Dia de jogo, a reunião dos demônios. As luzes iluminam o inatingível, clareando o nada e os milhares de jogadores. Prestes a começar, resplandece o casino ilegal, coberto por algumas realidades. Fecham-se as portas e as indecências, dando início ao espetáculo circular.

— Sejam bem-vindos à mais um espetáculo, à sua diversão recompensada, sejam bem-vindos à Fortuna! — Apresenta o grande e esguio diabo. — Gostaria de informar que, devido às reformas, não será possível amplificar os gritos das bolas. Caso estejam com fome, esta é a hora. Peguem as crianças e aproveitem a estadia da melhor cozinheira da dimensão.

Uma multidão se dirige ao refeitório, ansiosa pelos quitutes de Relusya.

— "Cinco minutos!" — Anuncia os autofalantes.

— Bom, considerando que já tenham feito suas apostas, que se inicie! Tragam a bola!

Girou-se o pilar eterno, desviando a ordem e o espaço, deslocando o tempo e o padrão, reduzindo a zero, raças e civilizações. O caminho foi obstruído e a morte foi enganada uma vez mais. A primeira bola chegou.

— Nossa! E dessa vez não foi um genérico! — Ecoa a voz do apresentador, logo após a chegada do homem ruivo, amparada por gargalhadas.

— Que merda é essa! — Grita o recém-chegado.

— Cale-se, bola! Ponham-no para rodar!

Correntes se dedicam para se enrolarem nos pés do humano. Encaixam, engasgam, soluçam e se fixam. O motor, no centro da roleta, possuía forte compaixão e não era de sua vontade fazer o mal, mas o mal não existe... e o motor não tinha direitos sob os tetos de Fortuna, apenas clamava por perdão, erguendo a mão aos céus, repetindo inaudíveis preces ao altíssimo.

O assistente de palco caminhou até o centro, segurou a alavanca e escravizou o mecanismo tão importante quanto a bola.

Não foram necessários amplificadores para que os urros dolorosos do homem levassem a plateia ao delírio.

Cada casa uma lembrança, uma lâmina. Caminhões atropelavam e amores eram quebrados na roleta, tentando decidir onde a bola repousaria sua insignificância.

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Despertou a garota de um sonho confuso, cega pela luz cinza-claro doada pelas nuvens do dia nublado. Olhou ao redor, estava em casa. O calmo rio fluía pelo campo, fazendo discursos sobre a tranquilidade. Não pediu autorização, mas nunca tinha pedido, e até hoje não foi processada. Levantou-se calmamente, como se dominasse o tempo, a vida e a morte. Mas não dominava.

O cheiro do pão fez longa jornada para chegar no patamar que agora estava. Não havia um canto sequer que não fosse possível sentir a familiaridade da casa fraterna.

Caminhou em passos relentos e despreocupados até a mesa de refeições.

— Bom dia, filha — dizia a mãe sob a macia luz da manhã. — O pão acabou de sair, está quentinho.

Sentaram-se à mesa, pela milésima vez, rezaram e comeram confortáveis, certos de que o universo também estava.

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Sobrepondo-se uma à outra, disputavam as ondas sonoras. Do lado de fora ouvia-se um concerto, um híbrido entre urros e euforia. Como se o atrito estivesse presente, perde a bola sua velocidade, esperando a hora para parar.

— Galeria, quem diria! Acumulou!