Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
36 O Início do Fim
Notas iniciais
Ganimedes olhava para as ovelhas que pastavam ao longe. Um garoto de prováveis doze anos e seu cachorro tomavam conta do rebanho, cuidando para que não se afastem muito do perímetro estabelecido. Era uma visão que o enchia de saudades e de certa melancolia. Devia ter aproximadamente aquela idade quando o próprio Zeus o recrutou, embora rapto fosse um termo mais adequado.
Apesar daquilo, não o odiava. O Senhor dos Deuses tinha sido muito bom com ele e permitia que visse sua família, ainda que de muito longe. Por quantas vezes ansiou pelo abraço materno, enquanto esteve lá? E agora, nada daquilo lhe pertencia mais. Seus pais estavam mortos, levados pelo tempo e pela tristeza. A Tróia [01] de seu tempo não existe mais, nem a sua família.
Talvez fosse por isso que se agarrava com tanta força às pessoas que conseguiam se aproximar. Embora se mostrasse extrovertido na maior parte do tempo, fazia uma certa questão de manter as pessoas longe, com certos comentários impertinentes. Não foi com isso que conquistara a confiança de Scorpio, mas eram esses comentários que os faziam rir durante as cada vez mais raras conversas longas que tinham naqueles últimos anos.
O aquariano não evitou de suspirar pesadamente. Não ia mentir para si mesmo, ainda pensava nele. Por mais que odiasse seu afastamento, reconhecia que era necessário, uma vez que o Santuário era um péssimo lugar para bebês de peito e que ele nunca se sentiu de fato acolhido ali. Rapidamente, fez as contas de cabeça, percebendo que tinha uma grande possibilidade da mulher ter finalmente parido, ou estar próxima de fazê-lo. Quando toda aquela sandice divina terminasse, iria para a cidade e arrumaria algum presente para a família.
Carne para o Caçador se banquetear, vísceras para a mãe ter forças e prover o melhor leite para o infante, e alguma coisa para o recém-nascido. Talvez uma manta de lã cuidadosamente tecida e tingida, ou um punhal de ouro e marfim para uso futuro. Com um pouco de sorte, conseguiria ficar um pouco a sós com o ex-Cavaleiro e matar sua saudade.
Podia não gostar nem um pouco da mulher ou de como ela “domesticou” Scorpio, porém não queria se indispor com ele. Além disso, tinha que reconhecer que Ágape tinha feito muito pelo amigo. Mais até que todos os escravos, aprendizes ou amantes do ex-Cavaleiro que conheceu. Curou suas feridas mais graves, enfrentou sua fúria diversas vezes com a cabeça erguida e ainda assim conseguiu “colocar uma coleira” nele.
“Diabos! A maldita merece um lugar nos Campos Elísios só por isso”, ele pensou, deixando um riso cínico escapar e olhou de lado. “Quanto tempo será que ela vai conseguir viver ao lado dele?”.
O latido do cão pastor o tirou do devaneio, fazendo-o erguer os atentos olhos verde-água em sua direção. O animal estava voltado para algum ponto fixo, com as costas arqueadas, enquanto o rapaz tentava acalmá-lo e as ovelhas corriam para se salvar. O troiano voltou-se cuidadosamente para onde parecia vir o foco da comoção, um ponto distante no horizonte. Nuvens escuras como sangue se aglomeravam no céu, fazendo com que ele se arrepiasse.
— Merda…! – O Cavaleiro de Aquário deixou escapar e correu na direção do rapazinho.
✶~~✶✶✶~~✶
Uma sombra se abateu sobre o Santuário, fazendo com que o Guardião do Primeiro Templo olhasse para cima, desconfiado. Densas nuvens haviam se agrupado, cobrindo o horizonte de ponta a ponta. Mesmo os pássaros haviam parado de cantar, e o vento agora parecia tímido e morno. Até pouco tempo, não tinha qualquer sinal de que uma tempestade se abateria por aquela região.
— Mas que raios...? Justo agora? – Ele deixou escapar, bufando.
— SENHOR CRISÔMALO!!! – Alguém chamou apressadamente pelo Cavaleiro de Áries, que estava em seu posto, com o forte sotaque das terras ao norte da Grécia. – Senhor Crisômalo, é uma emergência!
O ariano correu até o rapaz. A julgar por suas vestes, era um dos aspirantes de nível intermediário que deveria estar se recuperando de seus ferimentos, e estava muito assustado, ao ponto de arfar e engasgar com as palavras.
— Calma, jovem. O que aconteceu? – O Cavaleiro disse, correndo em seu socorro.
O Dourado apanhou o odre de água que trazia na cintura, entregando-o para o mais jovem, observando-o com atenção. Não devia ter mais que dezoito anos, alto e encorpado, de músculos definidos, como era de se esperar para quem passou anos e anos treinando a fio. Pele alva como alabastro, queimada pelo sol forte e cabelos cor-de-mel, lisos e finos..
— E-eles... Eles voltaram!!! Os Espectros voltaram, senhor!!! – O terror era nítido em seus olhos azuis. – Rodorio está sendo atacada! Eles estão matando a todos sem distinção! Mestre
— O QUÊ!? – Disse Crisômalo, incrédulo, segurando-o pelos ombros com firmeza. Sabia que aquilo era ruim demais, principalmente porque Athena ainda estava ausente, e que poderia ser isso que estivesse motivando o ataque. – Os Cavaleiros já foram alertados?
— Sim, senhor! – O mais novo respondeu, aproveitando para recuperar o fôlego. – E-eu avisei o máximo de Cavaleiros e guardas enquanto vinha para cá!
— Perfeito. Agora eu preciso que você faça mais uma coisa. – Falou o Dourado, puxando a face do rapaz para encará-lo.
✶~~✶✶✶~~✶
Rodorio estava em chamas.
Primeiro vieram os Esqueletos, guerreiros de pele cadavérica que trajavam armaduras que se assemelhavam a ossadas, portando gadanhas [02] afiadas. Eles atacavam qualquer coisa que se movesse ou gritasse. Os animais que seguiam para os pastos, as crianças que brincavam nas ruas, as mulheres que carregavam ânforas de água para suas casas ou mesmo os homens que tentavam detê-los. Todos passados ao fio de suas lâminas, sangrando aos borbotões antes de emitirem o sopro final.
Em seguida, vieram os Espectros, com suas Súrplices escuras. Seus risos de prazer se misturavam aos gritos de pavor das vítimas. Golpes eram lançados a esmo, destruindo edifícios. Um grupo de Esqueletos havia cercado uma pequena família nas ruínas de uma casa e se divertia, apostando quem seria o último a morrer, enquanto balançavam suas armas a esmo, ferindo os pais que usavam seus corpos para proteger os filhos menores.
O sangue se misturava com a terra batida, formando densas poças de lama vermelha. Ouvia-se claramente da voz dos próprios invasores que a ordem recebida era para não permitir que restassem sobreviventes. Houve aqueles que, movidos pelo desespero, tentaram negociar com os Espectros, na esperança de sobreviver. Quase todos foram assassinados.
Guardas e Cavaleiros se apressavam em chegar, transformando a vila em um campo de guerra. Um lado tentava causar o maior estrago no outro, porém havia um problema enorme. O invasor podia retornar dos mortos em poucas horas e era mais numeroso.
Tudo estava indo conforme um determinado espectador havia planejado.
Do alto de um Templo profanado, Nyctimus observava aquele caos com um sorriso satisfeito no rosto. O terreno perfeito para executar a parte que lhe fora delegada. Se cumprisse sua parte, certamente seria recompensado. Teria reconhecimento, coisa que nunca aconteceu nos anos em que fora obrigado a servir Athena.
Sua Armadura fora substituída por uma Súrplice
Dali, viu um Cavaleiro de Bronze correndo em sua direção, embora não visse sinais de que tinha sido notado por ele. Parecia estar procurando algo ou alguém, e isso fez com que o Lobo sorrisse.
Desceu de onde estava com um salto, se aproximando vertiginosamente do guerreiro, que só o percebeu quando era tarde demais. Ao virar-se, foi recebido pelas duas mãos do traidor, revestidas pelas garras da manopla, rasgando-lhe a Armadura Sagrada, a carne e os ossos. As vísceras escorregaram prontamente pelo amplo ferimento, junto com a cascata de sangue. Em pouquíssimos segundos, o Cavaleiro de Bronze estava morto.
— Ah…! Como eu amo o cheiro do sangue… – Nyctimus falou com certo prazer para si mesmo. – Isso me traz boas recordações, dos tempos de meu amado pai [03]... – E caminhou para dentro do Templo.
Lá foi recebido pela visão da estátua da Deusa Athena despida de seu manto e suja com o sangue dos sacerdotes mortos, cujos corpos estavam empilhados em seu altar. Alguns eram uma massa disforme de sangue e carne, enquanto outros restava apenas alguns ossos com um pouco de carne, como se algum animal tivesse se alimentado deles. Uma visão da qual o traidor achou muito agradável.
— SENHOR NYCTIMUS! – exclamou um dos Esqueletos adentrando no templo esbaforido, ignorando todo aquele cenário à sua volta. – O senhor precisa ver isso! – e apontou para fora do Templo, de onde era perceptível uma grande movimentação externa.
O Cavaleiro Renegado apenas empurrou o Esqueleto sem qualquer cerimônia e caminhou para fora do prédio. Grandes pilares de luz surgiam em diversos pontos do vilarejo, mas não aleatoriamente. Por muito tempo caminhou por aquele espaço para conhecer o bastante os acessos, compreendendo bem o que estava sendo feito ali e sorriu de maneira insana.
“Estão fechando os principais acessos daqui…”, concluiu ele virando-se para cada pilar de luz que se erguia. “Criando corredores, isolando a nós e resguardando outra parte do vilarejo? Muito inteligente, Carneiro Dourado....”, e riu daquilo.
✶~~✶✶✶~~✶
Crisômalo de Áries assistia do ponto mais alto seus Cavaleiros levando os pilares e criando corredores seguros enquanto os aspirantes guiavam o máximo de civis possíveis para dentro do domo que ele havia criado. Os Esqueletos eram aprisionados ou mesmo levados para caminhos contrários, garantindo assim segurança aos sobreviventes. No entanto, sabia que não seria por muito tempo.
Fazer aquele labirinto demandava muito Cosmo e concentração. Sendo ele o único Cavaleiro de Ouro presente na área, não demoraria para que um inimigo devidamente preparado o encontrasse e o atacasse. Além do mais, estava lidando com a possibilidade daquele ataque estar sendo coordenado por um traidor.
Esperava com isso ganhar algum tempo até que os outros Dourados pudessem chegar com seus subordinados para ajudá-lo. Pelo menos um deles.
Contudo uma rajada de Cosmo irrompeu de algum lugar vindo de baixo do ariano, fazendo com que ele saltasse para não ser atingido. Olhou na direção de onde aquele golpe veio e conseguiu reconhecer Nyctimus. Sentiu o sangue subir à cabeça ao perceber que vestia uma Súrplice e que ela tinha formas muito parecidas com a Armadura de Lobo.
— Maldito! – Praguejou o ariano, pousando no telhado da construção ao lado. – Achei que não ia aparecer. Ratos como você são os primeiros a fugir ao se depararem com um guerreiro de verdade. – Bradou.
O Renegado riu daquilo.
— Sempre imaginei que fanfarra fosse algo exclusivo daquele gato sarnento enfiado em uma veste de ouro, mas vejo que o carneirinho também gosta de se pisar nos outros. – Rebateu ele, fazendo o Cavaleiro cingir os olhos. – Pode vir, Crisômalo, eu estou pronto pra enfrentar vocês há tempos!
Áries olhou discretamente ao redor, percebendo que suas Muralhas de Cristal se mantinham. Aquilo era um bom sinal, mas também significava que ele teria que lutar com cuidado, para que os aldeões pudessem seguir em sua fuga seguros.
O Guardião do Primeiro Templo não conteve o sorriso e desapareceu das vistas do Renegado. Nyctimus arregalou os olhos e procurou pelo seu oponente, momentos antes de ser golpeado no rosto pelo punho e atirado contra o chão. O impacto fez com que uma parte do chão afundasse com a violência e levantou uma nuvem de poeira.
— Espero muito, traidor, que não esteja pensando que eu sou como Íficles ou com Scorpio, que se divertem brincando com o adversário antes de matá-lo. – O ariano falou, surgindo bem a sua frente, elevando o Cosmo com fúria. – Eu vou acabar com você aqui mesmo e acabar com esse espetáculo ridículo do qual está promovendo.
— Eh?! – O outro falou, se levantando sem muita dificuldade. – Quero ver se vai conseguir.
Ainda assim, o Renegado se sentiu desconfortável com a situação. Embora o Carneiro Dourado não fosse mais alto que ele, sua aparência era intimidadora com aquela pele morena e olhos cinzentos, quase brancos. Os cabelos púrpuras, bem escuros e lisos, pareciam serpentes agitadas sob a brisa quente que soprava.
Áries elevou o seu Cosmo subitamente, erguendo um braço na altura do ombro. De sua mão, um globo de luz dourada cintilou. Ele o ergueu para o alto e, em seguida, direcionou contra Nyctimus, juntamente com outra dezena de raios de luz, que se desprenderam de sua mão.
— Extinção Estelar. – O Cavaleiro de Ouro sussurrou.
O Renegado tentou desviar daquele ataque, em vão. O primeiro feixe raspou em sua Súrplice, rasgando-a, e o segundo o atingiu bem ali, queimando sua carne e fazendo com que se contorcesse de tanta dor. Os demais o atingiram em diversas outras partes do corpo, primeiro destruindo sua proteção e depois seu corpo.
Ele caiu de joelhos no chão, sangrando. Concluiu que aquele golpe foi quase tão potente quanto o de Íficles, embora sem metade da raiva que ele investia. E isso estava bem longe de significar que Crisômalo era menos letal.
O traidor se levantou rápido, com um sorriso sangrento nos lábios, e abriu bem as mãos, fazendo com que suas manoplas se convertessem em garras. Correu na direção do Carneiro Dourado, ávido para destruir sua veste sagrada, da qual tanto se vangloriava, entretanto, esbarrou em uma muralha translúcida bem a sua frente.
— Não me confunda com Íficles, verme! – O ariano rosnou com um sorriso sádico no rosto. – Eu não brinco em serviço. Irei puni-lo de modo que sirva de exemplo para todos os que ousarem pensar em trair à Deusa Athena. – E ergueu novamente o braço para um novo golpe.
Mas Nyctimus também não estava disposto a prolongar aquilo por muito mais tempo e explodiu o seu negro Cosmo. Os pedaços de sua Súrplice regeneraram, tornando a cobrir o seu corpo, e o elmo se fechou em sua face, dando-lhe a aparência de um lobo.
“É muita perda de tempo...”, Áries pensou, lançando um olhar discreto na direção das barreiras que tinha levantado. Não sabia ao certo por quanto tempo elas iriam durar. “Espero que meus subordinados tenham conseguido salvar aquelas pessoas...”.
Ainda que breve, o Renegado aproveitou aquela distração, queimou seu Cosmo e avançou, uivando logo em seguida. O som potencializado de sua voz fez com que a muralha cristalina a sua frente se despedaçasse de imediato. Crisômalo arregalou os olhos surpreso e levou as mãos aos ouvidos, sentindo uma dor excruciante.
O traidor sorriu e projetou suas garras contra o oponente, atingindo-o no grande chifre torcido da Armadura, quebrando o bastante dela para expor parte do corpo do Cavaleiro. Estava prestes a atingir outro golpe quando o ariano conseguiu se afastar com um salto desajeitado, contudo o desequilíbrio ao aterrisar quase o fez cair. Isso deu a Nyctimus mais uma oportunidade.
Ele ergueu um punho envolto por uma aura escura e golpeou. A figura de um lobo se formou no ar, correndo na direção do Dourado, que terminava de se estabilizar. Áries ainda chegou a erguer as mãos, fazendo com que cristais começassem a se formar na sua frente, compondo uma parede, porém não ia dar tempo de concluí-la. O impacto era quase certo, quando, de repente, diversos feixes de luz se formaram a frente do ariano, anulando completamente o golpe.
— Mas o quê?! – Nyctimus deixou escapar, incrédulo do que acabara de presenciar.
— ELE É MEU, CRISÔMALO… – Exclamou Íficles diante do ariano com um tom incisivo diante de seu olhar atônito e perplexo. – … E DE MAIS NINGUÉM! – E voltou-se para seu antigo subordinado. – EU vou terminar o que comecei!
Áries olhou surpreso para Leão que se colocava na sua frente, despedaçando os fragmentos da Muralha de Cristal que ainda estavam ali. Sua fúria era tamanha ao ponto do Cavaleiro atordoado sentir os pelos da nuca se levantarem.
— Eu… eu irei terminar de evacuar os moradores. – Crisômalo falou, se recompondo. Os ouvidos ainda doíam, mas a situação era bem mais suportável que há pouco.
— Terminar o que começou? – O outro riu, inicialmente, de modo contido. – Não me faça rir!!! Sabe que essa luta é inútil! Quantas vezes morrer será quantas vezes irei renascer! – Disse abrindo os braços – … diferente de você… – E apontou para o Leão Dourado com suas mãos sujas de sangue. – … a quem farei um tapete do qual poderei pisotear e cuspir por muito e muito tempo.
— Veremos. – O leonino rosnou, queimando seu Cosmo de maneira violenta.
O Cavaleiro de Leão avançou sobre o antigo Lobo, tendo os punhos a se chocarem. A energia despendida ali levantou uma nuvem de poeira que os envolveu.
Crisômalo aproveitou aquilo para sair, usando sua Extinção Estelar para derrubar alguns Esqueletos que cercavam a área e barravam sua passagem. Com a fúria de Íficles e a sede de sangue de Nyctimus, temia as consequências daquela luta e dos poucos civis ainda que eram removidos do vilarejo. Como medida preventiva, levantou uma grande muralha de modo a garantir que nada pudesse acontecer ao redor. Não precisaria durar muito tempo, bastava apenas que suportasse o suficiente até ter certeza de que não havia mais inocentes por ali.
Com os olhos claros, Íficles viu o companheiro de lutas desaparecer pelas ruas e sorriu. Com um movimento vigoroso dos braços, seus punhos se afastaram dos de seu oponente, dando-lhe espaço o suficiente para traçar um arco de luz com a mão.
— COROA-RELÂMPAGO! [04]
O golpe atingiu Nyctimus em cheio, em uma lâmina de eletricidade luminosa, destruindo sua Súrplice de Lobo e cauterizando sua carne. O impacto fez com que o Renegado fosse atirado para trás, com um jorro de sangue a marcar o percurso. Por mais que conhecesse bem a violência com a qual o Leão Dourado lutava, não tinha conhecimento daquela técnica e se amaldiçoou por isso.
— EU VOU COMER AS SUAS VÍSCERAS, MALDITO! – Urrou o traidor, corroído de dor e raiva.
Entretanto, o Cavaleiro de Ouro parecia não estar disposto a cometer o mesmo erro da outra vez.
Mal o traidor terminara de dizer isso e sentiu o punho de seu adversário atingi-lo como um aríete na boca, quebrando os dentes da frente, os quais tinham demorado a se refazer desde a última luta. Contudo, Íficles não recolheu o braço de imediato, deixando um sorriso maldoso surgir em sua face.
Nyctimus arregalou os olhos cinzentos ao sentir um calor intenso se formar no buraco onde antes era a sua boca, seguido de um formigamento.
— Prove da minha Cápsula do Poder. – Rosnou o Cavaleiro, explodindo seu Cosmo, fazendo com que inúmeros feixes de luz partissem de seu punho, atravessassem o crânio e o corpo do Renegado, deixando-o em farrapos deformados e carbonizados, em meio a uma cratera cheia de placas de terra solidificada.
O corpo do traidor caiu lentamente para trás, mas não sem que o leonino tivesse a desagradável impressão de que ele sorria de satisfação… como se tivesse cumprido um objetivo.
Mais por precaução que qualquer outro motivo, o Leão pulverizou os restos de seu oponente, para que não retornasse tão cedo, e voltou-se para o Templo de onde o viu sair. O que quer que fosse o motivo daquela expressão que vira, provavelmente estava ali dentro.
✶~~✶✶✶~~✶
Sob os restos mortais empilhados no altar, surgiu um homem de alvos cabelos longos. Vestia uma Súrplice negra e púrpura, cujas asas longas e majestosas se encontravam abertas. Os olhos dourados e analíticos observavam tudo ao redor, ajudando-o a se situar naquele espaço.
Ele desceu do altar profanado, vendo-se sozinho naquele salão, mas podia sentir o Cosmo queimando do lado de fora. Uma luta se desenrolava em meio àquele caos.
— Parece que agora é a minha vez… – Ele falou com um ar cruel, movendo os dedos brancos.
Os corpos que ainda estavam inteiros estremeceram e se levantaram, como que puxados por cordas invisíveis.
Aquilo seria um bom começo.
Fale com o autor