Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
29 O Medo Maior
Notas iniciais
Um grito cortou a noite e ecoou pelos corredores do Templo de Gêmeos, fazendo com que os escravos corressem em sua direção. No quarto amplo, Castor arfava sentado, lívido e com os olhos castanhos arregalados de puro terror. Levou uma mão ao rosto suado, sentindo a ponta dos dedos formigando.
“A-aquilo foi real?!”, ele se perguntava o tempo inteiro, sentindo medo de ouvir a verdade. “N-não... não pode... A-aquilo é impossível... N-não... eu nunca...! Nunca...! Não ele...”
— Mestre Castor, o senhor está bem? – Um servo surgiu em sua porta, acompanhado de uma mulher bem mais velha. Ambos com feições aflitas. – Pudemos ouvi-lo de longe...
— O-o que...? – O Cavaleiro se questionou, desorientado. – Onde...?
— Está em sua morada, mestre Castor. – A serva falou, se aproximando. – O senhor Cadmus o trouxe aqui, junto com o mestre Poll...
Aquela menção o deixou preocupado. Lembrava-se de ter encontrado um invasor em sua ronda junto com o irmão. O enfrentaram, porém foram engolidos por uma escuridão aterradora. O corpo inteiro estremeceu em um calafrio doloroso ao lembrar disso.
— O-o meu irmão... Onde está o Pollux?! – O geminiano questionou, fazendo menção de se levantar, contudo fora rapidamente impedido pelo servo.
— Acalme-se, meu mestre. Mestre Pollux está bem! – O criado falou, apontando para o lado.
O mais velho dos gêmeos estava deitado na outra extremidade do espaçoso leito, em um sono profundo demais para despertar mesmo com toda aquela barulheira. O subir e descer suave de seu peito indicava que estava realmente vivo, e aquilo trouxe algum alívio para o caçula.
— Não sei o que aconteceu, mas foi muito custoso ao mestre Pollux dormir. – A mulher falou apreensiva, atraindo a atenção de Castor. – Ele não queria sair de seu lado, de maneira alguma. Dava para perceber que estava assustado com alguma coisa, só que ele não dizia o que era. Ficou umas três horas sentado ao seu lado. Parecia estar com medo de que alguma coisa tivesse acontecido com o senhor...
— E-então... aquilo foi só... um sonho? – O Príncipe de Esparta murmurou, sentindo uma onda de relaxamento tomar o seu corpo. Lágrimas inundaram seus olhos castanhos naquele momento. – Foi só um sonho...! Um sonho muito ruim! – E riu aliviado, chorando.
Ele engatinhou até o irmão adormecido e lhe tomou uma mão, sentindo-a morna. Seus dedos fecharam-se suavemente em torno da palma do mais jovem, como se fosse uma resposta para tranquiliza-lo.
Os escravos se entreolharam. Ver seus senhores naquele estado era algo muito singular, principalmente quando um deles, literalmente, chorava de felicidade. Ainda que o mais novo dos irmãos fosse o que mais demonstrasse suas emoções, elas nunca eram tão visíveis quanto se mostravam naquele momento.
Será que o mais velho reagiria da mesma forma ao saber que o caçula estava bem?
— Não deveria estar fora da sua cama, Castor. – Disse Cadmus entrando no quarto, mas sem sua indumentária Dourada. Tinha um semblante preocupado e carregava um jarro com água fresca, entregando-a a um dos servos. – Pollux está bem, mas muito cansado, e você também precisa descansar. Ele vai querer vê-lo bem pela manhã.
— Meu irmão… E-ele está bem, não é? – O geminiano perguntou com a voz trêmula. – É verdade que ele está bem, não é?
Aquela pergunta chamou a atenção do pisciano. Sabia o quanto o laço que unia os irmãos era forte, pois já havia presenciado um bom número de vezes em que os dois se uniam em combate. Ou quando um arrumava briga em algum lugar, e o outro intercedia. O mais velho sempre foi mais conciliador e analítico que o explosivo e emocional caçula. Entretanto, nunca tinha presenciado algo como aquilo: O cuidado de um para o outro.
— Sim, ele está. Diria que se encontra bem melhor. – O Cavaleiro de Peixes afirmou e voltou-se para o Príncipe-Herdeiro de Esparta adormecido. – Custou para convencê-lo de deitar e dormir um pouco para se recuperar também. – E forçou um sorriso. Tomou uma taça, que estava no quarto, em mãos e o serviu com água. – De certo está com muita sede. Refresque-se! Seja lá o que aconteceu, tudo não passou de uma ilusão.
— Ilusão... ? Sim… É isso mesmo… Foi só… só uma mentira… um sonho ruim! – Castor concordou com uma risada nervosa, aceitando a bebida que era oferecida. – Ele… ele estará melhor amanhã, não é? Ele sempre se recupera primeiro!
— Sim, ele vai. – Cadmus falou e ajudou ao Cavaleiro a voltar para sua cama. – E é por isso que precisa estar bem quando ele acordar. Não vai querer que ele fique preocupado, não é mesmo?
— Não… a única coisa que eu não quero no mundo inteiro, é preocupar ao meu grande irmão... – O mais novo dizia, enquanto voltava para o leito.
O visitante sentou em uma cadeira próxima e ficou ali, observando aos irmãos. Falava de coisas mais amenas, na esperança de distrair a cabeça do espartano mais novo. Um pouco de sua terra natal e da saudade que sentia de lá, fazendo com que o outro ficasse cada vez mais contemplativo, ou fazendo promessas de acompanha-los nas próximas bebedeiras. Eventualmente olhava para um vaso de camomilas [01] que perfumavam o aposento.
Quando Castor finalmente adormeceu mais uma vez, o pisciano não evitou um sorriso sereno. Levantou-se e deu mais algumas instruções aos escravos dos gêmeos, em especial para que mantivessem as flores no vaso vivas pelo máximo de tempo que conseguirem.
— Eu sabia que esses irmãos eram bem próximos, mas nunca imaginei que fossem tão assim. – Ele falou, se dirigindo à porta.
— O senhor não faz ideia do quanto. – Uma escrava respondeu, sinalizando para que o outro acompanhasse o Cavaleiro até a saída das dependências. – Agora é a nossa vez de cuidar deles.
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Antares sentia o corpo pesado e sem forças naquela escuridão. Já nem se importava mais com o cheiro de mofo e excrementos que impregnavam o aposento sem qualquer entrada de luz ou de ventilação maior que o buraco por onde entravam ratos durante a noite e dias de chuva, para morder suas pernas e braços.
O cabelo empapado de suor grudava no rosto quente, movendo-se apenas mediante o sopro de sua respiração tão leve que, quem a visse, poderia julga-la morta. Nenhum pensamento ocupava a sua cabeça, além de algum meio de se libertar definitivamente daquelas trevas. Tivera um sonho tão bonito...
Sonhou que fora resgatada, ainda criança, por um homem de cabelos e olhos iguais aos seus. Que ele cuidava dela e a adotava como sua filha, onde uma mulher ajudava a curar suas feridas, e um homem gentil afagava seus cabelos quando solitária. Tinha ficado forte e se tornado uma guerreira. Que tinha atingido tamanho prestígio que recebera escravas para cuidarem de sua morada grande e espaçosa, enquanto ela combatia os injustos. E isso a fez rir amargamente.
Era uma ateniense. Mulheres atenienses nunca lutariam. Muito menos ela... Uma pornai [02].
O som de uma porta pesada se abrindo pareceu rasgar seus ouvidos, junto com a luz de uma lamparina de azeite. Fechou as mãos sobre o amontoado de palha suja no qual estava sentada, encolhida. Mal teve tempo para prender a respiração, quando o jorro de água fria e perfumada foi atirado sobre seu corpo. Uma mulher gritava alguma coisa sobre uma visita, na medida em que entrava carregando coisas, junto com mais alguém do qual a escorpiana já sabia de quem se tratava. E isso a fez vomitar.
Outro jorro de água perfumada foi lançado sobre ela, seguido de uma tapa em seu rosto. Mãos fortes a puxaram pelo pulso, colocando-a de pé e rasgando o trapo que vestia, sem perder a oportunidade de toca-la. A jovem tentou lutar, embora nem de longe com a mesma vontade que fazia quando mais nova. Puxava os braços e se encolhia ao chão, mas logo depois de alguns puxões de cabelo e uma tapa atrás do pescoço já a colocavam de pé novamente.
Enquanto era vestida pelo casal que a mantinha ali presa, sentia mãos inoportunas em locais onde não deveriam estar. Sentiu vergonha e terror diante daquilo, no entanto, já estava cansada, sem mais saber o que fazer para impedir. Todos os seus pensamentos se voltavam para uma única saída.
O tecido que cobriu sua pele parecia fresco e leve, e grudava em seu corpo ainda úmido. Antares sabia o quanto aquilo agradava aos homens que ali apareciam e ao homem que terminava de amarrar porcamente a veste em seu ombro.
Ela quis vomitar outra vez, contudo teria de se segurar até receber permissão para voltar.
Colocaram alguma coisa em seus cabelos, uma odiosa coroa de flores de áster, a julgar pelo cheiro que julgava nauseante. Sussurraram alguma mentira em seu ouvido e a empurraram para fora daquele quartinho escuro e abafado sem qualquer cuidado.
Ao chegar na sala, viu seus clientes já devidamente acomodados, bebendo vinho em taças de prata e conversando qualquer coisa da qual a escorpiana não prestou atenção. Até o momento em que reconheceu suas vozes e arregalou os olhos vermelhos.
— N-não... – Ela murmurou reconhecendo Castor e Pollux ali, naquele aposento.
Sua voz trêmula pareceu atrair a atenção deles, que calaram sua animada conversa e rapidamente esvaziaram suas taças, para só então se levantarem. Caminharam em sua direção, analisando-a de alto a baixo, tocando sua roupa, apenas para constatar a leveza do tecido. A cada checagem o sorriso nos lábios dos geminianos aumentava. Estavam gostando muito do que estavam vendo ali.
Pollux a rodeava, levando a mão aos cabelos dela e cheirando-os. Com um dedo, tocou seu queixo, obrigando-a a erguer a cabeça e encara-lo com seus olhos amendoados e rubros. Aqueles olhos dourados pareciam prestes a devora-la.
— Minha senhora, parece que não exagerou ao falar dessa jovem. – Castor falou, voltando-se para a mulher mais velha ali presente. – E creio que meu irmão também está bastante interessado no que está vendo.
Sentiu o corpo estremecer, compreendendo o que estava acontecendo e o que estaria por vir. Vê-los sorrir daquela forma, fez com que todo o sangue do corpo de Antares parecesse desaparecer. Mãos rudes a empurraram para cima dos irmãos, que a ampararam e riram. O mais velho não se fez de rogado em segura-la contra seu corpo e suspende-la para que a boca alcançasse o corpo que estava cobiçando.
Nervosa, ela sequer conseguiu de mexer, enquanto era deitada sobre uma mesa e outro rasgava suas vestes.
“Primeiro você, meu irmão”, foi tudo o que a jovem se lembrou de ouvir, antes de irromper em um grito do mais puro terror.
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Ganimedes estava sentado na cama, passou um bom tempo ali, monitorando-a enquanto desacordada. Tinha chegado com Antares em seus braços e logo a entregou aos cuidados de suas servas, mas alguma coisa o impeliu a ficar até ter certeza de que ela estaria bem. Enquanto era banhada, ele preparava o quarto para recebe-la, e isso implicava em fazer com que a temperatura local caísse o suficiente para tornar as paredes de pedra frias.
Scorpio havia contado que o quarto quente fazia com que ela tivesse pesadelos com mais frequência. Tratou de checar o conteúdo da pequena boneca que sempre estava junto ao travesseiro onde ela apoiava a cabeça, ficando feliz em perceber flores e folhas frescas ali dentro. Conferiu cada elemento do qual o escorpiano, ou mesmo aquela ex-escrava que o Guardião do Décimo Primeiro Templo tanto detestava, certamente havia instruído as novas servas a terem atenção. Ficou muito satisfeito ao constatar que tudo parecia estar onde deveria.
O aquariano a ajudou a se deitar no leito e a cobriu docemente. Manteve-se ali, ao seu lado, vendo-a chorar sem dizer qualquer palavra do que aconteceu. Tudo o que conseguiu fazer foi um acordo com a escorpiana: Ela descansaria, mas ele ficaria ali, perto. O troiano nem mesmo pensou duas vezes e aceitou com um sorriso.
A Amazona adormeceu não muito depois, tendo os cabelos azuis-escuros afagados pelo Cavaleiro, e coberta por uma pesada manta vermelha. Ele não tirou os olhos dela, nem mesmo quando o cansaço começou a cobrar de seu corpo. Acomodou-se em um assento próximo à cama e ali ficou observando-a ressonar, por vezes agitada, por vezes calma.
Tudo parecia tão tranquilo após algum tempo, que o próprio Ganimedes sentiu seu corpo relaxar o bastante para que começasse a adormecer. Até o momento em que Antares se ergueu da cama aos gritos, implorando que a soltassem. Ele caiu da cadeira, precisando de alguns segundos para se orientar, antes de vê-la novamente em choro convulsivo, segurando a própria cabeça, assustada.
O troiano se colocou ao seu lado, envolvendo-a cuidadosamente em seus braços, sussurrando calmo em seu ouvido. Precisava fazer com que se sentisse segura e rápido, ou estaria correndo perigo. Olhou para a boneca, agora jogada ao chão e para os ramos de camomila ao lado da cama. Cadmus tinha pedido para que ele pusesse junto do leito, para que a ajudasse a relaxar, mas Aquário duvidava que aquilo fosse o suficiente.
— Acalme-se, criança. Está tudo bem. Tenha calma! – Ele falou, tentando faze-la olhar para seu rosto. Precisava que ela o reconhecesse urgentemente. – Tudo bem… sou eu… Ganimedes. Tenha calma, por favor!
Não demorou para que as servas do Templo surgissem na porta, alarmadas. O troiano precisou ser rápido, sinalizando para que elas não se aproximassem. Tudo o que menos precisaria naquele momento, era que a escorpiana ficasse ainda mais assustada.
Antares arfava violentamente, lívida e em lágrimas. Precisou de alguns instantes para perceber onde e com quem estava, embora não tivesse feito qualquer esforço em esconder sua desconfiança, escondendo o corpo com os braços da forma como podia. Estava claro que ela se perguntava se ainda não estava presa naquele pesadelo. Contudo, o perfume das flores parecia estar surtindo efeito, pois sua ruidosa respiração se abrandava.
— Isso, respire... Respire fundo comigo e solte o ar devagar pela boca. – Ele falou, ficando aliviado por ver que ela o acompanhou naquilo que estava propondo, usando movimentos suaves com as mãos para guia-la. – Mais uma vez...
— O... onde...? – A Amazona tentou questionar, contudo sua voz mal se fez ouvir.
— Está segura, pequena. – O aquariano disse de modo amável, mexendo em seus cabelos, buscando seu rosto. – Está tudo bem. O que quer que tenha visto, foi uma ilusão, um sonho, tudo bem? Não foi real. Tome… – E pegou um copo com água que estava na cabeceira. – Beba! Está fresca. É água, tudo bem.
Com as mãos trêmulas, ela o obedeceu, chegando a engasgar, tamanha a avidez com a qual bebia. Ganimedes a amparou mais uma vez, batendo suavemente em suas costas, até que aquela crise se acalmasse. Só então a ajudou a se deitar lentamente, ajustando os travesseiros para apoiar bem as suas costas.
— O-o que... o que aconteceu? – Ela quis saber, embora sua voz saísse fraca.
— Não sei se esse seria o melhor momento para discutirmos isso, pequena. – Ele falou preocupado, olhando-a. – Acho que você deveria descansar um pouco mais. O que acha? – E voltou-se para suas escravas. – Tragam algo para ela. Algo leve e morno.
As duas mulheres se entreolharam, porém nada disseram. Apenas curvaram-se em respeito e se retiraram, prometendo que voltariam com um caldo de vegetais.
— O-onde está... onde está Aquela Mulher...? – A escorpiana perguntou, dessa vez conseguindo soar um pouco mais alto que um murmúrio.
— Queria eu que estivesse morta e sendo despedaçada no Submundo. – O aquariano deixou escapar, porém logo se deu conta do que disse. – Ah! Desculpe! Eu não...
— F-foi um... pesadelo... não foi? – Ela questionou, parecendo não tê-lo escutado. Tinha os olhos rubros arregalados a procurar qualquer sinal estranho no quarto. – I-isso aqui... isso aqui é real, não é? Eu não vou fechar os olhos e acordar mais uma vez naquele quarto, não é!? E-eles não vão me encontrar aqui, não é?!
O antigo príncipe de Troia se viu apanhado pelas perguntas dela. Cada uma trazia uma nota de terror puro escondida. Mesmo depois de sete anos, ela ainda trazia vívidas as lembranças daquele inferno onde passou sua infância.
— Não, criança, você não vai. – Ele respondeu serenamente, e ali ficou, olhando-a com doçura.
Ganimedes se inclinou ao chão, apanhando a boneca e a colocando no colo da jovem. Debaixo de seus olhos escarlates estavam duas olheiras, indicativo de que ela estava completamente sem energia. Ele tomou um copo que estava sobre a cabeceira e o cheirou, certificando-se de que se tratava do chá que a acalmava. Deu-lhe a bebida e a viu sorver o líquido de maneira obediente.
— Não tema, pequena. – Ele falou, com um sorriso piedoso para ela. – Eu velarei pelo seu sono. Se não me encontrar, não hesite em chamar por meu nome. Eu virei correndo, mesmo que esteja em Aquário. – E a deitou com cuidado mais uma vez e pousou a coberta sobre o peito, não resistindo em dar um suave beliscão em seu queixo.
Não demorou para que Antares se deixasse vencer pelo cansaço e pela bebida mais uma vez, diante de um Cavaleiro preocupado.
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