Saga Western - Volume I: O Sopro do Vento Oeste
1 Capítulo um - Tempestade Inesperada
Notas iniciais
I
As nuvens estavam nubladas, um clima pesado pairava no ar, as pessoas estavam um tanto inquietas, num murmúrio que só vendo para acreditar. Houve uma mudança brusca do vento, que agora soprava forte do oeste como nunca se vira, balançando a copa das árvores de um lado para o outro e parecendo querer sussurrar no ouvido do povo que algo estava por acontecer. Nas últimas estações, principalmente na época dos solstícios de verão, não havia ocorrido o menor alivio do calor, fazendo com que a mistura de terra e areia dos desertos pudesse servir como brasa ardente para assar uma das tantas cabeças de gado do velho e recalcado Winni, em suma o maior criador de rebanhos e proprietário de uma enorme quantidade de terras nas redondezas. Agora solitário, o velho era famoso por ter sido um dos cinco Westerns, e o último que se tinha conhecimento de vida nos dias atuais. Dos outros quatro, três haviam morrido e o outro desaparecera para nunca mais se saber sobre o seu paradeiro. O último Western era pai da formosa, porém nada dócil Dorat Inês, uma moça de personalidade forte e arrojada vista poucas vezes pela população local, muito disso devido à sua vida carcerária na mansão da fazenda em que vivia com seu pai, ao norte do condado em questão. Sua vida era levada de tal modo por que constantemente sofria cortejos de todos os tipos de homens, inclusive de alguns ricaços da Capital, sendo assim protegida enquanto não encontrava o marido ideal, mas também não a impedindo de se meter em inúmeras encrencas das quais ela adorava por demais.
Havia alguns anos que não ventava daquela maneira, e o estranho foi isso ocorrer justo naquela plena e bela tarde de verão do ano de 1869, no pequeno e pacato condado de Santa Inês, localizado na região central do estado sulista do Arizona, mais conhecido como [1]The Grand Canyon State. O condado era cercado de cactos Saguaros e gramados rasteiros, que às vezes cresciam desproporcionalmente e se tornavam grandes arbustos, embora jamais chegando aos pés das monstruosas árvores do condado de Parendo, no leste – levemente deslocado para o sudeste – do estado. Possuía, também, um terreno erodido repleto de desníveis, exceto perto dos cânions, morada de enormes crateras, contudo nada comparadas às presentes nos Desfiladeiros de Ellen, ao noroeste do Arizona, onde grandes depressões tornavam a travessia totalmente mortal. Ellen havia sido a primeira Gran xerife mulher do estado, e também ficou famosa por perseguir ladrões de metais preciosos por onde quer que eles fossem. Certo dia, inclusive, ela, sozinha, perseguiu três bandidos até essa série de penhascos e escreveu à bala a lenda do seu nome quando obrigou os patifes a uma tentativa fracassada de fuga pelo meio dos desfiladeiros, que após esse episódio foram nomeados em sua homenagem.
Em meio ao deserto, Santa Inês se destacava por possuir bolsões subterrâneos de água, os chamados aquíferos, facilitando a vida árida da região e despertando os olhos externos de multimilionários do Texas, que constantemente faziam propostas À Cúpula – responsável administrativa pelos demais condados do estado –, na Capital, para se estabelecerem com seus negócios na região. Este tranquilo lugarejo, representado continente a fora pela estrela de xerife, ou seja, pela aplicação eficaz da lei, levava esse nome devido à outra famosa mulher, Inês Barnes, que, juntamente com seu filho recém-nascido, se perdeu de uma comitiva de exploração mineral no dia oito de março de 1819, após uma terrível tempestade de terra naquela que seria sua última expedição na busca por preciosidades. Infelizmente, a noite fria e de geada cortante do fim do inverno piorou com um ataque fulminante de uma alcateia de lobos famintos. Inês não hesitou e morreu bravamente para defender o filho, não deixando nenhum animal tocá-lo. A criança foi encontrada e adotada por um casal de fazendeiros, e depois de crescer em meio às tantas histórias que ouvia sobre aquele dia, fundou um grupo de pistoleiros chamado Westerns e também um condado para ser exemplo de ordem e lei no exato lugar em que ocorreu o suposto ataque canino e em que foi encontrado, santificando-o com o nome de sua homérica mãe. Após isso, Winni Gadster venceu ainda mais na vida e se tornou o maior fazendeiro daquelas bandas. Essa lenda era – e ainda é – contada principalmente às crianças dali, mas todos desconhecem sua veracidade.
II
As damas estavam cuidadosas ao saírem de casa pela primeira vez naquele dia, principalmente para não terem seus vestidos de renda erguidos pelo sopro do vento e acabarem sendo motivo de chacota pelos marmanjos dali. Havia algumas exceções, é claro, a exemplo das meninas da Sra. Moon, elas que sempre usavam suas vestes chamativas – com boatos dos frequentadores natos do bordel que diziam que elas ignoravam o uso de roupas intimas. Colorações escandalosas, pulseiras enormes, luvas e colares sensuais, espartilhos extremamente apertados, querendo chamar atenção a qualquer custo, e mesmo que não fosse necessário o uso de sombrinhas, isso porque o sol estava encoberto por nuvens de um tom acinzentado, elas caminhavam pelo condado utilizando-as como um convite, chamando os caubóis para visitarem-nas no bordel da velha Clear Moon, uma senhora de idade avançada pouco vista pelas ruas de chão batido dali (bem como Dorat, porém essa não o fazia por livre e espontânea vontade). Quando necessário Clear saia sempre com a mão esquerda à mostra, exibindo o raro anel perolado o qual ganhara de sua mãe e que estava na sua família há várias gerações; e escondida por um longo vestido, chapéu e véu, unicamente em coloração preta, demonstrando o eterno luto para com seu marido, que havia sido morto por sete assaltantes numa viagem de trem que o levava à Capital. O finado era administrador, contudo morreu com honras de um grande pistoleiro, pois mesmo baleado, ele teve forças para reagir e conseguiu levar consigo quatro dos sete patifes para sete palmos abaixo da terra. Uma façanha e tanto para ser acrescentada à reputação do Sr. Oliver Moon, um dos Westerns participantes da fundação do condado no ano de 1837. Após a morte do marido, Clear pegou todas as economias da família e abriu um bordel em Santa Inês. Não quis batizá-lo com nome, talvez por vergonha ou até mesmo por medo de represálias, como foi esposa de um homem tão meritório e conhecido, e agora gerenciava um negocio de baixo escalão. O casal tivera um único filho, Alec Moon, e por causa do embaraçoso negócio que comandava, ou simplesmente pensando no futuro do menino, há muito o jovem se mudou para a Capital, mais especificamente para o internato de Arquin, a escola particular que além dedicar seus ensinos à profissionalização de ótimos administradores, era conhecida por instruir e transformar seus estudantes em grandes arqueiros.
Os peões que trabalhavam para Winni ganharam folga no resto daquele dia, isso por se tratar de uma sexta-feira quente e pestilenta. Estavam, destarte, juntamente com outros tantos borrachos do condado degustando o melhor uísque do Arizona, A Patada de Burro, e meio embriagados nem repararam nas damas que passavam ali em diante. Algumas delicadas, e outras com andar sensual, provocando-os, as moças saltitavam sobre os calcanhares, observando o interior do saloon através da vidraça embaçada. Reparando ou não, alguns dos marmanjos comentaram entre si o desejo de visitar o bordel à noite, já que o salário semanal fora pago pelo patrão. Elementar foi que o grupo também não reparou numa carruagem preta que passou diante do relógio, no centro do condado.
Recém-liberados do serviço, os homens estavam sem seus chapéus, suados na testa e completamente sujos pela poeira que o vento trazia. Alguns sem botas para sentir o frescor do vento que invadia o saloon, outros vestidos de maneira similar, com coletes cinza, grossas calças escuras e uma fivela com a letra “G” no cinto, como se fosse um uniforme de serviço. Ouviam um suave som de piano vindo dos fundos do local, mas mal dava para notar o vulto encapuzado que tocava a melodia. Ao mesmo tempo, fumavam o charuto caseiro que o dono dali produzia. O Sr. Rincón, conhecido por todos de Santa Inês como Rico, era um homem simpático – fato comprovado quando se descobria que ele nunca se negava a vender fiado para seus clientes –, que não tinha infortúnio com ninguém. Muito pelo contrário, era querido por todos e um dos homens mais influentes nas decisões administrativas do condado, mas por precaução escondia um revólver calibre 38 em baixo do balcão do saloon e uma escopeta atrás da porta do seu quarto, um andar acima do estabelecimento público. Baixo e gordo, tinha como marca registrada seu grosso bigode com ares de francês e seu nariz que mais parecia uma batata. Usava sempre uma camisa branca acompanhada de uma gravata borboleta preta. Recebera esse apelido ainda no México devido à grande fortuna que havia herdado de sua falecida avó, Pepita Peres (uma dançarina famosa e de sucesso). A riqueza da família Peres despertou o interesse de uma trupe de mariachis (banda tipicamente mexicana composta por quatro integrantes, e cantam, por exemplo, boleros, o estilo ranchera e o balé folclórico de várias outras regiões do México) que se fingiam de músicos em festas, mas que na verdade portavam armas de grosso calibre dentro de seus instrumentos. Durante um baile de gala na mansão dos Peres, com o bolero de temática principal e os bandidos à paisana animando os convidados, foi anunciado o assalto. Um arsenal incrível de armas de fogo foi o suficiente para imobilizar todos e levar tudo de valioso que se pode, ainda mais que Rico não depositava seu dinheiro e joias no banco. Por medo de continuar lá e pela morte da irmã, Shirley Peres, Rico veio o mais rápido que pode para o Arizona com o restante de sua família, ultrapassando inexplicavelmente A Grande Cerca, e chegando a Frontier, o condado de divisa com o México, no extremo sul do estado.
A Grande Cerca era um alto e extenso divisor físico das fronteiras internacionais entre os Estados Unidos e o México. Possuía grades em ferro fundido de seis metros de altura com arame farpado enrolado na ponta ao longo de vários quilômetros para defender o estado, impedindo que imigrantes ilegais, chamados de “Ellos” pelo povo Ariano, adentrassem solo americano sem consentimento da Capital. Localizava-se ao sul do condado de Frontier.
Em sua jornada pelos desertos, a família Peres parou em Ytrinit, no oeste do estado, lar de imensas caldeiras flamejantes. A localidade não era lá muito dócil e segura, apesar de bela e acolhedora, com suas magnificas produções de materiais forjados em aço e ferro fundido. Encontraram, então, asilo no belo condado de Santa Inês, e com o pouco dinheiro que lhe restou, Rico inaugurou o saloon Vinganza. Seria essa nomenclatura um juramento de vingança aos mariachis?
III
Enquanto distribuía uma caixa de charutos recém-produzidos, Rico ouvia os homens que ali estavam conversando sobre corridas e qual cavalo era mais veloz, Tornado ou Zumbido, ambos pertencentes ao estábulo do velho Winni, que possuía os melhores e mais rápidos velocípedes do condado e quiçá de todo o território do Arizona. A tal corrida tinha partida no cânion ao sul, ou seja, na saída das crateras de Monument Valley, e se estendia até os trilhos da estação férrea de Búffalo, na entrada do condado. Eram aproximadamente dois quilômetros de percurso. Eis que Striker, um homem alto, de pele escura e cabelo embaraçado, que vestia uns trapos por baixo do colete cinza, pulou da cadeira e resolveu apostar. Desconsiderando sua embriaguez, a arrogância que ele carregava era nítida e contagiante.
– Dou 100... Hic... no Tornado! – disse com veemência em meio a um soluço.
Imediatamente o som do piano cessou. O homem que o tocava se levantou tranquilamente e bateu com firmeza a mão na caixa acústica do seu instrumento. As sete oitavas tremeram em um longo suspiro.
– [2]Yo pago para ver Zumbido dejar Tornado comiendo poeira – disse ele.
– Pare Pedro! No quero ver sobrinho mio perdendo diñeiro en aposta nenhuma – retrucou Rico de pronta partida, curvando as sobrancelhas em sinal de represália. – Pero que él Tornado vence, ah vence! – e, com um largo sorriso na face, começou a limpar alguns do muitos copos sujos por aqueles beberrões.
Podia-se notar que Poncho era parente de Rico no primeiro olhar, pois um era a cara do outro. O sobrinho, porém, era mais gordinho e um tanto mais baixo. Não possuía barba e sua pele exalava álcool. Usava um chapéu em forma de penico e deixava à mostra que não tinha um dos dentes da frente. Vestia um poncho muito velho, e pelo jeito não o tirava nunca, visto à podridão das dobras da veste – devia ser esse o motivo pelo qual levava aquele estranho apelido.
O comentário irônico de Rico foi o suficiente para alimentar as brasas da fogueira de dez homens que discutiam num murmúrio tão alto que nem o próprio dono do saloon conseguiu calá-los. E nem foi preciso. A entrada de um homem alto, que usava um chapéu aparentemente de couro de búfalo, cobrindo os cabelos e as grossas sobrancelhas, os fez silenciarem instantaneamente. O caubói tinha a barba esbranquiçada demonstrando sua idade avançada, e na bochecha direita uma cicatriz em forma de “L” o deixava com a aparência de um touro raivoso marcado a ferrete. Em contra partida, seu casaco roxo escuro com ombreiras bordadas em linho e botoeiras brilhantes era muito extravagante. No peito esquerdo havia um brasão redondo com uma grande letra garrafal “W” transparecida através de uma estrela. Era contornada por dois elmos nas laterais externas de onde se formavam o número 1837. Bem em cima, em forma de arco, estava escrito:
Paz & Justiça
As outras palavras, desgastadas pelo tempo, eram impossíveis de se observar com louvor. O velho também usava um par de botas esporadas e carregava na cintura uma espada modelo Arcânio da qual nunca descolava uma das mãos. Sua filha possuía uma lâmina idêntica à sua, por isso sempre que possível ele enfatizava para que ninguém se sobressaísse com Dorat, dizendo “ela é uma moça mansa, mas bem treinada contra tarados!”. Todos pareciam entender.
Por mais que seu casaco fosse chamativo e estranho, impunha respeito, pois todos ali, respeitosos, olharam-no tirar o chapéu e se pronunciar:
– Pago [3]duzentão no meu Alazão!
– Ma-mas senhor Gadster, a corrida é entre Tornado e Zumbido – gaguejou Khloe ao que pareceu um argumento.
Khloe Carter era o peão mais novo do grupo de Winni. O jovem tinha cabelos castanhos cacheados e nariz de gancho. O coitado mal sabia montar e somente ele dos peões não usava as vestes cinza, pois ainda não as serviam. Não bebia e não fumava porque acreditava que esse tipo de atitude o levaria para o Inferno.
– Pôdemo colocar Alazão nessa carniçada já que tão apostando nos meus cavalos mais velozes – gargalhou com infâmia.
– Sienta-te e beba um poquito senhor – ofereceu Lupita, a esposa de Rico, uma mulher muito bela, corpo caramelado, cabelos negros e olhos castanhos esverdeados. Usava vestes sempre deixando à mostra as partes acima dos calcanhares, atitude essa que nem as moças da Sra. Moon se atreviam a tomar, pois era impróprio e atraia sussurros fofoqueiros das mulheres que se julgavam descentes.
– Tô só de passagem. Vim me abastecer, porque fazia tempo que minha cicatriz não doía tanto. E quando dói...
Fez-se uma pausa.
– Vem tempestade das brabas por aí! – disse o velho, conciso. – Mas antes de partir quero saber se alguém vai apostar?
– Estos hombres falam da boca pra fora Winni – comentou Rico num tom de extrema intimidade e companheirismo.
O silêncio dos borrachos apostadores, e suas cabeças baixas, fazia o saloon parecer completamente vazio, exceto pela presença de Rico e Winni, também Lupita, um tanto discreta. Ao ver que ninguém era corajoso o suficiente para encará-lo, Winni virou-se e antes de sair pela porta, ainda com a mão no cabo da Arcânio, parou, colocou seu chapéu e com um tom de superioridade na voz, disse:
– Quando algum de vocês for macho o bastante, sabe onde me procurar – rogou as secas palavras contra os caubóis que ali estavam. – Outro dia volto e bebo um poco contigo, meu velho amigo – e saiu.
Quando Rico chegou do México, havia sido muito bem recebido pelos Westerns que tinham sobrado, virando quase que um fiel escudeiro, sendo ajudado e criando um vínculo de amizade principalmente com Winni – fato incomum quando relacionado ao fazendeiro e suas amizades escassas.
Aos poucos a conversa retomou a amplitude normal, porém o assunto da corrida se dissipou no ar, abrindo espaço para o clima e aquele estranho vento soprado do oeste. Seria verdade a previsão de Winni sobre a tempestade, mesmo que houvesse anos e anos que a chuva não dava as caras?
IV
Sim. No fim da tarde, com o céu manchado pelos primeiros focos da noite, as coisas pioraram conforme Winni previu. O vento se intensificou, e uma grande e devastadora tempestade se iniciou. A fina garoa não tardou em se tornar uma grossa chuva, que batia com uma força sobrenatural nas paredes de madeira das casas. Os moradores do condado, assustados, não pregaram os olhos um instante se quer, tomados pelo medo de ter o telhado desmoronando sobre suas cabeças. Em meio ao som dos raios e trovões, o barulho do sino da igreja prorrompeu na imensidão. Era um aviso para todos deixarem rapidamente o local em que estavam e se direcionarem rumo ao foco das badaladas. A motivação para isso se devia ao fato de que a sede da igreja católica de Santa Inês era o lugar mais seguro e protegido dali, com sua estrutura vigorosa de toneladas e toneladas de madeira. O recinto ficava na horizontal do cruzamento principal, sentido norte-sul.
O povo começou a abandonar tudo e correr para a igreja. Ouviam-se gritos histéricos e desolados de medo e terror.
– Bamos! Bamos! – era a voz de Rico, que guiava as pessoas.
A chuva grossa batia forte no rosto das pessoas que abandonavam suas casas, arranhando-as e esparramando seus cabelos.
– É o fim do mundo! – dizia o lunático e atormentado Dustin, um magricelo e cabeludo, que tinha os dentes bem separados, cuja identidade e origem todos desconheciam. Ele havia aparecido em uma tarde abafada do verão de 1867, vindo do deserto, com a cabeça ensopada de sangue. Se arrastando, como um soldado no campo de batalha, acabou por beber água no cocho dos cavalos, na estrebaria pública, e por ali ficou, sem se lembrar de nada, gritando durante um bom tempo apenas um nome que julgaram ser o dele, também algumas palavras sem pé nem cabeça: “Dustin... Dustin. Deserto. Brilho. Puf! Água”. Teria Dustin problemas mentais ou sofrera um ataque dos Hopefulls que o deixaram com tal sequela?
Os nativo-indígenas atormentavam há décadas a região tomada pelo povo branco, investindo constantemente em ataques fracassados pela retomada do Arizona – terras que diziam serem suas por direito. Era uma sangrenta guerra que não tinha fim. Eles só não entravam em Santa Inês por medo dos Westerns, já que a equipe de pistoleiros talvez fosse a única força capaz de desencorajá-los, e capaz de defender os descendentes de europeus desse estranho povo do deserto. Mal sabiam eles que sobrara apenas um, ou um que se tinha noticia...
Dustin conquistou os habitantes de Santa Inês e por ali ficou, trabalhando e vivendo de favores no galpão do ferreiro Ernest, um homem forte, sobrancelhas grossas e que quase não tinha cabelo. Sua pele era queimada, mas nada assustadora quando se conhecia seu caráter. O “mago do ferro“ era conhecido por seus incríveis utensílios – inclusive havia feito as Arcânios para os Gadster. Diziam que ele fora torturado por mercenários nortistas, cuja intenção principal era a obtenção de armas revolucionárias. Ele se negou até o último instante de cárcere, é claro. “É tudo armação do Diabo”, comentou ele sobre o episódio.
Aquela tempestade havia se tornado um bailar de raios, que vinham do céu ora em direção as redondezas, ora em direção a Santa Inês. A chuva se lançava aos floreios, e parecia dançar de mãos dadas com o vento soprado do oeste. Ao contrario da mansão de Winni, a casa mais simples do condado pertencia a Léon Sanchez, o mensageiro do condado, e sua família. Ele era franzino e magrelo, com alguns poucos fiapos como barba, e vivia triste por ser piada na boca dos homens mais velhos e também das meninas da Sra. Moon, principalmente por não possuir vestes adequadas, lhe restando utilizar peças surradas que ganhava, a exemplo do casaco verde com o brasão dos Westerns que ele sentia muito orgulho em vestir. Como conseguira? Saqueara de alguém? Era verídico que o rapaz carregava a fama de um exímio mensageiro quando se tratava de carregar cartas e recados até a Capital, no sudoeste do estado. Algumas vezes era visto treinando laço em um terneiro de madeira que construíra com a ajuda de Ernest, mas sua técnica era pífia e seus tiros de laço incapazes de lhe elevarem a moral.
Foi uma coincidência um tanto infeliz o maior raio já visto por ali cair justamente no telhado de palha da casa de Léon. O estrondo sacolejou as vidraças e fez tremer o piso embarrado do lugarejo. Quando o chiado prolongado acalmou a histeria da noite, uma voz rouca reabriu aquela loucura que se tornara a fuga para as dependências da igreja local.
– XERIFE! XERIFE! – berrava o magricelo, visivelmente perturbado, enquanto densas gotas d’água pingavam por suas largas orelhas, e corria sem rumo. – Minha mãe tá sozinha lá em casa...
Na imensidão, as trovoadas urravam sem dó nem piedade.
A mãe de Léon era viúva de Simón Sanchez, um mexicano respeitado em todo o estado do Arizona por ter sido um dos fundadores de Santa Inês, e consequentemente um dos cinco Westerns. Ele morrera de velho há muitos e muitos anos, mas deixou uma boa herança para que sua família seguisse em diante sem a sua presença – o que explica como o casaco dos Westerns foi parar nas mãos de Léon... Contudo, uma depressão trazida pela perda do marido fez Mia Sanchez se afundar em jogatinas (vinte-e-um, roleta, canastra) e perder tudo. Agora ela vivia de maneira humilde, incapacitada de fazer o menor movimento devido à doença degenerativa que carregava e a sua idade avançada, e também por isso não tinha a mínima condição de ajudar Léon a trazer dinheiro para casa.
– Ajude minha mãe, xerife! – suplicava o rapaz, apontando trêmulo para a direção oposta da entrada de Santa Inês.
Em meio aquele tumulto desordenado, surgiu um homem, montando um enorme cavalo. Por causa da escuridão, quase não se via seu rosto e do animal quadrúpede que ele montava; apenas vultos e sombras. De repente, um raio caiu em direção aos cânions de Valley ali perto, fazendo com que um clarão esbranquiçado iluminasse todo o condado e consequentemente o rosto do homem. Ele era muito forte, tinha longos cabelos e bigode loiros, olhos azuis e uma expressão marcada pela seriedade. No coldre das coxas, trazia um par de revólveres de prata e um chapéu com uma estrela dourada no meio pendia para trás em seu pescoço. Montava um enorme cavalo baio marrom, que nem mesmo Winni possuía tão belo e de excelente porte no seu estábulo. Usava vestes azul-marinho, e na parte esquerda do peito de seu casaco havia o mesmo brasão que possuía o casaco do velho Winni e o do jovem Léon, porém em melhores cuidados, porquanto o dele tinha abotoaduras brilhantes, de algum material valioso – provavelmente de prata.
O xerife, então, partiu veloz rumo à direção indicada por Léon, parou diante da porta do casebre onde altas labaredas de fogo ardiam no telhado de palha, mesmo que a chuva tentasse abafá-las, e fez seu cavalo empinar as patas dianteiras, murmurando um tipo de língua estranha.
– SUFFARCINO! – disse incompreensivelmente.
No momento seguinte, o cavalo arrombou a porta com apenas um coice. O xerife, em poucos segundos, desceu do animal, entrou na residência e rapidamente saiu, trazendo a Sra. Sanchez no colo e a posicionando na garupa do cavalo. Sem hesitar, levou-a para a igreja, onde o padre Andrey Fillant acolhia os desabrigados. O vigário era um homem de pouca idade, que tinha cabelos castanhos e olhos azuis. Gostava de usar um chapéu marrom, e sempre posava de santo, vestindo sua longa batina preta. Despertava não somente o interesse de todas as mulheres do condado, inclusive as comprometidas, mas também a desconfiança dos homens, que suspeitavam quanto à sua dedicação febril em ser uma figura religiosa mesmo com a sua pouca idade e charme inigualáveis – chegando ao ponto de ter abandonado a vida boa que tinha na Capital, junto de seus pais.
V
Todos estavam se acomodando e buscado asilo na igreja, inclusive os peões de Winni, que não tiveram tempo de regressar à fazenda e se encontravam no saloon até poucos momentos atrás. Bêbados e nem aí para a tempestade, foram direcionados por Poncho até o abrigo da santa casa. Alguns fazendeiros também estavam por lá, a exemplo do renomado Bialtar, algoz de Winni – principalmente por ter sido desmerecido e rejeitado para compor os Westerns, em meados de 1837 –, e Grace, ele vindo de Ytrinit. Os dois, somados a massa de outros tantos pecuaristas e agricultores da região, partiram antes mesmo do sino ser tocado, pois sabiam que em casos urgentes o melhor a se fazer era procurar o abrigo da igreja, construída de tijolos de barro em comunhão com madeira virgem de Pinus strobus, a árvore mais forte do qual se tinha conhecimento. Na verdade nem todos procuraram refúgio. Além do zelador do condado, o senhor Adamastor (não se sabia o seu sobrenome), considerado por muitos o homem mais inteligente dali, o velho Winni e sua filha, Dorat Inês, não deram o menor sinal de vida. Todavia, corriam boatos de que a família Gadster possuía uma fortaleza subterrânea escondida em sua propriedade. Caso isso fosse verdade, o rabugento e recalcado criador de gado não precisava se preocupar nem mesmo com um ataque dos Hopefulls, e o povo de Santa Inês estaria seguro se os nativos descobrissem a verdade sobre o fim dos heróis do deserto e resolvessem atacar o condado sem piedade, restando, assim, essa fortaleza como única saída verossímil.
A madrugada chegou inescrupulosamente fria, e os [4]aproximadamente 380 habitantes de Santa Inês, segundo levantamento do senso do ano anterior, somados aos fazendeiros que não habitavam o condado, já estavam abrigados nas dependências da igreja, sob os cuidados do vigário. O último caubói que abandonou o dilúvio catastrófico foi Denzer Yell, o homem loiro que falara aquela estranha língua. Para muitos, sua imagem era associada à de um herói, muito disso por ser filho de um dos cinco Westerns e, assim como seu pai, deter o posto de xerife. Carl Yell havia sido o primeiro xerife de Santa Inês, ficando conhecido por ser recrutado pela com frequência pela Capital para trabalhar em missões de guerra e de caça a bandidos perigosos. Nesse quesito, Denzer era muito parecido com o pai, já que também prestava serviços À Cúpula de tempos em tempos.
Ao passar pela porta, o xerife foi iluminado pelos diversos lampiões que foram espalhados pelas vigas das paredes, então fez o sinal da cruz voltado ao altar de Jesus Cristo crucificado.
– Amém – sussurrou ele num muxoxo baixo e tímido, e então descarregou uma bolsa que trazia na garupa de seu cavalo e retirou de dentro dela alimentos e roupas secas para distribuir entre os necessitados. Seus cabelos molhados cediam gotas d’água que escorriam por seus olhos, embaçando-os.
Enquanto tomavam xicaras de chá para se acalmarem do susto, as meninas do bordel encaravam o xerife Yell de maneira que uma moça descente não o faria; mas nem sempre era assim. Muitas vezes, Denzer era motivo de por ser perdidamente apaixonado por Dorat, mesmo vendo-a pouco, e por tal motivo não frequentar o bordel como os outros solteirões. Era, disparado, um dos principais pretendentes para se casar com a jovem Gadster, ainda mais com sua hereditariedade de sangue e ao posto de Arizon xerife – penúltimo nível (correspondente a quatro estrelas) na escala evolutiva dos homens da lei do estado – que detinha.
Denzer estava entregando um chalé de lã para uma senhora, quando foi intencionalmente cutucado. Ao se virar, a imagem de Léon se tornou nítida diante de seus olhos encharcados. Ele esperou como se receasse abrir a boca.
– Muito obrigado por ter salvado minha mãe, senhor xerife – agradeceu, enfim, o jovem, seu tom de voz esbanjando admiração e gratidão.
– É minha função rapaz... Ajudá quem precisa! – respondeu Denzer com o máximo de desdém que pode; hipócrita.
Ele deixava claro que despreza as condições de vida dos Sanchez, principalmente porque o lendário Western verde havia deixado uma quantia consideravelmente satisfatória para o sustento de sua família. Mas que culpa tinha Léon, se quando foram à falência sua mãe era quem controlava tudo e ele era apenas uma criança inocente e sem consciência? Ninguém entendia.
Léon deu as costas, sem brilho nos olhos, balançando negativamente a cabeça, visto que alcançar o posto de xerife era seu desejo futuro, e diante do qual não possuía pensamentos arrogantes de tratar qualquer pessoa, bandido ou não, de maneira tão baixa e desmoralizante.
Perante a acomodação dos desabrigados, o xerife Yell se reuniu intimamente com Andrey, Mark, Rico e Ernest, os homens mais queridos e inteligentes que ali viviam, para uma espécie de reunião de feitio igual as que ocorriam diariamente n’A Cúpula, a sede dos governantes da Capital.
– Amanhã, depois que Mark calcular os prejuízos, o senhor deve tomar alguma providência pra pedir recursos À Cúpula. Tua fama o ajudará – disse o padre para Denzer, preocupado com os suscetíveis estragos causados pela tempestade. Possivelmente, grandiosos estragos.
– Posso ceder alguns materiais pra vocês, se é que o vento não os levou. Tinha uns pedidos da Capital pra começar, mas isso não vem ao caso – comentou o ferreiro Ernest, deixando à mostra o seu desapego para com bens materiais.
– Pelo jeito que vi, não foi pouco estrago não... E há muito tempo não recebemos nada da Capital – argumentou Mark, o administrador local, um homem baixo e meio gordo, que usava um par de óculos de meia lua e sempre se vestia de maneira rigorosamente formal, inclusive naquela ocasião – afinal, se for sobreviver a uma catástrofe, que seja com estilo! Era renomado por administrar Santa Inês há dois [5]mandatos, e inigualavelmente imbatível quando se tratava de amor, já que ele era casado desde a adolescência com Susan, uma bela senhora ruiva que prestava serviços de costura para o condado.
Eis que Charlie, um moço belo, de cabelo castanho lambido ao extremo, e que vestia um jaleco branco meio embarrado, entrou na sala. Ele era o médico do condado; um dos únicos a ter diploma, na verdade.
– Não há nenhum ferido, apenas as senhoras que levaram um susto com tudo isso – informou o homem, cuja voz ressoava de tão grave.
Charlie mal havia terminado de se pronunciar e a porta do escritório tornou a se abrir. Desta vez era o velho Bialtar, coberto com suas boas intenções.
– Ah, me desculpem... Só queria informá que talvez faltem alimentos pros animais e pro povo, se essa tempestade tiver prejudicado os campos como tô imaginando – disse o velho, que era fisicamente parecido com Winni, apenas com a aparência um pouco mais surrada e desgastada pela lida. Era alto, corpulento, e tinha os cabelos, as sobrancelhas e a grande barba completamente grisalhos, fora o nariz cheio de acnes. Recebeu um aceno de concordância de Denzer e tornou a fechar a porta pela quinquagésima vez, resmungando algo parecido com “depois dessa safra boa com a água dos bolsões acontece isso... Ô aspa de grilo!”.
Os homens se entreolharam por alguns segundos, quando Denzer pigarreou intencionalmente e reabriu as conversas:
– Amanhã cedo vô providenciar tudo – argumentou com firmeza. Também disse que se A Cúpula negasse ajuda, ele não hesitaria em pedir o auxilio dos fazendeiros da região, mais precisamente à Winni, já que os outros possuíam quantias de dinheiro suficientes apenas para seus próprios consertos, e o velho, por sua vez, tinha o bastante para reformar todo o estado, se quisesse.
VI
O dia amanheceu ensolarado, como costume em Santa Inês. Havia pássaros cantarolando, nuvens um tanto escuras deixando poucos feixes de luz as ultrapassar, fora a agitação histérica nas ruas embarradas. Porém o fato mais intrigante se reservava àquele estranho vendaval, que havia desaparecido de maneira espontânea, mas isso não motivava comemoração alguma, visto que os estragos eram muitos, em todas as casas do condado. Santa Inês precisava de ajuda. Algo devia ser feito.
Logo pela manhã, pencas de homens estavam pendurados pelos telhados, acompanhados de pregos e martelos, fazendo o possível para segurar a estrutura frágil de suas casas, enquanto o xerife tomava as devidas providências. Quem comandava o movimento era o ferreiro, ele que já havia cedido os materiais que prometera, e que no fundo não eram suficientes. A questão estava calamitosa.
Algumas casas estavam com muitos danos, diferente de outras, que não haviam sofrido quase nada, a exemplo da mercearia de Dom Quentin, o comerciante de alimentos do condado. Baixo e muito magro, ele necessitava subir num banco para alcançar as prateleiras mais altas e repor seu estoque de pepinos e palmitos em conserva. Tinha cabelo ruivo, e uma franja totalmente díspar o diferenciava e muito de qualquer homem já visto por aquelas bandas. O fato mais relevante ao seu respeito ficava por conta de ser apaixonado por um prato feito com massa de pão e uma mistura de carnes e temperos, todos assados – chamava-se pizza.
Os primeiros caubóis que haviam deixado a igreja, antes mesmo de o sol inundar o condado, foram o xerife Yell e Mauri Card, um homem com jeito de gran fino, que tinha costeletas curtas e olhos castanhos. Vivia no Bordel da Sra. Moon, sempre atrás d’uma única mulher, Roberta Golg, uma loirinha com carinha de anja e cabelos encaracolados. O mais comportada possível para se vestir, ela usava roupas de gola alta e mangas abotoadas, porém o feitiço que jogou sobre Mauri foi fatal. O jovem Card era o melhor desenhista do qual se tinha conhecimento, fazendo trabalhos inclusive para fora do estado – raramente também recriava iguarias utilizando carvão. Prestando seus serviços para Denzer, ele estava no presente momento retratando a destruição do condado em gravuras de lápis e esboços de cera, para que fossem anexadas ao requerimento que seria entregue À Cúpula.
Denzer estava inquieto pela demora de Mauri, e quando o bom samaritano terminou sua atividade, ele pegou os vários desenhos e sem demora rumou decidido na direção da delegacia. Ao passar em frente ao bordel com suas passadas largas e rápidas, notou que Roberta e as outras meninas espiavam pela janela os homens que trabalhavam por todo lado. Nesse mesmo momento, Clear, vestida de preto, repreendeu-as e ordenou que ajudassem os idosos na igreja – apesar de tudo, a velha tinha um bom coração. Restou às moças obedecer.
Denzer mal ingressara na delegacia e já estava de volta à rua, trazendo uma mochila cheia de tralhas e alguns longos rolos de pergaminho. Caminhou, desta vez, até o estábulo público, na vertical da principal rua do condado, onde encilhou seu cavalo, aquele lindo baio, e partiu não para a Capital, mas sim para a entrada oposta de Santa Inês. Onde estava indo? Ao trote de uma ranchera, cavalo e cavalariço se estacionaram na frente da humilde casa atingida pelo raio; era a casa do jovem Léon. Sozinho, o rapaz tentava recuperar o que podia em meio aos escombros – isso porque sua mãe e as outras senhoras ainda ficariam sob os cuidados do padre e do médico durante mais alguns dias.
– Pr’onde tá indo senhor? – perguntou Léon, curioso.
– Eu não. Tu vai... Pra Capital – exclamou Denzer rapidamente, descendo do cavalo. – A missão de hoje é pra ti, e sei que não vai se negar em mantê tua fama de mensageiro eficiente.
Eis que o xerife abriu o fecho da mochila e tirou de dentro dela um belo casaco azul, idêntico ao que usava, e o mesmo que Léon também vestia naquele momento, apenas em discrepância de coloração, já que Simón era identificado pelo verde. O mexicano dizia que o verde representava a natureza, e, por isso, também representava Deus – Léon muito ouviu de sua mãe, antes dela perder a fala, as célebres frases de seu pai; “A natureza pode ser uma ótima companheira se tu souberes como agradá-la, ou também sua pior inimiga se maltratá-la!” era uma delas.
Léon sobrepôs o agasalho, e ficou aparentemente grande, porém era possível observar a adrenalina modelada no seu rosto disléxico. Denzer também sorriu diante da cena. Parecia que o desprezo demonstrado pelo xerife sumira junto com o sopro do vento oeste. Naquele momento, pareciam pai e filho.
A viajem podia ser feita de trem, mas a estação funcionava em períodos pré-definidos, e diante da urgência, outros entraves ao longo da malha férrea, como ladrões ou ataque dos Hopefulls, poderiam atrasar ainda mais a missão de Léon. Antes que o rapaz montasse no cavalo, Denzer foi surpreendido.
– Ah, quer saber... Sei que tá velho, mas prefiro vestir o do meu pai, senhor. Me sinto mais confiante e parece que a natureza realmente me ajuda – informou Léon, para a surpresa estupefata de Denzer. Restou ao xerife retirar o casaco dos ombros do mensageiro, que se posicionava para montar, no entanto teve sua atenção voltada à marca no quadril do animal. Via-se com exatidão:
Denzer reparou que o rapaz vislumbrava o símbolo, fascinado.
– É... Hum... a marca da minha família – informou instintivamente, antes mesmo de ser questionado. Procurou outras palavras, mas o melhor foi se calar diante do tom de voz infamemente mentiroso com o qual se pronunciara.
Léon sorriu amarelado, enquanto cariciava com carinho a pele do animal. Sem convite, pôs o pé no estribo e montou o lombo do cavalo baio, sentindo uma emoção inexplicável, um sentimento de superioridade. Contudo, seu momento vanglorioso fora interrompido sem que ele pudesse desfrutar o máximo.
Entregou-lhe uma carta que continha informações relevantes sobre os danos e os valores necessários para as reformas, dos quais o xerife nem quis saber, apenas carimbou-a com o selo da letra “W”. A ordem de Léon era que quando chegasse a seu destino, fosse falar diretamente com Louis Four, o administrador geral d’A Cúpula. Ele que daria o veredito quanto à ajuda financeira disponível para com o segundo condado mais importante do estado.
– Antes de qualquer coisa, diga “Deus Enriquece”. Depois avise que Denzer Yell, filho de Carl Yell, Arizon xerife, necessita ajuda... E dê a carta. Entendeu?
– Aham.
– Espero que a natureza que vosso pai acreditava o ajude e o vento te faça ir mais rápido – comentou o xerife, conferindo os últimos detalhes no encilho do cavalo. – Santa Inês precisa de ti.
Léon repassou mentalmente as palavras que ouviu.
– Até mais Raio. Comporte-se – Denzer se voltou para o cavalo.
Que coincidência o animal se chamar Raio, já que tudo aquilo estava acontecendo por causa de muitos raios e seus sinônimos da chuva.
– O BONE... – Era uma língua diferente da convencional. – E Que a paz e a justiça o sigam, bom rapaz! – finalizou o xerife, mirando o fundo dos olhos do mensageiro, estremecendo-o. Então deu uma palmada no quadril do cavalo, que partiu sem se importar com o pouco pasto que comera naquela manhã.
Santa Inês precisa de ti...
Léon e Raio se deslocavam lentamente, o rapaz tentando entender o que tinha ouvido da boca do xerife. Todavia, logo deixou aquilo de lado, quando notou que as pessoas faziam pausas nas reformas para observá-lo. Nada mais justo, o destino de Santa Inês estava em suas mãos. Ele era o herói em quem todos deviam depositar sua esperança. Desfocou a visão em um momento de pensamentos arrojados e com seu raciocínio aguçado obteve uma conclusão: a tempestade uniu a maioria do povo. Eles estavam se ajudando, compartilhando comida, roupas e materiais – com algumas exceções, é claro.
Os olhares vinham de todas as direções. Homens, mulheres, crianças... Até mesmo das meninas da Sra. Moon, algumas saindo da igreja e as outras na porta do bordel. O fixavam não com aquele olhar de ironia, e sim de surpresa e admiração. O rapaz até gargalhou quando viu Gwen, a melhor amiga de Roberta, tropeçar enquanto caminhava e tentava vê-lo.
Ao se aproximar da estação de Búffalo, quase saindo do condado, o jovem Sanchez firmou as mãos nas rédeas e esporou a barriga do animal com suas botas. O cavalo reagiu instantaneamente e partiu como um qualquer diante dos primeiros resquícios de deserto, tornando Monument Valley cada vez maior e deixando apenas a poeira erguida pelas fortes patadas
Mesmo com um cavalo rápido, a Capital ficava a, no mínimo, quatro dias de ida e quatro dias de volta, sem contar as noites de sono que perderiam e os empecilhos de viagem, como o ataque de lobos e os tsunamis de areia, que há muito não ocorriam. A dupla teria uma longa jornada.
Em meio aos cânions da região, o som de tiros prorrompeu, ecoando pelas dunas e paredões de rochas no entorno do condado. Provavelmente eram os Hopefulls na ativa, visto que também deviam ter sido afetados pela tempestade, talvez até mais que as pessoas de Santa Inês, e estavam caçando e coletando alimentos no alto das colinas. Não era nada corriqueiro ver índios portarem armas de fogo, no entanto os Hopefulls eram diferentes dos outros povos. Movimentavam-se na calada, em busca da vitória na luta pela reconquista do Arizona. Mas como conseguiriam se armar? E quem os liderava? Eram estranhos por assim dizer. Só não se diferenciaram no que dizia respeito ao medo dos Westerns.
VII
Denzer observou Léon se apequenar e sumir no deserto e não demorou em trazer sua atenção de volta à realidade; de volta ao batente. Ele caminhou decidido, pensando nos possíveis estragos que assolaram sua casa, nos fundos da delegacia. O fluxo de informações o encharcou de maus pressentimentos. Nesse momento, uma carruagem preta dobrou pela entrada oposta do condado, provavelmente vindo das fazendas. As rédeas eram comandadas por Winni, mas o velho não estava sozinho. Havia um vulto opaco no interior do veículo.
À esquerda do cruzamento principal, a carruagem dobrou outra vez, e parou em frente à igreja. Winni desceu da condução e abriu a porta lateral para uma bela moça, toda em tom salmão, que desceu pelos degraus de madeira. Tinha cabelos escuros e curtos, e um rosto jovial, com seus olhos verdes – olhos que, sem dúvida, dariam inveja em qualquer uma das meninas da Sra. Moon.
– ‘Dia Dorat – cumprimentou o xerife em voz alta, impedindo que a moça entrasse na igreja sem olhar para trás. – Senhor Gadster.
– Olá Denzer. Como vai? – respondeu a moça docilmente. Nem parecia a encrenqueira do qual muito se ouvia falar.
– Eu bem, o condado nem tanto. Como se foram de tempestade?
– Isso porque não construíram casas fortes que nem a minha. Passêmo muito bem, aliás! – intrometeu-se o velho.
Winni tinha uma notável admiração por Denzer, e gostava de receber suas visitas para beber uísque e conversar os mais diversos assuntos do gosto de ambas as partes. Via ele como um ótimo genro e, acima disso, o filho homem o qual nunca tivera. Muito disso devido ao fato do Western roxo ter sido amigo próximo de seu pai, Carl Yell, um dos poucos que atingiram o posto de Gran xerife. Sua morte em combate contra os Hopefulls dez anos atrás ainda era repleta de mistérios, entretanto até os dias atuais era lembrado por ter sido um dos cinco Westerns e fundador do condado onde se sagrou a primeira figura policial, exercendo o cargo de In xerife, o nível mais baixo da [6]escala evolutiva.
– Mas até uma casa forte talvez não resistisse – argumentou Denzer impacientemente, as sobrancelhas em riste.
Pai e filha se entreolharam, sem saber o que responder.
– Nos dê licença, rapaz. Trouxe Dorat pra rezar por quem sofreu com essa mardita tempestade. Terá mais oportunidades de vê-la, mas agora vejo que tá ocupado com essa bagunça – disse Winni, enrolado com suas palavras gritantes.
Trazia a filha para pedir amparo aos necessitados, contudo não ajudava com uma migalha se quer de sua fortuna. Não seguia nem de perto os princípios que os Westerns implantaram e juraram defender quando se uniram em prol de uma razão em comum, a paz e a justiça. O lema da equipe era “Que a paz e a justiça imperem diante de todo mal”.
– Tem razão senhor Gadster, há bastante coisa pra fazer. Mas isso depende do que o jovem Léon conseguirá de recursos com A Cúpula – informou Denzer de maneira indiscreta, na tentativa frustrada de cativar o velho a disponibilizar ajuda.
– Não conheço o rapaz – disse Winni com desdém.
– É filho do Simó... – Denzer não pode concluir, pois naquele momento, pela primeira vez no dia, o sol era recoberto por uma densa nuvem cinza. Todos observaram os céus, admirados – o xerife até tirou seu chapéu estrelado. Quando baixou a cabeça, Winni e Dorat já haviam partido. Virou-se e, momentaneamente, pensou em como utilizaria o resto do material disponível da melhor forma possível.
Com a escassez de matéria prima se tornando esgotável a cada minuto, Denzer comandou uma curta e rápida reunião democrática que resultou na derrubada dos destroços que sobraram da “casa” de Léon. A finalidade era tornar os sedimentos como madeira, tijolos e barras de ferro em materiais de remenda para os locais mais precários de Santa Inês. No momento da ordem, o xerife não ponderou sobre o que acabara de fazer; Léon e Mia agora estavam sem um teto para sequer ter uma boa noite de sono. Rico, porém, levantou inúmeras hipóteses: o salão paroquial da igreja; o hotel Dallas – localizado em uma rua secundária no oeste do condado; entretanto, com sua enorme bondade, decidira conceber aos Sanchez, inteiramente de graça, um dos quartos no segundo piso do saloon quando tudo se colocasse em ordem.
Winni podia estar ajudando o condado que ele próprio e o resto dos Westerns haviam fundado, mas não se importava com nada além do próprio nariz – e o nariz de Dorat, é claro. Seu único gesto de humildade, diga-se de passagem, foi dispensar seus peões por mais três dias, para que eles pudessem trabalhar, de sol a sol, no reparo dos telhados.
Em meio ao cansaço, Denzer não desistia de procurar a carruagem.
– O que estás procurando xerife? – indagou Mark, curioso.
– Nada não, Mark – desconversou. O que me diz sobre o prejuízo? – Sua preocupação genuína lapidava o caráter cético de um homem honesto.
– Minhas contas apontaram que precisamos de 18200 dólares. Deixei explicito na carta para mandarem o que puderem mesmo que não seja toda essa quantia – explicou o administrador sem encarar Denzer nos olhos, ao invés disso foleava um bloco de pergaminhos sob os óculos de meia lua.
– Minha Santa Inês, tende piedade de nós – Parecia que o coração do xerife Yell parara de bater com tamanho prejuízo – Obrigado Mark. – Virou-se, então, em direção à entrada do condado, mirando o cânion de Valley sem pressa.
– Faça o teu melhor Léon. Precisamos de ti – murmurou docemente, a voz calma e ao mesmo tempo preocupada.
A noite se aproximava lenta e esbelta. Antes do crepúsculo, uma vistoria final devia ser feita. Ernest se encarregou de acompanhar o xerife em tal função. A dupla cavalgou de uma ponta a outra do condado, o pensamento de que nada mais podia ser feito se aflorava na mente dos dois.
Faltava material, e para ter-se material, faltava dinheiro.
– Se tudo ocorrê como esperamos, antes do novo ciclo da lua tudo estará reformado e devidamente organizado – disse o ferreiro para Denzer por trás do som de relinchos que fazia fundo à conversa.
– O povo acredita em mim. Não posso decepcioná-los.
– Acalme-se home! Nos últimos anos o senhor tem se mostrado um ótimo comandante, embora argumas pessoas não vejam a bravura e a bondade no seu coração – consolou-o Ernest com um tom de pura sinceridade na voz rasgada.
A carruagem não fora mais vista naquele dia; já havia partido há muito. O sol distante ia se pondo tranquilamente, levando consigo o suor árduo dos homens e mulheres que depositaram sua esperança nas mãos do mensageiro Léon Sanchez. Tarefas foram embargadas pela falta de mantimentos, pessoas ainda precisariam dormir na igreja, onde Charlie ficaria de plantão durante a madrugada, precavido contra qualquer incidente. O cansaço ganhava força.
Aos poucos a noite foi tomando conta, úmida e silenciosa – exceto pelo cricrilar dos grilos –, recortando a copa das árvores por trás das primeiras estrelas que surgiam no céu, e que vieram inesperadamente acompanhadas de perto por pequenas nuvens escuras. Nenhuma anormalidade estava à vista... O sino de repente soou, e as pessoas rapidamente procuraram obedecer às badaladas e se abrigaram em seus recintos repletos de calor; um calor chamado amor. A partir daquele dia em diante, qualquer mudança desusada do vento, principalmente daquele soprado do oeste, seria como um aviso prévio de que algo surpreendente aconteceria a seguir, e todos deviam se preparar para o pior.
[1] Em português, significa “O estado do Gran Cânion”.
[2] Mesmo que os estrangeiros sejam forçados a se adaptar a nova língua que os cercam, sempre haverá caubóis grosseiros que se põem a tagarelar algo que muitas vezes não entendemos. A resposta para isso é a compreensão e respeito para com esses seres, pois todos descenderam de um mesmo antecessor em comum. Como tal, preservarei a escrita bem como se fala, ¿entiendes?
[3] Em todo o estado do Arizona, e em algumas outras regiões dos estados vizinhos, o traço mais marcante da cultura linguística se reserva à propriedade interiorana das palavras (também mencionadas vagamente pela alta classe de locais como a Capital, por exemplo). Por isso, palavras do dia-a-dia – como sou e vou, por exemplo – não devem ter suas pronuncias modificadas quando retratadas num pedaço medonho de papel, já que suas origens merecem ser mantidas em honra ao povo que as fala. Então se acostume, verá muito isso daqui para frente, ou melhor, daqui ‘pra’ frente.
[4] Aproximadamente, pois a contagem era feita a pé, de casa em casa, e muitas vezes alguns integrantes de cada família estavam em suas lidas, seja no próprio condado, seja na roça, abaixo de sol.
[5] No estado do Arizona, a politicagem ocorria a cada cinco anos, onde se elegiam por votação da classe alta – o que equivalia há um pouco mais de 22% da população da Capital – um Administrador Geral, dois Conselheiros, cinco Fiscais e oito Designadores. As eleições só ocorriam lá, e a resignação de cargos para a administração dos demais condados ficava à escolha destes eleitos.
[6] Os níveis evolutivos do posto de xerife no estado do Arizona são, em ordem crescente, Aprendiz (nível zero estrela – mínimo), In xerife (nível uma estrela), Wol xerife (nível duas estrelas), Master xerife (nível três estrelas), Arizon xerife (nível quatro estrelas) e Gran xerife (nível cinco estrelas – máximo).
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