A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de seda, pintando o quarto de Aria com tons de âmbar. A princesa continuava deitada, os fios ruivos espalhados como um incêndio sobre os travesseiros brancos. Ela encarava o teto entalhado, mas a única imagem que via era o rosto de Caelum sob a luz dos lustres da noite anterior. Cada vez que lembrava do toque da mão dele em sua cintura durante a valsa, seu coração dava um solavanco tão violento que ela precisava respirar fundo para recuperar o fôlego.

​— O que você fez com o meu primo, Academia de Ferro? — ela sussurrou para o silêncio, sentindo o rosto esquentar.

​Nesse exato momento, três batidas firmes soaram na porta, que se abriu antes mesmo que ela pudesse autorizar. Caelum entrou com a confiança de quem ainda se sentia o dono daqueles corredores. Ele já estava vestido com roupas de montaria, o que destacava ainda mais seu porte atlético.

​— Acorde, Alteza. O sol já... — Caelum travou a fala ao vê-la ainda entre os lençóis, com a camisola de renda fina.

​— Caelum! — Aria deu um grito abafado, puxando o cobertor até o queixo em um movimento frenético. — Saia daqui! Ou pelo menos se vire! Eu não estou vestida!

​Caelum soltou uma risada baixa, um som rouco que vibrou pelo quarto. Ele deu meia-volta, ficando de costas para a cama, cruzando os braços fortes atrás da nuca.

​— Peço perdão, prima. Esqueci que agora você exige protocolos e não mais que eu a ajude a calçar as botas de lama — ele provocou, o tom de voz carregado de uma diversão audaciosa. — Pode se trocar. Não vou olhar... a menos que você demore muito.

​Aria saltou da cama, pegando um roupão de seda apressadamente. Enquanto se cobria, ela olhava para as costas largas dele, impressionada com o quanto ele preenchia o espaço do quarto.

​— Já pode se virar — disse ela, tentando retomar a postura altiva, embora seu coração estivesse a galope.

​Caelum virou-se. O olhar dele percorreu o rosto de Aria com uma intensidade que a deixou desarmada. O silêncio se prolongou por alguns segundos, não mais como o silêncio de crianças, mas como o de dois estranhos que se reconheciam.

​— Você está diferente, Aria — ele disse, a voz subitamente séria. — Suas cartas e aquelas pinturas... elas não faziam justiça ao que você se tornou.

​Aria sentiu o elogio como uma brasa. Ela caminhou até ele, parando a poucos centímetros.

— E você? Onde está o menino que chorou quando a carruagem partiu? — Ela tocou levemente uma das pequenas cicatrizes perto da têmpora dele. — Você parece feito de pedra e cicatrizes agora, Caelum.

​— O menino teve que morrer para que o homem pudesse sobreviver lá em cima — ele respondeu, segurando a mão dela e afastando-a do seu rosto, mas sem soltá-la. — Mas a promessa continua a mesma. Eu voltei para ser o seu escudo. Só não sabia que o meu maior desafio seria não me perder nesses seus olhos novos.

​Aria sentiu a falta de ar retornar. A tensão entre eles era quase palpável, uma mistura de saudade antiga e uma atração nova e perigosa que nenhum deles sabia como nomear.

​— O que faremos agora, primo? — ela perguntou, a voz quase um sussurro.

​— O que sempre fizemos — ele sorriu, mas desta vez o sorriso não chegou aos olhos, que permaneciam fixos nos lábios dela. — Vamos desafiar o mundo. Só que agora, as regras são outras.