Notas iniciais
O destino de Santa Inês está nas mãos de Léon, o mensageiro do condado. Ele correrá contra um cavaleiro escolhido pelo antigo Western roxo. O vencedor leva o valor da reforma e Raio, o cavalo do xerife Yell.

I

Vários dias se passaram desde que o jovem Léon partira, dias esses que se transcorreram sem a presença do vento, e em meio à preocupação com os reparos que o condado necessitava sofrer, a inquietude do povo para com o destino que o mensageiro havia tomado deixava à mostra qual o foco principal das rodas de fofocas, visto que, na pior das hipóteses, ele poderia já nem estar mais vivo. De qualquer maneira, os restos do casebre e os materiais doados por Ernest cobriam vãos pra mais de metro nos tetos e paredes por todo lado. Já era algo. Porém, tais remendos não podiam ser expostos a nenhum tipo de interação com vento ou chuva e sequer receber pancadas de reforço, caso contrário os estragos se tornariam irreversíveis. Santa Inês vivia um período caótico, que requeria extrema atenção. Estava a um passo de se tornar um campo de batalha, cujos protagonistas haviam sido raios e trovões.
O calor havia retornado com sua típica avareza, e o povo tornara a pensar que o condado estava sobre brasas. Os peões de Winni voltaram ao batente na fazenda, Rico reabrira o saloon Vinganza (mesmo que semidestruído) e a clientela rotineira da Sra. Moon aos poucos começava a dar as caras. Idosos e crianças ainda estavam hospedadas na igreja, sob os cuidados de Andrey – a exemplo de Mia, amplamente desamparada naquele momento delicado em que seu único filho viajava pelo deserto. Dias atrás, Denzer não se conteve e se adiantara numa viagem até o condado vizinho de Ytrinit, no extremo oeste do Arizona. Lá permaneceu sem pressa para deixar encomendado os materiais e procurar alguns homens, cujos perfis construtivos fossem idênticos ao de Ernest. Ele quase havia se esquecido de que ainda não possuía dinheiro algum. Realmente apostava todas suas fichas no êxito de Léon. No demais, as coisas andavam tranquilas.
Naquela tarde quente e pestilenta, Rico recebeu um cliente com aparência suspeita no saloon. O rapaz atravessou as portinholas com bravura, mas logo parou, e um imenso buraco na parede permitiu que o sol lhe iluminasse toda a silhueta. Estava vestido de cinza e com a fivela da letra “G” no cinto. Sua cabeça baixa e coberta pelo chapéu o tornavam irreconhecível. Quem seria ele se Striker e companhia já haviam voltado a trabalhar? Rico analisou-o da cabeça aos pés durante alguns segundos. De repente sorriu.
– O patrão pediu duas garrafa de uísque e uma caixa de charutos – informou a figura com sua voz potencialmente capaz de estourar os tímpanos do mexicano e das pessoas do outro lado da rua.
– Estoy sozinho acá, senhorita – respondeu Rico tranquilamente.
No mesmo instante, a figura retirou o chapéu, e seus cabelos curtos recaíram cinematograficamente sobre os ombros. Era ninguém menos que Dorat. Ela abriu os primeiros botões da camisa e sentou-se junto à longa fileira de bancos de couro do balcão. Depois, pediu uma dose dupla de uísque (“– Patada de Burro é muito forte! Que tal o Big River.”) à Rico, e matou-a em apenas um gole.
– O pai acha que sô criancinha – esbravejou a moça em baixo tom de voz. – E ainda fica me arrumando esses homens. Ele sabe que não tô interessada!
Rico apenas via e ouvia; calmo e atencioso.
– Às vezes me sinto uma escrava. Preciso lembrar que faz seis anos que o presidente aboliu oficialmente a escravidão? – completou a moça, tomando a garrafa de Rico e enchendo novamente o martelinho de Big River. Não lhe cativava a ideia de se casar com os homens que seu pai julgava serem os adequados – alguns, inclusive, jamais tivera tido contato visual. Ela gostaria mesmo era de ser livre e desimpedida, sem raízes, no entanto vivia distante de sua filosofia ideal; sentia-se como uma ave sem asas presa numa gaiola.
Ela bebeu novamente, e o teor da bebida lhe fez esboçar uma careta.
– Calma chica. Usted não é criança, mucho menos escrava. Deve continuar assim por enquanto, se aventurando de vez em quando, pero sempre evitando correr perigo – consolou-a o mexicano, jogando o pano de prato encardido sobre o ombro e sorrindo amarelo. Havia sobras do almoço entre seus dentes.
– Queria que o pai fosse como o senhor. Obrigada Rico – balbuciou Dorat, retribuindo o sorriso com um doce carinho nas costas das mãos do dono do saloon. O toque das unhas o arrepiou e ele tirou a mão.
Ela deixou a garrafa e o martelinho de lado, mas o álcool já havia se impregnado na sua boca e vestes.
– Gracias querida – agradeceu o Sr. Rincón, se virando para a estante das bebidas a fim de limpar as lágrimas que corriam dos seus olhos. Sentia-se bem por ajudar a moça, muito disso por ver nela a imagem reescrita da irmã na época em que viviam no México e ela se metia em muitas encrencas. – Ahora se vá! Já é fim de tarde e alguns hombres veem acá todos los dias nesse horário.
A moça instintivamente ajeitou os cabelos dentro do chapéu e apertou os botões da camisa. Largou duas moedas cunhadas irregularmente sobre o balcão e caminhou tranquilamente em direção às portinholas, onde parou, e com um sútil aceno de cabeça se despediu de Rico. O mexicano, por sua vez, optou por fazer uma série de caretas com o nariz, indicando algo nas costas da moça. Quando Dorat se virou, esperando encontrar uma aranha pendendo do telhado ou alguma barata rastejando pelo chão ensebado, ela deu de cara com Denzer. Ele marchava decidido rumo ao saloon. O que faria agora? Não podia ser pega daquele modo, tão facilmente! Porém a moça era astuta, e em um ato de puro reflexo e passível de insucesso, se atirou por um longo corredor atrás do balcão e que dava acesso ao andar superior. Nesse instante, Denzer ingressou no recinto. Tinha uma aparência cansada e monótona. Tirou o chapéu com a estrela de xerife e os dois revólveres que trazia no coldre das coxas e os depositou no balcão.
Uma dupla de suspiros ressoou pelo ar, um vindo de Denzer e o outro de Rico; o primeiro de cansaço e o segundo de alivio.
– Me dá uma dose... Duas... Três... De Patada de Burro. E algo pra comer – pediu Denzer com o tom de voz estressado, sentando-se no mesmo banco em que estivera Dorat, minutos antes.
Talvez o estado emocional robusto no qual o xerife se encontrava estivesse notoriamente relacionado à demora que Léon estava tendo para regressar de sua jornada. O jovem era conhecido por ser rápido nas missões que lhe eram dadas, e a atual demora só fazia diminuir as esperanças de Denzer e do povo.
– Problemas, xerife? – indagou o barman.
– Não é bem um problema. Só não entendo como esse temporal aconteceu só aqui, sendo que Ytrinit é muito perto.
– E los outros condados?
– Não sei, mas gostaria de ter noticias de Minith e Winder.
No andar de cima, Lupita terminava de produzir um lote de charutos quando fora interrompida pelo ranger das tábuas do soalho. Inesperadamente, ela avistou Dorat no corredor, e ambas levaram um susto mediante tamanha exaltação. Sem querer falar pelos cotovelos naquele momento complicado, Dorat resolveu pular por uma das janelas, porém seu cavalo estava amarrado na frente do saloon, e o quarto com a melhor abertura para a escapada se localizava nos fundos, ou seja, do lado oposto. Ignorando as circunstâncias, a moça ultrapassou o parapeito e se sentou na janela, as mãos firmemente agarradas às cordas que sustentavam a persiana. Retendo a respiração, ela assoviou alto, e alguns segundos depois seu cavalo surgiu ao lado de uma pilha de barris.
Dorat sorriu. Logo em seguida ficou de pé, firmou as botas na moldura externa da janela e pulou. Ela caiu exatamente em cima do cavalo, mas promoveu um estardalhaço sem igual. Quando caiu, não demorou em esporar seu animal, e logo já estava troteando na direção oposta da estação férrea de Búffalo, deixando para trás apenas um rastro infernal de poeira.
Denzer e Rico levantaram-se de imediato e caminharam até varanda, ambos com uma expressão de choque no rosto. Em um primeiro momento, achavam que havia ocorrido algum incidente, mas o que avistaram foi uma nuvem de terra que pairava no ar; ainda podia-se ouvir o som distante dos cascos batendo no tapete erodido que era aquela terra árida do deserto.
Retornaram para o interior do saloon.
– Consegui reparar na roupa cinza – comentou o xerife, puxando um prato de salame que Lupita trouxera da cozinha. – Um peão de Winni... O que tava fazendo por aqui? E quem era? – Ele bebeu a terceira dose do seu [1]martelinho com acidez, depois colocou o chapéu e guardou os revólveres. Era hora de partir.
– Peão novo, aposto. Acho que su nombre era D-eni-vild. Só sei que veio buscar bebidas e charutos a mando de Winni.
– Esses peão só pensam em beber. Se bem que nos ajudaram bastante.
Fez-se uma pausa.
– Ótimo uísque, Rico. Como sempre. Agora devo ir.
Denzer largou três moedas no balcão e despediu-se.
– Até mais xerife – reverenciou-o Rico, sentindo um alivio revigorante quando seu cliente ultrapassou as portinholas naquele caloroso fim de tarde.

II

Enquanto desamarrava seu cavalo – cavalo esse no qual estava montando ante a ausência de Raio – do palanque do meio, um grupo de homens se aproximava com alegria, e o xerife teve a total certeza de que eles caminhavam na direção do saloon. Eram tempos difíceis, e uma boa dose de uísque ajudava a acalmar os ânimos.
Houve um aceno; uma demonstração de respeito de ambas as partes
O xerife Yell, então, montou no encilho armado no lombo do cavalo e disparou sabe-se lá para onde. Precisava relaxar.
Certo tempo depois, ele havia chegado ao pé de Monument Valley, à beira dos cânions. O sol estava se pondo, e com ele o calor escaldante se retirava, deixando que o fraco sopro do vento oeste tornasse aquele momento perante a bela paisagem um remédio relaxante para a cabeça. O xerife não quis descer do animal, apenas respirou fundo e fechou os olhos, para desfrutar ao máximo aquele momento de paz e silêncio. Contudo, ao abri-los, reparou numa estranha figura que surgira na imensidão desértica, recortada por trás do sol que se punha. Seria um índio? Ou um forasteiro? Ou até mesmo Léon? Ele, então, esporou o quadril do cavalo sem nome e partiu veloz ao encontro do cavaleiro solitário. Sua visão era atrapalhada pelo brilho excessivo dos raios solares, mas ao se aproximar um pouco mais e depois de contemplar um casaco verde cobrindo um rapaz magricelo, não teve dúvida alguma. Era Léon Sanchez, o herdeiro da casta verde.
– Onde tu tava, rapaz? Tá tudo bem? Por que a demora? – indagou Denzer, tão preocupado que nem esboçou apego ao rever seu belo cavalo baio.
– Tudo certo, xerife. Tive apenas uns probleminhas por lá, por isso demorei tanto – comunicou o jovem, emparelhando lado a lado com Denzer, que por sua vez puxou a rédea com força para a direita e fez seu cavalo dar meia-volta. Os dois, então, continuaram com a conversa, ao mesmo tempo em que seguiam percurso.
– Que problemas?
– O tal Louis Four tava em Frontier tratando de uns assuntos militares. Mas quando eu disse de quem era a carta, os seus assessores me abrigaram até que ele voltasse. Aproveitei esse meio tempo e fui ao setor de cartas pra pegar as que tinham Santa Inês como destino final. No outro dia, esperei a manhã inteira, mas consegui encontrar Louis. Saldei-o, como o senhor mandou, e entreguei a...
– E conseguiu o que precisávamos? – Além de interromper a história de Léon, diminuiu abruptamente o compasso da marcha do cavalo.
– Não.
– Como não? Nada? – Denzer estremeceu. Sua garganta imediatamente secou e um peso de toneladas recaiu sobre seus ombros. O que faria agora?
– Nem um tostão furado.
– Que merda! – grunhiu o xerife Yell, e um pingo grosso de saliva jorrou na lapela encardida do seu casaco. Após isso ele se aquietou, esperando melhores explicações do mensageiro.
– A Cúpula tá mal das finanças, fora que existem outros condados pedindo ajuda e investimentos. Frontier quer expandir A Grande Cerca, por exemplo. E isso custa muito caro, disse o tal Louis.
Léon parecia ter decorado cada palavra dita pelo Administrador Geral.
– Aquela maldita cerca. – E isso soou como uma rosnada de um cão sendo perturbado enquanto come seu pedaço de carne empapuçado de areia.
O silêncio se fez presente nos momentos que se sucederam. A dupla seguiu na direção do condado, e apenas o som das patas dos cavalos (e alguns relinchos) e o cricrilar dos primeiros grilos que surgiam com a noite eram capazes de desconcentrar os pensamentos temerosos dos dois cavaleiros.
Após vencer o percurso desértico e ultrapassar os carris da estação férrea, Léon só queria saber de ver e prosar com sua mãe sobre a aventura que tivera na Capital e conferir os consertos que haviam sido feitos em sua casa. Por todo lado ele via remendos pregados nas paredes, latas de zinco chumbadas nos telhados, mas ninguém estava à vista. O sino já havia sido tocado.
Contudo, chegando ao local onde ficava a casinha de teto de palha, o mensageiro observou com surpresa que não restara nada; nem uma tábua se quer. Apenas pedaços de copos e louças de argila.
– Sinto muito, rapaz. Foi preciso derrubar tua casa pra usar o material nos reparo. Tu e Mia vão ficar com Rico agora – informou Denzer, engolindo em seco ao notar a reação pasma do jovem. Sua situação no presente momento era irreparável: sem pai, pobre, mãe doente e agora sem casa.
O jovem sentiu uma raiva agonizante se formar em suas entranhas. Ele quis pular no pescoço do xerife e esganá-lo e sufocá-lo até à beira da morte. “Seu sacana dos infernos”, pensou em dizer. Preferiu, no entanto, não questionar a ordem de um homem da lei que carregava revólveres e algemas.
– Agora terei que investir no plano B, ou o povo vai embora e viraremos um condado fantasma – dissertou Denzer, preocupado e com medo.
Léon ouviu tudo que devia do xerife Yell, pegou as cartas da mala de garupa de Raio e saiu de mansinho para a igreja, onde sua mãe estava hospedada. Talvez dormisse lá, só talvez. Sabia que o vigário era um ótimo cozinheiro, e ele estava com muita fome – fora a sede insaciável (seu cantil estava seco) e o cansaço delirante. O xerife, por sua vez, levou a dupla de cavalos ao estábulo, caminhando desdenhosamente pelas ruas de chão batido de Santa Inês. Já tinha em mente o que ia fazer; não havia outro modo. Na manhã seguinte faria uma visita inesperada ao Western roxo, único homem capaz de ajuda-los nesse momento terrível que viviam.
A noite chegou, e pouco a pouco as estrelas começavam a apontar no céu escuro, o que não era nenhum contratempo para o condado. Existiam lampiões na frente de cada residência, e estes eram acesos por Adamastor ao fim de cada tarde. O zelador era um senhor de meia idade, barba longa e grisalha e cabelo curto. Muito sábio, usava uma cartola e sempre sabia informar as horas pela posição do sol. Possuía uma coleção imensa de livros, que cobriam toda sua casa.
Enquanto dirigia-se para sua casa, Denzer observou que Adamastor tratava dos últimos lampiões e que havia duas moças o cortejavam com o simples objetivo de persuadi-lo e lucrar um extra em cima do homem.
– Com sua licença senhoritas, mas tenho assuntos mais importantes para tratar do que pagá-las pra se deitarem com minha pessoa – argumentou o zelador, tão bem que as moças deram às costas e saíram resmungando.
Elas caminharam em direção ao bordel, onde diferentemente dos outros locais o lampião era revestido em vidraçaria vermelha, fazendo com que as labaredas ardentes ganhassem uma tonalidade marcante em contraste à plenitude noturna. Independentemente das cores e formas do fogo, todos os artoches eram abastecidos com gordura animal de [2]Bassarisco. O combustível resistia até certo ponto da madrugada, quando era possível ouvir notavelmente o uivo dos lobos sendo soprado pelo vento gélido de alguma das nuvens, depois apagava.

III

No dia seguinte, Denzer mal ouvira o cantarolar de serra das ninhadas de pássaros cactus wren e já estava pronto para partir. Iria subir a colina em direção as fazendas; ao encontro de Winni. Era o momento de o velho mostrar-se fiel ao juramento Western que seguira à risca por muito. O xerife até pensou em recorrer aos outros senhores de terras, porém eles não eram tão ricos, tampouco poderiam ajudar. Os poucos bens que tinham ficava depositado no banco do condado, um lugar extremamente protegido – mesmo que essa proteção fosse desnecessária naqueles tempos de escassez. Com a exceção das valiosas ações de Winni, não havia dinheiro algum em caixa, tanto público como privado, e esse fato inexplicável abalava o emocional de Mark, já que ele nunca deixara a situação chegar a tal ponto.
Pouco depois de tomar café, Denzer pôs uma braçada de lenha ao lado da lareira e saiu para sua missão. Atravessou o corredor de acesso aos fundos da delegacia e parou diante de um painel de madeira onde deveriam estar pendurados os cartazes de bandidos procurados, porém não havia nenhum. O xerife sorriu, deixando-se sentir o peso de suas armas de prata totalmente carregadas. Ele utilizava poucas vezes de força armada, pois raramente havia duelos e tiroteios em Santa Inês. Ladrões, índios e patifes sabiam da existência de um xerife filho de um Western e de outro pistoleiro clássico que restara, sendo reconhecidos por todo território do Arizona. Alguns ainda acreditavam que todos estavam vivos, e era bom que pensassem assim, pois protegia o condado e toda a população.
Denzer caminhou sem pressa até o estábulo, onde encilhou Raio com calma enquanto falava sozinho, ou com o cavalo. Parecia algo musical, como um poema de estrofes rimadas, desconsiderando a língua irreconhecível com o qual ele se pronunciava. Antes de sair, no entanto, o xerife teve sua atenção atraída para uma nuvem de fumaça que sobrevoava a entrada do condado, e que vinha da tubulação da loja da senhorita Aiyra Ritt. As pessoas ou não reparam na fumaça, ou viram-na e sabiam de sua procedência. Denzer resolveu passar por lá e verificar se havia algum perigo eminente, afinal era seu trabalho.
O caubói troteou enquanto ainda cantava seus anseios e logo chegou até a frente do estabelecimento. Diante da porta, pôs a mão na maçaneta e girou-a. Uma sineta tocou alto quando a porta se escancarou, avisando sobre sua chegada. Não havia o menor indicio de agitação no recinto, muito menos de fogo. Ele caminhou pelo salão tomado por plantas, colares e acessórios indígenas, parando diante de um buquê de flores de largas pétalas amarelas, muito cheiroso. Pegou uma única flor e colocou-a no bolso do casaco azul-marinho.
– Cercidium florus para atrair o amor pelo aroma – disse uma doce voz ao fundo. Uma jovem índia, que devia ter aproximadamente a idade de Léon, saíra de trás do balcão e se direcionava até onde o xerife estava.
Era muito bela. Tinha olhos claros, pele caramelada e corpo escultural. Os cabelos negros estavam amarrados à moda rabo-de-cavalo. Descendente de índios, ela herdara o gosto e domínio por ervas, religião e cultismo indígena do seu avô, com quem “morava” – na verdade o velho Hopefull há muito tempo não aparecia no condado. Preferia o retiro no alto de uma das colinas da redondeza. Gostava da solidão para praticar suas artes místicas; diziam até que tinha poderes. Ambos renegavam o espírito de dor e sofrimento causado pelas guerras civis e não se portavam como nativo-indígenas de sangue.
– Parece uma rosa... E é só uma lembrança pr’uma pessoa querida – explicou-se Denzer, o coração pulsante.
– Amor.
O xerife corou.
Aiyra sabia sobre tudo que se quisesse saber; desde o ciclo da água até a cura para doenças venéreas. Vivia pelas redondezas colhendo ervas e plantas, sem medo de ser atacada por quem quer que fosse, e de tempos em tempos visitava o avô, levando mantimentos e trazendo mercadorias para sua lojinha.
O xerife não se demorou na loja. Pagou meio dólar na compra e saiu (a sineta tocou novamente). Lá fora, o movimento se tornara muito maior, e sob um céu resplandecente, todos já exerciam suas funções. Léon, conforme havia dito, já perambulava pelas ruas e vielas de chão batido com a pretensão de entregar o punhado de cartas que trouxera da Capital. Nesse momento ele caminhava em direção à igreja. Denzer, então, montou Raio – que relinchava animado – e troteou na direção oposta de Monument Valley, cumprimentando um por um dos cidadãos do condado que se admiravam com sua passagem.
A colina era íngreme, o solo um pouco agressivo, dificultando o trajeto, mas em pouco tempo Denzer já sentia claramente o cheio de estrume, o qual indicava sua aproximação dos rebanhos. Sem demora, ele avistou a fazenda dos Gadster, e uma ansiedade tomou conta do seu corpo. Apertou o passo, observando vários peões adestrando alguns cavalos e tratando uma vaca malhada.
Parecia que Winni já esperava a visita do xerife, uma vez que estava colocado junto à porta, com um par de martelinhos e uma garrafa importada de uísque 12 anos, quando Denzer superou a porteira. Era mesmo doido, beber logo pela manhã, e ainda por cima depois daquele desastre e suas consequências devastadoras. Não parecia em nada com o principal fundador do condado.
– Hoje não vô beber, senhor. Tenho um assunto sério pra tratar com sua pessoa – argumentou Denzer antes que Winni pudesse se expressar.
Ainda em cima do cavalo, o xerife observou dois homens consertando o telhado da casa, e se lembrou de Winni falando toda aquela baboseira de casa resistente. Preferiu esquecer; tinha algo mais importante em jogo.
– Te esperava com a intenção de jogar conversa fora, mas diga do que se trata – falou o velho, largando o que trazia numa mesinha de canto e sentando-se na sua velha cadeira de embalar. – Te senta pelo menos.
– Não, obrigado. – E tirou o chapéu. – O condado tá precisando de ajuda. A Cúpula não liberou dinheiro algum. E as pessoas já tão pensando em partir. Ficaremos arruinados, vitimas fáceis aos Hopefulls.
O velho não esboçou nenhuma reação, exceto a de passar a mão na barba branca e de leve na cicatriz em forma de “L”.
– Não temos dinheiro no banco, apenas os esforços de homens dispostos em reerguer o condado – argumentou Denzer fortemente, em seu melhor discurso.
– E o que eu ganho em troca? – retrucou o velho, olhando para o condado, que ficava num tipo de vale, e podia ser visto da varanda da casa.
Nesse momento, alguns peões passavam ali em frente, e a curiosidade os fez pararam para ouvir à que ponto chegaria às negociações.
– A certeza de ter cumprido o que prometeu junto com meu pai – insistiu Denzer, deixando à mostra seu estado de nervosismo, porque só o dinheiro de Winni – cuja procedência era da herança da sua família adotiva, ou melhor, das escavações que fizeram nas minas do pequeno condado de Minith, ao sul de Santa Inês, e investiram pesado em terras e gado – poderia tirar o condado do abismo.
O silêncio pairou, tomando conta do local. Denzer estava confuso; não tinha mais argumentos à sua disposição. Winni, por sua vez, continuava inescrupulosamente frio. Parecia nem se preocupar com o lugarejo.
Aquele momento se entenderia durante um longo período se Striker, o arrogante peão de cabelos sebosos, não metesse o seu bedelho.
– Que tal uma corrida de cavalos – disse com a voz firme, que a julgar pelo fato de ter embaralhado as palavras, como se estivesse com a boca fechada, tinha um cigarro de palha entre os lábios.
Denzer pensou em ser contra, todavia sabia que Winni adorava fazer apostas, e essa definitivamente era um bom negócio.
– EU ACEITO! Valendo os 18200 dólares – disse o xerife.
– Tem certeza que é macho o bastante para competir com os melhores cavalos do Arizona?
– Ora, com o sangue Western correndo nas minhas veias e pra salvar o condado dessas condições, eu aceito qualquer negócio.
– O condado é em homenagem, sim, a minha falecida mãe biológica, mas os Westerns não existem mais. Heróis viram lenda, e é essa lenda que protege o condado. – E apertou firme um dos martelinhos, quebrando-o. Os cacos se espalharam no chão carcomido pelos cupins. – Rosemary, venha cá. – O grito entoou pela casa.
A mulher não apareceu, então Winni prosseguiu:
– Mas vâmo fazê uma corrida então. Eu levo o jovem Khloe pra montar o Alazão. Tô velho pra isso e gosto de vencer sendo o desfavorecido – avisou Winni de antemão, depois gargalhou desleixadamente.
Khloe estava no bolo de peões que observavam a conversa, e sentiu um peso de toneladas recaindo sobre os seus ombros. Ele começou a ser cumprimentado por seus companheiros, levando tapas na nuca e nas costas, resultando em um surto de tosse. A adrenalina fez suas entranhas arderem.
– Se é assim, eu escolho Léon. Não aceito injustiças.
Um murmúrio alto se elevou entre os peões. Eles diziam “quem?”, “não conheço”, alguns até emitiram um “HAHA!”. Winni modelou um olhar de total desconhecimento, todavia não cedeu ao luxo de formalizar sua dúvida à Denzer.
– É o filho de Simón Sanchez, um Western que daria dinheiro do próprio bolso e quiçá até a última gota do seu sangue pelo condado que ajudou a fundar.
– Não me tire do sério rapaz.
O sol ganhava força, reinando solitário no céu limpo.
– Pelo que sei a família desse rapaz tá na miséria. Mas tudo bem, o que tu vai apostar comigo? – A curiosidade se aflorava na curva de suas rugas.
– Te entrego meu cavalo, o baio que falta no teu estábulo – ofereceu o xerife, orgulhoso pelo bem que possuía, mas também receoso em perder Raio, pois o animal era descendente direto do cavalo que seu pai tivera, e ambos do cavalo do seu avô, e assim sucessivamente. Seria como quebrar um laço familiar.
Todos silenciaram.
Sem medo, a dupla selou o acordo com um forte aperto de mãos, e isso significava respeitar o resultado. A corrida foi marcada para dali uma semana, na entrada da estação de Búffalo, com chegada ao pé de Valley, à beira do cânion, valendo 18200 dólares ou o cavalo baio.
– Dorat tá aí? – perguntou o xerife, sentindo um alivio completamente confortante, mesmo que ainda nem tivesse ganhado ou instruído seu jockey.
Talvez já se soubesse a resposta, uma vez que ela não tinha dado o menor sinal de vida mesmo com todo aquele estardalhaço acontecendo na varanda; mas o xerife tinha esperanças. A flor pendia no bolso do seu casaco azul.
– Run! – mochou o Western roxo, os dedos agitados. – Talvez bordando com Rosemary, ou no celeiro. Se vir aquela [3]crioula, mande-a vim limpar essa sujeira. – E apontou para os destroços do que um dia fora um martelinho de cristal.

IV

Por ordem de Winni, que agora fumava um charuto na cadeira de balanço e observa Raio face a face, crente na vitória de Khloe, Denzer foi encaminhado por uma das empregadas até os fundos da fazenda. Havia um pequeno galpão no limite da cerca que demarcava o inicio das terras destinadas à pastagem dos rebanhos, e foi para lá que o xerife pareceu caminhar.
Pronto para girar a maçaneta rudimentar da porta, uma balbúrdia agonizante vinda de dentro do recinto fez com que o xerife parasse. Suas entranhas gelaram. Assustado, ele prosseguiu cauteloso e hesitante. Lá dentro, o ar inebriado pelo pó de terra embelezava ainda mais a cena de Dorat treinando a arte da esgrima. Ela portava uma longa espada de prata o qual utilizava para açoitar uma série de sacos de terra pendurados nas vigas do telhado.
A moça ficou sem saber o que dizer. A visão inquietou-se, os dedos se agitaram e a respiração pesou, demonstrando cansaço. Seria uma boa xerife, e talvez uma sucessora à altura da destemida Ellen.
– Oi.
– Hum... Olá Denzer.
– Atrapalho?
– Não, tá na hora do descanso mesmo.
O xerife tirou o chapéu, analisando a moça da cabeça aos pés. Ela vestia botas de couro, calças masculinas, um espartilho exposto sobre uma camisete bege e um casaco roxo com o brasão dos Westerns no peito esquerdo.
– Cada dia que passa tu me surpreende mais – declarou-se Denzer, pondo o chapéu sobre uma cômoda de canto. Seus cabelos loiros de médio porte recaíram sobre o seu rosto. – Então essa é a famosa Arcânio.
A lâmina reluzia o brilho do sol.
– Sim. É maravilhosa.
Fez-se um curto silêncio.
– Tome – disse Denzer, sacando a rosa do bolso e entregando-a para a moça. Sua vergonha era nitidamente infantil.
O fato mais engraçado sobre Denzer talvez fosse o seu senso emotivo, já que ele era capaz de amedrontar qualquer homem e bandido do estado, mas sempre perdia quando se tratava de um mísero sentimento de amor.
A moça pegou a flor com suas mãos sujas e suadas, seus olhos verdes encarando-o profundamente. O xerife, no entanto, fugia de tal olhar, esbanjando timidez. Ele pensou em fugir correndo para esconder a cabeça em qualquer buraco que surgisse, todavia esse sentimento se esvaiu precoce e inesperadamente dos seus pensamentos mais angustiantes. Enquanto a moça cheirava a rosa, Denzer notou uma estranha porta no fundo do galpão. Ela era trancafiada por pelo menos seis cadeados, e havia alguns agasalhos muito grossos, que pareciam de pelo de lobo, perdurados em cabides ao lado da mesma. O curioso desse fato é que o inverno estava longe de chegar, e aquela vestimenta seria necessária naquele momento apenas para ser usada no distante e frio estado do Alaska.
O xerife ficou curioso; seu faro de detetive havia sido disparado.
– Siga treinando. Conversamos n’outra hora.
– Até mais ver. – E ela dobrou os joelhos fingindo segurar um vestido.
O xerife nem tornou a falar com Winni em sua volta até a casa. O velho e Khloe já treinavam em um cercado de terra ali em diante.
Ao sair pela porteira, o homem da lei sentiu um calor latente beijar-lhe o rosto e um brilho incandescente ofuscou sua visão. Estava sem seu chapéu. Voltou, portanto, até o ringue de Dorat, onde discretamente – sem mesmo a moça perceber – pegou o chapéu e saiu, mas não direto para a porteira. Foi para trás do galpãozinho, para tirar suas dúvidas. Havia um alongamento de madeira na exata posição daquela porta cheia de cadeados. Devia ser apenas um armário de armas... Ou um almoxarifado... Era melhor esquecer.
Sem mais demoras, Denzer partiu veloz para garantir a vaga de uma cadeira no restaurante da senhora Harriet, ao lado do Armazém de Dom Quentin. A velha de cabelos grisalhos e pele erodida cujos olhos esbugalhados ficavam mais nítidos devido a sua pequena altura, fazia qualquer um se entregar à tentação apenas pelo cheiro que suas refeições exalavam. Denzer quase sempre almoçava por ali, exceto nas vezes em que era convidado por Rico para se juntar aos Peres.

V

O almoço não fora nada agradável. As pessoas abdicaram de se alimentar (pato refogado, lentilha e macarronada) para ficarem cochichando sobre o desastre e palpitando em como o xerife deveria proceder. Ouviam-se coisas do tipo: “Ele não é como o pai...” e “por que não tira do próprio bolso?”. Aquilo eclodia como dinamite nos ouvidos do homem que tinha sangue de herói e sonhava toda noite em ser reconhecido como um. Nem terminou de comer; havia perdido o apetite. Levantou-se e resolveu ir à procura de Léon para avisá-lo da corrida.
A busca pelo mensageiro não durou muito. Pela rua de chão batido, Denzer avistou o rapaz vir saindo do bordel, um sorriso satisfeito plotado no rosto. Ele havia terminado de entregar as cartas que trouxera da Capital, isso em menos de uma manhã. O xerife fez menção em se pronunciar, no entanto não pôde.
– AAAAAAAH! AJUDEM!
O estardalhaço vinha de dentro do prostibulo. Léon tornou a se virar-se e olhou surpreso para a janela do andar de cima, de onde o som prorrompera.
O bravo xerife rapidamente desceu do cavalo e se jogou sobre a trilha de degraus para investigar o que de tão grave havia acontecido. Léon o seguira. Dentro de um dos quartos, o corpo da senhora Moon jazia estendido sobre uma gigantesca cama redonda. A velha estava apenas desmaiada, mas as meninas abanavam-na como se ela tivesse falecido há horas. Todas choravam. As penas do abanador causavam calafrios no pescoço do xerife, bem como o restante dos objetos arrojados daquele recinto; desde as longas cortinas que cobriam as janelas até o chão até a banheira de carvalho que expelia o cheiro de incensos da jovem Aiyra.
– Léon. Chame o Charlie. – E se direcionou para as moças: – Ouvimos os gritos. O que aconteceu aqui?
– Ela recebeu uma carta e desmaiou quando leu – esclareceu Roberta, a loirinha dos cabelos encaracolados. Foi ela também quem desvirou o envelope de pergaminho no chão e compreendeu o motivo da cena.
– É do filho dela – informou a moça.
Na carta, agora com o texto de letras itálicas virado para cima, podia-se ler:

Querida Mãe,
O fim das aulas chegou, e com ele o meu êxito no curso de administrador. Estou pronto para trabalhar e orgulhar o sobrenome do meu Pai. Se possível, com o ótimo administrador de Santa Inês do qual ouvi falar muito bem. Também estou registrado na [4]AEA, e assim apto a usar meu arco. Antes que me esqueça, a fama das suas belas moças chegou aos meus ouvidos, não vejo a hora de tirar minha própria impressão.
Pegarei o próximo trem que partir em direção a estação de Búffalo.
Com carinho, seu filho, Alexander Moon.

Há muitos anos Alexander Moon havia partido. Sequer estivera na abertura do bordel, e desde muito novo era bancado pelo lucro do estabelecimento; não tinha porque se envergonhar. O rapaz não gostava que o chamassem pelo seu nome completo, mas por ordem do centro de mensagens, na Capital, os envelopes seriam enviados aos destinatários apenas se todos os dados fossem disponibilizados de forma coerente, ou seja, sem apelidos ou pseudônimos.
Ao perceber que a velha já havia se recuperado, Denzer desceu lentamente as escadas, observando cada detalhe do recinto. Logo na saída, ele cruzou com Charlie, que vinha carregando sua maleta com a missão de examinar a senhora Moon. Houve um aceno. Quando prosseguiu para falar com Léon sobre a corrida, o jovem estava pondo os pés nos degraus da escadaria lateral do saloon Vinganza. Denzer preparou a garganta seca e gritou:
– Léon. Pé do cânion. Amanhã. No raiar do sol. Esteja lá!
O rapaz não entendeu muito bem o que estava acontecendo. Tinha os pensamentos sufocados por tudo àquilo que acontecera durante tão pouco tempo. Ventos; tempestade; e sua aproximação abrupta do xerife. Ele subiu os degraus que faltavam com um sorrisinho adorável no rosto, e as suas veias, por sua vez, ardiam em um calor confortante, ainda que o fizessem parecer um pimentão.

VI

Amontoadas em poucos metros quadrados, as moças fofocavam e gargalhavam desde cedo na janela do andar de cima do bordel. Vai ver tinham tido um lucro exuberante na noite anterior, sendo recompensadas à altura pela senhora Moon, ou estavam assim pelo fato de que Alexander estava prestes a voltar para casa. Com a visão privilegiada, elas podiam admirar Adamastor despejando água no cocho do estábulo público e também Mauri entrando no banco. No entanto, a maioria se reservava em observar e debochar de Léon, que treinava laço perto do saloon. O jovem estava muito alegre naquela manhã, e ainda não errara nenhuma laçada.
O laço amarrotado sacolejava no ar, o pulso e punho em riste do laçador dominando completamente a situação. De repente parou, e o laço caiu. Estava na hora de encontrar o xerife nos cânions, assim como lhe fora solicitado. Antes disso, porém, o jovem Sanchez caminhou até o saloon Vinganza para vestir o velho casaco de seu falecido pai, ignorando com esforço as investidas finais da corja de meninas e suas piadas de teor preconceituoso.
No quarto de hospedes de Rico, Léon fez o que tinha que fazer, mas quando deu as costas, pronto para partir, ouviu de sua mãe:
– Meu fi-lho, um ho-mem! – Mia esforçava-se ao máximo para balbuciar algumas palavras, um sinal de que ainda estava disposta a viver.
– Descanse mãe... Descanse.
A velha sorriu, Léon também. Eis que o relógio sobre a porta emitiu um “CLOC” metálico e no seu painel amarelado os ponteiros avisaram que o segundo terço do dia havia chegado. Imediatamente o jovem retirou as curvas alegres do rosto e partiu rapidamente, tendo tempo apenas de beijar a face de sua mãe.
As moças tinham sumido da janela, diferentemente do calor, que se fazia cada vez mais presente nas ruas, vielas e canais de Santa Inês. Ignorando a dor na batata da perna e o próprio clima, Léon correu.
Ao chegar perto de Monument Valley, o rapaz enxergou um borrão azul cortar o deserto horizontalmente como um raio em dia de chuva. Ficou tão deslumbrado que demorou em associar que se tratava de Denzer e – veja bem – Raio. Mas como, se ele próprio tinha ido até a Capital montando o cavalo do xerife e não vira o animal correr tanto? Chegou perto sem saber o que falar.
– Bom di-dia, xerife! – gaguejou em um surto hipnótico.
– ‘Dia! – pronunciou-se Denzer, descendo do cavalo e reparando que a visão furtiva no rosto do jovem Sanchez o indagava ameaçadoramente.
– O que queria falar comigo, xerife?
– Tenha calma, bom rapaz. O dia é muito longo. Antes de falarmos sobre o que vou te pedir, deixa eu te contar uma história.
O jovem concordou sem criar problemas.
– Há muito tempo os europeus chegaram à América em uma expedição de reconhecimento. Como haviam previsto, descobriram um mundo novo, repleto de beleza e inocência. Porém, seduzidos pela sede de poder, as tropas foram dominando os povos nativos que lá viviam e retirando o que podiam de valor. E os comandantes das embarcações eram mais ambiciosos do que aparentavam. Queriam mais. Assim, seguiram se aventurando pelas terras do nosso país, destruindo aldeias e saqueando bens preciosos. Um dia eles acabaram chegando às terras do Arizona, e por aqui se depararam com outra descoberta. Os cavalos eram os mais rápidos que já tinham visto, apenas não sabiam dizer como. Por ganância, outra vez eles intimidaram e assassinaram nativos pra poderem roubar os animais. Só não esperavam que em suas mãos os animais não corressem tanto, ou vivessem poucas semanas, às vezes morrendo na hora.
Léon estava atento a cada palavra. Aquela fábula era cativante.
– Eles não sabiam. Os donos vivem sem seus cavalos, porém os cavalos não resistem sem seus cavaleiros. Havia uma ligação inexplicável. Um dia, em algum lugar do nosso estado, um nativo se apaixonou por uma forasteira. Dissecado pelo amor, ele revelou pra ela o segredo: os cavalos eram separados das éguas após o parto. Mais do que isso, eram treinados, recebiam banhos de ervas e até participavam de rituais espirituais, criando laços com quem os cuidava.
Fez-se uma pausa. Léon se quer movia-se.
– A lenda diz a partir desse laço afetivo, cavalo e cavaleiro recebem poderes divinos do Deus indígena Allen. Esses poderes permitem que a dupla faça coisas inimagináveis para os humanos, desde que o cavaleiro saiba se comunicar com o seu animal a partir da linguagem primordial: o Lecquaggeeun.
– Nunca tinha ouvido um conto assim – disse Léon após um longo período em profundo silêncio, suas cordas vocais estéreis e sonolentas.
– Tudo que te disse é verdade.
– É? – Os olhos do jovem mergulharam em pura confusão. – Se é mesmo verdade, então como o senhor sabe disso?
– Sabe a forasteira? – E Léon apenas sacudiu a cabeça. – O nome dela era Isabel Yell, minha antecedente distante. Quando o índio que a ensinou a montar morreu, deixou pra ela o último Cavalo Divino da tribo. E a partir daquele momento, todos os filhotes foram passando adiante, para as futuras gerações.
– Ele é um desses? – Léon apontou para o baio.
– Sim. O último da linhagem Divina.
Um curto silêncio pairou, logo sendo interrompido novamente por Denzer.
– O condado precisa de dinheiro, e o único que pode dá toda aquela quantia é Winni. Mas a única maneira que arrumei para persuadi-lo foi apostar numa corrida de cavalos, e é tu que correrá pelo povo.
O rapaz pareceu não raciocinar o que ouvia. Congelara. Muito menos havia respondido sim ou não ao convite um tanto retórico. Porém seus olhos tintilavam, confirmando secretamente a aceitação. O xerife acreditava na sua capacidade.
– Eu?
– Não vejo mais ninguém aqui.
– Tem certeza?
– Sim. Mais uma vez, Santa Inês precisa de ti. Só precisará aprender a controla-lo. O problema é que ele obedece apenas a mim.
Léon acordou do espasmo, entusiasmando-se de imediato. Era verdade, iria montar novamente aquele cavalo, agora sabendo da sua capacidade sobrenatural, ou melhor, divina. Naquele milésimo de instante o jovem imaginou toda a população do condado cantando o seu nome; cantando o seu sobrenome, algo que o faria se parecer muito com Simón.
– Vamo começar hoje mesmo – informou Denzer.
– Como faz? – Léon foi logo segurando o estribo com as mãos trêmulas e posicionando o corpo para montar.
– Ainda não! Preciso te ensinar primeiro.
O jovem obedeceu.
– Decore isso: VENIT pra chamar, IEIUNIUM pra correr, OBTURATIO pra parar, e SUFFARCINO pra empinar. É o suficiente.
– Entendido – O rapaz posicionou-se outra vez para montar.
– Desça daí seu tolo! – berrou Denzer, raivoso. – Primeiro tu tem que se ligar espiritualmente com ele, ou será como quando vocês foram até a Capital.

VII

Eles treinaram exaustivamente durante longos dias. A ligação entre homem e cavalo estava melhorando, porém a forma de montar e a pronuncia em Lecqueggeeano de Léon eram o problema. Ao mesmo tempo, Winni treinava forte com Khloe, na verdade mais o destratava do que lhe ensinava, deixando o rapaz nervoso e desconfiante. Ao menos Dorat estava feliz, pois com o pai ocupado ela podia cavalgar livre e fazer suas coisas sem o pai no seu encalço.
Nos dias seguintes, a notícia da corrida se espalhou rapidamente pelo condado e regiões próximas, como um vendaval que eleva a poeira do chão e o carrega em blocos pelos ares. Nas rodas de bebedeira do saloon e não se falava em outra coisa. Yell, Gadster e Sanchez: três sobrenomes de Westerns envolvidos numa única corrida. Era de se esperar o murmúrio.
Havia pessoas querendo apostar, inclusive Rico, que era contra colocar dinheiro em débito. Parte do povo, porém, não estava nem um pouco preocupada com o evento – a exemplo do padre Andrey, que apesar de deixar claro seu desacordo para com esse tipo de atividade, torcia por Denzer.

VIII

No dia da corrida, a manhã mal clareara e uma grande carruagem preta encostou ao lado da estação de Búffalo. O veículo se tornou referência solene para um comboio de homens vestidos em cinza que caminhavam à frente do jovem Khloe. O rapaz, por sua vez, vinha montando Alazão, um belo cavalo branco de crinas albinas trançadas em costura francesa. Ao notarem que a hora do embate se aproximava as pessoas aos poucos iam abandonando suas casas e se aglomerando pelas ruas. Alguns fazendeiros fizeram questão de ver pessoalmente a corrida, e eram eles que apostavam mais alto na jogatina proposta por Poncho, desfavorecendo majoritariamente o velho Winni. Não havia sol, apenas nuvens, e um suave vento soprado do oeste prorrompia com calmaria e ingratidão.
– A odiosa natureza humana é capaz de tudo pela vitória – dizia Dustin para as pessoas que se direcionavam para a estação. O jovem era louco, porém muito inteligente; sem papas na língua.
Das poucas pessoas que talvez ficassem em casa, Mia era uma das que mais desejava ver Léon montar. Porém o jovem era contra ter sua mãe correndo tal risco. Assim, enquanto todo aquele alvoroço se transcorria na rua abaixo do saloon, ela estava dormindo. Léon observava-a, seus olhos de geada tintilando. Estava se concentrando, mesmo sabendo que já tinha um pé na linha de chegada, mas para isso necessitaria ter a tal “Ligação Divina” com Raio. A palavra divina o fazia lembrar-se de Deus e em por que tantas riquezas eram acumuladas nas mãos de poucas pessoas e poucas riquezas acumuladas nas mãos de muitas, colocando famílias na situação em que ele vivia, sendo que lá em cima havia um Deus justo e bondoso. Talvez nunca soubesse a resposta.
Mia espreguiçou-se; estava acordando.
Léon caminhou até um canto e abriu um baú – que resgatara dos destroços da casa depois da tempestade. Havia poucos utensílios dentro, mas o que ele queria estava lá: o velho casaco verde do seu pai. Pensou em vesti-lo, contudo teve esse momento interrompido pela chegada de homens que subiam as escadas. – Está acá en quarto de visitas – pronunciou uma voz masculina com sotaque estrangeiro. Só podia ser Rico ou Poncho.
– Ela aguenta ficá lá no meio desse jeito, doutor? – Era o ferreiro.
– Sim. Já examinei a paciente e se isso for resistente, tá tudo certo – respondeu Charlie de pronta partida.
– O que os senhores desejam? – perguntou o mensageiro do alto do último degrau da escada.
Os pares de olhos se ergueram.
– Tua mãe poderá vê a corrida!
– Não a quero correndo perigo.
– É totalmente seguro.
O rapaz ficara tão inerte que por alguns instantes esquecera-se da responsabilidade que tinha em mãos. Pelo menos agora teria a motivação da mãe, que via nele a imagem reescrita do próprio marido.
– Mas como? – perguntou inquieto, tomado pela felicidade.
– Ernest criou uma cadeira com suporte pra rodas. É uma criação e tanto – explicou Charlie, enquanto Ernest foi até a janela.
– Pare de falá bobagem Dustin, e traga a cadeira aqui – o grito entoou.
Nisso, uma pedra lançada da rua sobrevoou a cabeça dos visitantes (Ernest se esquivou como se tivesse sido mira de uma metralhada automática), aterrissando benevolentemente contra Léon.
– AAAAAI! – mochou o rapaz. O projétil lhe atingira a canela. Ele ficou vermelho de raiva, os punhos cerrados; dentes pressionados. Foi até a janela com uma vontade enorme de encher o culpado a gritos, contudo viu que se tratava de Denzer lhe chamando. Então o rapaz pediu para que os homens se encarregassem de levar sua mãe até o local e partiu. Estava na hora de encontrar seu destino.
– Vô honrar o nosso sobrenome – disse à sua mãe seguindo um beijo. A estação férrea estava tomada por uma multidão. Havia carruagens, carroças, jegues e cavalos. Alazão estava a postos para correr.
– Para aí mesmo Léon! – berrou o xerife.
– O que foi senhor?
– Pra ver se tá tudo certo chame Raio até aí.
– VENIT – prorrompeu o rapaz, seguro. Nisso o cavalou rumou tranquilo em sua direção. Léon acariciou-o o dorso.
Denzer sorriu. Havia ensinado muito bem ao seu aluno.
– Se ficar muito pra trás, grite RUN AT MAXIMUN – comentou o xerife. – APENAS EM ÚLTIMO CASO, ENTENDEU?
Léon concordou.
– Agora é a hora – avisou Denzer, pegando as rédeas de Raio e o puxando rumo à estação. Santa Inês estava à mercê em um mar de expectativas.
Já prestes a começar a corrida, a dupla chegou, observando cada pessoa que ali estava. O tiro inicial seria dado por Rico, e Adamastor estava posicionado ao pé do cânion para anotar o vencedor – por precaução estavam com ele, numa pequena carruagem, Mauri e Mark.
– Existe muito mais por trás do Lecquaggeeun do que tu imagina, mas o que te ensinei é o suficiente pra essa corrida. Honre o casaco que tá vestindo. E que a paz e a justiça o sigam! – Ele posicionou o rapaz junto a uma marca de cal que atravessava a rua de terra, servindo como largada.
Um leve sopro de vento se iniciou, sacolejando as folhas das árvores e levantando uma densa cortina de poeira. A terra se aglomerou em volta do condado como uma grande redoma, intensificando o calor que já era muito sufocante e pestilento. Instantes depois, Denzer se sentou ao lado de Winni. Eles desejaram-se uma boa corrida, e foi só. Não sibilaram uma palavra a mais.
Léon observava o cânion, e parecia que não havia nada nem ninguém ao seu redor, apenas a imensa vontade de mostrar-se capaz.
Santa Inês precisa de ti...
Logo sua epifania foi quebrada pelos passos de Rico. Os rapazes cumprimentaram-se. Eram quase da mesma idade, e por um tropeço do destino estavam decidindo o futuro de Santa Inês e de seus habitantes.
– Estan preparados? – perguntou Rico, erguendo sua mão direita com o revólver tremelicando entre os dedos nodosos.
O vento inesperadamente se intensificou, zunindo como uma chaleira que avisa sobre o ponto certo da água. Seria esse outro presságio de acontecimentos marcantes ou apenas uma mera coincidência?
– Sim! – responderam os dois simultaneamente.
– TCHIBUM! – disparou o mexicano, segurando firme o chapéu contra a cabeça para impedir que ele voasse.
Khloe conseguira fazer Alazão partir instantaneamente ao som do revólver, enquanto Léon ficou estaqueado sob a marca da cal. Winni soltou algumas gargalhadas diante da vantagem inicial.
– IEIUNIUM – cochichou o jovem Sanchez perto das orelhas de abano do cavalo. Eis que Raio se locomoveu, logo emparelhando com Alazão. Era a vez de Denzer gargalhar, porém com muita cautela.
Enquanto a algazarra só aumentava entre os espectadores, os rapazes se distanciavam cada vez mais do condado. Alazão era veloz se observado o fato de que não era da raça indígena de Raio.
Seguindo a dica de Denzer para não correr em demasia perto das pessoas, Léon resolveu olhar para trás e ver se já podia abrir vantagem. Sim, estava na hora de vencer. Porém antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, o surgimento de um trem do lado direito do cânion lhe tirou a concentração, e também a do seu oponente. Podiam-se ver quatro vagões, todos em coloração preta. A locomotiva condutora era fosca e esvoaçava uma densa nuvem pela sua grande chaminé, o segundo e terceiro vagões possuíam inúmeras janelas quadradas com cortinas brancas e a última era chata e comprida e trazia enormes toras de madeira. Ao retornarem suas visões para o trajeto, os cavaleiros notaram que do lado esquerdo (marcado como leste na bússola chinesa) começavam a aparecer três homens, indicando o caminho da chegada.
Khloe e Alazão abriram distância.
– TCHIBUM! BASH! CRUNCH! – O som ecoou pelas colinas. Não era nenhum disparo de largada ou chegada, mas sim um ataque Hopefull.
No alto da colina leste de Valley, sombras morenas surgiram como quem nasce do chão. Não se sabia a real intenção do grupo, se saquear o trem ou aproveitar a situação para atacar aqueles que estavam distante de Santa Inês, e nas suas concepções longe dos Westerns. A resposta viria a seguir.
A plateia da corrida se dissolveu rapidamente entre as casas e estabelecimentos comerciais do condado, e apenas algumas poucas pessoas seguiram observando o acontecido. Denzer não teve reação, e se tivesse partido para lá talvez não chegasse a tempo de impedir uma chacina.
O maquinista intensificou a capacidade do forno da locomotiva, que emitiu um forte rugido pela aba da fornalha. Aproximavam-se do condado, e os passageiros viam o ataque pelo vidro embaçado dos vagões.
Mesmo com aquela chuva de tiros, nenhuma bala os atingia ou caia perto dos cavaleiros. Khloe olhava assustado para Léon, quando o rapaz lembrou. APENAS EM ÚLTIMO CASO, ENTENDEU? Com certeza esse era o tal último caso. Mais uma vez o jovem Lecqueggeeano se encolheu perto das orelhas do cavalo e disse em um sussurro amigável:
– RUN AT MAXIMUM.
Khloe ouviu, contudo sua compreensão foi nula. Nem mesmo Léon sabia qual ordem havia dado, só sentiu Raio disparar com uma velocidade inacreditavelmente absurda, repuxando-o e deixando Alazão para trás, bem distante. Estava cada vez mais perto da chegada, e foi nesse ponto do trajeto que dois índios montados a cavalo surgiram por atrás de Khloe. Léon ficou tão preocupado com isso que nem reparou que havia cruzado a linha de cal. Em um segundo momento, porém, ele pode ver o rosto de cada um dos três homens que ali estavam. Adamastor tinha a guarda erguida em uma pose fria e calculista.
O freio do trem foi ativado, emitindo um som enlouquecedor.
– Cem qui-lo-me-tros por hora! – surpreendeu-se o administrador. Ele estava trancado na carruagem esperando o vencedor cruzar a linha de chegada.
Mauri atirava sem rumo na direção dos índios, e Adamastor seguia na sua estranha posição, olhos fechados, braços caídos e mãos abertas, de fronte aos inimigos. Parecia concentrado. Mas o que realmente estava fazendo?
Os tiros e flechas abruptamente mudaram de direção, tomando o rumo da carruagem e quem a cercava, porém outra vez nenhum projétil caia perto do alvo. Ao invés disso pareciam se chocar contra um escudo invisível.
– Saia daí seu insolente! – disse Mauri, desesperado.
Adamastor ignorou-o.
Léon só necessitava parar e retornar, mas não o fazia. Seguia firme a batida do galope de Raio. Até aí tudo bem, não fosse o fim do trajeto terminar dentro de uma imensa cratera na crosta do terreno acidentado.
O penhasco se aproximava.
– OBTURATO – tentou.
Raio seguia firme e inabalável.
– OBTURRATIO – insistiu.
O desfiladeiro se aproximava.
Não precisava ser nenhum matemático ou visionário para saber que Léon teria apenas mais uma chance antes de cair do precipício. Ele mesmo sabia disso; estava na cara. De repente ele viu a imagem do pai se formar na sua mente, pedindo que ele lutasse bravamente contra a morte.
– OBTURATIO! – esganiçou com destreza no último segundo.
Raio parou no limite do penhasco, deslizando ameaçadoramente os cascos das patas. Pedras rolaram morro abaixo, lembrando vagamente um jogo de boliche. Sem demora, eles se viraram para o condado. A visão imediata que Léon teve foi de ver tiros e flechas caindo em direção à carruagem. Sem dúvidas existia um escudo invisível bloqueando as investidas inimigas. Tomou fôlego, curvou a lombar em torno de noventa graus e ordenou:
– RUN AT MAXIMUM!
Raio correu como se não houvesse amanhã, e Mark quase se babou vendo aquilo. Com o canto do olho direito Léon pode observar de relance a estranha posição do zelador, mas seu foco continuava sendo Khloe. Sem demora, ele ultrapassou o antigo oponente e ficou de frente com os índios, cara a cara. Não sabia exatamente o que ia fazer a seguir, mas com certeza não seria algo físico. De repente, como que se o destino estivesse lhe ajudando, ele se lembrou de Raio empinando as patas dianteiras no dia da tempestade; no dia em que perdeu sua casa. O xerife havia dito algo sobre empinar, mas o que era mesmo?
– SUFFARCINO! – Não se esforçou muito para lembrar.
Raio se ergueu como um rei diante da sua plebe, e nas suas patas ele deixou à mostra a força rochosa dos seus poderes. Os Hopefulls apenas observaram-no com surpresa, mas quando enxergaram o casaco verde do jovem reluzir a cor desbotada do brasão dos pistoleiros, recuaram sem hesitar.
– Western! Western! – gritavam o bando.
Os tiros cessaram, e as colinas ao redor se esvaziaram silenciosamente. Enfim a poeira baixou. Vencer a corrida era algo que Léon tinha em seu alcance, porém ter de agir como um herói, jamais. Havia defendido vidas, e acima de tudo honrado o sobrenome do pai.
Após o choque, Adamastor, Mauri, Mark e a dupla de cavaleiros reuniram-se ao pé de Valley numa espécie de comitiva e partiram para casa. Khloe abdicou de montar Alazão. Sentado na dianteira da condução e coberto por uma manta de algodão que Mauri lhe disponibilizara, o peão agradecia periodicamente o jovem Sanchez. Nisso um som alto de apito os avisou que a estação de Búffalo estava fechando, e iria abrir outra vez só quando houvesse passagens disponíveis e matéria prima do campo para ser levada até os outros condados.
Sobre os trilhos que cortavam a rua, Denzer foi ao encontro do seu competidor. O vencedor do embate teve que detalhar ao xerife tudo que acontecera nos cânions, enquanto alguns fofoqueiros captavam informações e as espalhavam com o auxilio do vento para os ouvidos do povo. Winni já havia partido (pessoas comentavam que ele saíra arrastando Dorat pelo braço) sem ao menos receber pessoalmente seu jockey, que fora imediatamente levado à igreja para tomar um chá tonificante e ser examinado por Charlie.
O jovem não parava de observar Adamastor. Contava sua versão do acontecido sem desgrudar os olhos do homem que trouxera Alazão pelas rédeas e entregara-o para um dos peões de Winni. Aquela imagem de tiros e flechas desviados pelo nada não saia de sua cabeça.
Eis que no meio daquele murmúrio ouviu-se:
– Gran festa hoy en condado! – berrou Rico, retirando a gravata borboleta do pescoço e dando pulinhos. Mal saiu do chão devido ao excesso de peso, porém sua intenção foi uma das melhores, se não a melhor.
Todos gritaram, enterrando o assunto do ataque.
– E a volta do filho de Oliver Moon! – exclamou uma das meninas de Clear em meio àquela euforia.
Em resposta, o povo novamente ovacionou.
– E ao nosso herói. Viva Léon!
Todos gritaram pela terceira e última vez.
Assim como imaginara em seus sonhos mais felizes, Léon quase não se conteve em ver todas aquelas pessoas gritando por sua causa. Elas louvaram seu santificado sobrenome como uma lenda milenar. Naquele momento Léon percebeu que estava sentindo algo com o qual Simón devia ter convivido durante toda a vida; algo que o impulsionara a cada dia para defender a paz e a justiça.
As vozes agitadas e satisfeitas se calaram. O jovem cavaleiro pode enfim se perguntar de quem tinha vindo aquelas palavras honrosas?
Denzer... Ele conferia detalhadamente o corpo musculoso de Raio e sorria com o grande bigode loiro curvado quase formando um “U”. Esquecera-se completamente do repudio asmático que sentia pelas condições de vida de Léon, e concluiu que o que realmente importava era o sangue Western que corria nas veias do rapaz. Aquele era o inicio de uma forte amizade.

[1] Ou também conhecidos como short drinks, são copos tipicamente usados para se beber destilados. Seu tamanho é minúsculo, por volta de 50 ml, favorecendo que todo o conteúdo alcoólico seja tomado em um único gole e de maneira rápida, sem delongas.

[2] Mamífero nativo do continente Norte-americano. Mede de 30 a 45 centímetros e se assemelha muito a um guaxinim, porém sua calda é mais comprida e mais fina.

[3] Mesmo que a escravidão já tivesse sido abolida, havia muitos homens, nortistas ou sulistas, que seguiam a tratar os negros como seres inferiores. Uns até respeitavam a cor, principalmente daqueles valentes e/ou que tinham cargos importantes na sociedade, mas humilhavam outros – o que é muito controverso. Contudo, que fique claro, não foi dito com todas as letras que Winni era um desses preconceituosos, sendo amigo de vários negros; mas crioulo não é lá um elogio.

[4] AEA – Associação Estadunidense de Arqueiros (fictícia).

Notas finais
Espero conquistar cada vez mais leitores que por aqui passam.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.