Sala branca
1 Prólogo
Restou o vazio. Vazio o suficiente para manifestar-se o silêncio. Quieta como sempre, estabeleceu-se a escuridão, irmã do desespero. Todos que entraram, enlouqueceram, perdidos nos ecos de suas próprias existências.
Um armário. Dois metros e meio de altura por um e meio de largura. Duas portas maiores — bloqueando a vida — e quatro gavetas — guardando as personalidades, espremendo, contrastando com a infinidade. Jogado num canto qualquer, construído por colunistas e suicidas, envernizado pelos ditadores e pacifistas, apenas deixado, o armário permanecia. O segredo divulgado, desconhecido, julgado, sonhado.
Mais adiante encontramos animais quadrúpedes que vagam, felizes em suas próprias tristezas. Fazendo reflexo ao não existente, dançavam as ondas do lago.
Fatos resumidos em metáforas, fingindo ser a imaginária realidade. Esses eram os tijolos brancos, unidos por um sonho ou dois, por um deus ou dois. A iluminação era forte, branca, vinda de lugar nenhum. A sala tinha o aspecto perfeito para a moradia do retorno, do eco, sendo ricocheteado por nada mais do que o vento estagnado.
Desde cinco minutos atrás — quando foi criada a sala — nada mais abriu as portas do armário, não conseguiam a ver, mas talvez fossem bem-vindas algumas correntes. O certo e o errado. Havia 50% de chances de que abrissem a porta correta — caso alguém as enxergasse — mas obviamente abririam a errada, todo humano tem criado essa mania de estragar tudo, desde cinco minutos atrás.
Um milissegundo, 43 mil anos. Apaguem a luz! Passo ante passo deslocou-se o andarilho recém-nascido até o interruptor, estabilizando o tempo. Sem hesitar, correu para guardar seu casaco de lã dentro da única cômoda, tirando o criado-mudo. Abriu a porta esquerda, encontrou uma piada.
— Senhor, são 40g, não 20 — reclamou a senhora de meia-idade.
— Só temos desses, senhora — contrapôs Dylan. — Quer experimentar um genérico?
— Mas é tão bom quanto?
— Tem o mesmo princípio ativo, senhora.
— Tá bom, vou experimentar.
320g de vitamina D. Seu preço salvaria uma vida, mas foi uma boa escolha. Rir demais faz com que o ar se esvaia.
Diluído no êxtase das nove horas, se cansava o homem, ansioso por mais uma hora.
— Obrigado, rapaz! — Agradecia a falsidade.
— Por nada — respondia a falsidade.
Dylan observou a caixa de Noftalgin. Era pequena. Pequena o suficiente para magoar-lhe, diminuindo suas expectativas para o evento das 10. Refletindo a luz fluorescente, cada milímetro do papelão usado exibia sua personalidade e opinião, ofendendo e criticando a futilidade do farmacêutico. Seu ego foi destruído pela caixa de um remédio, porém erguido pelo relógio. Objetos. Pessoas. Objetos.
Calou-se, pegou suas coisas, fechou o estabelecimento e rumou para a ratoeira. Música alta e odor fétido de felicidade.
Fechou a porta e abriu a outra, guardando o casaco. Caminhou e tropeçou, duas vezes, em dimensões. Irou-se ao tentar lembrar quem colocou-as lá, a Fortuna e a Galeria.
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