Notas iniciais
Mesmo em recuperação, Antares comparece a uma reunião entre os Cavaleiros de Ouro. O que irá acontecer a partir daquele ponto?

Ainda naquele dia, uma reunião com os Cavaleiros de Ouro fora convocada no Templo Menor de Athena, que ficava no topo do Monte Zodiacal e onde todas as suas reuniões formais eram realizadas. Tinha esse nome por anteceder ao Templo de Athena propriamente dito, onde ficavam os aposentos da Deusa e de suas Saintias, bem como sua grandiosa estátua de mármore.

E tamanha foi a surpresa de todos ao verem Antares ali. Até mesmo Ganimedes, em uma atitude nunca vista antes pelos demais, a reprovou abertamente por aquilo. Deveria estar descansando, como os Gêmeos, e não ali.

Era visível o seu estado debilitado, mesmo com a máscara a cobrir seu rosto. Sua postura imponente e orgulhosa estava curvada, de ombros caídos. A voz soava cansada e fraca. Estava claro para os demais que a Amazona tinha comparecido à convocação apenas para não deixar que pensassem que era fraca. Cadmus e Anupo não esconderam o olhar de admiração por ela naquele momento, enquanto Kheiron censurava aquele orgulho.

— Não é hora para suas teimosias, mulher. – Íficles rosnou, ainda que de forma menos agressiva que o de costume, o que também não passou despercebido pelos demais. – Se quer tanto assim lutar, então vá descansar primeiro, para não nos atrapalhar no campo de batalha!

— Eu estou bem o suficiente para ouvir o motivo de sua convocação, senhor Íficles. – A jovem murmurou com um tom que causou um arrepio discreto em todos. O Oráculo lançou um olhar discreto sobre ela e depois para Aquário, que lhe devolveu um olhar resignado. – Posso assegurar que estou bem melhor do que aparento.

— Bom, já que estamos todos, e mais alguém aqui... – Falava Asterion de Touro, apontando para Escorpião com o polegar, buscando cortar qualquer chance de uma troca de hostilidades naquele momento. – Vamos logo começar isso. Precisamos formar nossa estratégia rapidamente. Kheiron, quanto tempo você estima para que os espartanos possam voltar?

O centauro suspirou, levando uma mão aos cabelos escuros. Aquilo seria uma longa reunião, com grandes chances de não dar em nada. Preocupado, olhou na direção da escorpiana, silenciosa, que não esperou qualquer cerimônia para tomar um assento. Ninguém poderia culpá-la por aquilo.

— É uma pergunta difícil de responder, levando em conta que eles pareceram começar a se recuperar agora, mas acredito que já estarão em condições mínimas dentro de quinze dias. – Falou Sagitário, cruzando os braços fortes sobre o peito, voltando sua atenção aos demais.

— Então teremos que elaborar um plano de defesa que cubra vinte dias, para termos certeza de que eles estarão prontos para retornar. – Falou o Leão, voltando sua atenção para os demais. – Principalmente porque fomos traídos.

A atenção de todos caiu sobre o Guardião do Quinto Templo, uma vez que ninguém fazia ideia de como ele poderia saber de algo como aquilo. Nikandros, por outro lado, apenas cruzou os braços, não demonstrando tamanha surpresa como os outros, apenas intrigado.

— Traidores… que ótimo! – Disse Libra fingindo surpresa, mas revirando os olhos pelo descontentamento. – Quais novas surpresas nos reservam?

— Apenas um, na verdade. – Íficles corrigiu. – Eu o confrontei diretamente, mas o maldito era mais traiçoeiro que os demais que enfrentamos...

— E se não fosse por Karthal, essa luta teria terminado muito mal. – Completou Aegipan de Capricórnio, pensativo. – Pobre homem! Ele é um exemplo de lealdade para todos os Cavaleiros desse Santuário.

Naquele momento, ninguém, nem mesmo Íficles, teve certeza de que aquilo era realmente um elogio ao Cavaleiro de Prata, que se encontrava desacordado na Fonte de Athena, aos cuidados intensivos dos sacerdotes mais experientes do Santuário, ou se aquilo era um ataque indireto para o Cavaleiro de Leão.

— E de quem exatamente estamos falando, Íficles? Vamos dar nomes, sendo direto e objetivo. – Questionou o Oráculo de Virgem num tom que, embora mantivesse um tom calmo, fora bem incisivo. Sem a Deusa Athena por perto, as trocas de farpas eram mais frequentes e menos discretas.

— Falamos do Lobo. – Ele respondeu, e olhou diretamente para Antares com seus olhos ferinos.

— Lobo? Espera! – Reagiu Crisómalo de Áries. – Está falando de Nyctimus de Lobo, o Cavaleiro de Bronze que estava sob suas ordens?!

— Por acaso ele tem a ver com a entrada de Espectros no Santuário, incluindo aquele que incapacitou os Gêmeos e Escorpião? – Indagou também Cadmus de Peixes.

— Não faço ideia, mas não duvidaria. – Respondeu o Leão com um rosnado, e mais uma vez voltou-se para a Amazona. – Mulher! O que aconteceu quando você o resgatou junto com a sacerdotisa?

— Espere, Íficles! – Ganimedes interveio.

— Tudo bem, Aquário. – Ela falou, após um longo suspiro. – Eu lembro bem do que aconteceu naquele dia, e asseguro, Leão, não havia qualquer sinal de que ele teria sido corrompido naquele momento.

— ALGO ACONTECEU! – Esbravejou ele socando uma das pilastras enquanto mantinha o olhar sobre a mulher. – Ninguém muda assim, não sem alguma razão. O que está escondendo?

— Ei, Íficles, calma! Já tem um tempo que isso aconteceu, acho que a mulher nem lembra direito do que aconteceu. – Falou Crisômalo de Áries, com um leve sorriso no rosto. – Sabe como é, né?

— Já disse, quando os trouxe, não tinha qualquer indício de que eles estivessem maculados. Indisciplinado, ele se recusou diversas vezes a me obedecer, tanto depois do resgate como durante o retorno. – Ela rebateu, cerrando o punho ao lembrar das vezes em que Nyctimus apareceu na sua frente, fazendo pouco dela. Nem mesmo pareceu ouvir o que o ariano falou a seu respeito. – Fez aquele espetáculo estúpido sobre “ter sido obrigado a marchar cansado e ferido”, mas sem mencionar que havia desobedecido e desrespeitado um Cavaleiro de maior patente, que tinha sido designado para encontrá-lo. Seu subordinado deve ter sido tentado em outro momento!

— Chega, vocês dois! – O aquariano interveio sem sair do lugar. – Agora, o que menos interessa é quando ele se voltou contra a senhora Athena e sim o que faremos mais adiante! Se continuarmos com essas picuinhas, já estaremos derrotados antes mesmo da batalha! – Pontuou, olhando para Cadmus de Peixes, que o apoiou com um aceno.

— A preocupação nesse momento é se nesse período ele possa ter corrompido aspirantes ou mesmo outros Cavaleiros. – Acrescentou Câncer. – Estamos vulneráveis aqui. E me preocupa o que possa ter acontecido aos Gêmeos se algo assimilar assim corrompeu Lobo.

— Nyctimus não teve muito contato com os outros, por causa dos ferimentos causados a ele. – Pontuou Íficles, olhando para a escorpiana com o canto dos olhos. – Ficava a maior parte do tempo vadiando pelos campos de treinamento. Quando estava para retornar, as invasões começaram.

— Devemos então agradecer a quem feriu Lobo, não é mesmo? – Antares rebateu, fingindo não ter entendido do que ele quis dizer. – Seja lá quem for, terminou salvando tantos outros aspirantes e Cavaleiros de serem influenciados pela escuridão...

— Então devemos verificar cada aspirante com quem ele teve contato e saber o que conversava ou mesmo intencionava. – Propôs o ariano. – Cada informação nesse momento é importante.

— Precisaremos nos dividir para fazer isso. – A mulher falou cruzando os braços. – E ainda temos que fazer algo para fortalecer nossas defesas, antes do próximo ataque, ou seremos esmagados.

— Quando ele foi visto pela última vez? – Asterion de Touro quis saber, olhando para os homens presentes na sala.

— Sobre o punho de Íficles, se eu não estiver errado… – Disse Nikandros se voltando o Leonino. – … e pelo que vi, usava a joia do Mundo dos Mortos.

— Merda! Já nesse estágio?! Como raios isso passou despercebido?! – Capricórnio quis saber, com os olhos arregalados de surpresa.

— Acho que estamos esclarecidos bastante da ameaça que nos cerca e não há mais nada a ser dito. Não será aqui que encontraremos as respostas. – Pontuou Virgem, encerrando ali qualquer chance de uma acalorada discussão começar. – Sabemos que havia um traidor avisado tardiamente e precisamos saber quantos mais foram seduzidos para as hostes de Hades como foi Lobo e assegurar todos os acessos possíveis ao Santuário. Escorpião… – disse se voltando à Antares. – Descanse. Isso não é um conselho, mas uma ordem.

A Amazona nada falou, embora o Oráculo pudesse sentir os pelos de seus braços se arrepiarem diante da aura que pareceu emanar dela. Só sentiu algo como aquilo uma vez, e foi quando Scorpio se lançou em campo de batalha, com sua sede de sangue. Contudo, a jovem se limitou a fazer uma breve e respeitosa vênia, antes de se retirar.

Descia as escadas furiosa. Tinha vontade de esmurrar alguma coisa até conseguir se acalmar, entretanto engoliu a frustração e se dirigiu o mais rapidamente para seu Templo. Tomaria um banho, tomaria uma sopa e tentaria dormir um pouco, tal como Kheiron ordenara que fizesse até o final da estação. O problema era que ela tinha consciência de que eles não tinham aquele tempo todo.

“O que você faria numa ocasião dessas, meu pai?”, a jovem pensou, em dúvida. Respirou fundo e deixou o corpo pender sob uma pilastra. Tinha que reconhecer de que seu estado não era dos melhores e que tinha potencial para estragar tudo, caso fosse para uma batalha.

Antares se recolheu para suas dependências privadas, já passando ordens para que Kalipto lhe preparasse um banho perfumado e que Agave preparasse algo leve e fácil de ingerir. O estômago havia começado a doer e ela não sabia dizer se era a frustração crescente gerada pela reunião ou se era realmente fome.

Caminhou até uma saleta, onde havia um altar vazio. Na parede oposta a entrada, uma pintura de um escorpião sob o céu estrelado lhe dava as boas-vindas. Com um comando de seu Cosmo, a veste sagrada deixou o seu corpo e foi se montar no balcão. Montada daquela forma, sua Armadura assumia a forma de um imenso escorpião de ouro, cuja superfície era cuidadosamente polida pela Amazona ao ponto de parecer um espelho.

Gostava de dedicar aquele cuidado a ela. Sempre ouviu dizerem que a Armadura estava viva então imaginou que, como algo vivo, a jovem deveria tomar alguns cuidados. Buscava sempre mantê-la limpa ou passar algum tempo em sua presença ainda quando seu mestre era o detentor da veste. Terminou pegando o hábito de conversar com a Armadura, com quem dividia alguns segredos. Até mesmo os seus maiores segredos.

Seu mestre havia deixado claro para ela, ainda criança, que um Cavaleiro deveria estar em total sintonia com sua veste sagrada. Ele não lhe explicou exatamente como poderia fazer algo como aquilo, então imaginou que imita-lo seria uma boa ideia.

Quando anunciaram a refeição e o banho, a escorpiana se despediu e deixou a câmara. Permitiu-se repetir o prato de sopa de carne com ervilhas, e tomar um longo banho morno, antes de vestir uma túnica leve e caminhar até a cama. Contudo, mal colocou o pé de volta ao quarto e já escutou o som de batidas pesadas em sua porta.

— Entre. – Ela autorizou, estranhando aquilo. Era Ganimedes e ele trazia um semblante sério em seu rosto. – Aconteceu alguma coisa?

— Precisamos conversar, mocinha. – Ele falou de modo ríspido, fazendo-a erguer uma sobrancelha. – Sobre sua conduta mais cedo.

A mulher revirou os olhos diante daquilo, sinalizando para que ele entrasse e falasse. O dia seria muito mais longo que esperado.

— Nem mesmo o Scorpio, em toda a sua teimosia e arrogância, ousou desobedecer Kheiron quando foi gravemente ferido por um Espectro! – Ecoou a voz do troiano, ainda vestido com a Armadura de Ouro, parado à porta de seus aposentos. – Nem mesmo um semideus como Pollux, que tem uma resistência muito maior que a sua, compareceu à reunião pois estava ciente do que aconteceria!!!

— Talvez ele pudesse saber, mas eu não sabia. – Ela falou, levando uma mão aos cabelos úmidos e tecendo uma trança rapidamente. – Ninguém me falou qualquer coisa, senti o Cosmo de todos se acumulando no Templo Menor de Athena, então resolvi ir ver.

— Talvez não seja algum ferimento, mas o seu orgulho que ainda vai destrui-la se não aprender ouvir aqueles que lhe querem bem, Antares! – Ele a repreendeu aborrecido.

— E quem, além do senhor realmente se importa comigo? – Ela rebateu com um rosnado, sentando sobre o leito.

— Todos estão preocupados, Antares… – Respondeu ele, fitando-a e usando um tom ainda mais ríspido. – … e não apenas pela pessoa, como por um companheiro de batalha que ficou debilitado. É claro que muitos estão preocupados com você, com seu estado e dos Gêmeos… Ainda que sua resistência quanto a dominação daquele Espectro tenha sido maior, talvez por conta de seu… – E respirou fundo, buscando escolher cuidadosamente as palavras que diria. – … instinto bestial, sei lá!

E aquilo teve exatamente o efeito que ele queria evitar. O aquariano a viu arregalar bem os olhos e seu semblante mudar de modo desagradável, fazendo com que ele levasse uma mão aos cabelos e rezasse para que a escorpiana não surtasse por causa de suas palavras. Sabia que ela era sensível quanto àquela situação da qual não tinham muito conhecimento, mas que salvou a jovem e aos Gêmeos naquele momento.

— Resistência?! – Ela repetiu incrédula, respirando com força. – Eu… eu daria um braço para não ter visto aquilo! Daria tranquilamente os dois olhos para não ter visto nada daquilo!!!

— E ainda assim conseguiu afugentá-la daqui, Antares... – Pontuou Aquário, se vendo obrigado a pensar rápido para não piorar a situação. – … enquanto um semideus estava caído ao chão totalmente incapaz de lidar com a situação. Isso é um mérito seu, ainda que sob um risco sem tamanho!

Antares pensou em responder, mas a cabeça já começava a doer. Limitou-se apenas a massagear a fronte e tentar engolir a raiva que sentia. Talvez ele estivesse certo com aquilo. Ela resistiu a algo que derrubou a dois Cavaleiros muito mais experientes. Não era algo que deveria desmerecer.

Porém, achar que mais alguém naquele Santuário se importava com seu estado a enchia do mais puro ranço. Sabia muito bem como se referiam a ela quando não estava presente, principalmente porque ouvia os Cavaleiros de patente mais baixa, os aprendizes e os guardas sussurrarem quando está passando pelos campos de treinamento ou pela cidade, durante as rondas.

Respirou profundamente e deixou o corpo tombar sobre o colchão de palha e plumas.

— Vinte malditos dias. E depois disso, eu estarei de volta. – A mulher falou. – Não quero ter que ouvir os outros cochichando às minhas costas, muito menos o Leão.

— Você estará de volta quando assim puder voltar, Antares! – Corrigiu Ganimedes de maneira incisiva. – Não é quando você quer, mas quando realmente estiver capacitada para isso com corpo e mente!

Ele deu às costas, amaldiçoando aquela teimosia toda, tão parecida com o pai até mesmo naquilo, mas parou alguns passos adiante. A única diferença era a de que Scorpio já tinha uma certa experiência, um velho cão de guerra e não se abalava com quase nada, diferente de sua herdeira, que ainda se mostrava muito verde.

— Não me obrigue a procurar terceiros para fazê-la entender isso. Espero que tenha sido claro para com uma Amazona e não uma criança buscando por atenção desnecessária. – Aquário finalizou e saiu batendo a porta.

Ela se encolheu diante do barulho e recolheu-se na cama, emburrada. Tomou o lençol em mãos e se cobriu, mas não dormiu de imediato, ruminando as duras palavras de Ganimedes. “Preocupados comigo...? Que piada!”, pensou amarga. “Nenhum deles se importa de verdade, nem mesmo o senhor Kheiron.”.

Iria se esforçar para estar bem o suficiente no tempo que previa, mas não planejava ficar esses dias todos apenas dormindo, bebendo chás e fazendo sangrias. Ordenaria que suas escravas reforçassem sua alimentação e cuidassem de seus banhos especiais. Faria pesquisas enquanto disposta.

Seu mestre deixou uma vasta coleção de pergaminhos com suas anotações sobre as missões feitas e as coisas que lhe chamaram a atenção. Uma faceta do antigo Cavaleiro de Escorpião que era desconhecida por muitos. Com alguma sorte, poderia encontrar alguma coisa a respeito daquela invasora.

Procuraria conhecer ao máximo o oponente que estavam enfrentando, em vez de ficar resumida a reuniões onde os membros claramente a excluíam dos assuntos, a menos que fosse para interrogá-la como se fosse ela a ter feito algo errado. Iria mostrar para todos do que era realmente feita.