colocou os braços ao redor do pescoço dele. – Eu sabia das suas más intenções quando decidi te acompanhar até aqui. Pensei ter sido clara ao mostrar que queria foder com você tanto quanto você queria foder comigo.
Um sorriso bobo se formou no rosto dele.
— É, isso foi bem claro e direto – falou levando a mão até o rosto dela e roçando o polegar em seus lábios. – Só quero que saiba que pode mudar de ideia a qualquer momento.
— E eu só quero que você me dê motivos para ficar a noite toda.
Weller não precisava de qualquer outra evidência. Capturou os lábios dela de forma ardente e sem pressa. Sem soltá-la, a puxou para o sofá desbotado e a colocou em seu colo, descendo as mãos por seu quadril para ajeitar-se ao corpo dela. Ela o encorajou, abrindo as pernas e se colocando de frente a ele enquanto Weller afundava as mãos em seus cabelos a convidando para retomar o beijo. As mãos dele agora estavam mais ousadas, descendo pelas costas dela e subindo de novo por baixo de sua blusa.
O beijo não durou muito dessa vez. Ela se afastou afobada e livrou-se da blusa, desesperada em facilitar as coisas para ele. Weller retomou os beijos em seu pescoço enquanto se aproveitava da confusão inebriante dela para baixar as alças do seu sutiã. Libertando seus seios, parou alguns segundo para admirá-la. A respiração pesada dela, o leve rubor em suas bochechas e novamente aquele olhar que misturava questionamento e esperança era melhor do que qualquer fantasia que ele já tivera. Deus, como ele queria que ela entendesse o quanto estava maravilhado!
Sem esperar mais, cobriu um dos mamilos com a boca num beijo macio, movido pela necessidade de tornar cada carícia uma reverência. Ela gemeu baixinho e arqueou o corpo na direção dele totalmente entregue. As mãos dele entenderam sua permissão e vasculharam o corpo dela sem medo.
Deus, a forma como os dois se entendiam era tão perfeita que, quando ele se deu conta, não havia mais qualquer peça de roupa em seus corpos. Estava completamente inebriado pelo sabor e calor da pele dela. E a garota sabia como tocá-lo, era como se adivinhasse o local exato em que seu corpo desejava ser acariciado. Era ousada e o levava cada vez mais alto com muita facilidade como se suas almas se conhecessem de outras vidas.
Ele a carregou até a cama e começou uma sequência de beijos molhados por seu abdômen indo cada vez mais em direção ao sul. As coxas trêmulas dela se abriram em acolhida. Ele foi criterioso em alternar beijos, mordidas e sopros, sempre atento às reações dela, disposto a enlouquecê-la. Quando ela gemeu seu nome completamente entregue, levantou a cabeça para olhar sua reação. Fingindo inocência, disse:
— Preciso saber se continua querendo ficar aqui comigo a noite toda?
Ela revirou os olhos e bufou completamente insatisfeita com a interrupção:
— Não estou indo a lugar algum, Weller. Termine o que começou! – E baixou a cabeça dele para o meio de suas pernas.
Ele podia jurar que, segundos depois, ela não teria condições sequer de encontrar a porta do quarto pela forma como gemeu e se contorceu quando seu dedo foi inserido dentro dela enquanto mordiscava seu clitóris.
Não havia mais qualquer racionalidade entre eles. Eram só dois jovens mergulhados em sensações avassaladoras deixando-se guiar por seus instintos.
Weller esperava levá-la ao clímax daquela forma, mas assim que os músculos internos dela começaram a contrair em espasmos, ela inverteu a posição dos dois na cama com uma facilidade surpreendente. Montando nele, o conduziu para dentro de seu corpo com pressa. Weller grunhiu e puxou os quadris dela até encontrar o ritmo perfeito. A sintonia foi levando os dois cada vez mais alto, sensações novas e velhas conhecidas os forçando a se entregar. Quando as ondulações dentro dela aceleraram subitamente enquanto seu corpo diminuía o ritmo, ele soube que estava tudo consumado. Desesperadamente, a suspendeu se retirando sem ter a exata certeza se fizera isso totalmente a tempo.
Ela se jogou ao lado dele na cama e Weller a puxou para seus braços. As mãos dela pousaram em seu peito com os dedos cravando de leve sua pele como alguém que pede silenciosamente abrigo. Ele retribuiu estreitando a abraço em torno dela.
Pelo resto da noite, eles se amaram e conversaram. Encontraram pontos em comum como a determinação em alcançar seus objetivos, a força em não se deixar abater diante das dificuldades que viveram no passado, o cuidado com os irmãos mais novos.
Antes de adormecer, ele só desejou que ela ainda estivesse lá quando acordasse.
Não estava.
Mas eles se encontraram outras vezes nas semanas seguintes. Sempre de forma casual, sem trocarem telefone ou coisa parecida. Na última delas, ela invadiu seu quarto no alojamento na véspera das provas finais. Shipley estava estudando com Oslo duas alas distantes dali. Após trocarem um beijo ardente carregado de saudade, ele insistiu:
— Como você entrou aqui? Isso é terminantemente proibido.
— Você pode chamar seus superiores e me entregar, Weller. Ou pode parar de falar e usar sua boca para coisas muito mais interessantes.
Ele a puxou para seu corpo e sussurrou:
— Tem noção do quanto isso é perigoso?
— Eu só tenho a noção do quanto era importante pra mim te desejar boa sorte nas provas de amanhã.
Ele cedeu maravilhado. Novamente se amaram. Merda, ele não queria adormecer ao final de tudo, mas a presença dela relaxava seu corpo e sua mente de uma forma incompreensível e tinha sido uma semana intensa de estudos e treinamento, estava exausto.
Acordou com seu despertador tocando e sentiu o frio da cama sem ela. Colocou as pernas pra fora da cama, sentando-se. Passou as mãos pelo cabelo. Um sorriso bobo insistia em se formar no seu rosto. Respirou fundo e espreguiçou feliz pensando que logo se reencontrariam.
Mas ele estava completamente enganado.
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