Saint Seiya: Sob o Sangue do Escorpião
19 Devoção
Notas iniciais
Antares fez seu Cosmo explodir com tanta violência que apagou as piras e archotes ao redor, e obrigando o oponente a proteger-se como podia, usando os braços. As unhas dela se projetaram vários centímetros para fora dos dedos, com uma aura incandescente. Pareciam tão ou mais afiadas que as garras do homem que enfrentara há anos.
O Espectro precisava fazer algo rápido, ou seria vencido outra vez por alguém vestindo a Armadura de Escorpião visivelmente menos experiente, contudo tão mortífero quanto o anterior. Mas, para isso, precisava ganhar um pouco mais de tempo, para que seu corpo se recuperasse dos ferimentos mais graves.
Os servos de Hades nunca morriam de fato, porém seu retorno dependia muito dos tipos de ferimentos. Cauterização e carbonização eram dos mais demorados, seguidos dos desmembramentos.
Aquela Amazona não era tão despreparada quanto achou, mas ainda assim, não se comparava com ele.
— Terei o imenso prazer de levar notícias de sua derrota esmagadora para o meu mestre... – Ela rosnou, erguendo o dedo e disparando o primeiro pulso.
O feixe de luz escarlate cruzou a distância entre eles, fazendo com que o Espectro usasse o chicote de vértebras para dissipa-lo.
— É inútil, mulher! Eu... já vi sua tática antes... e nem mesmo... se compara a daquele homem! – Ele riu com deboche, se recuperando lentamente. – Isso... me leva a concluir... o quão inválido... ele ficou após o nosso... combate... há dez anos... e o quão desesperado... ficou para nomear uma mul... – Completava, quando sentiu o corpo ser atravessado por cinco outras lâminas de energia vermelha.
Nem mesmo a percebeu lançar aqueles novos disparos, exceto que ela estava terminando de girar no próprio eixo. As pontas da fita vibrante em seu pescoço pareciam se destacar nas trevas, junto com as mãos dela, fazendo parecer que dançava, tamanha a graciosidade de seus movimentos.
Mais seis estocadas vindas de sua direita e outras três de sua esquerda. O inimigo não escondeu a surpresa em seus olhos ao ver que haviam mais duas Amazonas de Escorpião ali.
— Mas... que... QUE BRUXARIA É ESSA?! – Ele gritou, sentindo cada ferimento arder subitamente como as chamas de um mar de fogo.
— Isso é pela ofensa de invadir o Santuário de Athena, Espectro... – Antares sibilou, fazendo com que ele se arrepiasse dolorosamente ante aquele tom. Era quase como se estivesse diante do próprio Scorpio.
Ela estava bem a sua frente, com a mão ferida a segura-lo pela garganta, esmagando-a, e a outra erguida, como a cauda impiedosa de um escorpião prestes a atacar.
— E isso... é pelo meu mestre... – A jovem completou, com um sorriso cruel por debaixo da máscara metálica.
Sua mão desceu mais pesada que o martelo de Hefesto, perfurando o que restava da Súrplice e da carne daquele homem, antes que ele tivesse tempo de ascender o próprio cosmo para tentar reagir. A última Agulha Escarlate era a mais dolorosa e mortal, porém ela sabia que isso não seria o bastante.
E mesmo que fosse, ela não pararia. Uma agonia eterna ainda era pouco se comparado com o que ela ia fazer. Jogou-o contra o chão e o atingiu com as garras, causando queimaduras horríveis.
A escorpiana alternou os golpes cada vez mais violentos com as mãos, destruindo a proteção do corpo de seu inimigo e rasgando seu corpo. Não fez cerimônia alguma em quebrar seus ossos, fazendo-os perfurar os órgãos no processo, enquanto os puxava e terminava de rompe-los. Não iria deixar um pedaço sequer.
Nem mesmo percebeu quando uma sombra se projetou na parede à sua frente como se algo se erguesse nas sombras. O fio de uma lâmina reluziu naquele instante, pronta para provar do sangue da Amazona, quando um raio prateado passou rente o bastante à máscara dela, criando uma linha de corte superficial.
Ainda assim foi mais que o suficiente para impedir que o chicote de vértebra atingisse as costas da jovem mulher, pronta para parti-la ao meio em sua momentânea distração. A arma e o invasor tornaram-se uma escultura de gelo com sua ponta bem rente à cabeça da escorpiana, que olhou aquilo sem compreender de imediato o que tinha acabado de acontecer.
Ganimedes estava parado, junto a uma pira recém-acesa, com sua mão em riste e brilhante pelo golpe que executara.
— Jamais dê às costas ao seu inimigo ou qualquer coisa que ele tenha deixado para trás. – Pontuou ele com um tom de voz tão gélido quanto seus golpes. – Por muito pouco seu mestre não teve sua perna arrancada por isso, restando apenas agonizar dias na cama pelos ferimentos até se recuperar. Qualquer outro não teria suportado aquilo.
E avançou na direção dela, vendo os restos do inimigo congelado, as perfurações e os graves ferimentos causados pelas garras dela. O calor do veneno pela jovem injetado fazia com que o interior descongelasse apenas para ser imediatamente tomado por gelo outra vez. No mínimo, aquele Espectro retornaria completamente enlouquecido.
O troiano voltou-se para a Amazona. No caminho, tomou um frasco de azeite, cujo esconderígio não lhe era desconhecido, e o jogou em uma pira, acendendo-a com o cosmo. Só então parou para olhar melhor o estado de sua protegida. Ela estava lavada em sangue, com um braço e um tornozelo feridos, do qual só teria uma ideia das dores quando seus músculos esfriassem.
— Acho que já se divertiu o bastante. – Ele sorriu de modo frio.
Sua voz estava branda, embora um resquício de preocupação se fizesse notar. O príncipe de Tróia se aproximou devagar, mas atento, chutando alguns pedaços de gelo e do inimigo que estavam em seu caminho. Analisou-a mais de perto, e se sentiu um pouco mais aliviado ao constatar que Antares estava bem melhor do que ele imaginou, enquanto sentia aqueles Cosmos explodindo com tanta violência.
Com cuidado, levou uma mão à máscara, em um movimento lento. No geral, era preciso pedir permissão a uma Amazona para remover aquela peça, algo do qual apenas as sacerdotisas da Fonte de Athena ou Kheiron podiam fazer, para examina-las. Mas o aquariano sabia que não precisava daquela formalidade. A confiança que havia entre os dois era quase tão forte quando a que tinham no antigo Cavaleiro de Escorpião.
— Por Zeus, como vocês dois se parecem...! – Ele se espantou, tirando-lhe a máscara cuidadosamente, tentando disfarçar e cobrindo-lhe a face novamente.
Constatar isso não era algo do qual o Guardião do Décimo Primeiro Templo queria. Sabia perfeitamente de seu laço de sangue com o homem que a treinou, contudo esperava que algumas coisas não tivessem sido herdadas. Pelo jeito, os Deuses estavam com um humor pior que o esperado quando decidiram permitir que Scorpio tivesse uma cria humana.
— O que faremos com ele? – A escorpiana quis saber, apontando para o oponente neutralizado.
— Não acho que ele vá se recuperar bem a tempo de nos ser útil em alguma coisa, além disso, ele chegou até aqui sem passar pelos outros Templos, certo? – Questionou o Cavaleiro, pensativo. – Do contrário, teríamos notado a sequência de batalhas até aqui.
— Eu o percebi por acaso, não estava conseguindo dormir. – Ela contou, olhando do aquariano para o corpo congelado.
— Scorpio me contou quando foi ferido que havia enfrentado um Espectro que surgia na névoa com um cavalo e que não havia porta ou trava que o mantivesse afastado. Trazia uma cabeça debaixo do braço e erguia um chicote de algo que lembrava vértebras humanas (01). – Comentou ele, ponderando. – Ele não soube dizer seu nome, porque estava quase desmaiando por conta da perda de sangue, mas se for esse quem ele enfrentou, nem mesmo as nossas prisões irão detê-lo.
— Ele me parece ter uma cabeça bem presa ao pescoço. – Comentou a escorpiana, erguendo uma sobrancelha.
Aquilo quase fez o troiano rir, mas ele conseguiu disfarçar, ensaiando uma tosse. Se ela estava fazendo um comentário como aquele, era sinal de que estava bem até demais. Porém, preocupava-o notar que a jovem parecia evitar jogar o peso do corpo em uma das pernas. Talvez devesse chamar Kheiron para olhar aquele braço.
— E será onde vai ficar, Antares. Tem assuntos mais importantes a tratar como os seus ferimentos e restaurar sua Armadura. – Recomendou Ganimedes deixando o frio envolver o ambiente para congelar o sangue que tingia o chão e a parede próxima a eles. – Ele não vai a lugar algum agora. E você precisa estar recuperada caso mais deles voltem.
— Sim, senhor...! – Ela respondeu com um suspiro.
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Não demorou muito para que o alarme soasse pelo Santuário, fazendo com que soldados rasos e Cavaleiros de todas as patentes saíssem de seus lugares. Pollux, que havia deixado o irmão com os escravos do Templo de Gêmeos e se limpado, trajava a Armadura de Ouro e orientava aqueles que passavam por ele. Ordenou por uma varredura completa, de grupos contendo pelo menos dois Cavaleiros de Bronze ou um Cavaleiro de Prata. Nenhuma pedra deveria escapar.
O poderoso Cosmo da Deusa da Guerra e da Sabedoria se fez sentir logo em seguida, envolvendo a todo o perímetro, e um pouco mais além, tomando a Polis Atenas e as vilas ao redor. Com isso, não tardou para que os primeiros corpos de Espectros fossem encontrados inertes por conta do poder da Deidade.
Alguns inteiros, outros partidos ao meio, por cortesia de Aegipan de Capricórnio, que estava voltando de sua ronda nas vilas mais ao sul. Em um determinado ponto do Santuário, Esqueletos terminaram empalados nas árvores, graças aos fortes ventos lançados pelo Cavaleiro de Lagarto. Outros, visivelmente derrotados pela união perigosa do veneno do Cavaleiro de Hidra, e o aperto esmagador do Cavaleiro de Urso.
Kartal de Águia subia as escadas do Monte Zodiacal o mais rápido que podia, pedindo passagem para os Cavaleiros Dourados com quem cruzava no caminho. Havia deixado o Cavaleiro de Cães de Caça com a função de coordenar a força de defesa enquanto ele iria ao Templo de Leão para auxiliar o seu mestre. Ferido como estava, teria dificuldades em lutar adequadamente e corria o risco de ser morto. Uma baixa indesejável em qualquer que fosse o momento.
Ao colocar os pés no corredor do Quinto Templo, foi logo recebido pelo cosmo agressivo do leonino, a disparar sua rajada de feixes contra o Cavaleiro de Prata. Por muito pouco escapou.
— M-mestre Íficles! Sou eu! – O rapaz gritou assustado, embora algo como aquilo fosse comum. – Sou eu, Kartal de Águia!
— Você... Você não deveria estar aqui...! – Rosnou o Cavaleiro de Leão, escondido nas sombras dos pilares daquele corredor. Era perceptível que ofegava e isso fez com que o Cavaleiro de Águia engolisse a seco. – Volte lá para baixo...seu imprestável...! Comande aqueles incompetentes de Bronze e sem patente...!
— Não, mestre! Eu vim aqui para cuidar de seu Templo em seu lugar! – O Cavaleiro de Prata se explicou, ainda aflito. – No estado em que se encontra, poderá morrer e...!
— AO MENOS MORREREI COM HONRA, EM VEZ DE FICAR PRESO NA CAMA! – Rugiu Íficles furioso. – Ao menos estarei sendo mais útil que aquele cão vadio que se desonrou deixando que uma mulher o salvasse. Estarei sendo melhor que aquela rameira que tentou me estripar!
— Mas, mestre... – Kartal suplicou receoso. Tinha que convence-lo a se recolher e deixa-lo ficar em seu lugar. Era perfeitamente capaz de fazer aquilo. – Seus ferimentos ainda não estão completamente recuperados! Imploro, retorne aos seus aposentos e deixe tudo comigo. Não foi o senhor quem disse com orgulho que eu me destacava dos demais Cavaleiros de Prata?
O leonino respirou fundo, pronto para enxotar ao subordinado, mas uma forte dor nas costas o impediu. O sangue pareceu fugir das faces, fazendo com que ele cambaleasse, sendo amparado pelo Cavaleiro de Águia. Tinha plena ciência de sua condição naquele momento, onde seu estado ainda requeria cuidados, entretanto queria fazer algo.
— Amaldiçoado seja você, por sua teimosia, e eu por permitir isso. – Rosnou o Cavaleiro de Ouro de Leão, antes de suspirar cansado e sua voz abrandar. – Está bem, Águia. Já que não consigo expulsá-lo daqui, então tome a minha sina por hoje. – Falou, tomando-o pelo gorjal e o puxando, fazendo com que seus olhos ficassem fixos nos dele. – Não me decepcione.
Um sorriso confiante e o olhar de admiração tomaram o rosto do jovem.
— Que Thanatos me leve para os confins do Tártaro se eu um dia o decepcionar, senhor. – Ele respondeu devoto e ajudou o leonino a se dirigir até a entrada de suas dependências domésticas. – Para mim, não houve honra maior que servir em sua falange. Aprendi muito com o senhor e agora vejo a oportunidade de retribuir tudo o que fez por mim.
Íficles ouviu aquilo sem olhar para Kartal. Sabia bem do que ele falava. O Leão o acolheu no Santuário pouco depois do fim da Guerra contra Poseidon, como um aprendiz e depois como seu subordinado. Embora a feição calma, o jovem vindo de uma Éfeso devastada pelo conflito entre os Deuses, era precisamente mortal. Tal como uma Águia, ele descia sobre os inimigos, dilacerando-os com poderosos chutes.
O jovem se colocou a postos, no corredor do Templo, pronto para o que quer que surgisse para enfrenta-lo. Asseguraria que nenhum inimigo passaria por aquele lugar, ou morreria tentando.
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