Notas iniciais
Enquanto os feridos se recuperam, os Cavaleiros de Ouro tentam compreender o que aconteceu.

Athena olhou para Cadmus com claro desagrado. Três de seus Cavaleiros de Ouro tinham caído para apenas um Espectro e estavam recebendo cuidados em seus respectivos Templos. Pelo relato do pisciano, concluiu facilmente de quem se tratava: Melinoe, filha da Imperatriz Perséfone, e uma perigosa ninfa do Submundo. Conhecida por, eventualmente, vir ao Mundo dos Homens para assombra-los com a visão daqueles que já se foram. Cães que ladravam sem motivo aparente na verdade anunciavam sua passagem, invisível dos olhos humanos, buscando vítimas para levar à loucura.

Uma Deusa de menor importância, mas ainda assim, uma Deusa.

Com um aceno, ela dispensou o Cavaleiro, depois de dar ordens para que redobrasse os cuidados na patrulha. Não podia mais esperar. Se era guerra o que seu tio Hades queria, então ele teria guerra.

Retirou-se para seus aposentos, onde iria planejar tudo cautelosamente com Niké. Cuidaria para passar uma mensagem tão clara quanto àquela que passou para Poseidon, há dezessete anos. Seus Cavaleiros TERIAM que estar prontos para essa empreitada, principalmente Antares, que seria o elemento-chave.

Pelo que escutou de Cadmus, a jovem herdou a violenta sede de sangue de seu mestre. Foi um golpe de sorte para a divindade saber daquilo. Deveria ter imaginado, levando em consideração que sabia muito bem que a jovem era herdeira de sangue de Scorpio. Não tinha como negar aquilo, só não sabia com quem. A julgar pela ausência de virtudes divinas, só podia acreditar que fora com alguma jovem desavisada que cruzou o seu caminho.

Era pouco provável que uma hetera [01] ou uma pornai o atraísse, muito menos que se descuidassem a esse ponto. Além disso, tinha traços delicados que a fariam pensar que, talvez, o Caçador pudesse ter desenvolvido uma certa apreciação por mulheres de boa estirpe. Mas, levando em consideração quem o educou e de onde veio, talvez aquilo fosse uma escolha óbvia.

Era uma curiosidade irrelevante, mas que às vezes a fazia perder horas de pensamentos. Justo ele, que tanto enfatizava odiar humanos, e que terminou por se unir a uma, passando o manto de Cavaleiro para sua herdeira… Athena não conseguiu evitar o sorriso que veio aos lábios.

— É, Scorpio… nunca diga que não comerá dessa fruta… – Ela murmurou, se deslocando para uma sala adjacente, acompanhada de duas de suas Saintias.

Com um gesto, a deusa ordenou que lhe fosse servido um pouco de vinho, para molhar a garganta, enquanto a outra providenciava um prato com frutas frescas. Tão logo foi atendida, e as dispensou, ordenando que fossem atrás do Cavaleiro que estava responsável pela área na qual o confronto ocorreu.

Estava certa de que Melinoe precisou derrubar alguns guardas até ser encontrada pelos Cavaleiros de Ouro que confrontou. Algum Cavaleiro de Prata deve ter percebido que seus subordinados foram abatidos de alguma forma. A pergunta que pairava era apenas: Como?

E pelo que Cadmus havia dito, a ninfa do Submundo estava segura demais de si... até o momento em que tinham chegado ali.

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Antares finalmente havia dormido outra vez, para o alívio de um Ganimedes muito preocupado. Ele deslizava os dedos pelos cabelos dela e enxugava o suor de sua testa de tempos em tempos, indicando o sono agitado dela. Sua boca entoava as últimas palavras de uma canção de ninar troiana, que sua mãe cantava, quando ele ainda era uma criança. Apenas quando teve certeza de que o único ruído que escutava era o da suave respiração da jovem, o aquariano se permitiu afastar do leito com um ar torturado.

Aquilo que presenciou não foi a mesma coisa que Scorpio manifestava quando em combate, muito menos o mesmo que ela tinha demonstrado em treinamento. Não tinha sido o cheiro de sangue que despertou aquela reação incontrolável, isso era algo que estava bem evidente para o troiano. Não foi êxtase e nem fúria, mas terror puro e absoluto.

Precisava descobrir o que a ninfa do Submundo fez para desencadear uma reação violenta como aquela, na Amazona, era imperativo. Tinha que saber do que se tratava, e trabalhar a cabeça dela para evitar futuros surtos em batalha.

Caminhou de um lado para o outro, com os pés descalços em contato com o chão frio. Tirava as sandálias sempre que se encontrava naquele aposento, para não incomodar quem estivesse repousando. Chegou a tomar uma taça e enche-la com água, da qual tomou em um gole rápido. Nada do que vinha em sua mente parecia servir.

Ouviu-a se mexer, tirando-o de seus devaneios com um salto e fazendo com que ele a olhasse. Respirou aliviado ao ver que Antares havia apenas mudado de posição. Esperava que o chá concentrado a fizesse dormir até o dia seguinte para que pudesse se recuperasse bem, enquanto o Cavaleiro pensava em algo urgentemente. Algo que não fosse difícil de convence-la a fazer.

Não poderia mantê-la dopada por muito tempo, tampouco poderia permitir que outros soubessem que a jovem poderia ter acessos violentos como aquele.

— E agora...? – Ele questionou, levando uma mão ao queixo, preocupado. – O que Scorpio faria em uma ocasião dessas?

— Eu faria com que se sentisse segura e elevaria sua confiança. – A voz grave do ex-Cavaleiro soou a suas costas, arrepiando-o.

Ganimedes virou-se com os olhos arregalados e não conseguiu conter a alegria que veio em seu peito ao ver aquele corpulento homem parado não muito distante dele.

Mesmo vestido como um camponês, ele se destacava. O porte robusto e a altura já eram fatores intimidantes, mesmo dentro do Santuário, mas o ar selvagem que trazia nos olhos vermelhos e fendidos era o que mais assustava. Nem mesmo o aquariano escapava de sentir um calafrio quando percebia aqueles olhos focado em algo, ou alguém. Era como presenciar uma grande fera espreitando uma presa frágil e indefesa.

E, naquele momento, foi assim que se sentiu.

— Theron, eu te amo e você sabe disso, mas… – O Cavaleiro de Aquário reclamou com a mão no peito, sentindo o coração bater forte pela surpresa, e respirou aliviado, rindo em seguida. – Nunca mais me assuste assim aparecendo do nada! Principalmente após o que houve hoje e que ainda quero entender o que aconteceu. – E serviu-se demais água, tomando num único gole. – Aliás, as notícias foram tão longes assim para vir até aqui?

— Senti cosmos familiares serem abalados, fiquei preocupado com Antares e resolvi checar pessoalmente. – Ele apenas respondeu, caminhando na direção da filha, olhando-a consternado. – Um Espectro fez isso?

— Sim, foi. – Falava o Aquariano apenas acompanhando-o com o olhar. – Não sabemos o que houve, apenas que foi suficiente para derrubar os gêmeos e deixar até mesmo para derrubar Pollux e deixar Antares tal qual você, num estado de fúria incontrolável. – Desculpou-se, suspirando. – Lamento, mas precisei dopá-la para que pudesse descansar e não representar uma ameaça a mais ninguém.

Theron respirou fundo, levando uma mão ao rosto barbeado. Sem dizer qualquer coisa, sentou ao lado da cama, olhando para a jovem adormecida. Podia ver o medo em seu rosto e senti-lo pelo seu cheiro. O que quer que tenha acontecido, a abalou profundamente. Isso o deixou preocupado, pois significava que ela não estava tão amadurecida quanto ele julgava. Por um momento, Scorpio se amaldiçoou por coloca-la naquela situação.

— Muitos poderiam ter feito isso. 108 Espectros, fora os habitantes de relevância variada que habitam o Submundo. – O escorpiano explicou. – Mas, por hora, descanso é tudo o que ela precisa. Provavelmente não vai querer falar a respeito, então não deve insistir. Apenas… – E parou por um momento, escolhendo cuidadosamente suas palavras. – Apenas reforce o quão querida ela é. E que sempre terá um lugar para ir, quando estiver cansada do mundo. Que sempre haverá uma cama seca e limpa esperando por ela, junto de um prato cheio de sopa quente.

— Não precisa me pedir isso, meu amigo… – Comentou o Dourado de Aquário levando as duas mãos à cabeça e deixando-as deslizar pelos fios. – O que me preocupa, de fato, é de possíveis sequelas que isso pode ficar. O que vai acontecer quando acordar e o quanto isso vai interferir nela. Se aquilo voltar, eu não sei o quão destrutivo pode ser. Desapareceu antes mesmo que pudéssemos fazer qualquer coisa e não deixou rastros!

Ganimedes percebeu quando o amigo soltou um profundo suspiro de desolação.

— Ei, calma! Ninguém sabia que algo assim iria acontecer! Ela lidou com tudo muito bem nesses dias e... – O troiano tentou interceder, quando foi interrompido pelo ex-Cavaleiro.

— Não é essa a questão. Não duvido de suas habilidades, mas vejo que sua mente ainda não estava completamente pronta. – O escorpiano falou, voltando a olhar para a filha com certo remorso. – O erro que cometi no passado não irá se apagar tão facilmente, então é preciso que isso seja compensado de alguma forma. Se Antares deseja continuar seguindo esse caminho, terá que aprender a não se abalar, pelo bem dela mesma.

O aquariano olhou para o outro, digerindo lentamente suas palavras. Por um instante temeu que ele fosse sugerir que a Amazona abandonasse seu posto e voltasse para casa junto com ele, contudo sentiu-se feliz ao se descobrir errado. Nem mesmo se poupou de uma repreensão por achar que justo o Caçador, tão orgulhoso de sua aprendiz, iria sugerir que a jovem depusesse armas para viver uma vida simples, longa e longe das glórias que poderiam ser alcançadas.

— Dê segurança a ela. É tudo o que minha criança irá precisar no momento. – O ex-Cavaleiro continuou, afagando os cabelos da escorpiana. – Disse que os gêmeos também foram afetados, não foi? Tem notícias deles?

— Castor foi o mais afetado, se é que me entende. Pollux ficou muito perturbado, embora mais preocupado com irmão. – Comentava o troiano enquanto se sentava. – Ambos estão adormecidos também, sob efeito do mesmo chá dado à Antares... em doses mais fracas, claro.

Scorpio piscou incrédulo ao ouvir aquilo. Compreenderia alguém fazer frente a Castor ou a Antares, contudo Pollux era um semideus, filho do próprio Senhor dos Deuses. E mesmo quando realizavam os treinamentos juntos, no Santuário de Athena, era muito difícil derrubar o Príncipe-Herdeiro de Esparta em uma batalha. Mesmo o escorpiano não o conseguia sempre.

Ele voltou-se completamente para o antigo príncipe de Tróia com uma forte expressão de dúvida na face.

— Um único Espectro fez isso? Tem certeza?

— Sim, você não ouviu errado. – Afirmou Ganimedes, curioso com a reação do amigo. – Por que acha que estamos tão preocupados com relação a isso?

— Como era esse Espectro? – Scorpio quis saber.

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— Você está me dizendo que “os tesouros de Esparta” caíram para um único e insignificante Espectro? HAH! Isso sim é novidade! – Íficles de Leão bravateou com uma risada maldosa.

Ao seu lado, Anupo de Câncer o censurava com os olhos escuros, levemente caídos, embora soubesse que nada o faria parar. O leonino nunca gostou dos Gêmeos, mas os respeitava como guerreiros valorosos na maior parte do tempo. E ali, naquele momento, parecia que todo o respeito que tinha por eles, escoou como água barrenta nas ladeiras mais íngremes.

— Íficles, é bom medir suas palavras. – O canceriano o alertou, olhando ao redor da praça vazia onde se encontraram durante a ronda. Não queria que alguém de patente mais baixa, ou mesmo os aspirantes, ouvissem aquele tipo de conversa. – Foi preciso três Cavaleiros de Ouro para derrotar um único Espectro e isso por si só já é muito preocupante. Até que eles se recuperem, não fazemos ideia de quem seja e do que esse inimigo pode fazer! Podemos ser atacados novamente e...

— Dois Cavaleiros de Ouro! – Pontuou o outro contando nos dedos. – Aquela mulher não conta. Ela nem deveria estar aqui, mas em uma casa, servindo ao pai, marido ou qualquer outro homem, engravidando e tendo filhos para cuidar. – E cuspiu no chão, quase aos pés do canceriano que precisou puxar a perna para não ser atingido.

Câncer rolou os olhos diante daquele discurso. Não seria muito diferente em sua terra natal, no Egito, onde homens e mulheres também tinham seus papéis definidos. Contudo, de onde veio, elas também tinham muito mais liberdade para cuidar de seus assuntos, e não eram menos letais.

Quando ainda integrava o sacerdócio local, ele mesmo chegou a presenciar alguns treinos de algumas das sacerdotisas. Onde elas tinham que conciliar a graça de seus corpos com o manuseio de lâminas, em um estilo de luta belo e mortal. E, por alguma razão da qual temia saber, ele suspeitava que Antares também fora instruída nessa arte.

Talvez pela desenvoltura de movimentos que viu realizar durante os treinamentos.

Ou talvez por conta do pouco que ouviu a respeito daquele que a antecedeu...

— Ao que contam, ela foi uma que enlouqueceu e está lá… – Íficles apontou para o alto, na direção do Monte Zodiacal, interrompendo os pensamentos do colega. – … Sendo bajulada por aquele troiano arrogante, que deve estar lambendo as feridas dela. Deixou o espectro fugir e vocês aí, confiando nela. Hunf!

— Então você foi derrotado e ainda está quase inutilizado por alguém que é irrelevante? Já que ela não conta e ainda assim te pegou de jeito… – O outro comentou, olhando-o fixamente. – E sobre ela enlouquecer, não me surpreendeu em nada. É uma mulher grega, ateniense, arrisco dizer, e era aprendiz daquele carniceiro a quem ouço chamarem de “O Caçador”.

Aquelas palavras foram como um golpe na boca do estômago, fazendo-o engasgar momentaneamente.

— Eu estava com a guarda baixa e não estava usando minhas forças. Subestimei aquela lagartinha, mas não numa próxima vez quando arrastarei aquela carinha, com máscara e tudo, nas pedras do anfiteatro! Pode escrever! – Íficles bradou e deu de ombros. – E para uma aprendiz daquele outro, outra razão para não fracassar já que ele se julgava tão confiante.

“Ela também não parecia estar usando todo o poder dela, mas isso você nunca irá admitir...”, pensou o Cavaleiro de Câncer, desviando o olhar para algum ponto qualquer. Sabia que aquela conversa não daria em lugar algum, além do leonino tentando se fazer valer com sua arrogância.

— Esquecendo esses pormenores e voltando ao assunto… – Continuou o canceriano levando a mão ao queixo. – Aquele poder que senti não foi de um espectro qualquer. Era… intenso! – Ele expressou ainda intrigado. – Patrulheiros estão investigando por onde poderia ter vindo, mas… há algo muito estranho nisso porque o caminho de onde vinha deveria estar bem vigiado.

— De onde exatamente essa… coisa… surgiu? – Questionou o leonino de maneira desdenhosa.

— Segundo o relato de Cadmus e Ganimedes, da entrada que fica na direção dos campos de treinamento ao sul, onde costumamos treinar com nossos subordinados. – O egípcio respondeu, voltando-se para o colega. – Até onde sei, sempre tem alguém lá, por conta da proximidade com os campos onde os recém-iniciados realizam suas tarefas básicas.

O Cavaleiro de Leão arqueou o semblante intrigado, encarando diretamente ao colega, antes de desviar o olhar, pensativo. Se bem lembrava, era onde o Cavaleiro de Lobo deveria estar patrulhando na noite passada juntamente com outros Cavaleiros e guardas do Santuário. E ele havia visto o mesmo naquela manhã sem grandes ferimentos, ou mesmo nenhum, a considerar o tão bem aparentava. Coçou o queixo intrigado com aquilo.

— Algum problema, Íflicles? – Indagou Anupo, percebendo o quão contemplativo ele havia ficado de repente.

— Não, não é nada. – Mentiu ele se voltando para o Dourado. – Apenas que não é um lugar que fica deserto. Há sempre Cavaleiros de Prata fazendo patrulha na redondeza. Mas se esse espectro deitou alguns Dourados, dentre eles o semideus, o que dirá de reles humanos. – E se colocou a andar. – Farei algumas perguntas e verei o descubro. Afinal, alguém tem que trabalhar e não ficar velando corpo.

Dito isso, se retirou, praguejando mentalmente. Alguma coisa estava acontecendo debaixo do seu nariz e ele não estaria sabendo? Com um pulso de cosmo, enviou uma mensagem rápida para Kartal de Águia, a única pessoa em quem ele sabia que poderia confiar cegamente, ainda que nunca admitisse isso abertamente.

Notas finais
01 – Hetera, ou hetaira, é uma cortesã ou prostituta de luxo que eram sustentadas por clientes ricos. Eram refinadas e ofereciam, além de prazeres carnais, prazeres culturais. O nome Hetaira, significa companheira, e foi utilizado em alusão a Afrodite Hetera, um dos epítetos da deusa Afrodite.