Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
31 Estado de Emergência
Notas iniciais
Ainda naquele mesmo dia, a Deusa da Sabedoria declarou estado de emergência no Santuário. Todos os Cavaleiros de Ouro deveriam realizar a contagem de seus subordinados, desde os guerreiros sagrados, aos soldados que os acompanhavam. As baixas deveriam ser relatadas de imediato para que providências pudessem ser tomadas. Algumas Saintias foram designadas para reforçar a segurança nos alojamentos onde as crianças dormiam e os templos mais importantes, como a Fonte de Athena, onde os doentes e feridos recebiam atenção.
Ao seu lado Pegasus e Partita caminhavam. Fariam pessoalmente uma última vistoria no Santuário antes da deidade partir em uma viagem, junto com eles. Iria pessoalmente ao Olimpo e lá convocaria uma Assembleia, onde exporia a hostilidade aberta de Hades e o obrigaria a cessa-las.
Íficles pouco se importava com aqueles “detalhes” no momento, pois tinha outra preocupação. Estava no local onde os Gêmeos e Antares confrontaram o Espectro, procurando qualquer sinal suspeito. Seus olhos vagavam minuciosamente pelo local. Alguma coisa no que Anupo disse o incomodou demais.
Segundo o que ouviu, os Gêmeos foram praticamente subjugados pelo Espectro ao ponto do semideus prostrar-se ajoelhado diante do irmão caído. Se bem lembrava de ter visto ambos lutando na Guerra Sacra contra Poseidon, aquilo seria um feito e tanto. Nem mesmo quando o viu enfrentar Scorpio, por uma jovem como espólio de guerra [01], o espartano se curvou. Havia perdido a contenda de forma extraordinária, mas em momento algum seu joelho dobrou para o escorpiano.
“O que poderia fazer aqueles dois prostrar-se diante de um único Espectro?”, perguntava-se o leonino, coçando o queixo. Olhou para o espaço ao redor e não encontrou qualquer evidência de um golpe desferido pelos dois irmãos. O que concluía era que ambos nem mesmo tiveram a chance de atacar.
Seus golpes eram amplos e tomavam uma grande área. Eram puras máquinas de destruição em massa, e não havia sinal de qualquer coisa que sugerisse que eles pudessem ter elevado o cosmo para tal.
No entanto, tinha marcas bem claras de Escorpião, fosse a própria Besta do Oitavo Templo ou aquela “baratinha” que o sucedeu. Ranhuras profundas, possivelmente causadas pelas garras da jovem. Ela havia lutado com ferocidade, teve uma única chance, ainda que algo tivesse acontecido ao ponto de Cadmus e Ganimedes precisassem “domá-la”.
Lembrou-se de quando viu o aquariano carrega-la nos braços, envolta em sua capa, imóvel. Provavelmente estava desacordada. O olhar do troiano, sempre tão alegre e despreocupado, era sombrio como poucas vezes o Guardião do Quinto Templo tinha visto desde que fora sagrado Cavaleiro.
— Senhor Íficles? – Indagou o Cavaleiro de Lobo com um ar surpreso. – Não imaginava encontrá-lo aqui. Fui incumbido de vistoriar essa trilha.
O Leão virou-se de repente, vendo ali o seu subordinado. O homem estava há um bom número de passos dele, olhando-o, e aquilo o incomodou. Era como se sua presença ali fosse algo extraordinário, quando na verdade seria apenas uma rotina, ainda mais naquele tipo de situação.
— Não é uma trilha inviável. – Comentou o leonino analisando ainda as marcas de combate, disfarçando. – Aliás, esse caminho é até muito comum, onde muitos Cavaleiros usam para descer até o vilarejo. Quem quer que tenha sido o Espectro, não teve receio de vir aqui sabendo que seria facilmente descoberto por Cavaleiros que passam por aqui. – E olhou fixamente para o Cavaleiro de Bronze, desconfiado. – Tenho a impressão de que era exatamente o que ele queria: Encontrar alguns fracotes para derrubar...
O leonino viu Nyctimus rir e não gostou nada daquilo. Havia uma tensão em seu olhar, que parecia procurar por alguma coisa ao seu redor.
— Diga, Cavaleiro. – Leão falou com um tom que mais parecia um rosnado. Virava-se lentamente na direção do outro. – Onde você estava durante o ataque?
— E-eu? Eu fui dar o alerta para as guarnições mais próximas! – Respondeu o subordinado, recuando um passo.
— Ah! Verdade… – Íficles assentiu, levando uma mão ao queixo. – Então me responda… Por que eles não foram avisados de nada?
Nyctimus arregalou os olhos diante daquela questão. Ensaiou alguma desculpa, chegando a gaguejar, e isso bastou para seu superior compreender tudo. Estava perdido… Ou talvez não…
O Cavaleiro de Bronze relaxou sua postura e se pôs a rir. De início era um som baixo, que aumentava gradualmente, até se tornar uma gargalhada histérica. Leão fechou o semblante, assumindo uma postura de guarda.
— Seu bastardo maldito! Você… foi você!!! – O Cavaleiro de Ouro praguejou entredentes. – O que pensa que vai conseguir com isso?!
— Aquilo que nunca me ofereceu e que outros viram de melhor em mim. – O Cavaleiro de Bronze deu de ombros. – O preço nem foi tão alto assim.
— O QUE?! – O leonino rosnou, fazendo seu cosmo explodir. – Eu te dei uma nova chance de se redimir depois da humilhação que aquela mulher te fez passar, e é assim que me retribui, fedelho?! Me desonrando dessa forma?!
— Você me falando de humilhação?! – Lobo gargalhou mais uma vez, apontando o dedo grosseiramente. – Não fui eu que fiquei acamado por dias por isso após uma luta vexatória com aquela meretriz, diante dos outros Cavaleiros de Ouro… Tsc! – E desdenhou. – Você por si só é uma desonra!
Mal terminara de pronunciar aquelas palavras e um intenso clarão tomou a área, que poderia ser facilmente percebido de quase qualquer ponto do Santuário. O poder destrutivo do Relâmpago de Plasma varria tudo em seu caminho, reduzindo o que quer que tocasse a um punhado de pó.
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Crisômalo de Áries virou-se na direção em que sentiu o cosmo explodir. Um clarão intenso despontava ao longe, derrubando as árvores na área e as pulverizando. Caminhou até próximo dos primeiros degraus da frente de seu Templo e ficou a observar apreensivo.
— Isso me pareceu o golpe de Íficles… – Ele comentou, olhando aquilo assustado.
— Posso estar enganado, mas… – Comentou Nikandros de Libra, surgindo ao lado do Ariano. – Senti um Cosmo tomado de ira que só lembro de sentir algo assim na Guerra Sacra contra Poseidon. Por um momento, achei que fosse o velho Escorpião fazendo das suas “entradas triunfais”.
— Não brinca com isso, Nikandros. Nem o Caçador não seria louco de vir aqui e nos atacar! – Apontou Áries, voltando-se para o visitante. – Além disso, já temos problemas demais. Os gêmeos e a atual Escorpião ainda estão incapacitados!
— Eu não apostaria que aquele maníaco tivesse tanto juízo, mas concordo que já temos muito com o que nos preocupar. – Rebateu Libra, sem esconder seu desgosto pelo antigo Cavaleiro de Ouro. – Precisamos descobrir o que está acontecendo.
— Será outro Espectro? Não estou sentindo nada de estranho... – O ariano questionou, ignorando aquele comentário que o fez ter calafrios, e fez menção de ir até lá, mas foi impedido pelo libriano.
— Você é a nossa primeira linha de defesa do Templo de Athena, caso consigam chegar até aqui. – Falou o outro, já se adiantando. – Eu irei. Alertarei os Cavaleiros de Prata e checarei o que houve. Você fica e avisa aos outros Cavaleiros de Ouro!
Sem muitas opções, Crisômalo concordou e assistiu a Nikandros descer as escadarias rumo ao local onde sentiram a energia emanar. Com um pulso de Cosmo, foi a vez de fazer sua parte, alertando os Cavaleiros das moradas mais acima e evocando as proteções de seu Templo.
“Ainda que a senhora Athena não esteja aqui, é nossa obrigação cuidar de seu recinto.”, ele pensou, não evitando de lembrar de toda a cadeia de obstáculos que havia na medida em que qualquer estranho avançaria. “E é claro que nós iremos orgulha-la.”
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Uma nuvem de poeira cobriu toda aquela área, criando uma vala com o golpe desferido pelo Cavaleiro de Leão onde estava o Lobo. Para sua surpresa, viu uma silhueta que se mantinha exatamente no mesmo lugar, envolto de uma esfera que parecia ter absorvido sua técnica e permitindo que o oponente não sofresse um único arranhão. Por outro lado, conforme a esfera esmaecia, a veste divina também desaparecia dando lugar uma indumentária diferenciada e enegrecida. E Íficles reconhecia bem aquele brilho.
— Isso é… a joia do Mundo dos Mortos?!!
— Impressionante, não é mesmo? – Nyctimus riu com orgulho, exibindo as braçadeiras que usava. – E também muito melhor que essas porcarias que a Deusa Athena nos dá para vestir. – Disse, erguendo o punho, preparado para um ataque.
A manopla escura se fechou na mão dele, prolongando-se pelos dedos e formando garras metálicas de um verde acinzentado. Íficles não fez qualquer esforço em esconder o desgosto em ver aquilo e até sentiu uma repuxada nas costas. Mas aquilo não iria se repetir, principalmente por perceber que aquele traidor a sua frente estava esquecendo de algo.
— O que são as garras de um lobo se comparadas com as presas do Leão? – Bravateou o Cavaleiro de Ouro, encarando-o fixamente.
— Não me parece grandes coisas, depois que o “Leão” foi pego e despedaçado por um inseto como um escorpião… – O outro provocou.
Íficles sentiu o sangue ferver diante daquela menção, que ainda estava tão fresco em sua mente como se tivesse ocorrido no dia anterior. Semi-cerrou os olhos e fechou o punho com força o bastante para seus ossos estalarem.
— Pelo visto o cão sarnento precisa de disciplina. – Rosnou o leonino, cujo olhar faiscava de modo intenso.
O Renegado Cavaleiro apenas abriu os braços e um largo sorriso impregnado de malícia e maldade. Tinha os olhos arregalados num breve momento de insanidade, ansiando pelo ataque que seu outrora superior estava para desferir.
— Venha! O que está esperando… Cavaleiro de Ouro de Leão….? – Instigou o Lobo Renegado com desdém ao referir-se ao seu título. – Venha dar-me tal “disciplina”. Será que receberei a mesma que dá ao seu querido Karthal?
O olhar de Íficles relampejou perigosamente por um instante. Seu Cosmo explodiu com tanta violência que o chão sob seus pés se partiu, abrindo um buraco. Nyctimus saltou para evitar os pedregulhos energizados que eram impulsionados pela força do outro, contudo não demorou para que o Leão surgisse, com o punho erguido, há poucos centímetros de sua face.
Por instinto, fechou os braços diante do rosto, mas não foi rápido o bastante. O soco do Cavaleiro de Ouro o atingiu em cheio na boca, partindo sua maxila em diversos pedaços e soltando seus dentes.
O Renegado foi atirado contra as árvores, quebrando tudo em seu caminho, quando sentiu um novo solavanco vindo de suas costas, numa nova explosão de dor, fazendo suas vértebras estalarem. Por um momento, pode sentir os pés tocarem sua cabeça, antes de ser arremessado na direção oposta.
Por um instante, que mais pareceu uma eternidade, Lobo pensou que Íficles finalmente tinha terminado seu espancamento.
Eles nunca demoravam muito, pois o Leão sempre procurava impressionar causando o máximo de dor em seus subordinados com um único golpe. Seu único cuidado era apenas o de não matar ou aleijar. Quantas não foram as vezes em que o próprio Nyctimus fora “disciplinado” ao ponto de ter dificuldade em respirar, tamanha a dor que percorria seu corpo?
Por vezes concluía que era melhor ser subordinado da “Besta do Oitavo Templo”, como alguns chamavam Scorpio em sua época de atividade. Até onde se sabia, ele não torturava os guerreiros sob seu comando, mas os matava de uma só vez, de uma forma muito mais rápida que o Guardião do Quinto Templo.
Percebeu o seu engano apenas quando viu a sombra do Leão pousar sobre sua cabeça. O Cavaleiro o encarava com os punhos fechados, fazendo o renegado compreender que sua “medida disciplinar” ainda estava longe do fim.
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— Está me dizendo que a Melinoe esteve aqui, no Santuário?! – Scorpio quase não conseguiu manter o tom de voz baixo. – Melinoe, Deusa que incita a loucura nas pessoas, atacando-as com seus maiores medos?!
—Então foi isso o que...?! – Ganimedes murmurou surpreso, tomando conhecimento daquilo.
Ambos traziam os olhos arregalados e a face tensa. O escorpiano sabia muito bem quem era aquela criatura, pois chegou a vê-la em algumas reuniões no Olimpo e teve o desprazer de ter atraído sua atenção em uma delas. Já o Cavaleiro de Aquário sequer se lembrava de qualquer coisa que não fossem as ordens que os Deuses lhes davam quando estava a servi-los.
Isso fez com que o escorpiano pousasse novamente os olhos sobre Antares, e engoliu a seco. De repente, já não lhe era mais tão inimaginável assim saber o que a fez ficar no estado em que o Cavaleiro descreveu. A pergunta que agora o corroía era: Quais de seus maiores medos foram usados?
— Ela falou alguma coisa quando foi atacada? Qualquer coisa que possa nos dar uma pista? – O ex-Cavaleiro perguntou, virando-se para o amigo.
— E-ela... ela questionou se essa era a realidade e que não despertaria novamente “naquele quarto”... – Respondeu o outro, engolindo a seco. – Todo esse tempo, e ela ainda não superou o que passou...
— No lugar dela, eu também não esqueceria, Ganimedes. – Scorpio confessou, levando os dedos aos olhos e os coçando. – Sempre que a vejo dormir, me lembro de quando a encontrei. Ela perguntou por “Aquela Mulher”?
— Não exatamente. Perguntou onde ela estava, parecia estar com medo daquele monstro em forma de pessoa, como se estivesse por perto. – Respondeu o aquariano. – Eu terminei deixando escapar que adoraria que estivesse nas profundezas do Tártaro, pois uma mulher que trate a filha daquela forma não merecia viver. Acho que ela não me ouviu, felizmente...
— Nisso concordamos. – O escorpiano admitiu sem qualquer pudor e voltou-se para o amigo. – Eu irei para Athenas, farei uma ronda pessoal por lá, em busca daquela criatura. Se encontrar, pelo menos poderei reduzir em um os medos de Scorpi.
— Você ainda não recuperou o rastro? – Questionou o troiano, apreensivo, voltando sua atenção para a jovem adormecida. – Acho que é a primeira vez que ouço falar em você perder uma presa assim.
— Eu demorei muito tempo para começar caça-la. Minhas prioridades mudaram naquela época e eu precisei me adaptar à nova rotina. – O homem corpulento deu de ombros. – Fazia muito tempo que eu não lidava com uma criança, e era a primeira vez que eu me via tendo que cuidar de uma... – Dizia, entretanto deteve-se, não sabendo como completar o raciocínio.
— ... Uma filha. – Ganimedes completou pelo amigo, vendo-o concordar.
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