Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
24 Uma Chance
Notas iniciais
A curiosidade e a apreensão eram os sentimentos mais comuns pairando pelo amplo corredor do Templo de Áries. O próprio anfitrião, embora se limitasse a ficar encostado em um pilar, com os braços cruzados, era aquele que mais se perguntava a respeito da necessidade daquilo. Pollux, em sua mensagem, apenas deixou claro que era um assunto de extrema urgência e que dizia respeito a segurança do Santuário e seus arredores.
Escorpião e Virgem foram os primeiros a chegar ali, quase simultaneamente. Em seguida, Touro, Peixes, Libra e Castor os cumprimentaram. Leão veio auxiliado por um subordinado Cavaleiro de Prata, que se apressou em deixar o local antes que lhe fosse ordenado. Câncer e Capricórnio surgiram quase no mesmo momento em que Aquário aparecia.
Antares não evitou um olhar desconfortável na direção do gêmeo que surgira ali. Reconheceu quem era de longe, pelo cheiro almiscarado e as tranças bem marcadas no cabelo longo e acobreado apenas comprovaram a identidade dele. Por mera etiqueta, trocaram uma saudação silenciosa antes de irem para pontos opostos um do outro. Ela se aproximaria de Ganimedes, enquanto ele procuraria puxar algum assunto aleatório com um dos pequenos grupos que conversava.
Quase vinte minutos depois do último, Pollux enfim chegou e seu semblante não era dos melhores. Crisômalo de Áries foi o primeiro a se manifestar ao ver o espartano que se aproximava, vestido em sua Armadura de Ouro.
— Qual o motivo dessa reunião urgente, Semideus?
— Problemas. Os Espectros que foram levados para longe terminaram voltando à vida. – Ele respondeu se dirigindo ao centro dos companheiros. – Nossos homens foram mortos e Unicórnio está desaparecido. Precisamos fazer algo a respeito.
Os Cavaleiros não conseguiram evitar de se entreolhar, questionando sobre aquilo. Seria possível que os Espectros voltassem a vida, mesmo quando alguns deles tiveram seus corpos severamente danificados? Como poderiam vencer diante daquelas condições?
Ganimedes não conseguiu evitar de soltar um longo suspiro e apertar os dedos com os olhos. Nem mesmo ele, que havia passado tanto tempo no Olimpo, servindo aos Deuses em seus banquetes, esperava por aquilo (01). Pensou em Scorpio quase que instantaneamente. Talvez ele pudesse saber de algo.
— Parece então que evitamos uma invasão por pura sorte... – Ele comentou, lançando um breve olhar para a jovem ao seu lado. – E aqueles que foram pulverizados pela Phoenix? Voltaram também?
— Seus corpos foram inteiramente destruídos com a presença dela. Como poderiam voltar? – Aegipan de Capricórnio questionou com uma voz calma.
— Exceto pela própria Phoenix, nada que é reduzido às cinzas pode retornar, não? – Cadmus de Peixes questionou, enquanto mexia nos cabelos platinados.
— Talvez seja isso que sentiu, Oráculo. – Indagou o troiano se voltando para Virgem. – Conversávamos a respeito há pouco não?
— Hum. – Virgem baixou os olhos, com um semblante pensativo. – Talvez, mas sua aura não era daqueles que chegaram ao Santuário, mas como de espíritos famintos. Fracos, mas perturbadores. – Pontuou, percebendo o olhar de todos sobre ele. Não é algo que possam ver neste plano. Portanto, talvez não estejam totalmente encarnados e por isso não percebemos.
— Três Cavaleiros de Bronze não foram capazes de conter os mortos. Vamos precisar de muita cautela. – Nikandros de Libra falou mais para si que para os demais. – Ei, espartanos! Vocês dois tem alguma ideia de como enfrentar esse tipo de inimigo? Aprenderam algo assim no Olimpo?
— Há bem mais que nós dois do Olimpo aqui nesta sala e todos parecem tão surpresos como meu irmão e eu, não acha? – Retrucou Castor arqueando o semblante, voltando-se para Ganimedes e o virginiano.
O gêmeo mais novo odiava aquele costume dos demais de acharem que apenas ele e seu irmão mais velho, dentre todos os presentes, frequentaram aquele lugar. Ganimedes estava sempre presente nas reuniões, servindo e entretendo a todos como podia e era solicitado. Oráculo frequentemente era visto, em consultas ou audiências com os Deuses. E Scorpio...
— Acredito que ninguém aqui tinha ideia que poderiam voltar à vida… – Apontou Pollux caminhando de um lado para o outro, tirando o irmão caçula de seu devaneio. – Se é que podemos chamar isso de “vida”.
— Disse que sentiu isso, Oráculo? – Indagou o ariano, conseguindo a atenção de todos. – Ninguém sentiu qualquer Cosmo nos últimos dias, ao contrário do que disseram ter pressentido.
— Busquei rastrear no outro plano, o que tem exigido bastante de mim. Não encontrei nada senão sombras, perturbação, nada mais além disso. São espectros. Não há corpo, apenas espíritos famintos buscando saciar-se sobre a carne morta que o geminiano afirma ter visto. Mesmo eu não sou capaz de alcançá-los, apenas senti-los. – Ele comentou, voltando seus olhos para um dos presentes. – Mas alguém talvez possa, com a minha ajuda no outro plano, claro.
Um a um, seguiram o olhar do Cavaleiro de Virgem até o alvo de sua atenção. Antares piscava por debaixo da máscara, levando menos que um segundo para compreender que era a ela a quem o Guardião do Sexto Templo se referia. Contudo, o máximo que conseguiu fazer foi prender a respiração e sentir um frio se instalar em sua barriga.
— Ela? Não pode estar falando sério... – Capricórnio falou com um tom incrédulo. – Anupo seria mais indicado para isso, na minha opinião! Dentre nós, ele é quem melhor lida com os mortos. – Falou, voltando-se para Câncer.
— Seria...? – Anupo questionou, parecendo compreender o motivo do virginiano. – Creio que o problema aqui não seja quem lida melhor com os mortos, mas quem poderá senti-los primeiro. – E olhou diretamente para onde seriam os olhos da Amazona. – De todos nós, ela foi a única a sentir um Espectro subindo os Doze Templos e o recebeu sem dar-lhe qualquer vantagem.
— Em outras palavras, Anupo é um inútil até o momento que se mostrarem presentes de fato. – Completou Taurino já levantando as mãos quando o mesmo o fitou aborrecido. – Sem ofensas!
— Me pergunto o que o caro bovino estava fazendo no momento em que um Espectro passou pelo seu Templo, sem qualquer impedimento... – Câncer devolveu, cruzando os braços e o encarando. – ... Uma vez que eu estava realizando minha ronda em Atenas e Rodorio naquela noite.
— VAMOS NOS CONCENTRAR NOS PROBLEMAS AQUI? – Interrompeu o semideus, se irritando com aquela troca de picuinhas. – Não sabemos quantos deles estão pelo Santuário e o que podem fazer. Deixem as intrigas de vocês para depois que resolvermos esse impasse. – E o geminiano pausou em suas palavras, observando os dois.
Anupo e Asterion trocaram olhares hostis, mas nada disseram. Pollux estava certo quanto à necessidade de resolver aquela situação primeiro, contudo, na primeira oportunidade que tivessem, tirariam aquela desavença nos treinamentos. Um dos dois iria passar um bom período acamado depois disso.
— Escorpião, recomendo fortemente que vá com Oráculo, já que sua habilidade permite isso. O resto de nós fará uma busca atrás das valas onde foram enterrados… e outras vítimas. – Castor completou o raciocínio do irmão, enquanto olhava para os demais. – Alguém tem alguma objeção?
A escorpiana se mostrou assombrada com aquilo. Castor se dirigindo a ela daquela forma? Em todos aqueles dias, desde a sua sagração, ele nunca tinha lhe dirigido a palavra. No máximo, um resmungo ou um aceno minimamente educado, porém logo passava a ignorar sua presença. Engoliu a seco e apenas assentiu.
Ganimedes não conteve um discreto, porém confiante olhar em sua direção. Aquilo poderia ser um bom sinal para fazer com que os demais a aceitassem melhor.
— Cadmus, sei que guarda muitas surpresas e embora não precise pedir isso, fortaleça os acessos aos templos superiores e cada Cavaleiros deixem suas Casas preparadas para nossos eventuais visitantes. – Recomendou Pollux. – Leão, está pronto para reassumir o seu posto?
— Sempre estou pronto. – Bravateou Íficles.
— E quem irá ficar aqui, para fazer resistência caso sejamos novamente atacados? – Questionou Libra, coçando o queixo. – Não podemos simplesmente sair todos assim, muito menos sem saber como derrubar nosso inimigo.
— Você, juntamente com Áries e Leão, com suas técnicas. – Pontuou o geminiano mais novo. – Se contivermos qualquer sinal de ameaça próximo, não chegarão aqui.
O leonino não gostou daquilo, embora nada tenha demonstrado. Os ferimentos em suas costas estavam se recuperando bem, mas, a depender do que fosse fazer, poderiam retardar seu retorno definitivo. A prudência lhe falou mais alto, fazendo com que acatasse sem protestos. Apenas aprumou a postura e cruzou os braços, bufando para manter as aparências. Crisômalo e Nikandros acharam aquilo razoável.
Não demorou muito para que a reunião findasse, com cada Cavaleiro indo assumir o seu papel. Cadmus se encarregaria de erguer as barreiras de rosas e avisar à Deusa Athena sobre os acontecimentos relatados pelo espartano mais velho. Ganimedes logo anunciou que iria na frente, para “recepcionar” aos invasores.
O virginiano esperou que o aquariano desaparecesse pelas escadas para se aproximar de Antares. Ainda não estava muito certo de sua serventia ali, contudo até mesmo Câncer lhe lançou uma luz a respeito, ainda que indiretamente. E, de fato, queria muito saber como foi que ela percebeu um inimigo subindo os Doze Templos sem que os demais tivessem notado. Embora ninguém tenha dito uma palavra a respeito, sabia que alguns dos Cavaleiros de Ouro presentes se sentiram desmoralizados por aquilo.
— Acompanhe-me, Escorpião. Vamos para Virgem onde faremos nossa missão do outro lado do véu. – Disse ele, convidando-a a acompanhá-lo. – Apenas aviso que isso vai exigir mais de você.
— Certo. – Ela tentou não deixar a voz vacilar.
Ainda por perto, Pollux dava as últimas orientações aos demais Cavaleiros ainda presentes. Para aquela missão, era preciso cautela e discrição para não alarmar o inimigo e nem criar pânico desnecessário. Ele sorriu discretamente ao perceber que a jovem Amazona havia sido recrutada sem maiores confusões e a viu caminhar em sua direção, junto com o Cavaleiro de Virgem.
Quando esteve próxima o bastante, o geminiano mais velho se permitiu sussurrar de um modo professoral, para que apenas ela o escutasse:
— Tenha cuidado enquanto estiver por lá e siga bem as orientações do Oráculo.
A escorpiana apenas fez um leve movimento com a cabeça, indicando-lhe que havia entendido o seu aviso.
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O som dos passos metálicos soava como marteladas nos ouvidos dela. Antares seguiu o Oráculo até o Templo de Virgem, tomando um caminho por entre as colunas laterais do qual ela desconhecia completamente. Nunca havia se aventurado ir além do corredor principal da Sexta Morada.
A passagem se iluminou, fazendo com que a jovem colocasse um braço diante dos olhos, tentando evitar a cegueira. Quando a luz esmoreceu, uma grande porta dupla de madeira clara se mostrou, com duas árvores idênticas esculpidas nela. Era algo que jamais havia percebido mesmo quando nos Templos Superiores, como se aquele fosse outro mundo.
Um imenso e verdejante jardim, sarapintado de flores no chão. Ao redor, mais espalhadas, árvores viçosas e arbustos frondosos. Podia sentir o perfume de longe, trazendo à Amazona uma sensação de paz indescritível. Era como se estivesse nos bosques sagrados os quais seu mestre a levava quando precisava realizar treinamentos de campo. Aquilo a ajudou a esquecer um pouco da tensão desde que os demais Cavaleiros de Ouro pousaram os olhos sobre ela. Olhares de dúvida, desprezo, orgulho e esperança.
— O espaço para onde iremos guarda muitos segredos e armadilhas escondidas em sua beleza. – Disse o Oráculo em seu tom sereno, quebrando a distração da escorpiana. – Não deve acreditar em tudo aquilo que seus olhos veem. Eles podem ser a janela da alma, mas não para a verdade.
E Virgem apontou para duas árvores, uma ao lado da outra, que se encontravam mais afastadas, isoladas das demais. Antares percebeu logo de imediato que elas se pareciam com aquelas esculpidas nas portas do jardim. Eram pequenas, mas com as folhas mais verdes que ela poderia se lembrar. Uma brisa soprava naquele local, fazendo com que algumas pétalas se deixassem levar, como que dançassem.
— Está pronta, mulher? – O virginiano questionou olhando diretamente para ela.
— S-sim, estou... – A escorpiana assentiu.
Ele apontou para as árvores gêmeas e foi prontamente atendido. Indicou para que a jovem sentasse debaixo de uma delas, enquanto o próprio se ocupava daquela que restara. Olhou com alguma atenção para a Amazona, percebendo-a farejar o ar. Aquele lugar deveria estar provendo uma série de novas sensações das quais estava se mostrando curiosa e talvez disposta a desbravar. Deixou uma mão pousar sobre a grama fresca, sentindo a textura quase aveludada da mesma.
E o Cavaleiro de Virgem não tinha certeza se aquilo era algo bom. Aquele local era sagrado para ele. Um resquício de tudo aquilo que lembrava e julgava como sendo a inocência do mundo. Suspirou pesadamente. Não foi para aquilo que a tinha trazido. Se preparou em meio, a resmungos mentais, para começar aquilo que viera fazer.
— Esqueça o mundo externo. Limpe sua mente, esvazie a mesma de tudo e de todos. – Ele falou. – Não existe qualquer mundo. Não existe qualquer outro alguém senão você nesse jardim. Tome o ar do jardim… Solte-o calmamente pela boca. Esvazie sua mente e permita que eu a guie.
Ela assentiu e o obedeceu. Por um momento se perguntou se, por um acaso, não haveria uma ninfa ali, para cuidar daquele lugar, para justificar aquela sensação de tranquilidade.
— Relaxe sua mente, Escorpião… – Disse o virginiano percebendo a inquietação curiosa dela acerca do espaço. – Esqueça tudo aquilo à sua volta. Esqueça onde está, aquilo que toca e sente… Permita sua mente desligar-se!
Ela fechou os olhos e tirou a mão da grama, pousando-a sobre o colo. Respirou lenta e profundamente por algumas vezes, buscando limpar a mente a cada sopro. Por um momento, sentiu o corpo leve, como se flutuasse. Não havia mais o som das folhas balançando com a brisa suave, nem o cheiro das flores.
“Guie-se pela minha voz, Antares. Somente… por minha… voz!”, era a voz do Oráculo ecoando em sua mente, de um local incerto. Naquele momento, a escorpiana podia ouvir apenas o som de sua respiração e as batidas de seu coração, sendo este a silenciar até desaparecer. “Quando eu disser, abrirá os olhos. Bem devagar. Não tenha medo. Não se desespere. Lembre-se de não se deixar enganar pelos que seus olhos. Veja além deles!”, continuou a orientá-la. “Abra!”
E ela assim o fez, percebendo estar mergulhada em uma estranha névoa, e isso provocou-lhe um forte arrepio. Lentamente, sua visão aguçada conseguiu vencer aquela barreira pálida, revelando o jardim do Templo de Virgem, contudo alguma coisa ali havia mudado. Tudo parecia mais cinzento e os cheiros estavam mais sutis. Alguns pontos azuis, os quais ela tinha certeza de que não estavam lá antes, eram visíveis em certas áreas.
Antares se colocou de pé, notando seu corpo mais pesado que o de costume. Era uma sensação bastante parecida com a que sentia quando passava muitos dias acamada, se recuperando dos ferimentos causados em seu treinamento.
— É uma sensação desconfortável no começo. – A voz do virginiano se fez ouvir para ela. – O corpo pode parecer pesado até que você se acostume.
— Oráculo...? – A escorpiana chamou, buscando qualquer sinal de vida ao seu redor.
— Estou aqui. – Respondeu ele surgindo meio à névoa. – Estamos exatamente no mesmo lugar de alguns minutos atrás, porém, “do outro lado”.
— Do... outro lado? Quer dizer que estamos no Mundo dos Mortos? – Ela questionou, olhando novamente para todos os lados. Aquele não se parecia em nada com o Submundo descrito pelo seu pai e mestre.
— Não, ainda não, Antares. – O virginiano replicou com suavidade. – Mas estamos próximos a ele. Digamos que essa seja uma dimensão, ou um pequeno rasgo dimensional, que fique entre o Mundo dos Homens e o Reino do Imperador Hades. – Explicou. – Um lugar onde espírito e matéria se encontram.
— Nunca ouvi falar de um lugar assim... – A Amazona murmurou atenta.
Virgem sorriu ante essa observação. Talvez escrevesse algo a respeito em seu próximo relatório, para as próximas gerações.
— De fato o Caçador não deve ter muito conhecimento desse lugar para poder repassá-lo a você. – Pontuou ele. – Acredito que apenas Gêmeos e Câncer saibam da existência desse local, ou de como chegar aqui. Pela sua semelhança com o mundo mortal, eu chamo esse local de Penumbra (02), uma vez que se trata de uma “quase-sombra” de lá.
— Ainda assim, aqui não tem o cheiro de qualquer lugar que eu já tenha estado. – Ela falou, erguendo a cabeça e farejando um pouco do ar. – Aqui parece só ter cheiro de... morte? – E arrepiou-se.
— De fato não tem. Você nunca esteve aqui, mas se sente algum cheiro diferente daquele que sentiu mais cedo, em meu jardim, é um sinal de que precisamos nos apressar. – Virgem replicou olhando ao redor, antes de se dirigir para a porta de entrada.
A jovem não conseguiu evitar engolir a seco ao escutar aquilo.
— Como poderemos identificar nosso alvo? – Quis saber, acompanhando-o.
— Você, melhor que qualquer um, deve estar percebendo que muitas coisas aqui parecem levemente desfocada, não? – Ele rebateu, embora achasse aquela pergunta muito relevante. – É assim que um espírito se manifesta nesse mundo. Ele é uma sombra do que foi o seu corpo. A alma de um homem decapitado irá se mostrar aqui como um corpo que perambula carregando sua própria cabeça. – Contou e aquilo a fez se arrepiar, lembrando do Espectro que invadiu o seu Templo.
Um “homem decapitado” era uma boa descrição para a visão que teve do Espectro que enfrentara em Escorpião e seu elmo, minutos antes dele a descobrir atrás das pilastras.
— Mas um Espectro ou um vivo que, por alguma razão, tenha conseguido chegar até aqui já poderia ser considerado nosso alvo. Em ambos os casos, suas presenças causam distúrbios no Mundo dos Homens. – O Oráculo explicou.
— Não está tentando me dizer que qualquer dano ocorrido aqui será percebido no Mundo dos Homens, está? – Ela deduziu rapidamente.
— Eu ia chegar a essa parte, mas você foi bem mais rápida em seu raciocínio que eu havia imaginado ser capaz. – Ele comentou com um sorriso, embora ela sequer o tivesse retribuído.
— E qual seria o tamanho dos estragos? – A Amazona quis saber.
— Equivalentes. O que é destruído aqui, será destruído no Mundo dos Homens. O mesmo deve acontecer por lá.
— Ou seja, o cuidado será o mesmo. – Ela pontuou e ele confirmou com um aceno. Por um momento, seus olhos pousaram sobre os focos de chamas azuis espalhados. – E aquele fogo azul?
— Fique longe. São chamas-fantasmas (03) e elas podem consumir os espíritos que nelas tocarem. Já percebi que não estão posicionadas de modo aleatório. Acredito que levem aos Portões do Submundo, mas não é uma certeza. – Explicou o Cavaleiro, caminhando.
Antares o seguiu e sentiu um profundo calafrio com uma brisa fria que soprou e trouxe lamúrias abafadas. Os choros e súplicas dos mortos que estavam para mergulhar diretamente ao local onde seriam julgados.
O Oráculo percebeu o seu desconforto. Já previa aquilo. “Mesmo Scorpio com toda sua experiência, não se sentia bem ali, mesmo que as funções do passado o obrigassem a fazer um caminho similar àquele com certa frequência. Não seria uma jovem mulher que seria diferente...”, pensou com um discreto olhar. Contudo, não deixou de sentir uma pontada de admiração em ver seu esforço. A constante presença da morte perturbava até mesmo aos valentes Gêmeos, que evitavam aquelas incursões alegando preferirem ter que passar um mês inteiro treinando com seu antigo mestre, a quem chamavam de carrasco.
Até então, a escorpiana não reclamou, nem mostrou qualquer reação diferente de uma curiosidade prudente e um sutil desconforto. Esse último já esperado. Por conta disso, ele imaginou que, talvez, e somente talvez, Ganimedes não estivesse exagerando tanto quanto às capacidades dela.
— Como disse antes, ignore a tudo e a todos. Há muitas almas presas aqui, que vagueiam por este mundo torturando ou lamentando, em sua negação de morte. Tornam-se espíritos famintos alimentando-se uns dos outros, corrompendo-se… – O virginiano pontuou e se voltou para ela, erguendo uma sobrancelha. – E são esses que devemos encontrá-los.
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