Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
23 Confiança
Notas iniciais
Antares voltou às atividades depois de duas longas semanas. Para ajudar a passar o tempo, se dedicou a estudar e escrever registros sobre diversos assuntos, embora nem de longe fizesse frente ao vasto material que seu mestre deixou para ela. Mas era o suficiente para se ver precisando de mais espaço para os novos pergaminhos terminados.
Kheiron a visitou três vezes nesse período para acompanhar sua recuperação, ficando contente com o que via. Nem mesmo se privou de dizer o quão satisfeito estava em ver como aquela menininha pálida e fragilizada pela desnutrição se tornou uma Amazona de grande resistência, com a capacidade de se recuperar na metade do tempo. Para o centauro, aquilo era como um prêmio.
E tão logo ela pode retornar, foi rápida em perceber que alguma coisa parecia ter acontecido em sua ausência... novamente. O ambiente parecia diferente, tinha algo estranho no ar. Parecia mais pesado e sufocante. Passou por um grupo de Cavaleiros de Prata que matavam o tempo junto à uma coluna.
Percebeu que eles baixaram a voz quando notaram sua aproximação, e um deles não conteve um sorriso malicioso. Por mais que tentassem disfarçar, era óbvio qual o assunto que debatiam há pouco. Estavam olhando para ele.
“Pelo sangue de Athena, odeio isso... O que foi agora?!”, a escorpiana se questionou, sentindo calafrios diante daquela atenção. Conhecia aquilo bem demais para achar que era coisa da sua cabeça.
Cerrou os punhos com força e parou há alguns passos deles, encarando-os. Eram em quatro, sendo um deles bem mais velho, ao ponto de ter a barba salpicada de branco, contudo eram os mais novos que estavam incomodando-a mais.
— Vocês não deveriam estar cumprindo seus afazeres, em vez de estarem falando sobre a vida alheia? – Ela indagou sem cerimônias.
Sua voz estava firme. Precisava ser. “Eles nunca irão me respeitar se eu fraquejar... eu não posso deixá-los me atingir desse modo!”, pensava diariamente, as vezes mais de uma vez, como naquele momento.
Um olhar demorado e debochado foi a resposta que teve, antes que o grupo, comandado pelo mais velho, se dispersasse. A jovem ficou tão estarrecida diante da situação que levou algum tempo para se mover. Não compreendia o motivo daquela reação ante a um sermão tão simples como aquele. Já presenciara seu mestre, Ganimedes, ou mesmo Kheiron, dirigir-lhes a palavra de modo muito mais áspero e serem atendidos quase imediatamente, sem metade daquela hostilidade velada.
— Que bom vê-la recuperada, Escorpião. – Disse alguém às suas costas, revelando ser Pollux com suas vestes de treino, sorrindo casualmente. – Apenas sabia por Kheiron de sua evolução. Perguntei-me se o que a acometeu foi semelhante ao seu mestre há alguns anos.
— Hã? – Antares o olhou, primeiro com medo e depois com alívio. Em seguida, não escondeu o seu estranhamento. Buscou em sua memória alguma vez em que seu mestre e pai tivesse retornado de alguma missão que o obrigasse a ficar afastado por mais de uma semana, e falhou. – Perdão, senhor Pollux, mas não sei do que fala.
— Isso foi antes de você… Um pouco antes, no mesmo ano, talvez. – Explicou o geminiano, levando uma mão ao queixo barbeado, tentando se lembrar.
A Filha de Scorpio tentou se recordar de qualquer coisa similar ao que Gêmeos estivesse falando. Um Espectro capaz de ferir seu mestre certamente pertencia a uma patente alta. E isso a fez lembrar das palavras que aquele a quem ela enfrentou disse:
“– Vejamos… se seu sangue… é tão quente… quanto daquele verme… que saiu quase morto… de nossa última… batalha…! Eu… o teria matado… mas não foi o meu melhor momento… – Ele riu de maneira gutural. – Pensei que pudesse chegar aqui… e terminar o que comecei naquele dia… mas encontro você…?”
Foi como um estalo na cabeça de Antares. Sim, Scorpio havia registrado aquele evento, contudo não mencionou o estado em que saiu da luta, limitando-se a descrever o que sentia. Tinha sido Ágape quem lhe deu uma melhor noção dos danos que ele sofreu, embora tivesse se limitado a falar dos dias de cama e dos cuidados que precisou ter.
— Um Espectro, possivelmente o mesmo que você enfrentou, o feriu ao ponto dele precisar ficar afastado por semanas. Não deixava ninguém vê-lo, embora não houvessem muitos que o quisessem fazer. Sabíamos das coisas porque Ganimedes era o único a quem conseguia visitá-lo sem ser enxotado aos urros. Na época ficamos preocupados porque, se era capaz de feri-lo a esse ponto… – O semideus comentou e deu de ombros, visivelmente mais tranquilo. – Que bom que o mesmo não aconteceu com sua pessoa.
Aquela última frase a apanhou de surpresa.
— Eu sou muito grata pela sua preocupação, senhor Pollux. – Ela sorriu tímida, embora sentisse uma explosão de ânimo em seu peito. – Não achei que eles pudessem fazer o mesmo que a Princesa Andrômeda fazia com as correntes. Serei mais cuidadosa da próxima vez, embora eu duvide que ele vá conseguir se recuperar o suficiente nos próximos meses.
— Conhecendo seu mestre, não creio que você o deixou bem após o que fez a ele, mas vale uma lição. – O espartano acenou, intencionando se retirar quando algo preocupante se abateu sobre o Geminiano. – Porém se ele voltou agora… – E olhou em direção onde os corpos haviam sido enterrados. – Ah, droga!
— Algum problema, senhor Pollux? – A jovem quis saber, estranhando aquela reação.
— Alguns corpos foram incinerados até as cinzas por Phoenix, e enviados para longe, mas outros foram apenas enterrados. Se esse voltou… – O príncipe respondeu e saiu rápido.
Ela o viu se distanciar, sem dar-lhe tempo de qualquer coisa. Ainda assim, sorriu com doçura, por vê-lo se preocupar com sua recuperação. Talvez não fosse tão odiada naquele Santuário quanto imaginava. Havia uma esperança, ainda que pequena.
— Então Escorpião encontra-se devidamente recuperada após o ataque. – Uma segunda pessoa se fez presente, mas desta vez não às suas costas e sim surgindo escorado na parede bem próxima.
Embora suas palavras fossem formais, o seu tom era de puro deboche e desrespeito. Isso fez com que o sorriso no rosto da Amazona se dissolvesse e lhe dirigisse o olhar. Nyctimus de Lobo estava próximo a uma mureta, há bons metros dali, encarando-a com desdém. E pior! Provavelmente ele presenciou sua conversa com o Cavaleiro de Ouro. Antares não conseguiu evitar de sentir as bochechas queimarem violentamente de vergonha, tamanho o descuido.
— Sim, estou, Lobo. – Ela o respondeu de modo sério e cingindo o olhar.
Ele faz uma breve reverência, um tanto exagerada enquanto seus olhos se dirigem em direção onde Pollux partiu, sorrindo de canto.
— Fico aliviado, Amazona de Ouro. Afinal, estamos para entrar numa guerra e não podemos nos dar o luxo de um… desfalque… em nosso exército já tão limitado.
— Concordo. Assim como devemos prezar para que os membros de nossos exércitos saibam seus devidos lugares para evitar punições disciplinares. – Ela rebateu, tomando seu caminho.
Ao contrário de antes, ele apenas sorriu de canto ao perceber que conseguiu seu intento, partindo na direção oposta.
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Do outro lado do Santuário, Ganimedes olhava para os campos de treinamento do alto de uma coluna, sentado enquanto bebericava um pouco de água de seu odre. Pensava sobre o treinamento daquele dia, imaginando que algumas navalhas de gelo criadas por seu cosmo pudessem render um bom desafio aos aspirantes que passariam por sua mão naquele dia.
Diferente de outros Cavaleiros Dourados, o aquariano não tinha um aprendiz ou grupo de subalternos fixo para treinar. Oferecia assistência a todos, ajudando a criar ambientes inóspitos e temperaturas desumanas das quais qualquer um que realmente desejasse servir à Deusa Athena teriam que suportar em algum momento de suas vidas.
Talvez aquele fosse um bom dia para o frio de Asgard, para simular uma visita à corte dos Vanir e dos Aesir, no Palácio de Valhalla (01). Erguer uma miniatura de uma cidade de gelo, dias depois da visita exaustiva de Phoenix poderia animar um pouco aos aspirantes.
— Se bem o conheço, sua mente trabalha sobre como fazer o dia dos aspirantes se tornarem mais… interessantes. – Apontou o Oráculo de Virgem enquanto removia o elmo de sua Armadura Dourada. – Lamento por aqueles que virem a ser sujeitos de seus caprichos numa tarde entediante como aparenta em seu semblante.
— Ora! Mas que pouco juízo faz de mim, Oráculo! – O troiano riu, e lançou um olhar para o homem metros abaixo. – Estou menos entediado do que pareço. Já você, me parece estar com uma cara cansada. Aconteceu algo? Ronda ruim? Alguma Bacante cruzou o seu caminho?
— Fazendo minha patrulha em outros planos, o que exige demasiadamente de mim. – Comentou o virginiano, saltando e se colocando ao seu lado. – Tenho sentindo um Cosmo estranho no Santuário desde a tentativa de invasão pelos Espectros. Apesar de terem sido derrotados, ainda sinto parte de suas forças presente, mas fracas demais para rastreá-las.
— Talvez deva levar alguém que realmente saiba o que está fazendo. – Aquário apontou tomando um novo gole de seu cantil, antes de oferece-lo ao colega. – Talvez alguém que tenha uma sensibilidade tão grande ao Cosmo que possa até mesmo perseguir o rastro deixado por quem passou por aqui.
Virgem pegou o odre, sentindo-o pesado, e tomou apenas um gole para molhar a boca e a garganta. Recebeu de muito bom grado aquela água levemente fria, que atenuou o seu cansaço, e devolveu o recipiente ao seu dono. Passou uma mão nos cabelos escuros e ondulados, enquanto pensava no que ouviu.
Um Caçador seria perfeito para esse tipo de trabalho, contudo, até onde sabia, não havia nenhum no Santuário. O único deles, presente no Reino de Athena, partiu para dar lugar a quem tinha preparado para sucede-lo. E pensar nisso fez com que o Oráculo tivesse um estalo.
— Talvez. – Respondeu ele com certa hesitação. – Não sei se qualquer Cavaleiro poderia ser capaz de rastrear no outro plano. Embora eu possa conceder o acesso, trata-se de um espaço sensível que os menos preparados poderão sucumbir às adversidades. – Explicou, se fazendo de desentendido.
— Mas eu não estou falando de “qualquer Cavaleiro”, Oráculo. Você sabe a quem me refiro. – O outro falou com um sorriso no rosto.
— Também pensei nela, mas… – O Cavaleiro de Virgem se voltou para o aquariano com nítida descrença. – Será que ela seria forte o bastante para suportar o que há do outro lado?
O sorriso de Ganimedes desapareceu do rosto, deixando um olhar sombrio, do qual ele desviou para um ponto qualquer. Tomou um novo gole de água para ajudar a engolir a frustração de estar ouvindo aquilo.
— Ela é mais forte do que todos pensam. – Ele respondeu, com um tom assustadoramente sério. – Não falo apenas por ter sido Theron a treina-la, mas... Ouso dizer que ela tem um potencial que nenhum de nós possui e tudo o que precisa é de apenas uma chance. – E olhou de volta para o virginiano, com seus olhos verde-água. – Uma chance da qual vejo negarem antes mesmo dela pensar em pedir.
— Não precisa me dizer isso, Ganimedes. – Comentou o Oráculo ainda em sua seriedade. Vê-lo citar Scorpio chamando-o pelo nome real era algo raro, e nunca significava uma brincadeira. Era quase como se esperasse que aquilo ajudasse a validar seu argumento, mesmo que não fosse algo que dependesse exclusivamente dele. – De fato ela é forte, ágil e perspicaz, mas o seu estado mental e de espírito não acompanham o seu desenvolvimento físico. Desconheço as causas, mas sinto uma forte perturbação vir dela e isso é o que mais preocupa.
— Bom... – O troiano franziu o cenho e se colocou de pé, terminando de beber sua água. – Só descobrimos se estamos realmente aptos para a missão quando nos deparamos com ela, não é mesmo?
— Não concordo inteiramente com suas palavras, mas não discordo de sua lógica. – O virginiano respondeu ele seguido de um leve suspiro. – No entanto, vejo que seria um bom meio de avaliar o quanto seu espírito pode suportar. Mas ainda assim, acho muito perigoso para alguém como ela.
“Você não faz ideia do que ela passou até chegar aqui...”, Aquário pensou, quase que em uma censura à postura do companheiro, mas deixou para lá. Não podia forçar que a aceitassem, por mais que aquilo o deixasse aborrecido. Antares era um deles, alguém que alçou o posto mais alto dentre os soldados da Deusa Athena. Aquele descaso para com ela lhe era mais do que injusto.
— Você se surpreenderia, Oráculo. – Disse Ganimedes, descendo da coluna, desistindo de tentar naquele momento. – Tanto quanto eu me surpreendi quando presenciei o seu potencial.
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Era uma terra árida e rochosa, longe de qualquer habitação, onde apenas alguém com algum treinamento poderia chegar. Um ótimo lugar para servir de prisão dado ao seu isolamento, embora não fosse um lugar que permitisse a reabilitação. Era um local onde se jogaria um criminoso para que morresse de fome e sede. Não era incomum avistar bandos inteiros de aves de rapina sobrevoando em círculos, indicando algum moribundo em seus últimos suspiros ou um banquete a sua espera.
Até onde Pollux sabia, estavam para decidir se alguém ficaria ali para alertar quando os mortos voltassem à vida ou se os deixariam reviver normalmente, para voltarem com o rabo entre as pernas, para o Submundo. Pelas suas contas, baseadas nos estragos que fizeram aos corpos dos inimigos, suas voltas se dariam em algumas semanas. Aquele que Ganimedes identificou como o que subiu até o Oitavo Templo e enfrentou Antares ainda tinha partes congeladas pelo seu Gelo Eterno, mesmo dias depois do confronto.
Mas ao chegar lá, descobriu com desgosto que deveriam ter feito com eles o mesmo que Phoenix fez quando chegou.
O vento estava parado, porém o odor de sangue velho e apodrecido ainda era forte ali. Os guardas que ajudavam a se desfazer dos corpos foram encontrados mortos, servindo de banquete aos abutres e outros carniceiros que ali habitavam. Alguns com a mais profunda expressão do terror em suas faces, enquanto outros jaziam em pedaços espalhados.
O geminiano só conseguiu identificar os restos do Cavaleiro de Pavão por causa da Armadura que “vestia” um amontoado de carne pastosa. Começou a se preocupar por não ver nenhum sinal dos Cavaleiros de Unicórnio e de Lebre. Em sua mente, rezava para que eles tivessem conseguido ficar em segurança.
Ele caminhou pelas fileiras de buracos abertos, alguns com a terra e as pedras reviradas, indicando que o conteúdo em seu interior saiu, enquanto outras estavam intocadas.
A inquietação aumentava a cada passo dado. Não havia sequer sinal de corpos dos Espectros abatidos, indicando que aqueles guerreiros foram apanhados de surpresa e abatidos sem conseguir causar baixas aos seus agressores. Essa constatação fez com que Gêmeos levasse uma mão ao rosto, enxugando o suor que brotava em seu rosto. Cometeram um deslize muito grave e pagaram por isso.
“Maldição!”, praguejou mentalmente, mas deixou seu pensamento ganhar voz enquanto perscrutava a área novamente, revirando cada pedra pela segunda vez. Com isso, finalmente encontrou o Cavaleiro de Lebre com a cabeça separada do corpo. Estava mais afastado, com ferimentos profundos que poderiam leva-lo a morte individualmente. Contudo, seus punhos estavam sujos, indicando que sua partida não se deu de modo pacífico.
A contar pela decomposição dos cadáveres, não fora algo tão recente, o que enraiveceu Pollux ainda mais por sua comodidade quanto aquilo. Por outro lado, como saberiam que os Espectros poderiam voltar à vida tão rápido? E como foi que eles não sentiram os Cosmos explodirem naquela direção? Era tudo demasiadamente preocupante.
Por um breve instante se flagrou perguntando a si mesmo se Scorpio, caso ainda estivesse ali, teria percebido algo. Balançou a cabeça, afastando aquele pensamento. O Escorpião Dourado não estava mais entre as fileiras da Deusa Athena, então não podia mais contar com ele. Talvez com sua sucessora, mas... se ela tivesse percebido qualquer movimentação suspeita, certamente teria avisado.
Com um pulsar de Cosmo, alertou a cada um dos Cavaleiros de Ouro, convocando-os para se encontrarem no Templo de Áries para uma reunião extraordinária. No mesmo instante, com um simples toque e o mínimo de Cosmo, tocou no resto das Armaduras para que estas ganhassem sua forma simbólica. Jogou-as na Outra Dimensão, de modo que poderia puxá-las tão logo chegasse ao Primeiro Templo.
— Descansem, companheiros. – O príncipe lamentou, fazendo um sinal de respeito antes de voltar ao Santuário.
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