Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
18 A Caça e O Caçador
Notas iniciais
O estranho chegou na alta noite, com uma densa bruma vinda de lugar nenhum. Ele desceu do cavalo e o conduziu pelo pátio de pedra, pouco se importando com o que poderia espera-lo. Bem na sua frente, a fachada do imponente Templo de Escorpião era gradualmente envolta pela neblina. Ele sorriu, se deliciando mentalmente com a vingança que tanto havia planejado.
Era um homem alto e parrudo, como tantos que trabalhavam com a guerra, de ombros curvados para a frente. Tinha um rosto quadrado e nariz aquilino. Mesmo sob a luz do luar, sua pele tinha uma aparência estranha. Um pálido rugoso e doentio, com áreas de erupções esponjosas de cor levemente esverdeada. Seus olhos eram de um azul claro, quase branco, que parecia luzir na penumbra, emoldurado por grossas e desgrenhadas sobrancelhas escuras.
Estava munido com um manto rasgado e entreaberto, sujo com o sangue de suas vítimas anteriores e de suas inúteis tentativas de fuga. Por ele, era possível ver a Súrplice escura e um chicote, que parecia ser feito de vértebras, preso em seu cinto. Debaixo do braço, um elmo de forma aterradora, que mais lembrava uma cabeça decapitada que uma proteção.
O invasor entrou puxando sua montaria pelas rédeas, atento. Na vez anterior, quando confrontou seu atual alvo, o descuido fez com que fosse violentamente derrotado, ainda que tivesse causado um dano considerável. Dessa vez, ele tinha a desvantagem de estar no terreno de seu oponente, mas podia contar com a experiência de já tê-lo combatido antes e conhecer sua fraqueza.
Ele caminhou lentamente, assistindo os archotes se acenderem pelo corredor de grandes colunas, conferindo uma aparência sombria ao lugar. Não conseguiu evitar um desconforto crescente com aquilo. Era um espaço amplo demais, com muitos pontos onde a escuridão e o silêncio imperavam, fazendo ter a impressão de que até a sua respiração soava como gritos desesperados.
Percebeu ali que aquele que o enfrentou no passado era mais perigoso que imaginava. Um Cavaleiro de Athena cujas preferências o tornavam mais próximo de um sádico Espectro ou de um Berserker ensandecido não era algo que o tranquilizava. Ainda assim, o enfrentaria e levaria sua cabeça ao Senhor do Submundo.
Num movimento, o cavalo desapareceu como se fosse a própria névoa, deixando o seu relinchado fantasmagórico ecoando no ar. Colocou o elmo que trazia no braço e aprumou a postura, estalando os ossos do pescoço antes de seguir. Seus passos firmes e metálicos ecoavam pelo salão enquanto seus olhos perscrutam cada pilar daquele recinto.
Contudo, havia algo errado. Não sentia aquela mesma presença de antes, embora soubesse há algum tempo que havia alguém ali. Aquilo lhe causava estranhamento, sobretudo pela falta daquela aura ameaçadora que sentira na última vez.
— Quem quer que seja, por que não aparece? Sinto seus olhos me vigiando, embora seja distante daquele que um dia conheci. Não tão forte, mas digno de um predador preparando para atacar a sua presa… – Disse o estranho parando meio ao salão, sorrindo de canto.
Em um movimento súbito, levou a mão ao cinto e soltou o chicote que trazia, agitando-o pelo ar, bem a tempo de desviar seis feixes de luz vermelha que iam em sua direção. Os raios explodiram em chamas com o choque, porém mal iluminou além do que as piras e archotes espalhados faziam.
O fogo tomou parte do açoite, deixando marcas negras de fuligem onde se extinguiu. Como uma serpente, o artefato se debateu contra o chão de pedra.
— Você não é ele. – Comentou o Espectro, ainda segurando sua arma com pulso firme. – Aquele homem avançaria sem pensar duas vezes contra mim. Por que está tão hesitante?
Um vulto passou à sua esquerda, fazendo com que olhasse de esguelha. Quem quer que fosse não mostrava estar disposto a se aproximar. O Cavaleiro de Escorpião que enfrentou há anos atrás já teria surgido bem a sua frente, com as garras incandescentes a postos, pronto para combate-lo. Não seria tão meticuloso quanto esse tentava ser.
— Quem quer que seja, mais parece um ratinho assustado. – Comentou o invasor, buscando acompanhar os movimentos, deixando seu chicote feito de vértebras ainda mais agitado. – Será que ele caiu após nosso último encontro? – E ensaiou um sorriso.
Ele teve que agir rápido, rolando para a frente, enquanto notava algo cair pesadamente no local onde estava há pouco. Tentou ver alguma coisa, mas uma nuvem de poeira e entulho se levantou, ofuscando sua visão. Com um movimento, fez o açoite de ossos cobrir a distância que o separava de quem quer que estivesse ali e sorriu ao sentir ter apanhado algo.
Ao puxar o chicote, apenas pedra e mármore.
— Realmente eu me enganei em vir num lugar com esse acreditando encontrá-lo. Parece que minha arma conseguiu seu objetivo outrora, mas ela não parece saciada o bastante. – O invasor observou a saída de Escorpião e atiçou um pouco mais o artefato, acertando cada uma das colunas onde parecia sentir a presença de alguém. – POR QUE SE ESCONDE? ACASO O GUARDIÃO DESSA CASA TEME A MINHA PRESENÇA O BASTANTE PARA FICAR ESCONDIDO?!
A pilastra se despedaçou, e ele viu uma sombra parada a encara-lo. Não deixou de erguer uma sobrancelha ao reconhecer as formas gerais daquela vestimenta sagrada, contudo o mesmo não podia ser dito de quem a vestia. Era bem menor que o homem de quem se lembrava e mais esguio.
— Não é ele… – O invasor murmurou, mas ainda audível, mostrando seu descontentamento por aquilo. Mal podia acreditar que tivera vindo de longe para aquilo. – Uma… mulher…? Acreditei que ele seria melhor que isso… Parece que meu precioso tempo foi perdido. Quem sabe não posso me divertir com Cavaleiros de verdade. – E recolheu seu chicote, contrariado.
Tinha pensado em usar sua técnica e convocar um mensageiro da morte para eliminar de vez aquele Cavaleiro impertinente. Onde ele estaria? O homem conhecido pelos mortais do Reino de Athena como Scorpio deveria ser neutralizado a qualquer custo, do contrário, qualquer Deus que tentasse tomar o Mundo dos Homens para si teria sérios problemas.
Entretanto, o Espectro não esperava se deparar com uma mulher no lugar de seu adversário. Aquilo meio que lhe serviu como um grande balde de água gelada em suas costas, esfriando seus ânimos. Se preocuparia caso estivesse diante das Satélites de Ártemis, das Ménades de Dionísio ou até mesmo algumas das Marinas, como a Sereia, Sirene e a ninfa Lymnades. No entanto, nunca achou que precisaria se preocupar com uma Amazona de Athena.
Surgiram durante a Guerra Santa contra o Imperador Poseidon, e ainda que tivesse escutado de seus bons desempenhos, nunca as levou a sério. Os povos sob a proteção da Deusa da Guerra e da Sabedoria restringiam suas mulheres a simples cuidadoras e procriadoras desde pequenas. Como teriam arrancado isso de seus cernes?
Ela mexeu o pescoço de um lado para o outro, como que o alongando, e se colocou a caminhar em sua direção.
— Quem é você, mulher? – Ele parou alguns passos, fitando-a.
A jovem desapareceu com um pulso de Cosmo, fazendo com que o estranho se sobressaltasse. Agitou o chicote em mãos na esperança de evitar qualquer golpe, quando percebeu ser atingido por algo morno.
Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas logo foi surpreendido pela aparição dela bem a sua frente, há poucos centímetros de sua face. Estava com um punho erguido em sua direção, perto demais para evitar um choque.
Mas algo aconteceu, fazendo com que a Amazona se afastasse, embora não antes de golpear o Espectro no peito. O atrito entre os metais de suas proteções gerou dezenas de faíscas, e bastou apenas uma pequena quantidade delas acertar o líquido quente sobre a Súrplice para que ele logo se visse envolto em chamas.
Isso deu a escorpiana tempo o suficiente para se afastar de forma mais segura para si, embora não tão rápido quanto haveria de ser necessário.
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Pollux não evitou de olhar para as Doze Casas ao sentir um pulso violento de Cosmo, seguido de outros menores. Um deles lhe era vagamente familiar, enquanto o outro era um completo desconhecido. Alguém parecia estar lutando lá em cima, e isso o deixou confuso. Não podia deixar o irmão naquele estado de embriaguez sozinho. Era perigoso para qualquer um que passasse por ali.
E o que lhe foi mais estranho é que não sentiu o Cosmo de nenhum outro Cavaleiro de Ouro naquela área. Teria algum inimigo encontrado um meio de subir sem passar pelas Casas Zodiacais? Subir pela encosta era tão perigoso quanto enfrentar cada um dos Guardiões dos Templos, por conta das rochas soltas e dos animais que ali viviam. Fora armadilhas espalhadas pelo local, montadas cuidadosamente por Scorpio, quando ainda estava ao serviço de Athena.
Um arrepio percorreu o seu corpo só de cogitar qualquer guerreiro caindo em uma daquelas armadilhas feitas para causar o maior estrago possível. O ex-Cavaleiro de Escorpião não era conhecido como “O Caçador” sem um ótimo motivo.
— A Barata-Rabuda arrumou um brinquedo pra entretê-lo nessa noite? – Castor perguntou, entre risos, com sua voz empastada.
De tão bêbado, parecia esquecer que o atual Guardião do Oitavo Templo era aquela jovem mulher a quem ele tanto detestava e não fazia segredo algum disso.
O mais velho o olhou sem esconder a surpresa e assentiu em resposta. Sentiu um certo alívio por perceber que o irmão não estava tão mal quanto imaginava. Já estava pensando se iria precisar mandar colocarem uma grande colher de mel em sua boca, quando chegassem ao Templo de Gêmeos, para evitar que ficasse perigosamente desacordado.
— Tenho dó da pobre alma que está com ele. – O mais novo prosseguiu, e riu convulsivamente, até se sentir nauseado outra vez e parar. – Ai…! Vamos pra casa…! Mama deve estar furiosa conosco…
O Príncipe-Herdeiro riu daquilo e concordou, ajudando novamente o irmão a se recompor e caminhar até as escadarias do Monte Zodiacal. Abrir uma fenda dimensional faria a caminhada muito mais rápida, contudo não queria arriscar com seu irmão naquele estado. Da última vez foi trabalho o bastante para Pollux aprender que não valia a pena.
Mais do que isso, agradeceu mais uma vez por estarem no Santuário, e não em Esparta, como o caçula achava.
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Um clarão tomou aquele trecho do corredor, ao som dos gritos de dor do Espectro. Sabia que aquilo não seria o bastante para detê-lo, mas ajudaria muito a mantê-lo afastado por um bom tempo. Scorpio a instruiu muito bem quanto àquilo. Era impossível matar definitivamente um agente de Hades, e a melhor forma de combate-los era causar o maior estrago possível em seus corpos, de modo que seu retorno fosse o mais demorado possível.
Scorpio sempre lhe ensinou que o fogo era muito eficiente para esse tipo de coisa. Não era sem motivo que os corredores do Templo de Escorpião tinham uma boa quantidade de pequenos frascos de azeite escondidos em algumas colunas.
Antares sabia que o protocolo exigiria que ela aprisionasse o invasor e o interrogasse, mas sentiu que não teria essa chance. De longe, quando percebeu sua chegada, sem sequer ter sido alertada pelos Cosmos dos outros Cavaleiros de Ouro, soube que aquela seria uma ameaça da qual teria que neutralizar o mais rápido possível.
O fedor que se espalhava e a fisgada sentida em seu tornozelo eram apenas dois reforços disso.
Quando avançou sobre o oponente, prestes a espeta-lo com suas Agulhas Escarlates, percebeu o chicote em suas mãos se mexer. Mudou de plano rapidamente, afastando-se e usando seu Cosmo para criar as faíscas que ateariam fogo sobre o azeite que o banhava. Ainda assim aquela arma conseguiu enrolar-se em seu pé.
A Amazona conseguiu se libertar, contudo não foi rápida o bastante para sair ilesa. Se não fosse por sua proteção, provavelmente o seu tornozelo teria sido esmagado completamente.
As chamas não se demoraram em apagar e o invasor ainda estava de pé, embora aquilo fosse o suficiente para derrubar muitos apenas com a agonia. A escorpiana não evitou de torcer o rosto por debaixo da máscara. A visão era desagradável e o cheiro ainda pior que antes, empesteando o ar do Templo. Por um momento se arrependeu de tê-lo queimado.
A face, ou o que sobrou dela, era uma massa de carne queimada, revestindo o crânio, com alguns tufos de cabelo pendendo pelo couro apodrecido. Olhos azuis, quase brancos a encaravam com dor e ódio por aquilo. Não sabia precisar muito mais que aquilo.
Sem dizer qualquer coisa, colocou-se em guarda diante de seu oponente. Não sentia qualquer necessidade de se apresentar para alguém que sabia estar indo de encontro com o próprio inimigo. E ela estava muito disposta a despedaça-lo e incinera-lo.
— Que mulher mais mal-educada! O pulguento que cuidava desse lugar não lhe ensinou boas maneiras? – Disse o invasor com uma voz rouca, e meio imprecisa por conta dos lábios destruídos. – Aliás, aquele Cão dos Deuses sabe que está envergonhando a veste sagrada que um dia ele vestiu?
A escorpiana semicerrou os olhos fendidos, que luziram suavemente por debaixo da máscara. Podiam falar o que quisesse a seu respeito, mas nunca permitiria que alguém ousasse macular a imagem de seu mestre. Por um momento, se esqueceu do tornozelo ferido e avançou com o punho em riste.
O Espectro teria sorrido se ainda houvesse alguma carne em sua boca, do mesmo modo que teria reagido se tivesse visto qualquer coisa. Apenas sentiu o forte impacto esmagar o que restou de seu nariz, atirando-o contra uma coluna.
Antares mal teve tempo de se deliciar com a sensação de sentir os ossos do rosto de seu oponente se desfazendo em contato com seu punho, quando percebeu algo apertar o mesmo braço que havia usado para golpear. O chicote de vértebras havia se prendido a ele, sem que ela percebesse a tempo, e terminou por usar sua própria força contra a veloz Amazona.
As peças apertaram e arranharam sua proteção dourada, abrindo fissuras e buracos em sua extensão. Ela sentiu sua própria carne queimar com o toque da arma profana sobre a proteção de minúsculos anéis de gamânio e oricalco (01) que vestia por debaixo da Armadura de Escorpião. Se as consequências disso forem apenas hematomas, poderia se considerar imensamente sortuda.
— Vejamos se seu sangue é tão quente quanto o daquele verme que saiu quase morto de nossa última batalha…!
A jovem não conseguiu conter o choque. Lembrava remotamente de tê-lo ouvido dizer de alguns combates difíceis, onde voltara ao Santuário quase em farrapos. Em uma dessas histórias, Ágape enfatizou as dificuldades que teve em cuidar de uma série de ferimentos que iam do pé ao flanco do escorpiano.
Cortes profundos, onde se podia ver os ossos em algumas áreas, e que tivera grande necessidade de costurar os músculos. A água usada para limpar os ferimentos terminava tingida no mais absoluto rubro do sangue, enquanto as bandagens usadas para limpar e manter as feridas protegidas eram prontamente queimadas, pois ficaram inutilizadas. Seu mestre, que era tão forte e resistente às doenças, ardeu em febre por noites a fio, e precisou ser afastado de suas funções por metade de um ano.
— Você... feriu... meu mestre? – Ela murmurou incrédula.
— Eu… o teria matado… mas não foi o meu melhor momento… – Ele riu de maneira gutural. – Pensei que pudesse chegar aqui… e terminar o que comecei naquele dia… mas encontro... você…?
A escorpiana rilhou os dentes com força, chegando a sentir um canino espetar o lábio. Os pelos de seu pescoço se arrepiaram tamanha a raiva que sentiu ao ouvir aquilo. Estava diante de alguém que estava se vangloriando por ter ferido o seu salvador e ia fazê-lo pagar por isso.
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