Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
35 Onde A Dor É Menor
Notas iniciais
Scorpio olhava para as mudas no solo. Não plantou muita coisa, uma vez que não tinha ideia de como cultivar a maioria daquelas coisas. Estava acostumado a lidar com animais, caçar. Plantas era algo que ele só mexia quando precisava recorrer a algum remédio ou veneno, e mesmo elas, nunca plantara. Apenas sabia onde encontrar o que precisava e como preparar. Algo do qual Athena tirou muito bom proveito quando o requisitou para suas fileiras.
Os escravos que o serviam, por outro lado, pareciam melhor habituados ao trabalho, derramando água em certos períodos naquela pequena plantação e removendo ervas-daninhas. Duas mulheres e dois homens, era mais que o suficiente para uma família em estágio inicial como a dele, mas o ex-Cavaleiro estava acostumado à constante abundância. Dez servos no mínimo, apenas para ele.
Ao menos aqueles se mostravam mais obedientes, não fazendo barulho, nem questionando suas ordens. Deixou que Ágape os instruísse em como deveriam trabalhar naquele lugar, para ela e o escorpiano. E naqueles meses que se passaram, não houve qualquer conflito entre os dois lados, o que poderia ser considerado algo bom. O escorpiano gostava de subordinados obedientes.
Ele caçava, os escravos plantavam e as escravas cozinhavam. Quando os ossos e o couro estavam prontos para serem trabalhados, o antigo Escorpião preparava coisas de uso comum, como facas para cortar carne, pequenas tigelas para preparo de alimentos, pentes, alfinetes, tiras de couro de diversos tamanhos... E quando precisava ir para a vila próxima, designava um escravo para acompanha-lo e o deixava negociar o que fosse preciso. Era assim que as coisas vinham funcionando.
Enquanto isso, a mulher de cabelos verdes apenas se dedicou aos cuidados que sua gestação exigia. Descansando na cama a qual Scorpio teve o cuidado de forrar com peles de lobo e de urso, para deixá-la o mais macia possível; se alimentando das melhores partes da caça por ele provida; sendo zelosamente cuidada por ele. Maços de ervas aromáticas e medicinais perfumavam seu aposento, provendo a calma que os dois tanto precisavam.
De certo modo, aquilo o deixava ansioso. Foi a primeira vez que escolheu uma companheira de verdade, e era a primeira vez que acompanhava a gestação de uma cria sua. Às vezes sentia que não iria dar conta, uma vez que humanos eram bem diferentes de grifos e ninfas.
Bem diferentes...
O Caçador suspirou pesadamente e se retirou dali, indo na direção do local onde estavam guardados o seu arco e sua aljava, cheia de flechas novas. Aquele era um bom dia para caçar e talvez poderia encontrar um javali grande e gordo só para ele. Ou talvez dois…
— Está saindo, Theron? – A voz de Ágape soou baixa, à suas costas.
— Estou. – Ele respondeu, virando-se para ela. – Você precisa ficar forte novamente para continuar alimentando o nosso filhote corretamente.
A mulher estava parada na entrada, pálida e de aspecto cansado. No corpo, uma tira de pano trazia um bebê adormecido junto ao seu peito. Estava vestida com uma túnica rosada e nova, amarrada atrás do pescoço, que mal demarcava seu corpo. Os cabelos verdes estavam presos em uma trança relaxada sobre o ombro livre. Por aqueles dias, se permitia ficar descalça, para sentir um pouco do chão fresco sob seus pés inchados.
— Theron, eu já falei que nossa filha não é um “filhote”, mas uma criança. – Ela falou rindo, olhando para sua pequenina. – Nossos filhos não são bichinhos para chamá-los de “filhotes”!
— Eles não são plantas ou pedras também. – O ex-Cavaleiro respondeu, erguendo uma sobrancelha. – “Crianças” são filhotes humanos.
— Ah, eu desisto! Você nunca vai aprender! – A ex-escrava falou, rolando os olhos azuis e respirando fundo.
Isso fez com que ele mostrasse um sorriso e fosse até ela, abraçando-a com cuidado. Em seguida, acariciou o rostinho rechonchudo e rosado do bebê. Ainda não tinham escolhido um nome para a pequena. Ágape achou melhor fazê-lo apenas quando completasse o primeiro mês de idade, uma vez que era muito comum que os recém-nascidos não sobrevivessem aos primeiros dias.
A menina tinha uma pelugem azul, tal qual o pai, e com os traços faciais da mãe. O parto fora um pouco demorado e angustiante para Ágape, que precisou suportar um dia inteiro de dores intensas até que a criança viesse ao mundo. Contudo, sentiu-se plena ao receber a pequena em seus braços pelas mãos da própria parteira que fora chamada.
Scorpio, que esperou pacientemente do lado de fora do quarto, se sentiu recompensado no momento em que pode segurar sua menina com suas mãos grandes e desajeitadas. Era visível que ele temia machucar a criança ao manuseá-la, mas a mulher insistiu. Ele era o pai e também deveria usufruir do momento.
Ao final daquele exaustivo dia, ele ofertou aos deuses Apollo e Athena, uma jarra grande de azeite e uma caça, como agradecimento pelo nascimento da pequena, assim como pelo bem-estar da mãe.
— É melhor você voltar para dentro e descansar. – Ele falou, beijando seus cabelos. – Aproveite enquanto o filhote dorme.
— Às vezes eu gostaria que você pudesse amamentá-la no meu lugar, para que eu pudesse dormir bem de fato. – Ela rebateu, rindo.
— Posso procurar umas amas-de-leite para nossa pequenina, mas acho que você não gostaria delas… – Comentou o Caçador, com tom jocoso.
— Não começa com suas ideias, Theron! – A mulher tratou logo de repreender. – Não quero minha menininha sendo alimentada por bichos!
Scorpio precisou colocar uma mão sobre a boca, para não rir alto e terminar acordando o bebê. Até algum tempo, esse gesto seria algo considerado inimaginável, impossível de acontecer, dado ao seu temperamento conhecido pela maioria. Beijou a companheira no alto da cabeça e a encaminhou para dentro da casa.
— Chegou há muito tempo? – Ele questionou quando não ouviu mais os passos da ex-escrava adentrando pela casa.
Antares saiu de trás da árvore onde estava escondida. Trajava uma túnica simples e rosada e um véu branco sob os cabelos, como se fosse uma mulher comum que estaria passeando por ali. Seu semblante não era dos melhores, mas não parecia ter passado dias em claro ou ruminando pensamentos ruins.
— Sentiu o meu cheiro, não foi? – Ela quis saber. – Eu não contava com a mudança do vento.
— Você precisa estar sempre preparada para essas coisas. Eu poderia ter achado que foi apenas minha impressão se você tivesse mudado o lugar onde estava escondida. – O escorpiano explicou, prendendo a aljava na cintura.
— Farei isso da próxima vez. – A escorpiana pensou, e franziu a testa ao vê-lo fazer aquilo. – Vai caçar?
— Sim. Sua irmã nasceu há poucos dias, então sua mãe precisa ser bem alimentada. – Ele explicou, notando que ela corou levemente ao ouvi-lo chamar Ágape de “sua mãe”.
O Caçador sabia o quanto era importante para a jovem ter uma mãe, uma vez que aquela que a gerou jamais poderia ser chamada disso. E ainda que a ex-escrava não partilhasse do sangue de sua filha, ele sabia muito bem que ela a amava como tal.
— E já que você está aqui, você vem comigo. – Ele completou sem dar a ela muito tempo para pensar.
— Ah… que?! – Ela indagou, ainda surpresa. – Eu?!
— Exatamente, você vem comigo. Quero ver o quanto você ainda se lembra do que eu te ensinei sobre caça. – O ex-Cavaleiro respondeu sem qualquer cerimônia.
— Ah… tudo bem… – A Amazona falou, dando de ombros, tirando o véu da cabeça e o amarrando na cintura. – Eu não tenho escolha, não é mesmo?
— Não, você não tem. – Ele concordou com um sorriso. – Vamos ver como estão as suas técnicas de rastreio.
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Castor perdeu as contas de quantas vezes checou se o irmão estava bem enquanto ele dormia. Repetia o mesmo ritual para verificar se o mais velho ainda respirava e se seu coração ainda batia no peito desnudo enquanto dormia, para rir em seguida. Diferente dele, Pollux era imortal, então jamais morreria. Porém, assustava ao príncipe espartano a simples ideia de que seu amado irmão nunca mais despertasse daquele sono restaurador.
E parecia que o primogênito também tinha esse medo, pois os escravos do Templo contaram que ele tinha uma reação bem parecida quando o caçula dormia. O sondava constantemente, checando se estava vivo com frequência e ajoelhando-se ao pé da cama, agradecendo a todos os deuses por aquilo.
— Deveria estar descansando. – Disse Pollux reabrindo os olhos dourados e fitando o irmão, abrindo um discreto sorriso. – Como se sente?
— Agora, aliviado. – Respondeu Castor, abraçando ao irmão com força. – Foi tão real que… que… Droga! Eu tive medo de te perder, meu irmão!
— Assim como eu. – O mais velho o abraçou de volta, apertando-o para junto de si. Sua voz estremeceu sutil, mas perceptivelmente. – Foi algo real demais... Tão real que senti o seu sangue em minhas mãos. – E desvencilhou dele por um momento. – E nem sei o que exatamente nos atingiu.
O mais novo o olhava com lágrimas em seus olhos castanhos. Tinham conversado a respeito do que aconteceu e do que tinham visto quando estiveram sob efeito do ataque de Melinoe.
— Acho que foi alguma ilusão… Mas ainda assim, foi algo… algo assustador demais! Irmão, algo como aquilo é impossível, não é?! Você é forte, muito mais que eu! E-eu jamais poderia...
— Você suportou bem, meu irmão. – Falou o mais velho batendo de leve em seu ombro. – O que quer que tenha sido aquilo, foi capaz de mergulhar em nossa mente e ir ao mais profundo inconsciente resgatar nossos medos, ou algo semelhante, para nos intimidar. – Comentou ele bufando. – E isso é algo que devemos trabalhar para não acontecer de novo… E acho que sei quem pode nos ajudar.
— Oráculo? Kheiron? – O mais novo arriscou nos palpites.
O Príncipe-Herdeiro não respondeu aquela pergunta, limitando-se apenas a passar a mão no cabelo castanho do caçula. A resposta era um tanto óbvia, mas tinha certo receio de que nem mesmo ele pudesse ajudar, o que terminaria por obrigá-lo a procurar outra pessoa.
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O rastro seguia pela floresta não muito distante da casa. Um pequeno bando de cervos havia passado por ali e agora era o alvo dos dois caçadores. Ela seguia atentamente à trilha, parando em alguns momentos para farejar o ar e conferir o solo de terra e folhas mortas.
A jovem usava uma pequena lança improvisada, feita com um galho do qual encontraram e esculpiram na hora, apenas para aquilo. Não precisava de uma arma, de fato, contudo não via necessidade de chamar a atenção queimando seu Cosmo. Tampouco queria que isso acontecesse. Não avisou a ninguém sobre sua ida até a casa paterna, nem mesmo a Ganimedes, embora não duvidasse que ele tivesse suspeitas de que ela faria algo assim.
— E então, como estão as coisas no Santuário? – Scorpio perguntou, satisfeito por ver que Antares não parecia ter esquecido seus ensinamentos. – Senti um abalo no Cosmo, vindo daquela direção.
— Ah... bem, meu pai. – Ela respondeu sem prestar muita atenção ao que ele disse. – Uns problemas menores, nada para se preocupar.
O ex-Cavaleiro suspirou profundamente e balançou a cabeça. Odiava quando a Amazona mentia, e odiava ainda mais quando ela ficava distraída daquela forma.
— Tem certeza? – Ele questionou com um tom mais sério.
— Aham! Tenho sim. – A jovem replicou, olhando as marcas em uma árvore.
— Antares…! – A voz do Caçador soou mais grave e pesada, fazendo-a se arrepiar e se encolher logo em seguida.
Scorpio viu sua filha virar-se lentamente para ele e encarar seu semblante pesado.
— Eh… tá bom, talvez tenha acontecido uma coisinha ou duas… – Ela tentou disfarçar, mas aquilo apenas serviu para que ele semicerrasse os olhos rubros e ferinos.
— Você não acha que vai conseguir mentir para mim, certo, mocinha? – Ele rosnou cruzando os braços.
— Ah… meu pai, podemos conversar sobre isso depois da caça? Os cervos podem nos ouvir e…
— Antares… – O pai pronunciou seu nome em um tom mais alto e pausado. – O que aconteceu?
— Ah… apenas um Espectro que invadiu o Santuário e causou algum estrago. Nós conseguimos dar um jeito nisso… – A ateniense explicou tentando parecer calma.
— Um Espectro… A julgar pelo Cosmo que senti, talvez um Juiz ou uma Estrela Celeste, não é? – Ele continuou, sem tirar os olhos dela. – Qual o nome dele?
— Ele não se apresentou. – Antares respondeu, mais rápido que deveria.
Scorpio respirou lenta e profundamente, fazendo com que a jovem se encolhesse outra vez. Ele levou uma mão ao rosto, enxugando o suor que brotava dado ao calor e ao nervosismo que sentia toda vez que ela fazia aquilo. O semblante duro ganhou ares tristes lentamente.
— Por que continua mentindo para mim, Scorpi? – O ex-Cavaleiro quis saber, com um tom mais melancólico. – Por que ainda não confia em mim?
— M-mas eu confio no senhor! – A Amazona tentou retrucar. Chegou a aproximar-se um pouco. – De onde tirou que eu não confio...?
— Onde há mentira não há confiança, minha criança. – Ele falou, suspirando, embora a voz soasse firme. – Eu pergunto a você o que houve e o que me responde? Com uma mentira, como se eu não percebesse quando esconde a verdade de mim.
— Meu pai, eu…
— Chega disso, Scorpi. Nós não sairemos daqui até que você me conte o que aconteceu. – O escorpiano impôs, dispondo o arco no ombro. – Não veio até aqui sem motivo. A senhora Athena jamais permitiria que um de seus Cavaleiros de Ouro saísse em um dia como esse. Não é uma data festiva, para que ela derrame sua piedade sobre algum felizardo para liberá-lo do constante trabalho. – E ergueu o indicador para ela, como um último aviso. – Então, me responda, e não ouse mentir novamente para mim. Não me faça arrancar a verdade de você.
Ela engoliu a seco diante do aviso. Não era uma ameaça, pois sabia muito bem que ele a cumpriria, embora não soubesse como. Scorpio era um mestre paciente e um pai amoroso com ela, mas também era um torturador nato, tanto física como emocional e mentalmente. Chegara a assistir seus interrogatórios nas poucas vezes em que o acompanhou em missões mais afastadas. Não conseguia imaginá-lo fazendo o que fez aos alvos anteriores, contudo, não era uma aposta que queria fazer.
Conhecia muito bem sua reputação.
E então a Amazona falou. Contou a respeito da invasão de Melinoe ao Santuário, dela ter conseguido derrubar os Cavaleiros de Gêmeos e a dominado, fazendo ver o terror mais profundo que sentia. O que Ganimedes lhe relatou, uma vez que a escorpiana não se lembrava de qualquer ocorrido. E de como, depois de tudo, despertou na Fonte de Athena, aos cuidados de Kheiron e das sacerdotisas do templo.
Sua voz, a princípio incerta vacilava na medida em que avançava na narrativa. Lágrimas inundavam seus olhos rubros e desciam por sua face, a qual seu pai fazia questão de erguer pelo queixo, com suavidade e secá-las com a mão livre.
Quando terminou aquele assombroso relatório, Scorpio puxou a filha para seus braços, amparando-a. Ela não chorava ruidosamente, mas seu sofrimento estava ali, bem nítido.
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