Salve-me

11 A decepção


Notas iniciais
Desculpem-me a demora. Estou lutando para escrever o próximo capítulo Boa leitura!

Nos primeiros dias, ele lutou contra todas as evidências se negando a acreditar que Remi estava morta. Após duas semanas, suas certezas já se abalavam diante da convicção de Nas.

— Eu sinto muito, Kurt. Ela parece ter sido muito importante para você. Tente colocar seu foco em Avery. Sua filha precisa de você. A pequena também passou por muita coisa. — Mayfair falou mostrando-se compadecida por sua dor.

Roman era o único que alimentava sua esperança numa outra possibilidade qualquer:

— Remi não morreria ali. Ela sobreviveu ao orfanato em que fomos criados. E eu só sobrevive porque ela me defendia. Sobreviveu a explosões em alto mar e quando foi caçada pelo governo. Até Shepherd e eu acreditamos que ela tinha morrido. Então, de repente, atendi uma ligação e eis que era ela: renascendo do nada!

O laboratório de análises do SIOC (Centro Estratégico de Informações e Operações) do FBI era comandado por uma nerd que pareceu se sensibilizar com a angústia dele. Pouco mais de três semanas após a queda de Shepherd, ela o chamou e explicou que amostras de DNA dos tecidos carbonizados apontavam que os mortos eram do sexo masculino. Esclareceu ainda que realizou os testes sem a autorização de seus superiores que consideraram a medida uma despesa desnecessária.

Kurt sentiu como se a vida voltasse ao seu corpo. Claro que ela estava viva! Remi era esperta e conhecia os locais onde ocorreriam as explosões, por isso não se aproximaria de lá.

Logo a felicidade inicial deu lugar a dúvidas que o acompanhariam por longos dias. Se ela sobreviveu, onde estava? Combinaram um ponto de encontro após a invasão do QG e, inferno, ele esteve lá por semanas seguidas à espera de um milagre mesmo quando todos tentavam convencê-lo da morte dela. Por que ela não apareceu? O que poderia ter acontecido?

Algumas vezes, um frio percorreu sua espinha pensando que talvez ela estivesse com problemas ou em perigo. Mas essa hipótese não fazia qualquer sentido. Eles eram os mocinhos e venceram a batalha. Por que ela não colheria os louros da vitória? Por que não voltava para casa? Avery precisava conhecer a mãe. Roman ansiava por ter a irmã de volta. E, inferno, ele precisava dela também, até mais do que se permitia admitir nos últimos anos.

Três meses se passaram e sua dor atingiu outro patamar que ele considerava mais racional e objetivo: a decepção. Admitiu que se Remi passou todo esse tempo sem dar notícias só podia ser por um motivo bem simples e óbvio: ela fugiu dele novamente. Uma hipótese plausível e bem fundamentada considerando-se o passado que tiveram. A vasta rede de mentiras que ela teceu enquanto o envolvia naquela espécie de paixão louca se resumia em ciclos repetidos de aproximação e fuga.

Paixão irracional, desequilíbrio emocional, loucura – esses eram os nomes que ele dava ao que sentiu por ela. Por mais intenso e forte que tenha sido, ele se negava a chamar de amor. Não foi amor porque tal sentimento só se desenvolve a dois e ele sempre esteve sozinho no que sentiu, concluiu após noites e noites em claro. Tudo que Remi fez no relacionamento que tiveram foi mentir. E, por isso, fugia. Suas mentiras eram um castelo de cartas pronto para ruir a qualquer momento se ela ficasse. E agora, como em todas as vezes anteriores, ela fugiu.

Diante de tudo isso, Kurt fez o que deveria fazer: seguiu em frente. Colocou seu foco em Avery e na sua vida profissional.

Comprou uma casa grande no subúrbio de Nova York para comportar sua nova e grande família. Emma e Roman moravam com ele e Avery. As revelações do rapaz sobre sua infância no orfanato e a tóxica convivência com Shepherd mostraram que ele precisava de tratamento. Kurt cuidou disso. Não o deixaria sozinho, era o tio de sua filha. Emma também se envolveu emocionalmente com o caso, adotando Roman como filho. E o rapaz reagiu muito bem a isso.

Emma e seus dois filhos postiços” Kurt dizia. Ela não decepcionava como mãe. Diferentemente de outras mulheres por aí, como Remi.

O reencontro com Allie aconteceu quando ele mais precisava. Ela também estava focada em sua vida profissional o que facilitou para ambos evitarem levar a relação para além do sexo casual.

E, já que não havia compromisso algum, ele também se envolveu com Nas. Ela era uma mulher experiente, prática, conhecia o peso de estar a frente de uma equipe numa agência de segurança. Ele agora era um Agente Especial do FBI. Os dois tinham muito em comum. E o sexo era bom.

Duas mulheres diferentes, bonitas, sensuais. Ele devia estar satisfeito... e não sentindo-se solitário e amargurado. Droga, Weller!

Afastava as constatações e sorvia mais um gole de uísque, a dose companheira de toda noite. Aquela bebida se tornou a única amiga capaz de deixar seu coração mais leve na escuridão do quarto, no vazio de sua cama, para que ele pudesse então adormecer.

Kurt já estava indo para o banho quando o celular vibrou sobre a mesa de cabeceira. Número restrito. Ele torceu o pescoço e ficou parado encarando o aparelho. Devia ignorar e encarar o chuveiro. Seu coração não devia ter acelerado acreditando que aquilo era qualquer chama tola de esperança...

— Pronto – falou rápido e seco, disposto a colocar um ponto final naquilo.

— West 76th Street. Em frente ao número 18 em 1 hora – e desligou.

A voz estava pesada, distante, diferente... Ele precisava raciocionar. Inferno, se seu coração desacelerasse e a pulsação voltasse ao normal ficaria mais fácil pensar!

Puxou o ar enchendo os pulmões e soltou devagar. Repetiu isso mais três vezes sentindo-se mais calmo.

Remi não tinha qualquer motivo para se esconder ou manter sua identificação nublada pelo telefone. Além disso, era ele, Kurt, e se tinha algo que ele se esforçou em todos os encontros dos dois foi mostrar a ela que podia confiar nele.

Podia ser qualquer pessoa do outro lado da linha. Podia ser um trote de mau gosto. A voz estava diferente. Não existia qualquer evidência de que era Remi. E não era seguro sair para um encontro às cegas assim, tarde da noite, após uma ligação suspeita.

No minuto seguinte, ele estava dando partida no carro. Chegou ao endereço combinada com quinze minutos de antecedência. Que raios de lugar era esse? O extenso muro da Sociedade de História de Nova York pegava quase metade do quarteirão de forma uniforme sem oferecer um lugar discreto o suficiente para um encontro sigiloso. Estava tudo muito silencioso aquela hora da noite.

De repente, a pessoa misteriosa emergiu das sombras do outro lado da rua parecendo ter se materializado do nada. Uma figura esguia e alta, roupas pretas, capuz do moletom cobrindo o rosto, mãos no bolso. Andar estranho. Atravessou a rua e caminhou até a árvore que distanciava uns cinco metros de onde ele estava.

Kurt aguardou. Dessa vez, seu coração estava sob controle. Todos os seus instintos de agente do FBI estavam no comando. A pessoa misteriosa parou ao lado da árvore, a sombra do caule impedindo que ele a visse na claridade da iluminação pública.

— Olá. – a voz pesada e rouca soou bem mais identificável agora.

Imediatamente ele começou a caminhar em direção dela.

— Não – ela disse firme. – Fique onde está!

Ele obedeceu. Não disse nada. Nenhuma palavra encontrava caminho na confusão de emoções que o assolavam.

— Prometi te encontrar, por isso estou aqui. Você merece conhecer toda a verdade. Também preciso levar Roman.

Então, foi só por isso que ela voltou? Avery e eu não significamos nada?” pensou com a decepção crescendo rápido dentro dele.

— Fale – disse seco, se recostando no muro.

— Antes de ser Remi Briggs, fui Alice Krugger.

— Eu sei. Roman nos contou sobre seus pais e o orfanato.

— O que ele não sabe é a real extensão dos danos psicológicos que aquele lugar nos causou. Quando o exército dos Estados Unidos encontrou e desmantelou o lugar, todas as crianças passaram por uma rigorosa avaliação. A maioria precisaria de acompanhamento médico por toda a vida. Alguns tiveram danos tão profundos foram considerados perigosos demais para viver em sociedade. Como não havia um caminho institucional para conduzir essas crianças a um confinamento, decidiram que o melhor era eliminá-las de forma rápida. Essas crianças éramos nós, Kurt, Roman e eu. Ellen era general naquela operação. Ela me chamou e colocou as cartas na mesa. O diagnóstico de Roman era ainda mais complicado que o meu. Pude cofnirmar isso ao longo do tempo. Ele é muito mais sensível e instável. Ellen disse que acreditava que, com um pulso firme, uma educação militarizada e controle rígido, nossa vida poderia ser redirecionada, deixaríamos de ser um perigo para nos tornarmos útil ao país. Ela estava disposta a se arriscar para salvar nossas vidas. Se ofereceu para me ajudar em troca de lealdade incondicional. Eu aceitei.

— Mas...

—Não consegui cumprir o prometido. Acabei me envolvendo com você e engravidando. Eu tinha 15 anos quando nos encontramos pela primeira vez e 16 anos quando Avery nasceu. Não menti pra você quando te procurei em trabalho de parto assim como não menti sobre o receio que eu tinha de Ellen usar sua influência para acabar com sua carreira. Claro que tinha mais coisa envolvida: Roman, o rompimento da minha lealdade... O resto da história, você já sabe.

— Sei até a parte em que combinamos detonar os explosivos e nos encontrarmos quando as invasões ao QG começassem. E já se passaram quase quatro meses, Remi.

— A sala onde ficava a central de energia deveria estar vazia. Mas Shepherd escalou Oscar para ficar no local. Tentei ir até lá para retirá-lo antes das explosões.

Ouvir o nome de Oscar foi desagradável demais. Aquele sentimento estranho cresceu rápido, deixando-o inconformado por ela colocar sua própria vida em risco pelo cara.

— Então, ao invés de cumprir o que combinamos, decidiu salvar seu amante e retirá-lo do QG para que ele não acabasse preso. – Concluiu amargo.

— Oscar está morto, Kurt! Markos e Cade também. Não cheguei a tempo.

— Então, por que desapareceu por todos esses meses, Remi?

— Eu... tive alguns contratempos.

Kurt balançou a cabeça, a decepção transparecendo em cada gesto que fazia.

— Isso não importa agora. Você sempre quis conhecer a verdade. Agora sabe que Roman e eu não somos pessoas exatamente normais. Todo meu tempo em Orion provaram que sou capaz de me manter sob controle como um soldado. E isso é tudo que eu posso ser: um soldado. E posso garantir que Roman fique sob controle também. Por isso, voltei para buscá-lo.

— Roman está bem conosco.

— Eu acho que você não entendeu...

— Ellen fez um seguro de vida milionário em seu nome. Sabia disso?

— Não...

— Quando foi dada como morta em Orion, ela recebeu o dinheiro e usou para financiar seus planos. Orion era o sonho macabro que ela tinha para você. Ellen sempre soube que estava te enviando para a morte. Ela contava com isso. Como pode ver, você também não sabe de muita coisa.

Ela ficou alguns segundos em silêncio absorvendo as informações. Ele continuou:

— Sua mãe adotiva é uma sociopata megalomaníaca. Ela mentiu e omitiu muita coisa de você.

— Ellen era obcecada por vingança. Mas isso não muda o fato de que eu e Roman...

— Roman está conosco e está bem. Sofrendo pela sua ausência, negando a possibilidade de você estar morta. Ele encontrou em Emma a mãe e Shepherd nunca foi. Gosta de Avery, tem uma paciência incrível com ela. Está passando por acompanhamento psiquiátrico e indo muito bem. Os médicos disseram que muitas das sequelas que ele carrega poderiam ter sido resolvidas de forma muito mais rápida se ele tivesse tido o tratamento adequado logo depois que deixou o orfanato. Ele não é um psicopata, Remi. Nem você. Desenvolveu alguns transtornos pós-traumáticos que precisam de tratamento. Mas é só isso. Shepherd criou essa mentira para te manipular por todos esses anos.

Ela continuou em silêncio. Kurt sabia que isso dizia muito mais do que palavras. Tudo que ele falou estava sendo considerado e analisado.

— Ele tem uma família de verdade agora. Talvez seja melhor você ir comigo até em casa. Lá podem conversar e, então, ele decidirá se quer ir com você. Claro, se as pessoas com quem você está não se importarem.

— Estou sozinha. – respondeu rápido.

O tom da voz dela soou diferente. Era uma declaração e também uma reflexão como se sentisse que estava perdendo o irmão.

— Por favor, me acompanhe até em casa, Remi. Roman precisa te ver. Se não quer ver Avery, tudo bem. Ela já estará dormindo. Além disso, você precisa pegar a documentação de sua anistia.

— Anistia?

— Sim. Você desapareceu, então Mayfair entregou toda a documentação para mim.

Ela assentiu de forma meio confusa. Kurt mostrou o carro e caminharam até lá. Ele evitava olhar diretamente para ela. A mágoa em seu peito o impedia. Era também uma forma de autopreservação, afinal os olhos dela eram capazes de enfeitiçá-lo.

Entraram no carro e partiram. Ele dirigiu em silêncio, olhos fixos na rua a sua frente. Mas seus instintos profissionais a sondando pela visão periférica.

Remi parecia imóvel. Mãos no bolso frontal do moletom, capuz ainda cobrindo a cabeça. Isso acendeu seu alerta. Algo não estava certo.

O caminho parece maior agora, com aquele silêncio aterrador pesando sobre eles.

Assim que chegaram, desceram no carro e entraram na sala. Kurt acendeu a luz e, finalmente a encarou. O que viu não o agradou. Ela continuava com as mãos no bolso e usando o capuz. Mesmo assim, a luz da sala o fez perceber o hematoma na lateral do rosto.

— Sente-se. Você pode tirar o moletom e ficar à vontade.

— Estou bem, obrigada.

— É tarde, Roman já deve estar dormindo. Se quiser ficar por essa noite e deixar a conversa para amanhã...

— Posso ver a documentação que você falou?

— Claro. Acho melhor você me acompanhar.

Enquanto atravessavam a casa, Kurt buscou uma estratégia que a obrigassem a retirar o capuz. Nada parecia adequado e pouco invasivo. Além disso, a forma como ela caminhava e pouco movimentava os braços o alertavam para ser cuidadoso.

Entraram no seu quarto. Ele acendeu a luz e foi até a cômoda que ficava do outro lado do cômodo. Buscou os papéis e entregou a Remi.

Tirando apenas uma das mãos do bolso, ela pegou o papel e leu atentamente.

— Cumpri a minha parte no nosso trato. Você foi anistiada pela participação na organização terrorista de Shepherd por nos ajudar a derrubá-la. Agora não acha que mereço a verdade sobre os últimos meses?

Ela respirou fundo duas vezes. Então, tirou o capuz expondo o hematoma muito maior do que ele tinha suposto pelo pouco que viu.

— Passei os últimos meses na companhia de seus amigos da CIA.

Notas finais
Gostaram? Compartilhem suas impressões comigo! Muito obrigada pela leitura.