Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
15 Nem Tão Bem Vinda
Notas iniciais
Antares tratou logo de retornar ao Santuário, embora o seu desejo fosse o de explorar os bosques da região junto ao Monte Parnassus. Algo em seu âmago estava inquieto, desviando constantemente a sua atenção e fazendo o seu corpo estremecer. Uma coisa da qual não sentia há muito, desde a última vez em que Scorpio a levou em uma missão onde teria que lidar com alguns acólitos de Apollo.
Foi com dificuldade que conseguiu resistir a si mesma e seguir o seu caminho. Em uma outra oportunidade, talvez, ela fosse atender à própria curiosidade e explorar bem cada detalhe daquela região.
Chegou em Athenas por volta das duas horas da tarde, segundo apontou um relógio solar em uma praça da Polis. Se enveredou pelas trilhas sagradas, caminhando pelas estradas de pedra, cercadas de colunas brancas com frisos. Os primeiros guardas logo foram vistos, há bons metros de seu posto avançado. E foi então que ela notou algo errado.
Os homens estavam conversando sobre alguma coisa, com algum ânimo, quando notaram a sua presença e silenciaram. Olhavam para ela de um modo diferente, como se nunca tivessem visto a escorpiana antes. O cheiro em seus corpos mudou, para algo que parecia denotar algum assombro. “Do que eles estão com medo?”, a jovem se questionou, seguindo a diante.
Achou que aquela reação se deu por sua missão em Atenas, de checar e eliminar a sacerdotisa que tivera que resgatar mais cedo. Porém, o seu palpite logo mudou quando, ao chegar aos campos de treinamentos, os Cavaleiros e aspirantes mostraram uma reação similar. Calaram-se na sua frente.
Alguns a encaravam com um ar de desprezo, outros deliberadamente lhe viravam as costas e se afastavam. Pode ouvir alguns cochichos, falavam sobre ela ser vil e desprezível, uma víbora traiçoeira. Isso deixou a escorpiana confusa. Não havia sinais de Amazonas ou outras jovens por ali, o que a fez engolir a seco. Estariam elas partilhando a mesma opinião a seu respeito? O que teria feito de errado? O que estava acontecendo ali?
Seguiu o seu caminho, notando que todos se mostravam receosos quanto a ela, até que chegou às escadarias do Monte Zodiacal. Degrau por degrau, não sabia se agradecia ou se ficava ainda mais preocupada por não encontrar Crisômalo de Áries e Asterion de Touro em seus postos. Não sabia muito bem como eles reagiriam à sua pergunta, muito menos tinha certeza de que eles a responderiam.
Contudo, encontrou um dos Gêmeos fazendo a guarda no Terceiro Templo. Sentiu o estômago revirar enquanto seus olhos vermelhos buscavam qualquer sinal que indicasse qual dos irmãos era aquele que via. Daquela distância não conseguia ver as tranças e os enfeites que os distinguiam. Seria Castor? Ou seria Pollux?
Ao se aproximar, percebeu que não havia qualquer adorno no cabelo castanho-acobreado daquele homem. Ainda assim, ela sentiu o coração se agitar no peito, tamanha a ansiedade. Já começava a sentir uma náusea quando chegou mais perto, imaginando quem seria. Tudo indicava que não era o mais novo, mas ainda assim, temia estar enganada.
Quando o Cavaleiro se virou e aqueles olhos dourados a fitaram, Antares teve sua resposta e sentiu um alívio imediato. Até mesmo um sorriso se insinuou em seu rosto, por debaixo da máscara. O espartano tinha um semblante sério, mas diferente dos outros, não virou o rosto nem mesmo lhe deu às costas.
— Certamente deve ter notado um ar hostil tão logo chegou. – Disse ele num tom brando, mas ainda forte, enquanto a examinava com o olhar. – E digo que sua chegada era bastante esperada, ao menos por alguns de nós.
Ela franziu o cenho. “Como assim?”, pensou.
— Do que está falando? – Questionou confusa.
— Não deveria, mas vou adiantar a questão porque eu acho que deva saber. – Comentou o Príncipe-Herdeiro de Esparta, enquanto se aproximava. – Tem a ver com o Cavaleiro de Bronze que resgatou e da suposta crueldade e vilania que cometeu forçando ele marchar, ferido, até o Santuário.
— Suposta o quê?! – A Amazona murmurou chocada com o que ouviu, entretanto logo soltou um suspiro profundo. – Ora! Ele não me pareceu ferido demais, já que estava me ignorando e desafiando minha autoridade por boa parte do caminho. – E colocou as mãos na cintura, injuriada.
Precisava ficar calma. Sabia que, se ficasse nervosa ali, daria mais razão para aquele boato indesejado. Muito menos queria parecer alterada diante do geminiano, que se mostrava prestativo para com a jovem naquele momento. Mas o que iria fazer? Fingir que nada estava acontecendo ou punir o autor daquele boato?
Ele arqueou o semblante ao notar aquela postura dela. Não via seu rosto, então não podia olhar em seus olhos, mas podia ler sua expressão corporal o bastante para perceber que a escorpiana não gostara nada do que ouviu. Ela não parecia ser alguém que fingiria estar injuriada com qualquer coisa, muito menos com algo daquele porte, que poderia lhe trazer problemas.
Embora os Cavaleiros tratassem bem seus subordinados, não eram incomuns relatos de excessos. Quanto mais exigentes os superiores, maior a chance dessas histórias correrem pelo Santuário, saltando de boca em boca, até que todo mundo já estivesse sabendo. No geral, isso acarretava em mudanças de atitudes... ou em punições veladas.
— Então é isso o que tanto cochicham nos Campos de Treinamento? – A Amazona suspirou tentando se manter calma. – E as Amazonas e aspirantes? Saberia dizer onde estão? Não vi uma delas enquanto vinha pra cá.
— Soube que fariam um treinamento particular no campo de vocês, não tenho muito conhecimento como funciona o circuito das Amazonas, nem tenho permissão de ir lá. Acredito que algo já tenha chegado aos ouvidos delas. – Comentou Pollux, respirando fundo, e antecipando a pergunta que ela estava para fazer. – E não sei se sabe, mas o Cavaleiro de Bronze a quem submeteu isso, é subordinado do Íficles, Cavaleiro de Ouro de Leão.
— Ah... Ótimo!!! – A outra não conseguiu segurar, e logo se arrependeu de ter feito isso justo na frente do Cavaleiro de Gêmeos. – Ah, desculpe... Er... acho melhor eu ir em frente e... me apresentar logo à senhora Athena. – Falou, se afastando de forma tímida.
— Eu acredito em você. – Comentou ele, mantendo-se parado onde estava.
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Ganimedes estava em seu posto, fazendo a guarda naquela tarde. Ou assim deveria ser, pois estava distraído demais naquele momento. Desde que Antares partiu, visivelmente magoada com suas palavras, ele ficou a pensar: Por um acaso não estaria ele mesmo duvidando de suas capacidades, tal como os outros estavam fazendo?
Sua intenção não era essa, mas de poupa-la de um trabalho do qual mesmo os mais experientes muitas vezes não estavam preparados. A jovem tinha suas limitações e ele sabia muito bem disso. Havia cuidado de seu treinamento em boa parte das vezes em que Scorpio precisou se ausentar para viajar ou quando ele precisava de tempo para se recuperar de ferimentos mais graves.
Respirou fundo, imaginando o que teria de fazer quando ela chegasse. Pediria desculpas? Tentaria se explicar mais uma vez? Como estaria o humor da jovem Amazona ao retornar? Estaria tudo bem com ela ou precisaria que lhe desse algum tempo e espaço? Pela primeira vez em anos, ficou sem saber ao certo como agir.
De tão entretido em suas preocupações, sequer notou quando a mesma se aproximou, sendo preciso que ela elevasse o tom de voz consideravelmente para que ele saísse de seu transe.
— Está tudo bem, senhor Ganimedes? – A escorpiana quis saber, com um tom preocupado.
— Ah! A-Antares?! S-sim, estou! – Ele falou, sentindo as bochechas corarem por ter sido pego tão desprevenido. – E você, como... como foi? – Quis saber.
Ela deu de ombros. Conhecendo-a bem, poderia até mesmo ver a expressão de indiferença em seu rosto jovial, e o aquariano ainda não havia decidido se aquilo era um bom ou um mau sinal.
— Não foi mal. O pior mesmo foi andar por um lugar que eu não conhecia completamente. – A Amazona disse.
— Sobre o que exatamente estaria falando…? – O Cavaleiro questionou cuidadosamente, erguendo uma sobrancelha.
— De nada. Apenas tive que passar em um lugar depois. – Ela respondeu, levando um dedo aos lábios da máscara, como que pedindo silêncio. – A senhora Athena me proibiu de falar a respeito.
O Cavaleiro arregalou os olhos verde-água, e depois sorriu, deixando os ombros caírem em uma postura mais relaxada. “Então esse foi o motivo de sua demora!”, pensou aliviado. Quando a viu partir, imaginou que Athena a mandasse até a morada de Scorpio, para lhe passar novas informações. A escolha era lógica. Mas a incerteza de que o estado de espírito dela permitisse que fosse cumprir essa segunda etapa foi algo que o assombrou por aqueles poucos dias.
Fortaleceria a confiança da jovem guerreira em reencontrar seu antigo mestre e salvador, além de indicar ao ex-Cavaleiro que o trabalho se intensificaria. Era algo um tanto indesejado para alguém cuja atenção estaria completamente focada na nova vida por vir. Sabia muito bem que ele deveria estar cobrindo aquela ex-escrava de mimos e cuidados.
E só de pensar, torceu o semblante muito discretamente.
— Acho que entendi... – Ele disse, cruzando os braços, rezando para que a Guardiã não percebesse o seu ciúme. – Esteve lá, então?
Ela assentiu com a cabeça e olhou para os lados, antes de se voltar novamente para o Guardião.
— Queria ter mais tempo para ficar, mas decidi vir logo.
— E fez certo, menina. Sua missão é a sua prioridade. Todo o resto deve ser deixado de lado por causa dela. – Ele respondeu, com um longo suspiro. – Pelo que parece, tudo foi bem. E não pense em fugir de mim, Amazona! Quando retornar de sua audiência com a senhora Athena, vou querer ouvir como foi.
Antares acenou com a cabeça e o viu lhe conceder passagem. Caminhou alguns passos, mas se deteve, parecendo incomodada com algo, o que chamou a atenção de Ganimedes. Se não estivesse acostumado com a linguagem corporal dela, nem mesmo teria percebido qualquer sinal.
— Algo errado, Antares? – Ele questionou, olhando-a preocupado.
— Ah... senhor Ganimedes... existe algo que eu queria saber... – Ela começou, contudo se calou em seguida.
Devagar, o Cavaleiro a viu se virar com uma suavidade incomum, fazendo a capa rubra em suas costas dançar pelo ar, antes de se acalmar novamente. Ele crispou os lábios, em um semblante apreensivo. Até imaginava o que a Amazona estaria para perguntar.
— O senhor já sabe, não é? – Ela quis saber, em um tom baixo e preocupado.
— Sim, todos já sabem, minha querida. – O aquariano falou e quase pode sentir quando a escorpiana prendeu a respiração com sua resposta. – Mas eu sei o que realmente aconteceu. Eu vi, lembra? Então não tema. Se você precisar, eu estarei lá para testemunhar em seu favor.
— Eu sei, mas todos sabem que ficará do meu lado. Então… – Ela suspirou desolada. – Ele também já sabe?
— Provavelmente. – Foi a vez dele balançar os ombros com indiferença. – Mas, como ainda está se recuperando daquela imensa tolice que cometeu ao confrontar você... vai ser difícil que Íficles se manifeste por esses dias. E se ele demorar demais, de nada adiantará. – E sorriu.
— O que vai acontecer agora? – Indagou a jovem, se voltando pra ele.
Sua apreensão era visível, quase palpável, e aquilo doeu no troiano. Antares era uma jovem de bom coração, da qual sabia que dificilmente faria algo como o que lhe fora descrito, sem que houvesse uma razão para tal. Ela não fez aquilo tão somente por capricho, como ousam espalhar, muito menos agiu errado. Fora até branda, uma vez que qualquer um dos Cavaleiros de Ouro que fosse desrespeitado por um subordinado, seu ou de outro, tinha carta branca para dirigir a punição como achasse melhor.
Cansou de presenciar açoitamentos públicos como forma disciplinar. Alguns, exagerados até mesmo aos seus olhos, contudo, funcionavam para manter os insubordinados na linha, através do medo. Scorpio era um excelente executor desse tipo de castigo, enquanto o aquariano simplesmente se fazia valer de suas palavras. Em muitos casos, o efeito conseguia ser bem similar ao do amigo, ainda que não deixasse marcas no corpo dos castigados.
— Nada. A única coisa acima de você é a senhora Athena então a questão deve ser levada até ela. – Contou o troiano, ainda sustentando o sorriso. – Mas a chance de acontecer algo é mínima, principalmente porque houve um motivo para o que aconteceu. Scorpio era chamado com tanta frequência pelo mesmo motivo que chegou um momento em que ninguém mais se incomodava em prestar queixas sobre ele.
— Ah…! – Ela expressou somente. – Mas quem enfrentaria ele? Além do mais, fiz o que deveria ser feito. Por outro lado, todos me olham como se tivesse feito algo horrível!
— Respondendo à sua pergunta primeiramente, qualquer um que quisesse ter a chance de se gabar por enfrentar o grande Escorpião Dourado... E, invariavelmente, eram massacrados de uma forma ímpar! Scorpio sempre se encarregou de ensinar bem as lições que queria passar. – Falou Ganimedes, lançando um breve olhar para a garota. – Segundamente, eu não estaria surpreso se apenas uma parte da história estivesse sendo contada.
— Sobre quem estamos falando agora? Do meu pai ou de mim? – Questionou ela se voltando pra ele.
— Recomendo que não se refira a Scorpio desse modo, aqui no Santuário. – Sussurrou ele, olhando para os lados. – O cabeça-de-passarinho conseguiu muitos inimigos em sua estadia aqui e eles adorariam saber que a promissora aprendiz que se tornou Amazona de Ouro tem uma relação maior com ele. – Pontuou, tocando rapidamente o nariz dela por cima da máscara.
— Desculpe. – Ela se corrigiu.
— E eu acho que o Lobo contou apenas uma parte da história, em vez de contar tudo. Do contrário, todos saberiam que ele que foi idiota e que deveria agradecer por você tê-lo feito apenas caminhar ferido. – O homem prosseguiu, com um discreto sorriso. – Estaria em seu direito, e seria bem esperado, que fizesse novos ferimentos nele. Principalmente se levarem em conta quem você sucedeu.
— Bom, o que será a partir daqui? – A jovem quis saber.
— Descansar! – O aquariano respondeu com um sorriso. – Você é uma Amazona de Ouro, não deve explicações a ninguém senão à deusa Athena. Se Íficles quiser tomar as dores do subordinado, ele terá que ir até você, e você pode clamar por uma testemunha... que você tem. Então o assunto está encerrado antes mesmo de ter começado.
— Devo deixar tudo como está então? – A escorpiana questionou, incrédula.
— É uma opção. Era o que ele fazia: Deixava que falassem o quanto quisessem e não se preocupava até o momento em que alguém viesse cobrar esclarecimentos. – Ele explicou, ficando cansado daquela conversa, embora entendesse as razões dela para aquilo. – Eu mesmo os ignoraria. Existem outras preocupações que exigem a nossa atenção, minha e sua, nesse momento que são muito mais importantes do que o orgulho ferido de um Cavaleiro de Bronze que não soube se colocar em seu lugar e foi punido por isso.
— Entendi… eu acho. – Ela reagiu mais otimista. – Bom, vou me reportar à senhora Athena e voltamos para conversar, está bem assim? Acho que preciso mesmo falar sobre isso com alguém… – E acenou para ele, seguindo adiante.
O Cavaleiro acenou de volta, com um sorriso sereno no rosto escondendo sua preocupação quanto a Amazona. Esperava apenas que ela não estivesse tão afetada por aqueles boatos quanto ele imaginou que ficaria. Uma sombra pairou sobre o pátio de seu templo, fazendo-o olhar para cima.
O céu nublava, indicando chuvas para aquela tarde, o que seria incomum naquela estação em que se encontravam. Um mau-pressentimento se apossou de sua mente. Ganimedes olhou ao redor buscando por sinais que havia aprendido a interpretar quando estava em treinamento, mas nada encontrou. Ainda assim, aquela sensação persistia. O vento soprou como um sussurro confidente, fazendo com que cingisse os olhos verde-água e fechasse o semblante.
Seria um prenúncio de dias cinzentos? Ou seria o sinal de que teria de intervir pessoalmente, não como um Cavaleiro de Ouro?
— O Grifo não está mais aqui, só que isso não quer dizer que será muito mais fácil. – Murmurou para si, abrindo um sorriso maldoso. – Na verdade, isso só vai tornar as coisas muito mais divertidas para mim...
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