Salve-me

7 A surpresa


Notas iniciais
Só hoje percebi que ainda não tinha publicado o últimos capítulos escritos aqui. Vamos começar com essa "supresinha" pra nossa querida Remi. Espero que alguém ainda esteja por aqui acompanhando. Boa leitura!

Ela ficou alguns segundos olhando para o telefone público a sua frente. Não deveria vacilar assim. Era um erro. Estava trêmula, confusa. Devia ser a fome.

Seu estômago revirou. Todos os seus instintos gritavam que aquela não era uma boa escolha. Mas qual outra ela teria? Inferno! Ela achava que sua vida era um pesadelo na adolescência, mas a idade adulta estava comprovando que nada está tão ruim que não possa piorar. Os últimos anos foram a prova crua disso.

Puxou o ar em quatro longos goles e expirou devagar para se acalmar. Não havia mais nada que ela pudesse fazer, nenhuma outra possibilidade real além de soluções mágica como em contos de fada que não cairiam do céu. Tirou o aparelho do gancho e passou o cartão digitando os números.

— Joe's Pizza! – A voz mais grave e madura atendeu animadamente.

Um pequeno sorriso brotou em seu rosto. "O moleque cresceu" pensou.

— Preciso de apoio... – disse tentando parecer firme, mas sua voz escorregou num fiapo no final – 132 Mill Rd, Valey Stream.

— Entrega em 15 minutos.

A ligação foi encerrada de forma abrupta. Ela sabia que ele saiu desesperado para alcançá-la. Caminhou até um beco próximo, se camuflou ali, atrás de uma lixeira e esperou. Inferno, deveria ter escolhido outro lugar, o cheiro que vinha do Nuestro Sabor Café & Grill era delicioso. Abriu a lixeira procurando sobras e encontrou um lanche quase inteiro. Cheirou e percebeu que fora descartado há pouco tempo. Devorou em poucas bocadas sem nem perceber o real sabor. A cabeça dela fervilhava traçando diversas possibilidades para conduzir a situação daqui para frente.

Saiu do beco ao ver o carro se aproximando devagar. Aproximou-se do meio fio e aguardou. Ele estacionou e baixou o vidro para certificar-se de que era realmente ela, só então destravou a porta. Remi se esgueirou para dentro com rapidez, sabia que precisavam se afastar dali o quanto antes, havia residências do outro lado da rua.

Roman retornou à rua devagar e foi acelerando à medida que se afastavam dali. Ela não disse nada, olhou para ele uma ou duas vezes de forma discreta. Melhor deixar que ele assumisse o interrogatório que se seguiria. O moleque realmente cresceu. Estava bem mais alto que ela e forte também, era possível perceber seus músculos bem delineados por baixo da camiseta de malha. Ele sorriu algumas vezes, numa reflexão muda antes de quebrar o silêncio.

— Não vai dizer nada?

— Estou me preparando para enfrentar a fera. Ellen não ficará nada feliz quando souber que voltei antes da dispensa.

Fazendo uma esquina de forma abrupta e estacionando a seguir, Roman finalmente soltou do volante e a encarou:

— Nos disseram que você estava morta. – a emoção em seus olhos era imensa, então a puxou para seus braços sem dar-lhe tempo de responder.

Remi se viu ali, envolvida por aquele homem que um dia foi seu irmãozinho, enquanto processava essa nova e importante informação. Havia tanto tempo que não desfrutava de um abraço, anos... Só agora se deu conta do quanto sentiu falta disso.

Mas não era o momento de se deixar levar por suas carências. Ela tinha muito o que fazer. Problemas urgentes a resolver. Quando Roman finalmente a soltou, disse:

— Sinto muito que você tenha passado por isso. Mas se todos acham que estou morta, isso é bom. Pensei que ainda estavam atrás de mim.

— Em que tipo de merda você se meteu, Sis? Está tão magra que fiquei com medo de te quebrar ao te abraçar.

— É uma longa história... Ainda estou debilitada, em recuperação. Por isso, se eu puder contar tudo uma só vez, com a Ellen presente, será melhor.

— É você quem manda. – Concordou animado retomando o caminho. – As coisas por aqui mudaram bastante.

— Você principalmente. Quando parti, você era só um moleque desengonçado. Agora parece aqueles caras sarados da marinha.

— Digamos que não tenho mais aquele problema enorme pra conseguir garotas. Agora é mais difícil me livrar delas. Ellen estava certa em cobrar minha dedicação nos treinos diários. O resultado foi muito positivo.

— Achei que Ellen não tinha te enviado para as forças armadas porque você continuava inapto para atividades físicas.

— Como eu te disse, muita coisa mudou. Ellen mudou. Já não está mais obcecada pela carreira militar como antes. Desde que se envolveu com o cara que está namorando, ela parece ver a vida com outros olhos.

— Namorado? Você está falando sério?

— Seríssimo. Você vai odiá-lo. Os dois se conheceram logo depois de você partir. Ela não o assumiu de cara, mas era nítido que estava rolando algo diferente entre os dois. Ela só falava dele, não via defeitos no cara. Muitas vezes, comparava vocês dois, dizendo que ele te superava. Você sabe o quanto ela ficou decepcionada desde sua gravidez. No início, achei era algum tipo de amor materno, como ela tem pela gente. Logo depois foi ficando claro que a coisa entre os dois rolava em outro âmbito. O cara é oportunista e deve ser bom de cama. Fez a cabeça dela contra a gente.

— Por isso eu realmente não esperava. – ela balbuciou numa reflexão em voz alto.

— Pois é, as mulheres da família mudam quando se apaixonam. Uma engravida, a outra passa a olhar os filhos como fardos...

— Valeu pela comparação – retrucou com sarcasmo. – Se é tão ruim quanto você diz, precisamos nos unir. Tenho problemas sérios pra resolver no momento e preciso da ajuda de Ellen.

— Acredite, Sis, esse cara é seu maior problema agora. Com ele na área, Ellen não vai te ajudar. Aliás, ela não quer mais ser chamada assim, seu nome agora é Shepherd.

— Como assim?

— Somos uma organização paralela agora. Shepherd começou a formação assim que você partiu com a Marinha. Passamos os últimos anos conseguindo correligionários: apoiadores, financiadores e gente pra pegar no pesado, eu e você nos encaixamos nessa última parte. Ela diz que se trata de um grupo paramilitar para agir em situações de emergência. E adivinhe quem entrou para o time há quatro meses e já foi escalado como braço direito dela? Ele mesmo, o tal Don Juan. Nem posso te levar direto para o QG sem autorização.

— É bem pior do que eu imaginava. Você tem uma casa ou mora no QG?

— Fico grande parte do tempo no QG, mas tenho um apartamento no Brooklin. É pequeno, mas você sabe: mulheres.

— Podemos ir pra lá? Com tudo isso que você me contou, preciso estar em melhores condições quando me encontrar com Ellen.

— Shepherd – ele a corrigiu.

— Shepherd.

— Mi casa, su casa, Sis.

Os dois se instalaram no pequeno apartamento e Roman providenciou tudo que Remi precisava: remédios, vitaminas, curativos, comida.

Três dias depois, finalmente marcaram o encontro com Ellen que veio até eles. Remi a aguardou em pé enquanto Roman atendeu a porta. A mãe a mediu de alto a baixo.

— Meu Deus, você está um lixo – finalmente disse a puxando para um abraço.

— Estava pior – confessou quando se separaram.

— O que aconteceu, Remi?

— Orion era muito mais do que nos contaram. E muito menos glamuroso. Não me orgulho de muita coisa que fizemos, mas eu juro que obedeci a cada ordem recebida, conforme combinamos. Cumpri minha parte do nosso trato mesmo quando não concordava com os métodos e objetivos. Não recuei nem mesmo diante de missões praticamente suicidas. Até que, durante uma missão que deveria ser tranquila, pareceu que tínhamos caído numa emboscada. Não sei de onde os mísseis vieram, mas nos pegaram em cheio. Só escapei porque fui arremessada dezenas de metros dali e em agarrei aos destroços que flutuavam. Fiquei a deriva por dias até ser resgatada por pescadores de uma pequena ilha esquecida do mapa. Demorei semanas para ter condições de deixar a ilha. Dias depois do meu resgate, os pescadores retornaram para o lugar onde nosso navio foi afundado em busca de destroços ou qualquer coisa de valor. Pagaram caro pela curiosidade, nenhum deles voltou. A pequena vila da ilha também não escapou. O ataque aconteceu um dia após eu ter partido. Ninguém sobreviveu. Precisei literalmente desaparecer por meses. Achei que estava sendo caçada, por isso não pedi ajuda a vocês. Enquanto isso, mesmo ainda bem debilitada e sem dinheiro algum, atravessei o mundo para voltar pra casa.

— Você agiu corretamente. Nosso país perdeu a noção de certo e errado. Orion era nossa última esperança. Uma organização agindo de forma secreta para eliminar qualquer ameaça à segurança nacional. E como esses heróis foram tratados? Eliminados para não deixar qualquer prova do que fizeram. O que aconteceu com você é a prova de que não dá pra esperar mais nada das instituições democráticas. São fracas e enfraquecerão o país por não nos deixarem usar a força para suplantar nossos inimigos. É por isso que decidi agir de forma paralela. Roman me disse que te contou sobre nossa organização.

— Ele me adiantou algumas coisas.

— Você pode se juntar a nós e terá a vingança pelo que fizeram ao seu grupo.

Remi tinha uma resposta pronta. Ensaiou para aquilo nos últimos dias e sabia que não podia vacilar, mesmo assim, seu estômago revirou ao dizer:

— Estou com você, sempre estive.

— Você é minha filha, mas o que estou fazendo aqui é algo que está muito acima de nós enquanto família. Terá que provar que é digna. No momento, tenho alguém ao meu lado. Ele é competente e confiável, meu braço direito e o segundo na cadeia de comando. Espero que vocês dois se entendam.

O treinamento de Remi começou imediatamente. De início, ela não teve acesso a tudo que a organização desenvolvia e executava. Fez tudo o que podia para tentar provar seu valor enquanto sufocava seus outros problemas assumindo a incapacidade de resolvê-los nesse momento.

Uma semana depois, Shepherd já parecia confiar muito mais nela. Suas habilidades estavam muito mais desenvolvidas após quatro anos de intensa atividade em Orion. Isso não era algo dispensável.

— Você é uma excelente estrategista e tem um perfil de comando fora do convencional. Conquistou a confiança e o temor dos meus homens rapidamente. Consegue se manter estável apesar de tudo que aconteceu no Camboja. É hora de você subir na cadeia de comando.

Nesse momento, a porta se abriu.

— Com licença, Shepherd, você me chamou?

Remi não se virou para verificar quem estava ali. Ela não precisava que seus olhos confirmassem o que seus ouvidos captaram. Seu coração batia tão rápido que chegou a pensar que ficaria sem ar. Não podia ser verdade. Esse não podia ser o teste final de Shepherd, ela não estava preparada. Tomou todos os cuidados necessários, como ela descobriu?

— Sim, chamei. Por favor, entre. Remi, esse é meu braço direito na organização, Kurt Weller. Weller, essa é minha filha Remi. Ela está de volta ao lar e se unirá a nós no comando das operações.

Kurt a encarou com segurança, não havia emoção no seu olhar. Estendeu a mão enquanto Ellen continuava:

— Tenho certeza que seremos uma equipe formidável e que transformaremos esse país.

Ele permaneceu totalmente profissional durante a apresentação, impassível diante dela. Seria um jogo? Será que Ellen o proibiu de fazer a revelação para testá-la? Ela não cairia assim tão fácil. Optou por fazer o mesmo que ele, mudaria a estratégia a partir do momento que Ellen ou Kurt colocassem as cartas na mesa.

Mas não aconteceu. A reunião prosseguiu como se os dois não se conhecessem e como se todo o interesse ali fosse traçar estratégias para conseguir novos correligionários para a causa de Shepherd.

Não durou muito e ela foi dispensada. De volta a sua rotina de treinamento e funções, Remi refletiu sobre tudo que estava acontecendo e nada fazia sentido. Tudo dentro dela era o próprio caos.

Por quatro longos dias ela enfrentou aquela rotina surreal de encontros com Kurt e Shepherd e após cada um deles a coisa fazia menos sentido. Em alguns momentos ela se sentia pega na maior armadilha de toda a sua vida. Ela sacrificou tanto para manter Kurt e Avery afastados de Shepherd e, de repente, ali estava ele, trabalhando e num relacionamento afetivo com sua mãe!

Isso tudo já tinha ido longe demais. Ela não gostava de brincadeiras e não toleraria mais isso. Se Kurt e Shepherd estava juntos nisso, quebraria os dois já. E sabia como começar. Já conhecia o QG bem o bastante pra arquitetar um plano.

No dia seguinte, Shepherd teve uma reunião fora do QG. Era o momento ideal. Se posicionou e aguardou. Quando Kurt passou, deixou a porta entreaberta dando espaço para que ele entendesse a mensagem. Foi certeiro. Ele entrou. Ela fechou a porta e ativou o desfragmentador de frequência.

— O depósito de limpeza. Eu não devia ter esperado um lugar mais adequado para a nossa conversa – ele disse com frieza.

— A escolha do lugar é porque essa conversa é nossa e só nossa. Não gosto desse joguinho, Weller. Coloque as cartas na mesa agora!

— Joguinho? Cartas? Quem sempre foi a campeã em mentiras aqui?

— Quando foi que ela te procurou? Desde quando sabe de nós e por que você se juntaram para me fazer de idiota?

— O mundo não gira ao redor do seu umbigo, Jane! Ou devo te chamar de Mabel Sue, Remi?

— Chega! Eu preciso da verdade, Kurt.

— Eu também preciso da verdade. Sempre precisei. Eu realmente acreditei que você era sincera, que voltaria se precisássemos. Mas você só se preocupa com você mesma. Depois de tudo que aconteceu, eis que estamos aqui, e sua preocupação é sua própria segurança!

— Você não sabe o quanto tem sido difícil pra mim, você não sabe o que eu passei, tudo que fiz pra manter você e Avery em segurança.

— Interessante você tocar no nome dela. Irônico até você dizer que se sacrificou por nós quando rompeu com todas as suas promessas.

— Você sabia que eu ficaria na marinha por sete anos. Esse era o trato que eu tinha com Shepherd. Eu me arrastei pelo mundo inteiro até alcançar Nova Iorque após ver isso aqui! – Tirou do bolso o beep com a mensagem "Venha!" – Achei que precisavam de mim. Fui direto até seu apartamento e nada. Não havia sinal de você no FBI ou na Pensilvania. Eu precisava saber o que tinha acontecido com vocês e relutei até o último segundo quando chamei Roman admitindo que precisaria da ajuda de Shepherd nisso.

Kurt se recostou na parede e se transfigurou, parecia derrotado.

— Isso foi há muito tempo atrás, Remi. Mais de um ano. Eu precisei tanto de você...

— Recebi a mensagem há cerca de seis meses. O que aconteceu? Avery está bem, não está?

— Alguém a levou.

— Alguém? Como assim? Onde ela está?

— Eu não sei! A escola me ligou dizendo que ela tinha desaparecido. Ninguém soube explicar. Não havia nada nas câmeras de segurança. Tentei de tudo com o FBI e com detetives particulares, mas foi em vão. Nem uma mísera pista. Há pouco mais de quatro meses, Shepherd me falou dessa organização e disse que talvez pudéssemos encontrá-la através dos métodos "pouco convencionais" da forma como atua. Eu concordei. O FBI, a polícia e os detetives já tinham dado o caso por encerrado. Você conhece meus valores e princípios, sabe o quanto discordo dos métodos e diretrizes dessa organização. Mas sou a única esperança para Avery, não posso desistir da minha filha. Ela não tem mais ninguém. Se, para salvá-la, preciso me corromper, estou aqui.

A respiração de Remi estava descompassada, assimilando os horrores que o relato dele havia desencadeado. Ela fora uma criança indefesa nas mãos de pessoas sem princípio algum no passado. Saber que isso poderia estar se repetindo com Avery era demais para ela.

— Ela tem a mim, Kurt. Vou encontrá-la e trazê-la de volta, prometo! Afaste-se daqui. Mantenha-se limpo e longe de Shepherd. Assim que eu a encontrar...

— Eu não confio mais nas suas promessas, Remi! Vou continuar aqui até encontrar minha filha.

— Não fui mandada só para a Marinha, Kurt. Orion era um grupo de extermínio. Terrorismo financiado pelas forças armadas desse país. E, quando já tínhamos cumprido missões o suficiente para eles, nos tornamos o alvo. Só escapei porque recebi a mensagem do beep e estava fugindo do navio num bote salva-vidas. Morte é tudo que existe para aqueles que jogam acima da lei. Não há segurança, nem respeito. Num momento, você é a peça-chave, o braço direito e, no outro, é descartável. Por favor, afaste-se enquanto ainda há tempo.

— Eu sei bem onde estou me metendo, Remi. Mas não posso aguardar de braços cruzados. Se realmente se importa, aceite que teremos que trabalhar juntos nisso.

Ela queria insistir um pouco mais, mas viu nos olhos dele o reflexo da dor que sentia. Não havia outra saída, ela e Kurt teriam que se submeter a Shepherd para encontrar Avery. A vida sabia como levá-la ao inferno: o homem que ela amava agora dividia a cama com sua mãe ego maníaca enquanto ela experimentava novas formas de perder seu bebê.

Notas finais
E agora, Remi???? E vocês, o que estão achando da história? Muito obrigada pela leitura.